quinta-feira, junho 24, 2021

A posição de Portugal

Vamos falar das coisas a sério, sem demagogias?

A Europa está indignada com o facto da Hungria ter aprovado legislação interna discriminatória, em matéria de orientação sexual. A Hungria de Orbán, com um desplante que só a garantia da impunidade permite, faz, há muitos anos, o que muito bem lhe apetece e, uma vez mais, demonstra que os mecanismos comunitários continuam a ser impotentes para travar uma deriva autoritária que coloca em causa as regras a que o seu país se comprometeu aquando aderiu à União. Veremos o que irá suceder neste caso, para além da retórica.

Não nos esqueçamos do comportamento indigno do Partido Popular Europeu ( PPE) - cujos partidos membros portugueses não me ocorrem agora - que, durante anos, pôs “paninhos quentes” nas atitudes atribiliárias de Orbán, que a ele pertenceu com a bênção permanente de quem põe e dispõe no grupo, a CDU de Merkel. Órbán, até por lá tem, em Budapeste, como assessor, um antigo secretário-geral do PPE, aliás um cidadão português que por cá ocupou funções num governo que também optei por esquecer. Foi curiosamente essa mesma pessoa que, a solicitação húngara, dirigiu a campanha da búlgara Kristalina Giorgieva, contra a candidatura de António Guterres a SG da ONU, em 2016. Também não consigo recordar o nome da personagem. Hoje, a minha memória está terrível…

Um grupo de países da União subscreveu, entretanto, uma declaração em que condena a atitude d Hungria.

Portugal, presidência em exercício da União até ao final do mês, declarou que estava em perfeito acordo com o teor dessa declaração - e esse é o aspeto político mais importante a ter em conta - mas que a não subscrevia, porquanto, enquanto presidência, teria de manter uma posição de “honest broker”, dado que mais de metade dos Estados membros também não surgiram a subscrever o texto.

Repare-se que não é claro se os Estados que não subscreveram a declaração se colocam ao lado da Hungria (o que é altamente improvável, para a esmagadora maioria) ou se consideram a forma ou a oportunidade do texto menos consentânea com a maneira como entendem que o tema deve ser tratado (o que é a hipótese mais provável). E isto tem de ser ponderado.

Achei perfeitamente adequada a atitude tomada pelo governo português.

Uma declaração desta natureza não é um documento com qualquer estatuto no ordenamento jurídico da União. É uma opinião, uma afirmação de posição, aliás muito equilibrada e correta. Estou seguro que o governo português, não tem a menor objeção ao texto, como já o afirmou. Mas posso perfeitamente perceber que, enquanto presidência, não se queira associar (mas apoie politicamente, o que, repito, é o mais importante) a um documento que divide a União ao meio. Repito, trata-se de uma tomada de posição de alguns Estados. Não subscrevê-la não tem o caráter de uma “abstenção” perante uma proposta de decisão em Conselho. Aí, seria imperdoável se Portugal não tomasse posição. E tenho a certeza que, se se chegar a esse ponto, a tomará sem hesitações.

Contrariamente ao que aconteceu em 2000, quando a presidência portuguesa titulou, em nome dos “catorze” (todos os Estados membros, menos a Áustria), uma condenação à entrada de um partido de extrema-direita no governo austríaco), desta vez não houve “vinte e seis” (todos menos a Hungria) a reagir. Nessa altura, era a unanimidade menos o visado. Hoje é muito diferente. Em 2000, eu estava no centro desse “furacão” e fui eu quem foi ao Parlamento Europeu defender a posição dos “catorze”.

Esta polémica interna sobre a atitude do governo português morrerá amanhã. Seria muito mais cómodo para mim deixar passar este assunto em silêncio. Mas não deixo. Porque Lisboa teve razão na forma como procedeu. E eu não me importo rigorosamente nada de, quando acho que uma posição está correta, embora me possa pôr contra a indignação adjetivada e demagógica de uma maioria ruidosa nas redes sociais, de dizer o que penso. E o que penso é isto.

E agora, quem quiser, faça favor: “fogo à peça”.

quarta-feira, junho 23, 2021

Manequim


Saí do edifício do FBI, em Washington, e comecei a caminhar, naquela que me pareceu ser a direção de onde tinha vindo. (Mas que diabo foi o homem fazer ao FBI?). Eu não tinha ido “bem” ao FBI. (Mau, mestre!) Tinha ido visitar o museu do FBI. (Ah!). Era o mês de dezembro de 1972. (Há quase 50 anos? Estava a fazer o quê, por ali?)

