quarta-feira, 16 de junho de 2021

Viena


Passaram quase duas décadas sobre o dia em que a vida fez com que eu tivesse vindo viver para Viena, por mais de dois anos. Disse “vindo” e não “ido”, porque aterrei há poucas horas em Viena, para uma tarefa diplomática pontual, para a qual fui convidado e que aceitei com muito gosto. E também escrevi que foi a “vida” que então me enviou para Viena porque, na realidade, não foi a minha vontade que determinou esse destino.

Mário Soares, no prefácio que teve a amizade de fazer para um livro que eu decidi publicar nesse ano, escreveu que “à quelque chose malheur est bon”. Na altura, devo dizer que não encontrei muitas razões para concordar com essa leitura, que tinha por excessivamente benévola, do conceito de que se pode sempre tirar algum partido de um azar, neste caso na forma de uma patifaria, que nos atinge. Mas ele, nisso como em muitas outras coisas, tinha razão.

A experiência que ganhei nos anos em que chefiei a representação portuguesa junto da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) foi-me extremamente útil para aprofundar a compreensão, não apenas do mundo pós-soviético, mas igualmente dos países dos Balcãs, que com ele tinha uma ligação óbvia.

Foi na OSCE que entendi melhor os traumas que os tempos da Guerra Fria tinham deixado, por exemplo, nos países bálticos e na Polónia. Foi aí que pressenti, de forma clara, aquilo em que a questão da Ucrânia poderia vir a converter-se. Percebi então os que significavam, estrategicamente, os “conflitos congelados”, bem como o destino, frequentemente trágico, de algumas das muito diversas realidades da Ásia Central e dos Cáucasos.

Só visitando pessoalmente todos esses países - e eu fi-lo, quase por completo, com cuidado e atenção -, falando com as pessoas, se apreendem realidades que nenhum estudo livresco no sofá ou num gabinete nos pode ensinar.

Foi também nos belos corredores do Hofburg, o palácio onde “mora” a OSCE, que pude detetar o progressivo fosso que se ia criando entre os países “a leste de Viena”, como se diz no “argot” da organização, e aqueles que se situam do “lado de cá”, geográfica e politicamente. Esse fosso é hoje quase uma trincheira, faltando-nos saber como é que, hoje, Putin e Biden se comportaram nessa “linha da frente”.

Fui para Viena, ido de Nova Iorque, precisamente um ano depois do 11 de setembro de 2001, depois de ver as torres gémeas do World Trade Center a cair na cidade onde eu vivia, a escassos quilómetros da minha casa.

Esses foram os tempos da luta comum contra o extremismo islâmico, uma “guerra” da qual ninguém com um mínimo de decência podia fugir. 

Mas esse foi também o período em que o revanchismo americano, depois de um ataque com legitimidade incontestável ao Afeganistão, aproveitou para gizar a aventura insana e trágica da invasão do Iraque, com Portugal a não ter então, nas Lajes, a sua hora mais brilhante e digna. “Et j’en passe”…

Foi também uma época em que a nova Rússia deu mostras de que a adesão ao paradigma democrático era apenas uma flor de retórica, em que o combate ao terrorismo foi interpretado por Moscovo como “carta branca” para ondas de repressão, como se viu na Chechénia e não só.

Mas deixemos a política.

Viena é uma bela cidade - e volto neste texto à vida que por aqui tive. Viena ajudou-me a perceber que saber dar a volta às coisas, ainda que à partida menos boas, que a vida inesperadamente nos traz, é uma arte difícil, mas possível.

5 comentários:

Luís Lavoura disse...

o progressivo fosso que se ia criando entre os países “a leste de Viena”, como se diz no “argot” da organização, e aqueles que se situam do “lado de cá”, geográfica e politicamente

Duas notas contraditórias:

(1) Isto não é bem assim. Os países a leste de Viena fizeram outrora parte do Império Austro-Húngaro, o qual deixou saudades. Ainda hoje a Áustria faz parte de muitos grupos comuns com a Chéquia, a Hungria e, até, a Croácia. São países ainda hoje com grandes afinidades e sentimentos comuns.

(2) O fosso não se criou recentemente, ele existe desde há séculos. Já Metternich dizia que a Europa terminava numa certa avenida de Viena que se dirige para leste. O conceito de "Europa de Leste" já existe desde o século 19, quiçá antes disso. Sempre houve a noção de que os países a leste de Viena são uma realidade distinta da do resto da Europa.

Luís Lavoura disse...

o combate ao terrorismo foi interpretado por Moscovo como “carta branca” para ondas de repressão, como se viu na Chechénia e não só

Os Estados Unidos fizeram exatamente o mesmo. No Afeganistão e no Iraque os Estados Unidos interpretaram o combate ao terrorismo como dando-lhes carta branca para toda a sorte de repressão sobre populações civis.

Flor disse...

"Viena ajudou-me a perceber que saber dar a volta às coisas, ainda que à partida menos boas, que a vida inesperadamente nos traz, é uma arte difícil, mas possível." Penso da mesma maneira.
Boa viagem de regresso :)

AV disse...

Viena é uma bela cidade, sim, pela arquitetura, pelos museus, pela música, pela sua infraestrutura, e especialmente, pela correção - e algum calor - dos seus cidadãos.
Por isso, acredito que possa ter sido redentora, apesar da injustiça que tenha sentido por ter que saír do posto anterior. Há males que vêm por bem.

Francisco Seixas da Costa disse...

Luis Lavoura. O conceito de países “a Leste de Viena” e a “Oeste de Viena” não é aqui usado no contexto que referiu. Nos primeiros está o Casaquistão ou a Arménia, nos segundos o Canadá ou Portugal.