sexta-feira, agosto 20, 2021

“A Cidade Imaginária”


Correspondendo a sugestões de amigos e leitores, decidi publicar um livro com crónicas, histórias e memórias, de muito diversa natureza, que cruzam episódios que, direta ou remotamente, se ligam Vila Real, a terra onde nasci. 

Trata-se de textos que foram surgindo em jornais, aqui no Facebook e, sempre, no meu blogue “Duas ou Três Coisas”, ao longo dos últimos anos. 

O grafismo da capa é de Adelaide Serra e prometo um exemplar do livro à primeira pessoa que adivinhar o motivo que ali é ressaltado. Comecem pela cor…

Alguns exemplares do livro, que tem uma tiragem limitada e surge sob a chancela da Biblioteca Municipal de Vila Real, estão, desde hoje, à venda na “Livraria Ler”, rua Almeida e Sousa, 24, no Jardim da Parada, em Campo de Ourique, em Lisboa (tlf. 213 888 371).

No final deste mês, haverá também exemplares disponíveis na Livraria e Papelaria Branco (259 322 839) e, posteriormente, na Livraria Traga-Mundos (259 103 113), ambas em Vila Real.

Na sexta-feira, dia 3 de setembro, no espaço fronteiro à Biblioteca Municipal de Vila Real, pelas 21.30 horas, terá lugar uma sessão de lançamento. 

Todos quantos quiserem ali aparecer serão muito bem vindos, sendo observadas as devidas medidas de proteção.

A América está de volta


“America is back” foi a frase usada, há meses, por Joe Biden, para assinalar ao mundo, em especial aos seus aliados, que o interregno traumático de Trump estava encerrado e que os EUA reassumiam, com convicção, o seu papel de potência com ambição de liderança democrática global, com retoma de atenção aos seus parceiros e ao mundo multilateral.

A mensagem era também para os adversários, em especial para a China e Rússia, que, com ela, eram alertados para a nova determinação de Washington em estruturar uma agenda assertiva de interesses com que tinham que contar.

“America is back”, contava poder dizer, dentro de dias, com serenidade, Joe Biden, mas, agora na volta do Afeganistão, onde, nos últimos 20 anos, os EUA haviam empenhado tropas, vidas e muitos recursos.

Tudo começou como uma ação legítima, para a qual foram arregimentados mais de 40 países, no pós 11 de setembro de 2001, com o objetivo de erradicar o terrorismo do Al Qaeda. Depois, para que essa ação tivesse um efeito consistente a prazo, os EUA haviam desenhado um projeto de “State-building”, destinado a travar o integrismo islâmico e construir instituições sustentáveis para um Afeganistão democrático.

Todo esse esforço ruiu, como sabemos, em escassos dias, de uma forma clamorosa.

Vão por aí fervilhar análises sobre as lições a aprender com este falhanço, que se soma ao saldo desastroso da intervenção no Iraque, dois anos depois do Afeganistão, dessa vez numa operação sem a menor legitimidade, que viria a ter como saldo uma trágica desregulação securitária do Médio Oriente, dando origem ao Daesh, contribuindo para a tragédia na Síria.

Neste rescaldo da humilhação, que é americana mas também dos aliados, que ficou simbolizada, no passado domingo, com a queda mansa de Cabul e do governo que se percebeu que só fazia de conta que existia, vale a pena dizer duas coisas, imagino que pouco populares.

A primeira é que foi justa e correta a decisão de ir para o Afeganistão em 2001, procurando liquidar a Al Qaeda e, de caminho, derrubar o poder talibã que o protegia. É importante nunca esquecer as imagens das Torres Gémeas a cair. A luta contra o terrorismo islâmico não era uma guerra americana, era e é também a nossa guerra.

A segunda é que, mesmo que constatemos ter sido um fracasso a sua sustentação, a sociedade que foi tentando criar, ao longo destas duas décadas, no Afeganistão, era um projeto decente e meritório. Muitos afegãos viveram, por bastantes anos, na liberdade que a guerra permitiu, houve uma inteira geração que gozou de democracia, as mulheres recuperaram os seus direitos, havia liberdade dos média, a educação foi expandida e o país usufruiu de fortes investimentos em infraestruturas, que o conflito interno esteve longe de destruir.

As coisas são hoje o que são, estando nós ainda longe de saber o que virão a ser no futuro. Mas o evidente colapso do esforço feito no Afeganistão não nos deve afastar da ideia, talvez mesmo potenciada pelo choque das imagens que dali agora nos chegam, de que, com todos os erros cometidos, havia uma intenção justa na intervenção que foi tentada.

Os piores dias da administração sob tutela americana irão ser vistos como um sonho bom se comparados com o pesadelo da sociedade talibã que aí vem.

quarta-feira, agosto 18, 2021

“A Arte da Guerra”


Em “A Arte da Guerra”, a conversa semanal sobre temáticas internacionais com António Freitas de Sousa, na plataforma multimédia do “Jornal Económico”, voltámos, como não podia deixar de ser, ao Afeganistão. Abordámos também as discretas negociações entre o governo venezuelano e a oposição, que têm lugar no México sob mediação norueguesa, bem como as prespetivas do processo de alargamento da União Europeia aos Balcãs.