Tinha ido aos Estados Unidos incluído numa excursão do Auto Clube Médico Português. Tinha havido uns lugares por preencher e a agência de viagens tinha-me sugerido que aproveitasse o bom preço. Eram as minhas primeiras férias, ao fim de um ano de trabalho como bancário, prestes a ir para a tropa. A minha geração era mais dada a viagens pela Europa, mas, por essa altura, eu já tinha visitado vários países do continente algumas vezes, duas das quais à boleia. E, pronto!, decidi ir aos States - Nova Iorque, Washington e cataratas do Niagara. Uma das torres gémeas de Manhattan ainda estava a ser construída. Mal eu sabia que ia estar por lá no dia em que ambas iriam ser destruídas.

Voltemos a Washington. A cidade tem uma geografia fácil e, talvez fiado nisso, à saída do FBI, caminhei despreocupadamente por várias ruas. De repente, olhei para uma montra e reparei que todos os manequins eram negros. Nunca tinha visto um manequim negro, em louça ou madeira. Desde a minha infância, as mulheres representadas por esses porta-vestidos eram brancas, com uns cabelos penteados “à antiga”.

Achei curioso e pensei, cá para mim: deve ser para cativarem a clientela feminina negra. (Eu sabia que a capital federal tinha uma maioria de população negra). E continuei a andar. Talvez alertado pela montra, olhei com mais atenção à minha volta e constatei que eu era o único branco no horizonte. Algumas pessoas olhavam para mim, pareceu-me que com alguma curiosidade. As montras, com os mesmos modelos de manequins repetiam-se, sempre e só de mulheres.

Nunca tendo, até então, ido a África, com o cenário das ruas de cidades como Paris ou Londres então ainda muito distantes de terem a diversidade de que hoje as habita, aquele ambiente era uma experiência única para mim. Em Portugal, a descolonização, com a subsequente imigração oriunda das antigas colónias, só iria ter lugar alguns anos depois, pelo que o panorama humano do quotidiano era dominado pela população branca, como as imagens da época bem mostram.

Nessa manhã, em Washington, eu tinha entrado num bairro de população negra. Não me apercebi que a minha presença criasse a menor reação. (Anos mais tarde, no Harlem profundo, em Nova Iorque, numa área onde fora parar por alguma imprudência, o ambiente não iria ser tão “neutro” e seria mesmo algo hostil). Apenas detetei uns sorrisos divertidos, até porque devia estar a afivelar uma cara de algum embaraço. E, como mandam as regras da orientação, regressei por onde tinha caminhado, passando de novo ao lado do FBI. John Edgar Hoover já lá não estava. Morrera no mês de maio anterior.

Por que razão trago aqui este episódio, nestes tempos em que falar de temas raciais parece cada vez mais delicado? Por uma razão simples. Na passada semana, em Viena, fui ver as montras do Dorotheum, a fantástica casa de leilões que, nem que fosse para regalo dos olhos, ia muitas vezes visitar, quando vivi na cidade, entre 2002 e 2005. E, numa das vitrines, pertencente a um lote que irá à liça dentro de dias, estava um manequim antigo, com a cara de uma mulher negra. Ao olhar para a peça, regressei, por instantes, meio século atrás, a Washington.

Mas isto é tema para um post? Sei lá! Para mim foi.

terça-feira, junho 22, 2021

Uma vergonha consentida


Por que será que, tanto quanto eu saiba, nenhum partido político português coloca no seu programa uma medida legislativa que ponha cobro ao escândalo que é ver esta fialhada a desfeiar a arquitetura das nossas cidades?

Às empresas de telecomunicações, que nos levam os olhos da cara pelos seus serviços, em óbvio cambão de preços, não se pode exigir que montem tubagens e caixas, metálicas ou plásticas, que possam ser pintadas com o tom dos prédios, para disfarçar o material? 

As cidades portuguesas fazem lembrar, nos dias de hoje, subúrbios de localidades do “terceiro mundo”.

segunda-feira, junho 21, 2021

Yolanda Brígida

Você era uma criança. Falava à televisão, ao lado dos seus pais, emigrados na Suíça. Perguntaram-lhe o que gostava mais de ver nos noticiários. Com o olhar vivo e inocente, disse: os desastres! Essa sua resposta ficou-me para sempre.

Tempos mais tarde, curso tirado, estagiária da notícia, salário de recibo verde, telefonou-me para Brasília a inquirir do nome de um português envolvido num acidente. Expliquei que a ética da minha profissão não me autorizava a quebrar o sigilo. Não esqueci a sua reação: "A ética?! Deixe-se disso! Vá! Diga-me lá! É que se eu não consigo essa informação, o meu chefe põe-me na rua!"

Um dia, num jornal com mais de cem anos, na "silly season", li uma peça sua sobre um senhor chamado Eça de Queirós. Explicava, pedagógica, que era "um escritor realista português do século XIX", do qual citava obras a esmo. Fui ver: o texto era da Wikipedia. Fazia bem em apoiar-se em fontes prestigiadas, nessa Britannica da geração dos "shots".

