domingo, abril 18, 2021

Lema

Recordei hoje um belo lema de um amigo que sofreu na pele a ditadura: um punho fechado - seja ele qual for - é sempre mais honrado do que uma mão aberta num braço estendido.

sábado, abril 17, 2021

“Observare”


Mais um programa “Observare” onde, desta vez, falamos das tensões em torno da Ucrânia, nos sinais que os Estados Unidos crescentemente enviam para a Ásia e no reacender de alguma conflitualidade na Irlanda do Norte, desta vez provocada por um efeito colateral do Brexit. Eu refiro mais um episódio do dissídio histórico entre a França e a Argélia e da comemoração dos 60 anos da ida do primeiro cosmonauta ao espaço, o russo Iuri Gagarine. 

Pode ver aqui:

Memória asiática


Em 1976, fui colocado na “repartição” da África, Ásia e Oceania, da direção-geral dos Negócios Económicos do MNE. 

Ali nos chegavam então, na “mala diplomática” quinzenal, oriundos do nosso consulado-geral de Hong Kong, uns “ofícios” que traziam, em anexo agrafado, recortes de um importante jornal do enclave, o “South China Morning Post”, dedicados a temas económicos.

Líamos aquilo e davamos-lhes, também através de ofícios que tinham de ser assinados pelo nosso diretor-geral, o destino adequado. Os recortes seguiam para os “ministérios sectoriais” (é assim que, nas Necessidades, se tratava, com óbvia sobranceria, o “resto” da nossa Administração Pública - e espero que este bom hábito se não tenha perdido), que o “despacho” do chefe de repartição (tivemos um chefe que “despachava” a lápis, confessando que era para poder emendar mais tarde, se se enganasse...) ou o nosso jovem bom senso determinasse.

Os ofícios de Hong Kong eram assinados por Francisco Manuel dos Reis Caldeira, o cônsul-geral, nome dactilografado no fundo da página, a que se sobrepunha uma assinatura que sempre qualifiquei de “gesticulada”, porque alguns dos extremos do grafismo manuscrito subiam pelo teor do texto, personalizando-o de uma forma que era considerada ímpar na casa. 

Um dia, nesse idos da segunda metade dos anos 70, entrou-nos na sala uma figura baixa, de cabeça levantada, olhar grave, na casa dos quarenta, com uma postura bem afirmativa. Deu dois passos, estacou e sob a atenção coletiva, olhou para o fundo, para a secretária que ficava entre as duas janelas que davam para o pátio central do palácio das Necessidades e, apontando, disse, com voz forte, ao funcionário que aí tomava assento: “Esse lugar já foi meu!”. 

O jovem diplomata que aí oficiava - que, por acaso, era eu - percebeu que estava perante um colega mais velho que ali vinha em missão de memória saudosa. E, porque as regras então eram outras, levantou-se e saudou-o. 

O Reis Caldeira, porque é dele que estamos a falar, deve ter então cumprimentado o resto da trupe que ocupava o espaço: a única beleza da sala, a Ivone de Carvalho, o Mário Santos, o Ribeiro Gomes (tenho tantas saudades do sorriso aberto do Ribeiro Gomes!) e, com escassa probabilidade, o “Ina” Amaral Neto, que raramente nos dava o privilégio da sua companhia, até que um dia se deixou daquilo e rumou aos negócios, onde sei que é feliz.

A figura do Reis Caldeira, que comigo coincidia (e isso era tudo aquilo em que coincidia) em ser oriundo do ISCSPU (com “U”), chamar-se Francisco Manuel e ter uma mulher assistente social, era a tal pessoa que nos remetia, pela “mala”, os famosos recortes do “South China Morning Post”. Ficámos, finalmente, a conhecê-lo! 

Confesso que perdi de atenção o futuro profissional do Reis Caldeira. O facto de, mais tarde, ter publicado um livro com o título “O mito do saneamento ou a contra-revolução silenciosa”, sobre as intrigas internas do MNE, assinado “Francisco dos Reis Sapim”, acabou, sem surpresas, por não se constituir como um “boost” para o resto do seu percurso profissional.

Hoje, deu-me para recordar o Reis Caldeira, os seus ofícios de Hong Kong, graficamente tão expressivos na sua assinatura, que “capeavam” (que bela que era a linguagem burocrática do antanho) os recortes do “South China Morning Post”.