Pode ver clicando aqui.

terça-feira, agosto 17, 2021

segunda-feira, agosto 16, 2021

Portugueses em Cabul


Há pouco, ouvi a informação de que havia quatro portugueses a procurar sair de Cabul. Graças à cidadania europeia, o nosso país tem a possibilidade de coordenar com os seus parceiros as medidas de proteção a esses cidadãos. Se, nas atuais circunstâncias, a operação para a sua retirada é muito difícil, podemos imaginar o que devem estar a passar as diplomacias de Estados que não tenham essa cobertura institucional.

A vida ensinou-me que há portugueses em toda a parte.

Costumo contar uma história de um concurso que, em 1980 ou 1981, lançámos na embaixada portuguesa em Oslo. Era uma sorteio de uma viagem a Portugal, com programa de visita, patrocinado pela TAP, à qual podiam concorrer cidadãos inscritos na nossa secção consular, enviando um postal (ainda há postais?).

Feito o sorteio, verificou-se que o nosso compatriota vencedor residia em Vadsø, uma pequena e distante localidade bem acima do Círculo Polar Ártico, não longe da fronteira com a então União Soviética.

Telefonei a informá-lo e a combinar a logística. Por curiosidade pessoal, perguntei-lhe como diabo fora parar àquele remotíssimo lugar, onde, até ao momento, não se sabia residirem portugueses.

"Não, não há cá mais nenhum português. Quer saber como vim? Olhe, eu estava a trabalhar numa fábrica no norte do Irão. Havia por lá um norueguês que me disse que aqui havia um trabalho bem pago, também numa fábrica. Ele fez o contacto e eu vim. Fácil, não é?"

É tão "fácil" esta fantástica aventura dos portugueses pelo mundo...

Uma fotografia para a História

 


domingo, agosto 15, 2021

Soldados


Hoje é o dia certo para homenagear o sargento comando Paulo Roma Pereira e o soldado pára-quedista Sérgio Pedrosa, que deixaram a sua vida no Afeganistão.

Notícias de Cabul

Um dos efeitos mais nefastos da vitória dos talibãs é o grande estímulo que ela oferece aos extremistas islâmicos um pouco mundo.

América

A opinião pública americana continua a não ter uma real consciência do desprestígio que os seus atos ou omissões, no Iraque ou no Afeganistão, induzem na imagem do país pelo mundo. Os americanos sabem que parte do mundo os odeia, mas continuam a achar que isso se deve exclusivamente à inveja pelo seu poder.

Müller


Ainda a tempo de lembrar que morreu hoje um dos mais geniais futebolistas de sempre, o avançado alemão Gerd Müller. Muitas vezes Messi me fez recordar Müller.

Canotilho



Ainda a tempo de lembrar que, no dia de hoje, faz 80 anos uma das figuras cimeiras do Direito português, Joaquim Gomes Canotilho.

A hora da diplomacia


Chama-se diplomacia à técnica (chamar-lhe arte é pedante) de interlocução que os Estados usam para tentar compor situações internacionais de rutura que se situam para além (ou aquém) dos conflitos militares. Quando as coisas são o que são, quando é em absoluto indispensável encontrar um modo de entendimento entre contrários, que tente resgatar um mínimo de paz, para salvaguar o que for possível, no presente ou no futuro, entram em cena os diplomatas. 

No Afeganistão, o mundo ocidental, convencido da valia do seu modelo, procurou, ao longo de duas décadas, apoiar quantos ali afirmavam partilhar essas ideias. Falhou. Forças apoiadas em outras ideias (boas ou más, isso não é relevante agora) acabam de suplantar, no plano militar, os defensores do modelo democrático liberal - por muitas leituras explicativas (históricas, sociológicas e outras) que alguns sobre isso venham agora a fazer, em torno das razões por que isso sucedeu.

É que o mundo, onde não há becos, não acabou ali! O dia de amanhã é que vai ser diferente. Agora, com todo o sentido de compromisso possível, vai ser necessário dialogar com quem passa a mandar no Afeganistão, sendo em absoluto indiferente a opinião que se possa ter sobre os novos ocupantes do poder. Chama-se a isso realismo e pragmatismo, que sempre foi a chave para enfrentar situações desta natureza. A vida das pessoas está para além das ideologias. Regressou a hora da diplomacia.

Viva setembro!


