Com o mundo em trincheiras, com os algoritmos a caricaturarem o diferente como um inimigo, é seguramente uma ousadia, quase uma imperdoável inconsciência, trazer a terreiro, num registo sereno, com o seu quê de afetivo, uma figura que por aí anda amplamente diabolizada.
Mas é precisamente isso que faço, hoje, 5 de maio, dia em que, em 1818, nasceu Karl Marx.
Não são para aqui chamados quantos instrumentalizaram as suas ideias, no caminho para tiranias a que a História se encarregou de tirar futuro. Era só o que faltava que Marx tivesse de ser o eterno responsável por quantos o usaram, bem para além da sua morte, para projetos bem distantes do indiscutível humanismo que estava subjacente à sua filosofia. Colar a figura de um genial pensador económico do sec. XIX, filósofo e sociólogo antes do tempo, a experiências nefastas que dele se reivindicaram é próprio de um oportunismo desonesto, de quem deixou de pensar e apenas se alimenta de ódios históricos de pacotilha.
No dia de hoje, é apenas para aqui convocado o sonho de Marx, de um mundo de igualdade e fraternidade, produto natural do tempo de profundas injustiças em que viveu, dentro do qual procurou as soluções que, à época, tinha como desejáveis. Um sonho que veio a ser seguido por muitas gerações, entre as quais a minha, em outros tempos convulsos em que acreditávamos naquilo que tínhamos por generoso – e que nunca deixou de o ser, não obstante ser utópico e irrealizável.
Por isso, à minha maneira, também eu fui marxista. Hoje, porque continuo a admirar o génio de pensador de Karl Marx, sinto-me na obrigação de lhe ser reconhecido por me então ter obrigado a olhar as coisas de forma radical. O democrata que hoje sou, socialista nos valores e anti-liberal na economia, deve muito a Karl Marx. Estou-lhe bastante grato e não peço desculpa a ninguém por isso.