Veja-a agora muito por aí, Yolanda Brígida ou Cátia Vanessa ou qualquer outra coisa assim que a rica imaginação dos seus pais tenha gerado. De "corneto" na mão, nos "travellings" na peugada do advogado desconcertante, à coca da casa dos "pulseirados", a perguntar como se sente à mãe que perdeu o filho no mar alto, a entrevistar o primo da vizinha de um tipo que conheceu o criminoso.

Vi um dia a sua glória. Uma baliza tinha caído sobre a cabeça de uma criança. O dia era “seco” em eventos. Os três telejornais abriram com a notícia, era o "seu" desastre. E lá estava você em campo, baliza ao fundo, preparada para a partida. Ao longe, as "repórteres" dos outros canais, seus heterónimos, filmavam-se comicamente entre si, debitando “buchas” para as respetivas câmaras, à espera do requestado edil local, que você entrevistava e que se prestava ao papel de alterne entre pantalhas, a todas anunciando o clássico "rigoroso inquérito". Um "must"!

É que onde eu gosto verdadeiramente de a ver é nos diretos, à porta de um tribunal fechado há horas, na soleira de uma urgência com uma velhinha a revelar o cancelamento da consulta numa greve, no rescaldo de um incêndio a recolher a clássica declaração sobre a "mão criminosa” no sinistro. Adoro as redundâncias em que ecoa, quase palavra por palavra, o que o “pivot” acabou de dizer, não vá alguém ter entrado na sala só nesse instante. Exulto quando se dirige, impante, à vedeta em estúdio, que mal a conhece, com um íntimo: "Daqui é tudo, Judite!'.

Há dias, vi-a numa de excelência. António Costa tinha acabado de falar sobre o seu "sermão aos chineses", que em ano eleitoral substitui o "sermão aos peixes", do outro António, mas Vieira. Ele saía já de cena, tenso, e você, marota, ética Cofina, reguila qb, sem esperar resposta, só para gáudio da malta lá na redação, atirou-lhe à cara: "O país está melhor, António Costa?". Eu, no caso dele, sabia o que lhe tinha atirado à cara, a si.

(Deu-me hoje para lembrar aqui o artigo que publiquei no "Diário Económico" em 5.3.15)

Diários da catástrofe

Olhem com atenção, as primeiras páginas dos nossos jornais. Se tiverem uma lupa, procurem encontrar uma notícia positiva, de cá ou do estrangeiro, de onde ressalte algo sem o menor tom de crise ou de polémica. Se conseguirem, leiam o texto e contem as palavras até surgir a adversativa “mas” ou equivalente. É um exercício divertido.

domingo, junho 20, 2021

O jogo e a vida. Uma história


Foi há quase 43 anos. Chegámos a Jerusalém já um pouco tarde. A delegação portuguesa, naquele dia 25 de junho de 1978 (já perceberão porque tenho a data precisa), tinha ficado retida, por mais de uma hora, no aeroporto Ben Gurion, em Tel-Aviv, depois de ter vindo no voo de Roma. E tudo aquilo parecia ser por minha culpa. 

O meu passaporte diplomático tinha carimbos de duas deslocações à Líbia, nos dois anos anteriores. As autoridades da fronteira “embirraram” com o assunto e quiseram saber o que me tinha levado a duas visitas, cada uma delas de mais de uma semana, àquele Estado que era seu arqui-inimigo. Lá tive de explicar, em conversas difíceis com gente das polícias (imagino que a Mossad tivesse alguém por ali) que, sendo o meu pelouro, no MNE, as relações económicas com os países do Magreb e do Mashrek (nome à época muito em voga, por importação da linguagem do Quai d’Orsay, para designar o Médio Oriente), era mais do que natural que por lá tivesse alguns vistos de países árabes antes visitados (aliás, não eram muitos). Era mais fácil de dizer do que ver compreendido.

A nossa delegação, chefiada pelo ministro da Agricultura, Luís Saias, que contava com um diplomata enviado pelo MNE para lhe resolver os problemas, acabava por ver complicada a sua chegada a Israel, logo “por causa” dessa pessoa… 

Ultrapassado o imbróglio, imagino que comigo sob “observação” dos acompanhantes israelitas nos dias seguintes, lá fomos para Jerusalém, num autocarro. Ainda não havia, nesse tempo, aquelas “vans” de vidros fumados que hoje se usam muito, por ali e por quase todo o lado, por razões de segurança.

Chegámos ao hotel com parte do nosso grupo furiosa (comigo, imagino) por ir perder a transmissão da final do campeonato do mundo de futebol, entre a Holanda e a Argentina. De facto, quando entrámos e olhámos o aparelho de televisão (ainda não havia telões e era a preto e branco), sobre a qual se debruçava uma imensidão de gente, o jogo estava nos minutos finais.