Mas por que diabo estará este tipo a falar tanto daquele jornal? Ora essa!? Porque acabo de dar uma entrevista que me foi pedida pelo “South China Morning Post”. Se isto não é uma razão, não sei o que será!

Veja a capa


Estou seguro que os amigos brasileiros que aqui me seguem concordarão comigo que o facto da revista Veja publicar uma capa como esta tem um forte significado. E julgo que mais não preciso de dizer.

Presidências europeias - uma realidade mutante


Já foi editado o Anuário Janus 2020/2021

Nele publico um artigo sobre as Presidências da União Europeia, cujo texto pode ser lido aqui.

sexta-feira, abril 16, 2021

O meu candidato

Hesitei em escrever sobre a caricata situação protocolar que envolveu a presidente da Comissão Europeia e o presidente do Conselho Europeu, durante a visita conjunta que fizeram a Ancara. Mas vou fazê-lo, para aproveitar para uma declaração pessoal de interesses.

O incidente é conhecido. Em face da oferta pelo presidente turco de uma única cadeira para a representação da União Europeia que ambos ali titulavam, na reunião que iam ter, restando uns sofás e quiçá umas otomanas suplementares, assistiu-se a um espetáculo pouco dignificante: Charles Michel, presidente do Conselho Europeu, sentou-se logo ao lado de Erdogan, na cadeira do convidado. Ursula Van Der Leyen, depois de emitir uma interjeição de surpresa, foi obrigada a ir para um sofá, numa posição claramente secundária.

Gostava de começar por uma clarificação: é completamente sem sentido, relevando de uma pura ignorância, a ideia de que, por uma questão de etiqueta e simpatia, Michel deveria ter cedido o lugar a Van Der Leyen, por se tratar de uma senhora. A questão não é essa, longe disso. Se Van Der Leyen se tivesse sentado na cadeira, obrigando Michel a ir para o sofá, o caso era precisamente igual.

A União Europeia, pelo Tratado de Lisboa, criou uma bicefalia no seu topo. Para além da pessoa que preside à Comissão Europeia, foi nessa altura decidido eleger uma personalidade para presidir às reuniões de chefes de Estado e de governo, os Conselhos Europeus, dando uma maior continuidade a essa função, assim evitando a rotação semestral. No fundo, era uma resposta à clássica queixa irónica, feita um dia por Henry Kissinger, que afirmava não saber qual era, afinal, o ”número de telefone” da Europa. Passou a ter dois.

As “vítimas” dessa decisão, tomada pelos “tratantes” do Tratado de Lisboa, foram precisamente os chefes de Estado e governo, que deixaram de presidir a quaisquer reuniões. Ao contrário de Cavaco Silva em 1992, de António Guterres em 2000 e de José Sócrates em 2007, nos dias de hoje António Costa não chefia nenhuma reunião dos seus colegas, durante a presidência portuguesa da União Europeia. É o belga (valão) Charles Michel que, tal como já acontecera com o também belga (mas flamengo) Van Rompoy e o polaco Donald Tusk, cada um por dois anos e meio, renováveis, exerce hoje essa função. 

Como antes referi, ao lado desse presidente do Conselho Europeu existe, como sempre existiu, um presidente da Comissão Europeia, neste caso uma mulher. A regra - repito, isto não tem a menor discussão - é que não existe qualquer hierarquia entre os dois. Por exemplo, quando à União Europeia foi atribuído o Prémio Nobel da Paz, o galardão foi entregue simultaneamente a Durão Barroso, então presidente da Comissão, e a Van Rompoy. A equidade protocolar dos dois é indiscutível. E espero que ninguém se lembre de falar do presidente do Parlamento Europeu, que não é chamado para este assunto.

O que se passou em Ancara representou, por parte de Charles Michel, não um deselegante gesto de descortesia perante uma senhora: foi um gesto político, profundamente errado, ao ter-se arrogado uma preeminência hierárquica sobre a presidente da Comissão Europeia. Alguém vir argumentar com erros de protocolo ou com o desprezo dos turcos pelas mulheres é uma perfeita idiotice. Michel, ao ver a cena montada, com apenas uma cadeira para a União Europeia, deveria, pura e simplesmente, ter-se recusado a ocupar essa mesma cadeira sem que ali fosse colocada outra, perfeitamente idêntica, para Van Der Leyen.

