terça-feira, fevereiro 01, 2022

Horas do diabo

A frase de que mais gosto, por estas horas, é a máxima da sabedoria catastrofista: “Agora, o PS não tem desculpas!” 

Se acaso os socialistas tivessem levado uma “abada”, essas mesmas pessoas estariam a sentenciar: “Espera-se que o PS tenha aprendido bem a lição!” 

Coitados! Sejamos generosos! Afinal, há que reconhecer, não devem ser horas fáceis!

segunda-feira, janeiro 31, 2022

Acho que foi assim

Não vou ser curto, aviso desde já.

1. Portugal foi justo para com António Costa. Os portugueses aprovaram, sem margem para dúvidas, o modo como ele soube liderar país, sob uma crise de inéditas proporções - sanitárias, sociais e económicas. Mostraram também que, com ele na chefia do governo, confiam em que o PS é digno de poder ter uma maioria absoluta, que assegure quatro anos de estabilidade na frente legislativa. 

Costa está de pedra e cal na chefia socialista e, com o resultado de ontem, não passa pela cabeça de ninguém que possa vir a sentir-se tentado por um lugar europeu, nos próximos quatro anos, o que é uma excelente notícia. Quanto à sua sucessão, a conversa acabou até 2026.

2. Rui Rio fez um derradeiro esforço histórico (embora apenas retórico) para conduzir o PSD para o centro político. Ao afirmar, na noite de ontem, que, contrariamente ao que tinha acontecido com o PS, “a direita” não se tinha congregado à volta do PSD na bipolarização eleitoral, Rio mostrou um “Zé Albino” escondido com rabo de fora… 

O PSD começou por falhar na tentativa de conquistar o tal eleitorado oscilante que, ao que reza o mito, andará pelo centro: como se viu, esses votos não fugiram ao PS, em especial depois dos anteriores companheiros da Geringonça lhe terem “puxado o tapete”, o que ajudou a “recentrar” a sua imagem. Rio, para tentar segurar votos que pressentia (e bem) estarem a sair para o Chega e para a IL, viria mesmo a ter um discurso equívoco no final da campanha, onde confirmou que o modelo de acomodação com o Chega no Açores podia vir a fazer escola a nível nacional. Fora isso, Rio é um político basicamente bem intencionado. Ou melhor, era. 

O PSD do futuro terá de ser um partido democrático de uma direita muito assumida como tal, abandonando de vez quaisquer veleidades centristas. Vai ter de encontrar maneira de se distinguir doutrinariamente da IL e terá de construir um discurso de forte rejeição do Chega. 

Porque Rui Rui “purgou” o grupo parlamentar de heterodoxos, o líder que lhe suceder irá ficar quatro anos com um grupo de deputados que não escolheu. Não será tarefa fácil, mas - digo-o com sinceridade - é bom que consiga recuperar algum do eleitorado que votou em André Ventura. É importante para o país que o PSD se mantenha como o partido da alternância do sistema, sustendo o extremismo na direita. Mas, para tal, vai ter de radicalizar o discurso.

3. A intervenção mais patética do fim da noite (como só vi televisão depois das 23:30, tive de “andar para trás”…) foi, a grande distância, o texto lido por Jerónimo de Sousa, uma espécie de antecipação do editorial justificativo no “Avante!” desta semana. Aquela das condições “objetivas” e “subjetivas” lembrou tanto, nostalgicamente, outra época! O PCP sabe bem que muito do seu eleitorado lhe fugiu para o voto útil no PS. 

(Nem imaginam quanto me diverte pensar que tenho amigos que, em 2019, foram refugiar-se no voto no PCP e no Bloco, para evitar que o PS tivesse uma maioria absoluta - e que ontem, em “susto” com o possível regresso da direita ao poder, a ofereceram de bandeja a António Costa!) 

O PCP foi grande responsável pela crise do OGE, porque foi exatamente a sua mudança de sentido de voto (o Bloco já no ano anterior tinha votado contra) que provocou estas eleições - e não podem alegar surpresa, porque o presidente da República tinha sido claro no seu aviso. Mas os deputados não são tudo para o PCP: esta madrugada, as luzes já devem estar acesas na CGTP. Uma nota sobre a futura liderança do PCP. Salvo alguma surpresa, João Ferreira irá suceder a Jerónimo da Sousa, dada a eliminação de João Oliveira em Évora (em Évora, o PCP não elegeu um único deputado!)

