domingo, 20 de junho de 2021

O jogo e a vida. Uma história


Foi há quase 43 anos. Chegámos a Jerusalém já um pouco tarde. A delegação portuguesa, naquele dia 25 de junho de 1978 (já perceberão porque tenho a data precisa), tinha ficado retida, por mais de uma hora, no aeroporto Ben Gurion, em Tel-Aviv, depois de ter vindo no voo de Roma. E tudo aquilo parecia ser por minha culpa. 

O meu passaporte diplomático tinha carimbos de duas deslocações à Líbia, nos dois anos anteriores. As autoridades da fronteira “embirraram” com o assunto e quiseram saber o que me tinha levado a duas visitas, cada uma delas de mais de uma semana, àquele Estado que era seu arqui-inimigo. Lá tive de explicar, em conversas difíceis com gente das polícias (imagino que a Mossad tivesse alguém por ali) que, sendo o meu pelouro, no MNE, as relações económicas com os países do Magreb e do Mashrek (nome à época muito em voga, por importação da linguagem do Quai d’Orsay, para designar o Médio Oriente), era mais do que natural que por lá tivesse alguns vistos de países árabes antes visitados (aliás, não eram muitos). Era mais fácil de dizer do que ver compreendido.

A nossa delegação, chefiada pelo ministro da Agricultura, Luís Saias, que contava com um diplomata enviado pelo MNE para lhe resolver os problemas, acabava por ver complicada a sua chegada a Israel, logo “por causa” dessa pessoa… 

Ultrapassado o imbróglio, imagino que comigo sob “observação” dos acompanhantes israelitas nos dias seguintes, lá fomos para Jerusalém, num autocarro. Ainda não havia, nesse tempo, aquelas “vans” de vidros fumados que hoje se usam muito, por ali e por quase todo o lado, por razões de segurança.

Chegámos ao hotel com parte do nosso grupo furiosa (comigo, imagino) por ir perder a transmissão da final do campeonato do mundo de futebol, entre a Holanda e a Argentina. De facto, quando entrámos e olhámos o aparelho de televisão (ainda não havia telões e era a preto e branco), sobre a qual se debruçava uma imensidão de gente, o jogo estava nos minutos finais.

O ambiente que ali se vivia foi uma lição política. Toda a gente, entre os quais alguns judeus americanos que nada deviam perceber de “soccer” (que nos dias seguinte vi trocarem no balcão ‘Israel Bonds’ por ‘cash’, como se fossem ‘traveller checks’), puxava, mas já sem esperanças, pela seleção holandesa, que estava a ser derrotada. 

Na delegação portuguesa, havia dois técnicos, do nosso Ministério da Agricultura, que logo manifestaram, em voz alta, o seu contentamento com a vitória iminente da Argentina. Toda a sala olhou para eles, com um ar entre a acidez e o desprezo. A Holanda (já sei, hoje diz-se Países Baixos!) era uma pátria judaica; na Argentina haviam-se refugiado muitos nazis. A História, em Israel, fazia e faz parte do presente.

A Argentina ganhou, nesse fim de tarde, por 3-1. Por essa época, a ditadura militar argentina hiperbolizava os valores nacionais e sabe-se que cavalgou em seu favor a vitória no futebol. Tal como, menos de quatro anos depois, iria tentar fazer com a invasão militar das ilhas a que chamam Malvinas e que os britânicos, que aí reinam, designam por Falkland. Os ditadores militares de Buenos Aires não ganharam esse “jogo” e, pelo contrário, aí terão começado a perder o seu criminoso poder.

Ontem, a propósito do facto de eu ter escrito, num post, que os resultados de futebol, não me sendo indiferentes, não me mobilizavam emocionalmente por aí além, um leitor lembrou que o escritor Jorge Luís Borges terá tido uma reação, dias depois dessa vitória, num sentido que nada terá agradado ao regime dos generais. Fui à procura do que ele disse e descobri: “Parece-me muito estranho ouvir das pessoas frases como ‘vencemos a Holanda!’. Não conquistamos Roterdão nem Amsterdão, nem nada que fosse património dos holandeses. Simplesmente, 11 jogadores, um dos quais foi trazido expressamente da Espanha, ganharam a outros 11. Que importância pode isso ter?”

Borges não era cego, era um sábio.

13 comentários:

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

Grande José Luís Borges! Adorei essa citação.

Unknown disse...

Por todo o lado, no dia a dia, melhor, jogo a jogo, é vulgar ouvirmos, quando a equipa do adepto ganhou, um ufano "ganhámos"; e quando a equipa perdeu, um desprezível "perderam"...
MB

Lúcio Ferro disse...

O futebol é uma praga, está para os tempos atuais tal como o que Marx dizia da religião no século XIX. O futebol é o ópio do povo, um caldo cultural que favorece a corrupção e a promiscuidade entre políticos e dirigentes de clubes e de organizações do futebol. Uma mafia, que conta também com o mercado de apostas milionário do sudoeste asiático. Promove ainda o ideal liberal de que qualquer um pode ser um ronaldo ou um messi, quando sabemos que isso é falso. Promove e paga a peso de ouro uns rapazes simpátícos que pouco mais sabem fazer do que dar uns pontapés numa bola e promove toda uma casta de indivíduos pouco recomendáveis, de empresários a comentadeiros, todos a comer da grande mesa do futebol. O futebol favorece ainda a imbecilização das pessoas no seu todo, apelando a sentimentos e formas de ver a realidade primários e tribais, até irracionais. Trata-se de um jogo relativamente enfadonho, que por vezes tem momentos de arte, como o golo de Mario Kempes nessa final de 1978, que eu, menino, vi em Viana do Castelo, também a preto e branco. Uma ligeira correcção ao texto, Sr. Embaixador: são as Falklands e não Falkland.

josé ricardo disse...