Se Charles Michel já vinha a ser considerado, há bastante tempo, o mais incompetente dos três presidentes permanentes que o Conselho Europeu teve até hoje, a cena de Ancara não lhe trouxe um grão mais de popularidade. Bem pelo contrário: ao titular este erro político afastou as possibilidades, que já eram residuais por razões de equilíbrios partidários, de poder vir a ser reconduzido.

Ora eu, depois de tudo o que atrás disse sobre a incompetência de Michel, gostaria imenso que Charles Michel continuasse no cargo: era ele o meu candidato preferido. Porquê? Não digo. Ou melhor, só digo que é por razões estritamente luso-portuguesas...

quinta-feira, abril 15, 2021

“A Arte da Guerra”


As tensões intracomunidades na Irlanda, o crescendo de preocupações em torno da estabilidade da Ucrânia  e a reiteração do compromisso americano quanto a Israel fazem parte da conversa havida esta semana com António Freitas de Sousa no “A Arte da Guerra”, na plataforma multimedia do “ Económico”.

Pode ver aqui.

quarta-feira, abril 14, 2021

Shirley Williams


”A quem é que interessa que morreu Shirley Williams?” Coloquei a pergunta a mim mesmo, claro, antes de iniciar este texto, na certeza de que haverá gente que por aqui passa que hesitará entre duas questões: “Mas quem será a senhora?”

Outros, mais cruéis, repetirão o que andam a pensar há muito: “Este tipo está a transformar a sua página do Facebook numa espécie de obituário”.

Neste caso, haverá talvez uma terceira e mais sofisticada “raça”, constituída pelos que pensarão: “Vá lá! Depois de ter falado ontem do Soares Martinez, ao menos que se lembre da Shirley Williams!” Tentarei, prometo, fazer ”a long story short”.

A baronesa Williams, porque era isso que ela era até ontem, como “life peer” (membro da Câmara dos Lordes apenas para o período da sua vida, ”nobilitada” pela rainha e não por ter tido avoengos recompensados com um título hereditário por um rei que ajudaram à espadeirada) foi uma figura interessante, embora não de topo, na vida política britânica.

Ministra trabalhista na transição dos anos 60 para 70, em governos de Harold Wilson e James Callaghan, pertenceu sempre à ala mais conservadora. Quando a liderança “labour” se começou a esquerdizar, sob a liderança de Michael Foot, Williams e mais quatro figuras dessa “direita” trabalhista titularam uma cisão, em 1981, e criaram o SDP, o Partido Social-Democrata.

Foram acompanhados por um grupo de outros deputados trabalhistas (e até de um deputado conservador), mas o SDP, esmagado pela bipolarização a que o sistema maioritário britânico quase obriga, acabou por ter um sucesso eleitoral muito inferior à importância mediática que acabaria por ter. Uns anos depois, em 1988, o partido veio a fundir-se com uma formação histórica da política britânica, o Partido Liberal, vindo a criar, em 1988, o Partido Liberal-Democrata.

Vale a pena recordar quem eram os três parceiros de Shirley Williams na aventura cisionista: Roy Jenkins, que tinha sido presidente da Comissão Europeia, David Owen, ex-MNE britânico, e William Rodgers, várias vezes ministro.

De comum, e não era pouco, estas quatro figuras alimentavam um forte europeísmo e opunham-se a uma deriva desarmamentista unilateral que, à época, marcava o debate no Reino Unido e fazia escola no seio do seu trabalhismo mais radical.

O grupo ficou conhecido como o “Bando dos Quatro” (na fotografia). O nome advinha, por graça, de quatro figuras políticas chinesas que haviam tido a falta de senso de conspirar contra o poder conjuntural, o que, lá por Pequim, fez com que a sua esperança média de vida útil tivesse sido reduzida de forma abrupta.

Shirley Williams tornou-se, com os anos, uma figura com frequente presença nas televisões e em debates. Tive o gosto de participar, a seu lado, num painel organizado em Brighton, no final dos anos 90, sobre temas europeus. Pode dizer-se que, em termos dos equilíbrios da vida interna do Partido Trabalhista, acabou por ser uma “blairista” bastante antes do tempo.

Morreu agora, com uns respeitáveis 90 anos.

terça-feira, abril 13, 2021

Aviso sério!