Eu sei que é o fim de junho que assinala a metade do ano. Tudo bem, se atendermos à cronologia. Mas, para mim, “de toda a vida” (como dizem as pessoas “bem“, para designar os amigos que convêm), ficou-me, no meu calendário íntimo, a data de 15 de agosto, como a separação de dois tempos bem marcados no ano. O dia de hoje é aquele em que iniciamos psicologicamente o desmontar da “barraca” das férias, para o regresso, daqui a duas semanas, a um quotidiano mais organizado, antecedido de resmas de compromissos em agenda. Já há muito abandonei a ilusão de que o início de janeiro representa o “agora é que é” das coisas para fazer. Esse é um mero mito do calendário! Setembro é que é: aquele almoço atrasado com um amigo, aquilo que ando há tempos para encomendar, aquela pessoa a quem tenho de lembrar aquilo a que se comprometeu, a visita que tardo em cumprir. A minha lista de “coisas para fazer” está já bem cheia, com a preguiça destas noites de verão a estimular ideias em torno daquilo que, no fim de contas, sei que acabarei por nunca cumprir em absoluto. Até porque depois vem a chuva, porque “afinal não deu, fica para depois”. Ou porque, caramba!, não me apeteceu, não estive para ali virado, até porque a minha autocomplacência tem vindo a disparar. Mas nem imaginam quanto me contenta a simples ideia de que, lá no fundo, tentei! E tudo tem de ser rápido, porque o Natal está a ir a chegar! 

Rio abaixo

No futebol, recordo-me de querer que a minha equipa perdesse, para ver se me via livre do treinador. Entre os ditos e as entrelinhas, sente-se agora que muitos “companheiros” de Rio fazem figas para ver este PSD derrotado nas autárquicas, pela margem necessária para que ele saia.

Vacinas


O triste incidente que envolveu o vice-almirante encarregado da operação logística das vacinas e o bando de negacionistas e anti-vacinas, em cuja montagem alguma comunicação social conservadora teve forte responsabilidade, acaba por ter um saldo muito positivo. E mais não digo.

Avante, Amareleja!


Espero que a Amareleja, na “etapa“ de amanhã, possa recuperar a camisola “amarel(ej)a” das temperaturas, que tem vindo a consagrar internacionalmente a localidade nos anos passados.

sábado, agosto 14, 2021

O primeiro




Lembro-me bem. Era outubro de 1987. Eu tinha ido ocupar um pequeno gabinete individual no terceiro andar do Palácio das Necessidades, situado no cruzamento de dois grandes corredores, dispondo de uma janela para o claustro. Aquele iria ser o meu pouso, por quase três anos.

Verdade seja que esse chamado “terceiro andar”, onde também fica o gabinete do ministro, é, na realidade, o primeiro andar, para quem entra pelo Largo do Rilvas. Sobre ele existe um “quarto andar”, onde se gere financeira e patrimonialmente o ministério. No MNE, os andares contam-se a partir de mais abaixo, ligados por elevadores, que ainda conheci à moda antiga…

Um dia, uma jovem diplomata coincidiu num desses elevadores com um certo ministro. Este, galifão conhecido, perguntou-lhe para que andar ela ia: “Para o quarto”, respondeu ela. Com um sorriso amalandrado, o governante inquiriu, fazendo corar a jovem: “Já? A esta hora?” O ministro terá saído no terceiro andar, em frente ao gabinete que eu ocupava. E ela lá seguiu, para o “quarto”… andar.

Quando aquele invejável espaço me foi atribuído (eu tinha condicionado a aceitação de um determinado convite a poder dispor de gabinete individual), encontrei-o pobremente equipado. Andei assim uns dias a coletar peças, com a cumplicidade de um secretário-geral adjunto que fez o favor de me ajudar: sacou um sofá à Inspeção, um armário que estava junto ao Pacto, duas cadeiras da EOI, tudo sempre “bifado”, sob a sua bênção oficial, nas discretas horas do almoço. Escolhidas as peças, de seguida pedia-se ao Montez, o carregador oficial da casa, para as encaminhar para a minha sala. E assim montei, em poucos dias, um gabinete razoavelmente ”asseado”, ainda alindado com uns quadros tirados não sei bem de onde…

No primeiro dia em que cheguei ao gabinete, notei que havia por lá um caixote, num canto, por abrir. Era um computador, um ”286”, não sei se Olivetti, novinho em folha, parecido com o que a imagem mostra. 

Totalmente analfabeto na matéria, coloquei aquilo numa mesa e fui procurar o meu colega Rui Felix Alves, que me constava que sabia da poda. Foi ele quem me deu as primeiras ”luzes” sobre o funcionamento e utilidade daquilo (depois, até hoje, aprendi sempre e só por mim, o que é uma imensa asneira, desde já aviso) e me ajudou a funcionar com a maquineta. Ela acabou por ser a ser primeira das muitas dezenas e diferentes tipos, ao longo destes trinta e tal anos em que passei a ficar totalmente dependente destas tralhas informáticas. Até vir a acabar neste iPad em que agora escrevo, aqui na praia. E só até ao próximo, claro.

Não vão ser tantos...

... os que hoje levo para a praia, mas não anda muito longe disto.