O ambiente que ali se vivia foi uma lição política. Toda a gente, entre os quais alguns judeus americanos que nada deviam perceber de “soccer” (que nos dias seguinte vi trocarem no balcão ‘Israel Bonds’ por ‘cash’, como se fossem ‘traveller checks’), puxava, mas já sem esperanças, pela seleção holandesa, que estava a ser derrotada. 

Na delegação portuguesa, havia dois técnicos, do nosso Ministério da Agricultura, que logo manifestaram, em voz alta, o seu contentamento com a vitória iminente da Argentina. Toda a sala olhou para eles, com um ar entre a acidez e o desprezo. A Holanda (já sei, hoje diz-se Países Baixos!) era uma pátria judaica; na Argentina haviam-se refugiado muitos nazis. A História, em Israel, fazia e faz parte do presente.

A Argentina ganhou, nesse fim de tarde, por 3-1. Por essa época, a ditadura militar argentina hiperbolizava os valores nacionais e sabe-se que cavalgou em seu favor a vitória no futebol. Tal como, menos de quatro anos depois, iria tentar fazer com a invasão militar das ilhas a que chamam Malvinas e que os britânicos, que aí reinam, designam por Falkland. Os ditadores militares de Buenos Aires não ganharam esse “jogo” e, pelo contrário, aí terão começado a perder o seu criminoso poder.

Ontem, a propósito do facto de eu ter escrito, num post, que os resultados de futebol, não me sendo indiferentes, não me mobilizavam emocionalmente por aí além, um leitor lembrou que o escritor Jorge Luís Borges terá tido uma reação, dias depois dessa vitória, num sentido que nada terá agradado ao regime dos generais. Fui à procura do que ele disse e descobri: “Parece-me muito estranho ouvir das pessoas frases como ‘vencemos a Holanda!’. Não conquistamos Roterdão nem Amsterdão, nem nada que fosse património dos holandeses. Simplesmente, 11 jogadores, um dos quais foi trazido expressamente da Espanha, ganharam a outros 11. Que importância pode isso ter?”

Borges não era cego, era um sábio.

A primeira impressão


Na constelação dos políticos americanos, Joe Biden nunca foi uma estrela. Os oito anos que passou na sombra de Barack Obama confirmaram dele a imagem de “nice guy” que tinha ganho no muito tempo passado no Senado, onde a sua afamada capacidade de diálogo com o lado republicano acabaria, no entanto, por não ser suficiente para evitar, nos últimos anos de mandato, a paralisia legislativa que veio a ofuscar uma das presidências mais promissoras da história contemporânea da América.

No plano externo, onde, por vezes, o papel dos vice-presidentes surge com algum relevo, Hillary Clinton e, depois, John Kerry acabaram por não lhe dar espaço para brilhar, embora a política externa fosse um domínio de ação onde alguma da sua experiência parlamentar anterior lhe tinha dado prestígio.

Poucos candidatos à presidência dos Estados Unidos, em tempos recentes, terão sido escolhidos com menor entusiasmo do que Joe Biden. Tido por um “gaffeur”, nada entusiasmante no discurso, a sua idade não era um fator, à partida, muito apelativo para um eleitorado democrático onde sobressaía uma agenda com laivos radicais. Embora Bernie Sanders não fosse muito mais novo, a sua postura enérgica disfarçava a idade.

Tudo indica que terá sido o sentimento tático de que, para o objetivo principal que era afastar Trump, a seleção de um candidato com imagem mais moderada e “presidencial”, com a vantagem potencial de poder colher simpatias num eleitorado conservador centrista, cansado dos exageros de Trump, que fez pender a balança para Biden. E os democratas estavam certos na sua aposta, como se viu. E logo houve quem dissesse que Biden era um presidente “a prazo”, que Kamala Harris, a sua vice-presidente, seria a verdadeira estrela da companhia, já na calha para a sucessão.

Biden, como se costuma dizer, “saiu melhor do que a encomenda”. Desde logo, montou uma equipa que surgiu com uma imagem muito profissional, com poucas vedetas mas com o que parece ser uma grande solidez. Não fez muitas concessões à ala mais esquerda na escolha dos nomes, mas mostrou uma abertura à diversidade que surpreendeu. Porém, mais importante do que isso, colocou no terreno uma agenda legislativa ousada e progressista, que deu já frutos no estímulo à economia, com impactos fortes na promoção do emprego. Embora com hesitações, em áreas muito sensíveis, como as questões da imigração, onde alguns gestos iniciais de generosidade foram sucedidos por recuos, o saldo das medidas propostas não deixa de ser muito interessante, embora o seu destino legislativo último continue incerto, atentas as dificuldades com que se defronta no Senado.