4. O Bloco de Esquerda teve o que mereceu. Tal como o PCP. É bom que a irresponsabilidade tenha um preço. Desta vez, foi possível suster as consequências do erro, ao contrário de 2011. Agora, o feitiço virou-se contra a retórica gratuita e não há sorrisos de circunstância que disfarcem o descalabro nas urnas. No caminho das pedras, Bloco e PCP aguardam, com certeza, que uma maioria absoluta do PS vá, a prazo, gerar descontentamento e terão esperança de virem a reconstruir-se por aí. Pode ser que a visibilidade que Rui Tavares irá ganhar no parlamento possa ajudar o Livre a afirmar-se no terreno do Bloco.

5. Será da idade, mas fico triste pelo desaparecimento do CDS do parlamento. Sempre alimentei um sincero reconhecimento histórico pelo facto dos “centristas” (que eufemismo!) terem dado guarida democrática, após o 25 de Abril, a gente de uma direita (alguma muito pouco democrática) que se sentia distante do socialismo dominante e que não foi atraída pelo então PPD, nomeadamente na recolha dos “cacos” da Ação Nacional Popular. E louvei sempre a coragem do CDS de votar contra a Constituição de 1976. A democracia também se fez com essa direita, que enquadrou pessoas traumatizadas com a esquerda que chegavam das colónias e que deu guarida a gente que não apreciava muito (ou mesmo nada) o 25 de Abril - mas que também eram cidadãos de pleno direito, na democracia que essa mesma data instituíu e de que puderam passar a usufruir. 

Agora, sob uma liderança estouvada e de adolescência tardia, o CDS autodestruiu-se e perdeu em credibilidade o que ganhou em decibéis. E mesmo não apreciando o estilo, tenho pena que o líder do CDS não se sente em S. Bento. É que, sem o palco mediático que a presença parlamentar lhe assegurava, o partido poderá vir a desaparecer, em breves anos. Até lá, o facho da sua liderança (não estou a fazer graçolas homófonas) vai passar a ser empunhado por quem já se presume. 

6. Quando a IL surgiu, julguei, erradamente, que seria um fenómeno meramente circunstancial, fruto do desaparecimento do “passismo” à frente do PSD, que estava a atrair uma nova geração urbana, seduzida por um liberalismo comportamental e de costumes que se somava a uma agenda económica anti-Estado e com receitas pós-Chicago das “business schools”. O “centrismo” de Rio veio ajudar fortemente ao crescimento da IL nestas eleições. Aguardemos os efeitos que o futuro do PSD virá a ter no futuro da IL. Confesso que, em termos pessoais, me assustava a possibilidade da IL poder vir a ter influência numa futura governação PSD. Por quatro anos, fico mais sossegado.

7. Vamos ter muito tempo para falar do Chega. Claramente, foi alimentado por votos que eram “do” PSD e do CDS. Tal como acontece em outros países, poderá ter também contado, para este seu crescimento, com o apoio de “enragés” vindos do terreno comunista. Veremos em que medida as bancadas da restante oposição estarão ao lado do PS para um “fogo de barragem” àquela que vai ser, sem a menor sombra de dúvida, a grande vedeta desta legislatura. Só não digo que vai ter graça porque, manifestamente, com a comunicação social que temos a servir de complacente câmara de eco aos seus adjetivos incendiários, a cultura cívica do país não vai ficar bem servida com o que aí virá. Mas não há nada a fazer: é a democracia! 

8. Acabou a ficção do PEV. Esse genérico e repetidor do PCP não me parece que faça grande falta à democracia (quem é que se lembra da “Intervenção Democrática” que foi a terceira ”perna” da CDU?). A sábia decisão do eleitorado evitou a continuação do aproveitamento do artifício que permitia este estranho fenómeno partidário, de cujos comícios nunca tive conhecimento.