Ler pode causar danos irreparáveis à sua ignorância! 

Martinez


Há quatro anos, no Chiado, tirei esta fotografia. A figura retratada é Pedro Soares Martinez, a olhar a montra lateral da Bertrand.

Martinez foi ministro da Saúde de Salazar e morreu agora, aos 98 anos. Durante muito tempo, via-o, com relativa frequência, a almoçar no Círculo Eça de Queiroz, onde ambos éramos sócios. E vislumbrei-o, várias vezes, em restaurantes.

Martinez foi um académico prestigiado de Direito. Fiel defensor da memória do regime que serviu, monárquico por convicção, foi uma figura polémica na vida universitária portuguesa, ao ter sido responsável por políticas repressivas da atividade associativa dos estudantes. Não veio a ter vida fácil no 25 de abril, mas a democracia passou depois um pano sobre tudo isso, com a generosidade que a ditadura, com a naturalidade que lhe estava nos genes, antes não tivera para com os seus adversários.

Não menos polémica era, igualmente, e durante bastantes anos, a forma como se processava a participação de Soares Martinez nos júris dos concursos de acesso à carreira diplomática. Assumindo que afirmo isto com base em testemunhos que colhi de várias pessoas, cujo critério de apreciação tem um grau de subjetividade que há que ter em conta, era voz corrente nas Necessidades que Martinez conduzia as suas temíveis provas orais de uma forma que lhe permitia detetar a orientação política dos candidatos. E que isso poderá não ter deixado de ter as suas consequências na seleção do pessoal diplomático desse tempo - isto é, repito, durante a ditadura.

Com a morte de Martinez (nascido em 1925), restam apenas três ministros que serviram em governos de Salazar: João Dias Rosas (n. 1921), ministro das Finanças (1968/72), Adriano Moreira (n. 1922), ministro do Ultramar (1961/63), e Mário Júlio de Almeida Costa (n. 1927), ministro da Justiça (1967/73).

Desconfiamento

Por que será que, por esta altura deste novo desconfinamento, não consigo dizer, com um mínimo de convicção, nem sequer intimamente, que “vai ficar tudo bem”? Acho que entrei na fase do “desconfiamento”.

Alô!

Digam-me uma coisa: também lhes acontece, cada vez mais, verem as vossas chamadas telefónicas interrompidas, tendo de as recomeçar? E demorar uma “eternidade” entre o momento em que clicamos o número e o início do som de chanada do outro lado?

É que, se bem me lembro, há não muito tempo, isso raramente ocorria. Alguém tem uma explicação para isto?

“E se todo o mundo é composto de mudança...”

A graça da vida depende muito da capacidade que tenhamos em nos confrontarmos, com naturalidade, com a mudança. Em fins de janeiro, lancei-me num novo e regular trabalho, exigente mas divertido e muito estimulante. Há dias, dei por terminada uma tarefa que, também com regularidade, tinha iniciado há seis anos, que me deu muito prazer, mas que chegou ao seu fim natural. Há menos de um mês, meti-me numa nova e leve “aventura” para a qual fui desafiado e de que estou a gostar bastante. Precisamente no dia de hoje, encerrei formalmente, naquele que foi o fim natural de um ciclo, uma relevante tarefa profissional em que me envolvi, com entusiasmo, há mais de cinco anos. Daqui a poucos dias, vou recomeçar a dar aulas, embora por um tempo limitado, numa universidade, a mesma onde, desde o segundo semestre do ano passado, estou envolvido num projeto de investigação, por sua vez ligado a um programa de televisão onde participo desde o início do último trimestre de 2020. Irei iniciar também, daqui a dias, um ciclo de palestras de formação profissional, cuja preparação me está a dar muito prazer mas, confesso, a obrigar também a um pouco mais de trabalho do que eu tinha imaginado.

Alguém me dizia, há dias: “Ainda me recordo, em 2012, quando dizias que tencionavas não ir fazer “rigorosamente nada”, quando te viesses a reformar, no ano seguinte. E já lá vão mais de oito anos...”

segunda-feira, abril 12, 2021

A honra do Convento


O tempo passa muito rapidamente. Em 2007, eu era embaixador no Brasil. Por cá, numa espécie de paroquial concurso da “Lusovisão”, houve a peregrina ideia de escolher “Os Grandes Portugueses”, por votação telefónica. Lá, do outro lado do Atlântico, chegaram-me ecos dessa disputa, a qual, como estava escrita nas estrelas destes certames, acabou raptada pela política de trincheiras.