Mas é no plano externo que Biden hoje brilha. Foi firme face à China e Rússia, como todo o eleitorado americano quer, sossegou os aliados e parceiros, exaustos de Trump, face aos quais demonstra uma boa vontade não isenta de firmeza e vontade de liderança.

As expetativas face a Biden não eram elevadas. Partindo desse patamar, ele percebeu que não teria uma segunda oportunidade para criar uma primeira impressão. E essa está a ser excelente.

sábado, junho 19, 2021

Nós e o Cohen

Portugal tentou cantar Leonard Cohen. Ontem, Guterres ganhou na ONU. Hoje, queríamos ganhar à Alemanha. Lembram-se? “First we take Manhattan, then we take Berlin”. Era demasiado bom.

Confissão inconveniente

Posso confessar um segredo? Fico satisfeito quando a seleção (ou o meu clube) ganha. Desagrada-me ver a seleção (ou o meu clube) perder. Mas nem entro em euforia no primeiro caso, nem fico amargurado ou perco um minuto de sono no segundo. Isto é apenas um jogo, não é a vida. (O meu pedido de desculpas a quem não pensa assim).

As origens do fado


Não há nada de que um português goste mais do que dramatizar ao extremo os seus infortúnios. Ou como é que julgam que nasceu o fado?

Guterres

Há cinco anos, quando António Guterres tomou posse do cargo de secretário-geral da ONU, senti um imenso orgulho pela circunstância de alguém com quem tinha trabalhado de perto, cujas excecionais qualidades havia tido o ensejo de apreciar e admirar, ter ascendido à mais relevante posição no quadro multilateral mundial.

Fui um entusiasta dessa candidatura, por três básicas razões. 

A primeira é que acho que, salvo alguns momentos menos felizes, o Portugal democrático, nos seus diversos ciclos políticos, tem sabido ser fiel aos grandes princípios e valores que fazem parte do acervo civilizacional coletivo dos mundos a que o país decidiu pertencer, que a diplomacia permitida pela Revolução de Abril ajudou a construir. A chegada de um cidadão português àquele lugar de topo no sistema de regulação internacional, por evidente mérito e não por combinas de lóbis e jogos de poder, representava uma prestigiante consagração para Portugal e para a sua diplomacia.

A segunda razão tinha a ver com o próprio António Guterres. A política é uma atividade dura e, muitas vezes, injusta para os seus atores. Fiz parte, com grande orgulho, dos dois governos chefiados por António Guterres. No termo desse ciclo, dei-me conta de que a retribuição, no imaginário nacional, face ao esforço feito por António Guterres para contribuir para uma transformação serena e não confrontacional do país, havia sido escassa. Guterres provou depois, no excecional trabalho feito na área dos refugiados, a consistência de um pensamento solidário e de um elevado sentido de responsabilidade moral. A sua escolha, transparente e indiscutível, para as Nações Unidas, foi um corolário de justiça.

Finalmente, conhecendo um pouco das Nações Unidas, por lá ter trabalhado e por acompanhar com alguma atenção a sua evolução, mas igualmente por ser um “militante” do multilateralismo, achei que uma figura como António Guterres representava, à perfeição, aquilo de que a organização necessitava, em especial no tocante à sua adaptação às agendas de modernidade - menos retóricas e mais práticas - que lhe permitissem ganhar legitimidade e espaço de mobilização no seio das opiniões públicas.

A estas três razões positivas, somava-se uma preocupação: o risco de que uma evolução negativa dentro do país-chave para os sucessos ou insucessos da ONU, os Estados Unidos, pudesse vir fazer correr à organização estaria melhor protegido com alguém que lhe soubesse preservar os princípios e servisse de escudo ético a qualquer instrumentalização ou desvirtuamento. Isso aconteceu, com Trump. Guterres acabou por ser o líder da “resistência”.

Agora, o sentido aclamatório que acolheu a reeleição de Guterres prova o acerto da anterior decisão. Os sinais que chegam de Washington a Nova Iorque são positivos, embora a experiência nos deva tornar prudentes quanto a um excessivo otimismo. Se Biden vier a ser o que parece ser, com Guterres na chefia da ONU, não obstante um tempo turbulento que se aguarda no cenário confrontacional global, o mundo fica muito mais seguro.

sexta-feira, junho 18, 2021

A sorte de Biden


Quando se observa a conflitualidade que atravessa o Congresso americano, surgem dúvidas sobre se Joe Biden conseguirá concretizar a ambiciosa agenda legislativa que anunciou. Os dias que se vivem no Senado, bem como a linguagem crispada que teima em não abandonar o debate político, mostram a persistência de um entrincheiramento pronunciado, que quase não deu um “estado de graça” legislativo mínimo ao novo presidente.

No ambiente político que rodeiam Biden, destacam-se dois outros elementos, ligados entre si.