9. E o PAN vai continuar no parlamento. Confesso que isso não me suscita o menor comentário. Nem sentimento, mas a culpa deve ser minha.

domingo, janeiro 30, 2022

Black out

Ontem, a viajar pelo meio do Alentejo, eu e minha mulher tivemos uma ideia: e se, neste domingo, a partir das sete e tal da tarde, desligássemos os telefones e os computadores e mantivéssemos a televisão fechada - como, aliás, acontece em nossa casa, em muitas noites, ao longo do ano?

Jantávamos, líamos alguma coisa do muito que temos para ler e, lá para as 11 e meia da noite, “regressaríamos” ao mundo e saberíamos o que é que aconteceu entretanto na política da paróquia. 

E foi mesmo assim que as coisas se passaram. Têm sido umas horas de grande sossego! 

Pedimos desculpa aos amigos e às pessoas de família que, muito provavelmente, nos ligaram, entretanto, para comentar os resultados que eles já conhecem. 

São agora 11 e meia, vamos ligar a televisão (e os telefones) e saber “como param as modas”!

sábado, janeiro 29, 2022

Pois!

 


“A Arte da Guerra”


Nesta semana, no podcast do “Jornal Económico”, “A Arte da Guerra”, o jornalista António Freitas de Sousa e eu voltamos, inevitavelmente, a abordar a questão ucraniana, bem como o ressurgimento do Estado Islâmico na Síria e o recente golpe de Estado no Burkina Faso.

Pode ver aqui

Já votei na semana passada

Ao ter votado por antecipação no domingo passado, acho que adquiri uma espécie de bula que, no dia de hoje, me permite falar livremente de política. 

Esta nota, contudo, não é para falar do voto de amanhã: é para me referir ainda ao início da crise política, ao derrube do orçamento. 

Na altura, a esquerda que tem bom senso culpou - e bem - o Bloco e o PCP por terem ajudado a derrubar o governo, ao aliarem-se (uma vez mais) à direita - e, desta vez, também à extrema-direita, o que foi uma desonrosa “première”.

Ora há aqui um ligeiro distinguo a fazer, desculpem lá! 

O Bloco foi co-responsável pela irresponsabilidade, passe a contradição, de ter ajudado a inviabilizar o OGE para 2022, originando a crise política? Claro que sim. Mas convém lembrarmo-nos que o Bloco foi coerente com o seu voto ao OGE de 2021. O Bloco não mudou, na sua consabida irresponsabilidade. 

Quem mudou o sentido de voto, e precipitou a crise, foi o PCP. Se tudo se tivesse passado como no ano anterior, se o PCP tivesse repetido o voto anterior, o OGE 2022 tinha passado e não estávamos agora em eleições. O PCP foi o principal responsável por esta crise - é bom que isto fique preto no branco. 

Por que é que ninguém parece querer ”separar estas águas”? 

Porque, para alguma esquerda mais moderada, que não caminha sobre elas, subsiste uma espécie de odor de humanidade em torno do atual PCP, que muito deve ao efeito simpatia de Jerónimo de Sousa, somado a um resto de (merecida) reverência histórica. 

Tende-se assim, implicitamente, a absolver o “velho” PCP, em desfavor do Bloco, tido como uma espécie de “parvenu” pretensioso e irritante, sem real “pedigree” político.

Não será assim, para muitos? Para mim é.

O voto dos mortos

Como é? E se um cidadão, que já tenha votado no domingo passado, por antecipação, tiver, entretanto, ido desta para melhor? O seu voto vai contar? O quê? Vão ser contabilizados os votos dos mortos? Acreditem que haverá gente a levar isto que estou a escrever a sério! E ainda haverá um marreco qualquer a pensar impugnar o sufrágio…

Os refletores

A estupidez do dia de reflexão, que converte os cidadãos em crianças, ao impor à comunicação social que não fale do elefante na sala, faz lembrar aqueles jogos de sala em que se é punido se se utilizar uma determinada palavra. 

Ninguém acaba de vez com isto?

Reserva


Se eu disser que tenciono almoçar, no domingo, neste restaurante, estarei a incumprir com os deveres do dia de reflexão?

sexta-feira, janeiro 28, 2022

A minha opção

Faço parte de quantos - e somos muitos - gostam de ver o Partido Socialista à frente do governo do país. Tenho para mim que a esquerda democrática é a direção política que melhor corresponde à execução dos propósitos da nossa Constituição - e eu aprecio bastante o sábio equilíbrio, entre a retórica de Abril e o pragmatismo do bom senso, desse documento estruturante da nossa democracia.

