Ontem, muita gente terá achado estranho que o país a que sempre se habituou a chamar Holanda fosse insistentemente designado por Países Baixos, por ocasião do (excelente) jogo com a Ucrânia, para o Europeu de futebol.
Desde há muitos anos, contudo, que as duas designações coexistem pelo mundo. Na língua francesa, o nome “Pays-Bas” era corrente (Hollande era mais nome de político…) e “The Netherlands” é, desde sempre, uma expressão consagrada em inglês. Entre nós, contudo, talvez ainda tributários desse curioso e histórico livro “A Holanda”, de Ramalho Ortigão, e, mais recentemente, aculturados à escrita do “holandês” Rentes de Carvalho (leiam o seu, com quase quatro décadas, “Com os Holandeses”), o termo “Holanda” persiste fortemente dominante.
Em 2019, o governo “holandês” anunciou uma estratégia para promover o nome “Países Baixos” e fazer desaparecer, progressivamente, o nome “Holanda”. Isso começou com a Eurovisão e prosseguirá com os Jogos Olímpicos - e, desde já, com o Europeu de futebol.
A explicação oficial é que o nome “Holanda” se refere exclusivamente a duas das 12 províncias do país, pelo que há uma parte substancial do território que fica prejudicada na promoção externa que o país faz de si mesmo. Amesterdão, que está numa das “Holandas”, beneficiaria assim desmesuradamente desse antigo privilégio.
Há poucos países assim, capazes da coragem de mudarem a sua identidade face ao exterior. É uma “frieza” estranha, mas eu recordo-me que, nos anos 90, a “Holanda” já havia feito, através de uma revisão muito pragmática, um redirecionamento da sua política externa, com base num relatório cuja aprovação mudou vários aspetos da postura internacional do país. Sem o menor drama, aparentemente.
Os Países Baixos deixaram, entretanto, claro que o laranja continuará a ser a sua cor. Imagino que isso, por cá, agrade a alguns… A tulipa, foi anunciado, desaparecerá do logo promocional do país, mas já nada foi dito sobre os moínhos e as socas.
Reformadas tinham sido, desde há muito tempo, as moçoilas de crista na cabeça e saias longas, que enchiam o meu imaginário “holandês” até ao dia, no final dos anos 60, em que aportei, de mochila às costas, na praça Dam, em Amesterdão. Percebi então, pelo perfumado cheiro queimado que fazia a glória mundial da cidade, que a nova Holanda já estava muito distante dos tempos do Ramalho.
Uma dúvida se me coloca, mas deixo-a ao cuidado do Ciberdúvidas. Como passamos a chamar aos habitantes dos Países Baixos? “ Países baixotes”?