Desde logo, nota-se que o episódio da invasão do Capitólio, por muito traumático que possa ter sido para o campo republicano, não funcionou como um fator para a respetiva moderação, no sentido de um maior entendimento entre os campos adversários. Trump pagou, aliás, um preço surpreendentemente baixo, em termos de responsabilidade, por um incidente de que, à evidência, foi o principal incitador. O facto de ter conseguido eximir-se ao “impeachment” não deixa, neste contexto, de ter um forte significado.

Ficou desta forma demonstrado que não foi por acaso que Donald Trump obteve cerca de 70 milhões de votos, numas eleições cujos resultados, contra todas as evidências, ele conseguiu rodear de um manto de suspeições que, como sondagens posteriores revelam, contamina ainda, de forma continuada, um setor importante dos seus fiéis. A “verdade” de Trump permanece viva na crença de muita da sua gente. E é óbvio que, dentro do atual Congresso, bem como em todos os setores republicanos que se preparam para o sufrágio intercalar de 2022 (que, recordo, elegerá de novo todos os lugares na Câmara dos Representantes e um terço do Senado, como acontece a cada dois anos), este estado de espírito dos votantes trumpistas não deixará de ser considerado nas contas politicas das campanhas.

Quero com isto dizer que Joe Biden, por muito boa vontade que possa ter vindo a conquistar, com o seu estilo dialogante, disputa uma verdadeira corrida contra o tempo - e isto não é nenhuma ironia sobre a sua idade, circunstância que, no entanto, também não pode ser esquecida.

Com um Congresso hostil a medidas que, a serem aprovadas e a terem sucesso prático, fariam disparar a sua popularidade, o novo presidente tem ainda a difícil tarefa de ter de conciliar coisas que podem surgir como contraditórias. Por um lado, Biden tem necessidade de ser visto como protetor dos interesses nacionais na ordem externa, no que compete com um nacionalismo basicamente eficaz de Trump. Por outro, tem o imperativo de dar resposta a uma agenda progressista que, em larga medida, o ajudou a chegar à Casa Branca e perante a qual todos muitos democratas no poder serão julgados em 2022. Como se viu na sensível questão da imigração, nem sempre estas duas vertentes se conjugam com facilidade.

Uma coisa a história americana já nos ensinou: os presidentes dos Estados Unidos, quase sempre, ganham ou perdem o país essencialmente pelo estado da economia, pela confiança criada em termos de bem-estar, pelos índices de Wall Street e pelas taxas de desemprego.

Se a economia americana, nestes primeiros dois anos da nova presidência, conseguir dar um salto contrastante com o tempo deprimido do auge da pandemia, e se isso for visto como derivado das iniciativas de Biden, as hipóteses dos candidatos que o apoiam aumentam exponencialmente, com consequências nas eleições intercalares de 2022 e no Congresso que delas sairá. E isso reduziria as hipóteses de retorno a uma nova “onda Trump”, protagonizada pelo próprio ou por quem lhe assuma a herança.

Mas a história também demonstra, agora em prejuízo de Biden, que este tipo de eleições a meio do mandato raramente beneficiam o presidente em exercício.

Biden pode talvez pensar que, tendo sido um presidente que era tido por improvável há meia dúzia de anos, pode também vir a ser bafejado pela sorte e conseguir sustentar o vento que o levou à Casa Branca.

A minha neutralidade como comentador acaba aqui: gostava que ele tivesse essa sorte.

Encostado à parede


A posteridade singela de uma parede, num belo palácio de Viena, rodeado de amigos, acaba por ser um destino de memória bem simpático.

quinta-feira, junho 17, 2021

“A Arte da Guerra”


No programa “A Arte da Guerra” desta semana, falo com o jornalista António Freitas de Sousa sobre o papel de Joe Biden na reunião do G7, sobre o resultado das eleições presidenciais no Perú e fazemos uma antevisão das próximas eleições presidenciais no Irão.

Pode ver aqui.

quarta-feira, junho 16, 2021

Viena


Passaram quase duas décadas sobre o dia em que a vida fez com que eu tivesse vindo viver para Viena, por mais de dois anos. Disse “vindo” e não “ido”, porque aterrei há poucas horas em Viena, para uma tarefa diplomática pontual, para a qual fui convidado e que aceitei com muito gosto. E também escrevi que foi a “vida” que então me enviou para Viena porque, na realidade, não foi a minha vontade que determinou esse destino.

Mário Soares, no prefácio que teve a amizade de fazer para um livro que eu decidi publicar nesse ano, escreveu que “à quelque chose malheur est bon”. Na altura, devo dizer que não encontrei muitas razões para concordar com essa leitura, que tinha por excessivamente benévola, do conceito de que se pode sempre tirar algum partido de um azar, neste caso na forma de uma patifaria, que nos atinge. Mas ele, nisso como em muitas outras coisas, tinha razão.