Por isso, mesmo em tempos em que discordei do PS, votei quase sempre socialista - e digo “quase” porque me abstive algumas vezes. Em outras ocasiões, segui o sábio conselho de Alexandre O’Neill: “Ele não merece, mas eu voto PS”.

Nunca me arrependi, sequer por um instante, de ter votado socialista, pelo que me sinto também plenamente solidário - diria mesmo, politicamente co-responsável - com os erros cometidos pelos seus governos (todos, para que não fiquem dúvidas), em dois dos quais modestamente colaborei.

O PS tem, em regra, para o meu gosto, um modo democrático, participativo e pouco autoritário no exercício do poder que o afasta, para bem melhor, do seu principal adversário no mercado eleitoral.

O PS é o partido que espelha de forma mais real, na minha perspetiva, o que Portugal é, como país, nas qualidades e nos defeitos. Por isso, o PS também é como esse país: tem gente boa e gente má, tem pessoas dedicadas e qualificadas, tem oportunistas e incompetentes. O PS não é um clube de virtudes mas, vistas as alternativas, é, a grande distância, o porto mais seguro do voto dos portugueses. E talvez por isso, na história política da nossa democracia, os portugueses tenderam, maioritariamente, a escolher o PS para os governar.

É claro que os socialistas sempre alimentaram, dentro de si, algumas divergências, doutrinárias e pessoais. Achei sempre isso bastante saudável. E, se se olhar para o estado de sítio permanente em que o seu principal adversário vive ciclicamente mergulhado, o PS apresenta um invejável mar de estabilidade política interna.

Em 2015, quebrando, a nível nacional, um tabu que Jorge Sampaio já tinha afastado antes a nível autárquico, António Costa fez um sábio acordo político à sua esquerda, que permitou compatibilizar o que parecia ser uma insuperável quadratura do círculo: reverter algumas medidas com que o fundamentalismo da austeridade tinha atormentado muitos portugueses e, ao mesmo tempo, preservar compromissos internacionais essenciais para a respeitabilidade do nosso Estado.

Na execução desse projeto, António Costa revelou-se um excelente primeiro-ministro, num tempo de exigência única em que soube pilotar, naturalmente ajudado pela conjuntura externa, uma notável estabilização da situação financeira, ao mesmo tempo que enfrentava, como muita coragem e imensa serenidade, o ciclo da pandemia de que ainda não saímos. Pelo meio, ainda teve a tragédia dos incêndios e outros azares que fazem parte da vida dos executivos.

António Costa fez tudo bem? Rodeou-se sempre das pessoas certas? Claro que não! Podia ter feito outras opções? Com certeza que sim. Mas só uma perspetiva muito sectária não reconhecerá que dificilmente as coisas poderiam ter seguido um rumo radicalmente diferente, num tempo que foi de exigência limite. A mim, com toda a sinceridade e a muito longa distância de qualquer outra opção, nenhuma outra pessoa me oferece maior confiança para continuar a gerir o país do que António Costa.

Ousando imitar O’Neill, eu diria: sei que há gente que não gosta, mas eu voto António Costa.

quinta-feira, janeiro 27, 2022

As placas

- Mas tenho mesmo de substituir as placas de matrícula do meu carro?
- Tem. Se for à inspeção, com elas neste estado, o carro “chumba”!
- Ó diabo! E fazem placas exatamente iguais?
- Em princípio, vêm já no novo modelo, sem ano e mês e com as letras e algarismos em sequência, sem aqueles dois tracinhos antigos.
- Mas esse é que é o problema! Eu quero continuar a ter as placas com os dizeres antigos.
- O senhor vai ao contrário de toda a gente! As pessoas fartaram-se de comprar placas novas, mesmo para carros muito velhos.
- Pois eu, não. Quero uma placa com os dizeres antigos, que revele a idade do carro. Acho uma saloiíce andar com um carro com muitos anos a “armar” que é moderno. Pode mandar fazer as placas como eu quero?
- Posso.
- Ótimo.