Agarrei então na tecla e decidi escrever um artigo para o “Diário de Notícias”, a propósito de Aristides de Sousa Mendes, figura que se havia intrometido na guerra entre as “vedetas” que tinham polarizado a discussão. Só lhes posso dizer que esse gesto me valeu duas cartas e um telefonema, de três antigos colegas, todos escandalizados com o facto de eu ter ousado defender nesse artigo, o cônsul rebelde às orientações do “presidente do Conselho”. (Não me perguntem os nomes desses colegas, que o tempo já levou do mundo dos vivos, tanto mais que, como é amplamente sabido, eu tenho muito má memória para nomes, em especial para alguns que quero ter a caridade de esquecer - e ainda bem para eles!).

Há dois dias, cumpri um sonho: ir ver a casa da família de Sousa Mendes, que morreu quase na miséria. 

Passava por acaso numa estrada, vi a placa Cabanas de Viriato, e dei lá uma “saltada” que me fez ganhar o dia, que até ia triste.

Aqui fica a fotografia dessa casa, que, por muitas décadas, esteve em ruinas e em risco de desaparecer e que hoje, felizmente, está recuperada.

E, já agora, aproveito para reproduzir esse tal meu artigo de 3 de fevereiro de 2007, que tinha o título “A Honra do Convento”:

“A presença de Aristides de Sousa Mendes entre os dez nomes mais votados no concurso Os Grandes Portugueses constituiu para mim, ao mesmo tempo, uma surpresa e uma ironia.

Uma surpresa porque, não obstante já muitos conhecerem a história do diplomata que desobedeceu às suas instruções para obedecer à sua consciência, oferecendo vistos aos refugiados judeus que procuravam o consulado português em Bordéus, não estou certo de que a nossa sociedade tenha já, nos dias de hoje, uma sensibilidade ética tão apurada que a leve a optar espontaneamente pelo seu nome. Por isso, só posso louvar quantos se tenham mobilizado para assegurar o voto na figura honrada de Aristides de Sousa Mendes.

A suprema ironia da sua inclusão nesta lista deriva, naturalmente, do facto de, a seu lado entre "Os Grandes", figurar António de Oliveira Salazar, o chefe do Governo cujas ordens ele não respeitou e que, por essa razão, viria a destruir a sua carreira e a sua vida pessoal.

Dirão alguns que Álvaro Cunhal também figura nessa lista, e foi bem mais perseguido que Sousa Mendes. 

São coisas de natureza diferente: Cunhal foi um líder partidário e simbolizava a outra face da vida política portuguesa.

Salazar e Cunhal foram figuras mediáticas, nomes que recolheram emoções e polarizaram o País. Por isso, cada um a seu modo, foram personalidades com poder e influência, seguidos por legiões de prosélitos. Aparecerem agora votados pela nostalgia destes últimos faz parte das leis da vida.

Não era esse o caso de Aristides de Sousa Mendes. Quantos, no Ministério dos Negócios Estrangeiros de então, esboçaram um gesto para defender o colega, a dignidade da sua atitude, a preservação da sua vida profissional? 

Dir-se-á que o ambiente político não ajudava, que a repressão estava ao voltar de cada esquina. Mas, e na oposição? Quem se lembrou então de Sousa Mendes, quem denunciou os arbítrios a que foi sujeito?

Não é com agrado que constato que a minha geração diplomática, a primeira que entrou para o Palácio das Necessidades depois do 25 de Abril, foi habituada a ouvir sobre Sousa Mendes, quase sempre, palavras pouco simpáticas de colegas mais antigos do Ministério dos Negócios Estrangeiros. 

Repito: tudo isto, depois do 25 de Abril! Não exagerarei se disser que, com muito poucas e bem honrosas excepções, a opinião largamente maioritária entre os poucos que se manifestavam sobre o tema, que durante anos foi sempre "incómodo" nas conversas nas Necessidades, continuava a ser muito pouco generosa para a memória do colega rebelde, como que prolongando no tempo a condenação da sua decisão de não cumprir quanto lhe fora ordenado pelo poder instituído e assistindo, com desagrado, à valorização pública desse dissídio. E isto era tão válido para quem o tinha conhecido como para membros de gerações posteriores, que dele só haviam ouvido falar.