A experiência que ganhei nos anos em que chefiei a representação portuguesa junto da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) foi-me extremamente útil para aprofundar a compreensão, não apenas do mundo pós-soviético, mas igualmente dos países dos Balcãs, que com ele tinha uma ligação óbvia.

Foi na OSCE que entendi melhor os traumas que os tempos da Guerra Fria tinham deixado, por exemplo, nos países bálticos e na Polónia. Foi aí que pressenti, de forma clara, aquilo em que a questão da Ucrânia poderia vir a converter-se. Percebi então os que significavam, estrategicamente, os “conflitos congelados”, bem como o destino, frequentemente trágico, de algumas das muito diversas realidades da Ásia Central e dos Cáucasos.

Só visitando pessoalmente todos esses países - e eu fi-lo, quase por completo, com cuidado e atenção -, falando com as pessoas, se apreendem realidades que nenhum estudo livresco no sofá ou num gabinete nos pode ensinar.

Foi também nos belos corredores do Hofburg, o palácio onde “mora” a OSCE, que pude detetar o progressivo fosso que se ia criando entre os países “a leste de Viena”, como se diz no “argot” da organização, e aqueles que se situam do “lado de cá”, geográfica e politicamente. Esse fosso é hoje quase uma trincheira, faltando-nos saber como é que, hoje, Putin e Biden se comportaram nessa “linha da frente”.

Fui para Viena, ido de Nova Iorque, precisamente um ano depois do 11 de setembro de 2001, depois de ver as torres gémeas do World Trade Center a cair na cidade onde eu vivia, a escassos quilómetros da minha casa.

Esses foram os tempos da luta comum contra o extremismo islâmico, uma “guerra” da qual ninguém com um mínimo de decência podia fugir. 

Mas esse foi também o período em que o revanchismo americano, depois de um ataque com legitimidade incontestável ao Afeganistão, aproveitou para gizar a aventura insana e trágica da invasão do Iraque, com Portugal a não ter então, nas Lajes, a sua hora mais brilhante e digna. “Et j’en passe”…

Foi também uma época em que a nova Rússia deu mostras de que a adesão ao paradigma democrático era apenas uma flor de retórica, em que o combate ao terrorismo foi interpretado por Moscovo como “carta branca” para ondas de repressão, como se viu na Chechénia e não só.

Mas deixemos a política.

Viena é uma bela cidade - e volto neste texto à vida que por aqui tive. Viena ajudou-me a perceber que saber dar a volta às coisas, ainda que à partida menos boas, que a vida inesperadamente nos traz, é uma arte difícil, mas possível.

terça-feira, junho 15, 2021

Francisco Mantero


Hoje, num almoço, alguém anunciou: “Morreu o Francisco Mantero!” Dei um salto na cadeira! Não terá sido a pandemia que o matou mas havia sido a pandemia que, há mais de um ano, tinha suspendido a aperiódica tertúlia almoçante “dos Franciscos” que ele, o Francisco Falcão Machado e eu mantínhamos, por sua iniciativa, há já alguns anos. 

Não vou por aqui desenvolver o currículo do Francisco Mantero, que o Google nos traz, com pormenor. Conheci-o melhor nos idos de 80, quando os dois trabalhámos, por alguns anos, na área da “cooperação para o desenvolvimento” - um tema que sempre muito nos mobilizou. Antes, tinhamo-nos já cruzado em Angola, num jantar na residência do António Pinto da França. 

O Francisco era um homem que dedicou grande parte da sua vida às questões africanas, em especial no setor empresarial. Ia muito a Paris, onde cooperava com a OCDE e onde nos vimos por mais de uma vez. Culto e muito bem preparado intelectualmente, com opiniões fortes, era um magnífico conversador, com histórias deliciosas, fruto de uma vida muito interessante. Quer o Francisco Falcão Machado quer eu apreciávamos, em especial, a leitura crítica que o Francisco Mantero fazia de certas figuras da nossa carreira diplomática, área que ele, por artes que nunca entendi, conhecia ao detalhe. 

Tenho muita pena de ter perdido a minha já longa amizade com o Francisco Mantero, a cuja família deixo os meus sentimentos. 

Agora, desafio o Francisco Falcão Machado para que nos encontremos num almoço, a dois, num tributo póstumo ao nosso amigo homónimo. O mundo está perigoso! 

Portugal é isto!

Gosto de ver uma seleção portuguesa com muita gente de cor, o que só acontece por alguém ter feito, no passado, as viagens que ajudaram a sermos o que hoje coletivamente somos. Nos dias que correm, não é politicamente correto dizer isto, nestes termos? “Je m’en fous”, como se diz em bom português!

segunda-feira, junho 14, 2021

Diplomacia é isto!