E assim foi.

A saga ucraniana


Na CNN Portugal esta tarde, a analisar os últimos desenvolvimentos das tensões globais provocadas pela crise russo-ucraniana.

Pode ver aqui.

As palavras e as coisas


Há cerca de 55 anos, comecei a escrever para “A Voz de Trás-os-Montes”, um semanário de Vila Real, pertencente à diocese, jornal que, nos dias de hoje, continua felizmente a publicar-se e de que sou fiel assinante.

Por essa altura, havia também na cidade “O Vilarealense”, muito mais antigo, com uma impressão primária, praticamente escrito por uma única pessoa, e a “Ordem Nova”, pertença do partido único, a União Nacional, curiosamente com uma página literária que, ao que parece, terá tido tempos interessantes e criativos.

Eu vivia então no Porto, onde frequentava a universidade. Numa das idas a Vila Real, numa conversa com o padre Henrique Maria dos Santos, diretor de “A Voz de Trás”, como depreciativamente alguns chamavam ao semanário, fui convidado (ou fiz-me convidado) para colaborar no jornal.

Comecei por escrever, por semanas, sobre desporto. Depois, muito rapidamente, passei a temas de política internacional (e, ainda hoje, gosto do que então por lá assinei sobre o tema). Tempos mais tarde, aventurei-me na política interna, usando uma linguagem ambígua, num estilo a tentar ser subtil, que fazia muito o jeito da época, mimetizando o que lia em alguma imprensa de Lisboa, onde passara a viver. Um dia, porém, após ter ensaiado umas graçolas a que o censor local não achou piada, terminei a minha carreira como colaborador. Estávamos aí por 1972 ou 1973. Um ano e tal depois, valha a verdade, sem censura, deixou de ser necessário escrever coisas equívocas.

Terá sido na última fase, a da política interna, que decorreu o que passo a contar.

Um dia, enviei um artigo em que, nem sei a propósito de quê, utilizei a palavra “niilista”. Era uma expressão “pesada” que, no jornal, talvez nunca tivesse sido grafada. 

O semanário, creio, saía às quartas-feiras. Porque os correios eram então uma coisa séria, recebi, no dia seguinte, o meu exemplar. Fui ler o artigo e lá estava: “nilista”, só com um “i”. Fiquei aborrecido. Tempos depois, passando por Vila Real, “deixei cair” ao padre Henrique o “incidente”. Devo ter ouvido um “deixe lá!”. E (quase) esqueci o assunto.

Digo “quase” porque, meses depois, voltei à carga com a palavra, em outro artigo. Decidi recuperar a forma antiga do termo, colocando-lhe o velho “h” no meio - “nihilista”. Pensei para mim: na Minerva Transmontana, os tipógrafos, gente tida com uma cultura sempre bem acima da média das pessoas com tarefas similares, devem conhecer essa grafia.

Quando recebi o jornal com o novo artigo, gelei: vinha lá escrito “leninista”! Entrei, confesso, num relativo sobressalto. A palavra não fazia o menor sentido no contexto da frase mas, mesmo assim, naquele tempo de ditadura, como diria Steinbroken, aquela dislexia ortográfica era grave, excessivamente grave.

Por uns dias, esperei uma reação, uma “chamada à pedra”, quiçá uma intimação! Mas nada! Nem o padre Henrique me falou, nem, na ida seguinte a Vila Real, recebi de alguém, sequer da minha família, a menor reação. A hipótese, bem plausível e simples, de ninguém ter lido o artigo - ou, tendo-o lido, ter passado por aquilo “como cão por vinha vindimada” - nem sequer se me pôs. Fiquei, contudo, a matutar na questão.

E decidi passar pela Minerva Transmontana. Não se acedia diretamente à zona das máquinas da tipografia. Havia um balcão em L, onde se faziam encomendas de coisas tipografadas, se compravam cadernos ou se “punham anúncios”.

