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quarta-feira, maio 07, 2025

Luís Soares de Oliveira


Soube agora que morreu o meu colega de profissão Luís Soares de Oliveira. Tinha 98 anos. Conheciamo-nos mal, falámos poucas vezes e a nossa mais longa conversa não correu muito bem. Mas já lá vamos.

Soares de Oliveira foi um diplomata atípico. Ainda antes do 25 de Abril, interrompeu a carreira para aceitar, por alguns anos, um convite para trabalhar no setor privado. Com os 14 anos que, dessa forma, passou distante das Necessidades, terá acabado por prejudicar um percurso profissional que se anunciava brilhante. De quem o conhecia, sempre ouvi que era um homem muito culto e inteligente, com uma excelente preparação económica. A sua carreira e escrita académica posterior revelaram também um intelectual de mérito.

Um dia de 2002, em Nova Iorque, ao tempo em que eu era embaixador junto das Nações Unidas, o meu colega irlandês, Richard Ryan, convidou-me para jantar em sua casa com Soares de Oliveira, seu amigo antigo e que ali estava hospedado por alguns dias. Era um gesto simpático, que aceitei com muito gosto, tanto mais que a ocasião me permitiria conhecer melhor um colega de quem muito ouvira falar.

A conversa entre nós os três transformou-se, a certa altura, numa discussão, em inglês, sempre urbana mas politicamente algo tensa, entre mim e Luís Soares de Oliveira: tenho na memória que chocámos fortes argumentos sobre a política colonial portuguesa e a distribuição das responsabilidades na descolonização, perante a sorridente neutralidade do nosso comum amigo irlandês. Tenho sincera pena que a minha única interlocução substantiva com Luís Soares de Oliveira não tivesse estado à altura da consideração profissional que sempre me habituei a ter por ele.

Termino este texto com uma nota mais leve, uma historieta que no MNE se conta, do tempo em que Soares de Oliveira era conselheiro na nossa embaixada em Londres. 

Num certo dia, ali no nº 11 de Belgrave Square, no belo gabinete que era então do "número dois" da embaixada - espaço que Soares de Oliveira e eu, em tempos muito distantes, ocupámos por alguns anos - um contínuo irrompeu de forma brusca uma conversa que ali estava a decorrer entre alguns diplomatas. 

Soares de Oliveira, que se diz que podia ter um feitio menos fácil, terá ficado irritado com a atitude do contínuo.

- Quantas vezes já lhe disse, homem, que não quero que nos interrompa no meio de conversas?!

O contínuo, vergado pela reação firme do diplomata, tinha ficado, qual Martim Moniz, prudente mas teimosamente encolhido na porta entreaberta, à espreita de uma oportunidade para debitar a mensagem que trazia.

Acabada a história que estava a contar, Soares de Oliveira voltou-se para o expectante contínuo, cuja fala por qualquer razão era abrasileirada, e lançou-lhe, já generoso:

- Então diga lá, homem! O que é que quer?

- Só queria dizer que a casa aqui ao lado está pegando fogo...

Jaime Nogueira Pinto

Jaime Nogueira Pinto completa hoje mais uma década de vida. Há mais de cinquenta anos que somos amigos. Na política, como sabem aqueles a qu...