Ontem, suscitei, no Twitter, a questão de saber se um cidadão estrangeiro, que tivesse obtido a cidadania britânica, podia jogar por qualquer das seleção das quatro nações do Reino Unido (Inglaterra, Escócia, Gales ou Irlanda do Norte) que, em certas modalidades, dispõem de equipa própria.

Vários frequentadores do Twitter tiveram a amabilidade de comentar - uns com “bitaites”, outros com informação detalhada. Dentre estes últimos, com simpatia e eficiência, tive o grande gosto de contar com o próprio embaixador britânico em Portugal, Chris Sainty.

A diplomacia do Reino Unido foi das primeiras, em todo o mundo, a estimular e a promover a utilização das redes sociais pelos seus profissionais, como prática de “diplomacia pública”. Blogues e contas pessoais têm vindo a ajudar a passar a mensagem de Londres pelo mundo desde então.

Quem esteve atento ao tema, pôde apreciar o modo como as extensões externas do Foreign Office trabalharam - e imagina-se a dificuldade do exercício! - durante todo o complexo período do Brexit. O que aliás continuam a fazer, nos dias de hoje, sempre com imenso profissionalismo.

Da minha experiência de décadas, o serviço diplomático britânico é talvez a máquina mais competente do género, em todo o mundo. A sua tarefa torna-se ainda mais relevante quando o Reino Unido tem hoje que defender posições indefensáveis, como as que Boris Johnson hoje sustenta face à UE.

Mas as diplomacias existem precisamente para isso: para defender, o melhor que souberem e puderem, as posições sustentadas pelos governos legítimos dos seus países. Sob essa bandeira eterna, expressa de forma anglo-saxónica: “My country, right or wrong”. O meu abraço a Chris Sainty.




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Adeus, Holanda!


Ontem, muita gente terá achado estranho que o país a que sempre se habituou a chamar Holanda fosse insistentemente designado por Países Baixos, por ocasião do (excelente) jogo com a Ucrânia, para o Europeu de futebol.

Desde há muitos anos, contudo, que as duas designações coexistem pelo mundo. Na língua francesa, o nome “Pays-Bas” era corrente (Hollande era mais nome de político…) e “The Netherlands” é, desde sempre, uma expressão consagrada em inglês. Entre nós, contudo, talvez ainda tributários desse curioso e histórico livro “A Holanda”, de Ramalho Ortigão, e, mais recentemente, aculturados à escrita do “holandês” Rentes de Carvalho (leiam o seu, com quase quatro décadas, “Com os Holandeses”), o termo “Holanda” persiste fortemente dominante.

Em 2019, o governo “holandês” anunciou uma estratégia para promover o nome “Países Baixos” e fazer desaparecer, progressivamente, o nome “Holanda”. Isso começou com a Eurovisão e prosseguirá com os Jogos Olímpicos - e, desde já, com o Europeu de futebol.

A explicação oficial é que o nome “Holanda” se refere exclusivamente a duas das 12 províncias do país, pelo que há uma parte substancial do território que fica prejudicada na promoção externa que o país faz de si mesmo. Amesterdão, que está numa das “Holandas”, beneficiaria assim desmesuradamente desse antigo privilégio.

Há poucos países assim, capazes da coragem de mudarem a sua identidade face ao exterior. É uma “frieza” estranha, mas eu recordo-me que, nos anos 90, a “Holanda” já havia feito, através de uma revisão muito pragmática, um redirecionamento da sua política externa, com base num relatório cuja aprovação mudou vários aspetos da postura internacional do país. Sem o menor drama, aparentemente.

Os Países Baixos deixaram, entretanto, claro que o laranja continuará a ser a sua cor. Imagino que isso, por cá, agrade a alguns… A tulipa, foi anunciado, desaparecerá do logo promocional do país, mas já nada foi dito sobre os moínhos e as socas.

Reformadas tinham sido, desde há muito tempo, as moçoilas de crista na cabeça e saias longas, que enchiam o meu imaginário “holandês” até ao dia, no final dos anos 60, em que aportei, de mochila às costas, na praça Dam, em Amesterdão. Percebi então, pelo perfumado cheiro queimado que fazia a glória mundial da cidade, que a nova Holanda já estava muito distante dos tempos do Ramalho.

Uma dúvida se me coloca, mas deixo-a ao cuidado do Ciberdúvidas. Como passamos a chamar aos habitantes dos Países Baixos? “ Países baixotes”?

domingo, junho 13, 2021

Tempos


A bonança ainda parece distante, mas este fim de tarde, depois da tempestade, está soberbo.

Jornalismos

A conversa, moderada por Maria Flor Pedroso, reuniu no Clube dos Jornalistas três profissionais da área do jornalismo, ao final da tarde da ...