Pedi para ver o Carvalho, a única pessoa que por ali conhecia, além do Estevinho, um colega da escola primária, sem estatuto para interlocutor na matéria ortográfica do calibre que eu pretendia levantar. Em voz baixa, perguntei ao amigo Carvalho: “Quem é que compõe os artigos da Voz de Trás-os-Montes?” Disse-me que era mais do que uma pessoa, mas que o responsável era o senhor “Fulano” (tenho boa memória, mas não fixei o nome). Pedi para falar com ele. Nesse preciso instante, tive um primeiro lampejo do ridículo da situação que estava a suscitar.

O senhor “Fulano”, um tipo pesado, que lembro de camisa escura e ar de poucos amigos, lá apareceu para a interlocução comigo. Eu estava já um pouco encavacado por ter de lançar o magno tema diante de umas “meninas da Escola Normal” que ali estavam para comprar blocos ou coisas assim. Mas, pronto, já não havia recuo. Chamei-o a um extremo do balcão e, imagino que com voz “sólida”, disse que era colaborador do jornal e que, recentemente, e por virtude da errada impressão de uma palavra, tinha tido um aborrecimento. 

Avancei então com a substância da minha queixa: já tentara, por duas vezes, escrever a palavra “nihilista”, sem e com “h”, e, da última, saíra, “leninista”. Tinha sido desagradável! Não queria apurar culpas, apenas pretendia garantir uma atenção futura, mais rigorosa, à grafia dos artigos que enviava para o jornal.

O homem, por detrás dos óculos grossos, disse-me então, para meu desapontamento, que não fazia a menor do que eu estava a falar, que não se recordava de nenhum artigo meu, e que, confessava, o meu nome não lhe dizia nada, a não ser que era o mesmo de uma família conhecida da cidade. E eu convencido que era um colunista de referência!

E não pareceu minimamente impressionado. Eu, confesso, ali chegados, só queria um pretexto para poder sair. Foi então que ele olhou para mim, comigo com cerca de vinte anos, quarenta e muitos anos mais novo do que ele, e disse-me, sem agressividade, uma frase que guardei: “Desculpe lá, mas quem é que o manda andar à procura dessas palavras ‘caras’ para dizer as coisas?”

Creio que nunca mais escrevi a palavra “niilista”. Até hoje.

quarta-feira, janeiro 26, 2022

Perceção


Todos os anos, é publicado o índice internacional sobre a “perceção” da corrupção no mundo, por país.

Não se trata de um índice da corrupção efetiva detetada, de casos julgados, de condenações. É apenas uma escala feita à luz “do que parece”, sob certos critérios, com toda a subjetividade que um artigo escrito há dias por uma figura da justiça, que aqui se reproduz, bem esclarece. (Não tenho por hábito, por isso não ser correto, reproduzir textos de jornais, mas, por uma vez, peço a indulgência do “Público”.)

Segundo o quadro, num universo de 180 países, há 32 em que “parece” que a corrupção é menor do que em Portugal - pelo que, a contrario, há 147 países do mundo onde a corrupção “parece” ser maior do que entre nós. No âmbito da União Europeia, Portugal situa-se, pela positiva, acima da média.

Estamos mal? Estamos bem? Cada um deduza o que quiser.








A Nato, a Rússia e a Ucrânia


A tensão atual NATO-Rússia parte de duas realidades incontroversas e potencialmente conflituantes entre si.

De um lado, está o tropismo ocidental, muito estimulado pelos Estados Unidos e pelos países saídos da tutela soviética, de explorar a fragilidade de Moscovo, no pós-guerra fria, para "ganhar terreno" o mais a Leste possível. As aventuras americanas na Geórgia e até, por algum tempo, na Ásia Central (neste caso, a pretexto da luta contra o terrorismo), são disso flagrante exemplo.

Do outro lado, está a vontade da liderança russa de resgatar o sentido de derrota que, para o seu povo, constituiu o fim da União Soviética e o declínio, como potência, que daí resultou para a Federação Russa. A chefia de Putin, instituindo um regime autoritário que apenas salvaguarda os "mínimos" democráticos, parece ir bem com o sentimento maioritário de um país que se sente humilhado e, de certo modo, permanece sob um temor de "cerco".

Neste cenário de fundo, projeta-se a Ucrânia.