Bandeirinhas nas antenas dos carros, bandeirinhas nas varandas, grelhas de canais de televisão de notícias alteradas sem qualquer respeito pelos consumidores que pagam, mensalmente, um serviço, diretos incansáveis dos hotéis onde os jogadores pernoitam, debates infindáveis com "especialistas" da bola, uma coisa chamada ERC sem qualquer autoridade de regulação, Presidente da República a apelar ao grande povo português para estar focado na seleção nacional de futebol...
Repito e repetirei: não é deste modo que nos valorizamos enquanto país. Uma coisa são os adeptos gostarem de futebol, serem fanáticos por futebol; outra coisa, bem diferente, são as televisões (e os jornais e as rádios) lamentavelmente desregradas a servir, languidamente, o futebol. Não gosto e, de certo modo, sinto, patrioticamente, vergonha. Basta olharmos para os outros países: nada é igual ao que se passa em Portugal. Há também adeptos que adoram futebol, que percorrem milhares de quilómetros de bicicleta para ver a seleção, mais isto e mais aquilo. Mas o que não se vê é a futebolização da sociedade, a começar pelos órgãos de comunicação social.
Parece de somenos importância, mas são estas "pequenas" coisas que nos definem enquanto país e enquanto povo. O futebol é, talvez, a atividade que melhor nos define - ou que nos ajuda a definir - cultural e mentalmente. É o espelho mais pragmático da nossa heterogeneidade regional, geográfica e do nosso próprio atraso cultural.
Um exemplo. há algum país da Europa onde três clubes açambarcam noventa e tal por cento dos adeptos? Não há!

caramelo disse...

Pelo contrário, não me parece que o Borges tenha percebido alguma coisa da importância do futebol, goste-se, ou não, dessa importância. É apenas o habitual e mais corriqueiro "são apenas 22 homens a correr atrás de uma bola", só que dito por um escritor famoso. Não vejo aí grande sabedoria sobre a realidade das coisas do mundo. Já houve até uma guerra por causa de um jogo de futebol.

Francisco Seixas da Costa disse...

Está enganado, Lúcio Ferro. Diz-se as “Ilhas Falkland” https://en.wikipedia.org/wiki/Falkland_Islands

José disse...

Ou seja, para o Borges, bonito mesmo seria um ato de guerra contra os Holandeses? Uma conquista territorial? Isso, sim, seria motivo de orgulho? A aventura nas Malvinas encher-lhe-ia o coração de alegria?

Desprezar a pacífica alegria coletiva trazida pelo futebol e menorizando-a perante a guerra, não é nada de sábio mas sim algo profundamente estúpido e, até, doentio.

Pedro Sousa Ribeiro disse...

De acordo com os comentários anteriores de Lúcio Ferro e José Ricardo.
E pior ainda, o futebol em Portugal ofusca todas as outras modalidades desportivas e impede o desenvolvimento desportivo equilibrado e saudável. Basta olhar para as estatísticas de atividade desportiva nos países da União Europeia e ver o nosso atraso.

Luís Lavoura disse...

A Holanda (já sei, hoje diz-se Países Baixos!) era uma pátria judaica; na Argentina haviam-se refugiado muitos nazis.

Curiosos pontos de vista. Há judeus em todo o mundo; em particular, há judeus argentinos (a família Barenboim, por exemplo). E é claro que há judeus holandeses, mas penso que não houvesse muito mais judeus na Holanda do que na França ou na Alemanha; não me parece que a Holanda fosse uma especial pátria judaica. Pátrias judaicas eram a Polónia e a Bielorrússia.

Lúcio Ferro disse...

Aceito o seu ponto, Sr. Embaixador, mas ainda assim é discutível, visto tratar-se de um arquipélago. Ver: https://en.wikipedia.org/wiki/Falklands_War

Francisco Seixas da Costa disse...

O “ponto” não é meu. É a designação oficial britânica de sempre.

Portugalredecouvertes disse...

Também se lê na Wikipedia que:

"...O nome anglófono do arquipélago, Falkland, foi inspirado pelo "Falkland Sound" (em castelhano: Canal de San Carlos), o estreito que separa as duas ilhas principais do arquipélago.[5] O nome "Falkland" foi dado ao canal por John Strong, capitão de uma expedição inglesa que desembarcou nas ilhas em 1690. Strong nomeou o estreito em homenagem a Anthony Cary, 5º visconde de Falkland, o tesoureiro da marinha que patrocinou a viagem.[6] Seu título de visconde tem origem na cidade de Falkland, Escócia, cujo nome vem de folkland (terra submetida ao direito-folk).[7] O nome não foi aplicado às ilhas até 1765, quando o capitão britânico John Byron, da Marinha Real, reivindicou-as para o rei Jorge III como "Ilhas de Falkland". O termo "Falklands" é uma abreviatura padrão usada para se referir ao arquipélago..."

"...Segundo a versão histórica contada pela Argentina defende que o navegador português Fernão de Magalhães é o descobridor da ilha..."

maitemachado59 disse...

Luis Lavoura:

Fo para a Holanda que foram muitos doss Safardim que D> Manuel expulsou de Portugal. Se dai paryiram para outro sitio, nao sei.

Em todo o caso, a Holanda (ou Paises Baixos) sempre foi um pais acolhedor de perseguidos, por exemplo, os Calvinistas.

maitemachado59