Foi há quase 43 anos. Chegámos a Jerusalém já um pouco tarde. A delegação portuguesa, naquele dia 25 de junho de 1978 (já perceberão porque tenho a data precisa), tinha ficado retida, por mais de uma hora, no aeroporto Ben Gurion, em Tel-Aviv, depois de ter vindo no voo de Roma. E tudo aquilo parecia ser por minha culpa.
O meu passaporte diplomático tinha carimbos de duas deslocações à Líbia, nos dois anos anteriores. As autoridades da fronteira “embirraram” com o assunto e quiseram saber o que me tinha levado a duas visitas, cada uma delas de mais de uma semana, àquele Estado que era seu arqui-inimigo. Lá tive de explicar, em conversas difíceis com gente das polícias (imagino que a Mossad tivesse alguém por ali) que, sendo o meu pelouro, no MNE, as relações económicas com os países do Magreb e do Mashrek (nome à época muito em voga, por importação da linguagem do Quai d’Orsay, para designar o Médio Oriente), era mais do que natural que por lá tivesse alguns vistos de países árabes antes visitados (aliás, não eram muitos). Era mais fácil de dizer do que ver compreendido.
A nossa delegação, chefiada pelo ministro da Agricultura, Luís Saias, que contava com um diplomata enviado pelo MNE para lhe resolver os problemas, acabava por ver complicada a sua chegada a Israel, logo “por causa” dessa pessoa…
Ultrapassado o imbróglio, imagino que comigo sob “observação” dos acompanhantes israelitas nos dias seguintes, lá fomos para Jerusalém, num autocarro. Ainda não havia, nesse tempo, aquelas “vans” de vidros fumados que hoje se usam muito, por ali e por quase todo o lado, por razões de segurança.
Chegámos ao hotel com parte do nosso grupo furiosa (comigo, imagino) por ir perder a transmissão da final do campeonato do mundo de futebol, entre a Holanda e a Argentina. De facto, quando entrámos e olhámos o aparelho de televisão (ainda não havia telões e era a preto e branco), sobre a qual se debruçava uma imensidão de gente, o jogo estava nos minutos finais.
O ambiente que ali se vivia foi uma lição política. Toda a gente, entre os quais alguns judeus americanos que nada deviam perceber de “soccer” (que nos dias seguinte vi trocarem no balcão ‘Israel Bonds’ por ‘cash’, como se fossem ‘traveller checks’), puxava, mas já sem esperanças, pela seleção holandesa, que estava a ser derrotada.
Na delegação portuguesa, havia dois técnicos, do nosso Ministério da Agricultura, que logo manifestaram, em voz alta, o seu contentamento com a vitória iminente da Argentina. Toda a sala olhou para eles, com um ar entre a acidez e o desprezo. A Holanda (já sei, hoje diz-se Países Baixos!) era uma pátria judaica; na Argentina haviam-se refugiado muitos nazis. A História, em Israel, fazia e faz parte do presente.
A Argentina ganhou, nesse fim de tarde, por 3-1. Por essa época, a ditadura militar argentina hiperbolizava os valores nacionais e sabe-se que cavalgou em seu favor a vitória no futebol. Tal como, menos de quatro anos depois, iria tentar fazer com a invasão militar das ilhas a que chamam Malvinas e que os britânicos, que aí reinam, designam por Falkland. Os ditadores militares de Buenos Aires não ganharam esse “jogo” e, pelo contrário, aí terão começado a perder o seu criminoso poder.
Ontem, a propósito do facto de eu ter escrito, num post, que os resultados de futebol, não me sendo indiferentes, não me mobilizavam emocionalmente por aí além, um leitor lembrou que o escritor Jorge Luís Borges terá tido uma reação, dias depois dessa vitória, num sentido que nada terá agradado ao regime dos generais. Fui à procura do que ele disse e descobri: “Parece-me muito estranho ouvir das pessoas frases como ‘vencemos a Holanda!’. Não conquistamos Roterdão nem Amsterdão, nem nada que fosse património dos holandeses. Simplesmente, 11 jogadores, um dos quais foi trazido expressamente da Espanha, ganharam a outros 11. Que importância pode isso ter?”
Borges não era cego, era um sábio.