A Ucrânia é um "Estado-charneira", onde convivem (conviviam?) perceções antagónicas, polarizadas pelos dois "mundos" acima referidos. A razoabilidade aconselharia a que os sinais dados a Kiev, por ambos os lados, fossem no sentido de entender a sua especificidade geopolítica, com vista a combinar, com gestos de prudência, a compatibilidade com essas duas realidades.

O ocidente, na continuidade do tropismo liderado pelos EUA, que atrás referi, estimulou a reversão, num golpe de Estado de rua, de um presidente ucraniano que a comunidade internacional sempre considerou ter sido legitimamente eleito, mas que, aparentemente, tinha o "defeito" de ser pró-russo. Contribuiu assim para a implantação em Kiev de um poder político que logo sonhou com a entrada na União Europeia e mesmo na NATO.

Num ambiente de crescente agressividade face às populações russófilas e russófonas do país instituído pelo novo regime, não foi espanto para ninguém que estas reagissem no sentido de salvaguardar os direitos que tinham desde a independência do país. E parece também de falsa inocência a admiração com que se olhou para o facto da Rússia ter avançado em apoio a essas populações.

A essa manobra ocidental despudorada, que legitimou o atropelo dos direitos das populações russas da Ucrânia, correspondeu, entretanto, um avanço oportunista russo, que aproveitou o ensejo da guerra entre os seu aliados russóficos e o novo poder em Kiev para "deitar mão" à península da Crimeia, cuja tutela ucraniana lhe tinha "ficado atravessada" desde o fim da União Soviética.

O ocidente, aturdido, "bombardeou" então a Rússia com declarações fortes, comunicados graves e algumas sanções - um preço barato para uma zona de imensa importância geopolítica. No chamado "acordo de Minsk", que estabelece as bases para o cessar-fogo na guerra breve entre o governo ucraniano e os separatistas pró-russos, a palavra "Crimeia" são surge, o que já representa uma incontestável vitória russa.

Entretanto, o esperado incumprimento do "acordo de Minsk" acabou por suceder. As culpas estarão de ambos os lados, não sendo de excluir que o lado pró-russo, manipulado pelo interesse de Moscovo, seja o mais empenhado em provocar uma confrontação como a que está a ocorrer em torno de Mariupol, cidade dominada pelo exército de Kiev, e cuja tomada pelos separatistas poderia significar, para Moscovo, a concretização do "sonho" de ligação terrestre da Federação Russa à península da Crimeia, até agora uma espécie de "ilha", difícil de manter por via marítima. O aproveitamento do fator climático, isto é, a oportunidade das próximas semanas de tempo razoável para facilitação de ações militares, pode ter aqui algum papel.

Esta tensão localizada, somada a outros incidentes que mostram o que muitos sabiam já há muito - que o "acordo de Kiev" era muito difícil de subsistir -, está a criar uma crescente tensão entre a Rússia e o ocidente, isto é, a NATO, isto é, os Estados Unidos. A União Europeia tem aqui um papel subsidiário, com a Alemanha e França a "fingirem" ser poder, quando, na realidade, estão "mortas" para restabelecerem os seus negócios com Moscovo mas, ao mesmo tempo, não querem desagradar aos Estados do Centro e Leste, sob uma liderança inconstante da Polónia, cuja relação traumática com a Rússia lhes cega a racionalidade.

Estes Estados, dentre os quais os países bálticos alimentam uma linguagem mais belicista, confiam muito pouco na União Europeia e colocam todas as suas cartas na NATO, o que é o mesmo que dizer nos EUA. Porque já perceberam, e bem, que se 'isto der para o torto", só a força militar americana os pode salvar.

O drama essencial nesta conjuntura é, a meu ver, a assimetria nos modelos decisórios.

De um lado está a NATO, sujeita a regras claras, a uma "accountability" democrática, que nunca será facilmente mobilizável por pulsões "jingoístas" de alguns parceiros mais impacientes. Mais do que a sua força militar, que será tanto mais valiosa quanto não tiver de ser usada, a NATO consagra um corpo de compromissos muito fortes. Mas, precisamente porque assim é, a NATO não pode nem deve prestar-se a servir de escudo ao aventureirismo de alguns dos seus Estados, por muito importantes que eles sejam no seu seio. A decisão americana de enviar algumas centenas de pára-quedistas para a Ucrânia representa um desses atos que, sendo um risco americano na essência, configura um risco colateral para toda a Aliança.

Do outro lado está a Rússia. Para além da coreografia constitucional que lhe é própria, a realidade mostra que o poder, em Moscovo, não está sujeito a "checks-and-balances" similares aos do lado ocidental. Ora isso converte a Rússia num poder com contornos muito mais imprevisíveis no seu processo de decisão política, em particular, militar. E, por isso, os riscos potenciais do lado da Rússia são muito mais elevados.

Por tudo isto, o sentido de responsabilidade do lado da NATO torna-se ainda maior. A NATO não deve alimentar uma linguagem confrontacional e deve abster-se de atos de cariz militar, em termos de manobras e outros procedimentos de mobilização de tropas e meios de ação, que possam configurar um modelo de provocação suscetível de ser aproveitado pelo "outro lado". Noutro sentido, a NATO deveria definir no seu seio, de forma muito clara, mas sempre respeitando estritamente o seu estatuto e os mandatos multinacionais aplicáveis, o que entendem ser as "linhas vermelhas" que a Rússia não poderá ultrapassar, sem o que um conflito se tornará inevitável. E fazê-los saber a Moscovo, “alto-e-bom-som”.

A Guerra Fria provou que Moscovo é um leitor atento dos sinais claros que receba por parte de quem está disposto a fazer-lhe frente. O novo poder no Kremlin não é igual ao que existia durante a União Soviética. Por muitos defeitos que tenha, há mesmo que convir que é um pouco melhor.

(Publiquei este artigo no “Observador”, em 2015… há sete anos! Subscrevo-o linha por linha)

terça-feira, janeiro 25, 2022

À volta da Ucrânia


Pode ver aqui, entre os minutos 32 e 44, uma análise às tensões que envolvem a Ucrânia, com notas sobre as atitudes de Moscovo, dos EUA e da União Europeia.

segunda-feira, janeiro 24, 2022

Retratos


Ao longo da vida, tive várias máquinas fotográficas. Achava que, porque me “saíam” quase sempre más fotografias, a culpa era dos aparelhos, pelo que neles fui gastando algum dinheiro, sempre sem préstimo. Com o tempo e com a experiência, cheguei à única conclusão verdadeira: a culpa era toda minha, sou um péssimo fotógrafo!

Como com (quase) todos os defeitos (ou falta de qualidades) que tenho, aprendi a viver e até a ironizar com isso. E deixei de me preocupar, em absoluto, com o assunto. E como passei a usar um iPhone, agora só faço fotografias com aquilo - embora o modelo que uso já esteja a ficar para as calendas. Umas saem assim-assim, outras “de fugir”! É-me indiferente, podem crer!

No sábado, no castelo, tirei esta fotografia. Se acaso a submetesse a alguns amigos que fotografam muito bem, eles diriam, com piedade sorridente: “Não está mal!” E, intimamente, pensariam: “É uma banalidade, tipo “National Geographic” de trazer por casa, só falta um pôr-do-sol para o “kitsch” ser completo! Por que é que este tipo não se preocupa com as coisas da Abcásia ou do Saara Ocidental, que são temas de que ele ainda sabe alguma coisa?” Pois é, mas é o que me “sai”!

Fachos




Ontem, a propósito dos tempos que correm, deu-me para ler “fachos”. No caso, Salazar. Deixo-os com esta pérola. Para lembrar ”do que a casa gasta”…

domingo, janeiro 23, 2022

Boa!


É uma imensa auto-ironia esta frase do meu amigo Luís Marques Mendes.

Do mal o menos


Os “passistas” são o diabo! (Sem graças para o “diabo” que, afinal, não veio com a Geringonça). Esta tarde, a caminho do voto antecipado, encontrei um: “Então o Rio, afinal, não era assim tão mau como vocês diziam! Parecem empolgados!”. Ele: “Quem não tem cão caça com Zé Albino!” Frase felina! 

A dignidade da República

O incidente na sala de um partido na Assembleia da República não é um "fait-divers". Sem a menor ironia, acho aquilo gravíssimo.  ...