Recordo bem que, quando a Associação Sindical dos Diplomatas Portugueses criou, ao tempo de uma direcção de que fiz parte, um prémio a que decidiu dar o nome de Aristides de Sousa Mendes, vozes houve que, discreta mas significativamente, tentaram que ele viesse a ser titulado, nos anos futuros, por figuras diferentes da carreira diplomática. A frontal oposição de alguns de nós impediu que tal acontecesse. É que já estávamos a imaginar o que por aí viria em matéria de sugestões, para "compensar" o primeiro nome escolhido...

Há que reconhecer que, se não fosse a acção empenhada da sua família e da comunidade judaica internacional, Aristides de Sousa Mendes permaneceria, para sempre, na galeria dos nossos heróis desconhecidos. Portugal acordou muito tarde para a importância desta figura. Mas, pelo menos, acordou. 

E talvez o surgimento do seu nome entre Os Grandes Portugueses possa significar que há que não perder completamente a esperança de que, na memória coletiva do País, possa vir a sobreviver alguma dimensão ética, ao lado dos clichés politicamente corretos da nossa História e das notas caricatas dos radicalismos contemporâneos de sinal contrário.

Um tanto mais corporativamente, eu diria que fica também salva, desta forma, a honra do convento de Nossa Senhora das Necessidades.“

domingo, abril 11, 2021

Os amigos do Jorge


Ontem, num cemitério beirão, dei comigo a cantarolar intimamente a canção com que Georges Moustaki homenageou Georges Brassens - o conhecido “Les Amis de Georges”. Não se canta num funeral? Cada um “reza” à sua maneira.

Nos amigos de Jorge Coelho não estariam muitos que se pudessem rever, com rigor, no retrato dos compinchas de Brassens. Mas, descontadas as diferenças entre as gerações, o Jorge e muitos dos seus amigos eram também gente que olhava a vida de frente, sempre com olhos de futuro.

Aqui fica a canção 

Carlos Eurico da Costa (1928-1998)



Carlos Eurico da Costa, ou mesmo só Eurico da Costa, é um nome que, nos dias de hoje, poucas pessoas identificam. Desapareceu desta vida há 23 anos. 

À parte os seus familiares e os poucos contemporâneos das suas relações ainda vivos, bem como uns escassos que têm uma (boa) memória ligada ao jornalismo, a alguma literatura de nicho e à história da publicidade em Portugal, trata-se de uma figura que entrou já numa zona cinzenta de esquecimento. Nada que não aconteça à maioria das pessoas, diga-se. Só que há alguns que o não merecem. Este era disso um caso, como tantos outros haverá.

Por razões próprias, que logo verão, entendi recordá-lo. E fi-lo num artigo (que não é curto, aviso desde já, demora cerca de 13 minutos a ler), que subtitulei de “o surreal realista”. Texto a que alguns leitores habituais deste blogue podem achar graça.

Utilizei para isso uma das mais interesssantes plataformas informativas que por aí anda, "A Mensagem de Lisboa", um espaço de bom gosto e boa gente para o qual tive o privilégio e o gosto de ser convidado a ser colaborador. Aqui fica o link, "à toutes fins utiles". 

Refletir na desordem


Quando o mundo, no final da segunda Guerra Mundial, se organizou institucionalmente em torno das Nações Unidas, ficou criada a ideia, do seu lado ocidental, de que os modelos democráticos, nas suas diversas expressões, a que alguns chamavam liberais, acabariam por funcionar como uma espécie de “benchmark”, para o qual, cedo ou tarde, a maioria dos Estados tenderia a evoluir.

Esta atitude encerrava um evidente paternalismo e a convicção de que a razão estava do lado do Ocidente. E expressou-se na tolerância assumida face a certos regimes de matriz autoritária (como foi o caso da ditadura portuguesa), poupados pela “realpoliik”, como se a sua condução ao redil da ordem democrática fosse apenas uma mera questão de tempo, passado que fosse o seu “estágio” de preparação. O modo como a África e até alguma América Latina foram olhadas era também tributário dessa sobranceria, que satisfazia moralmente os seus titulares, que se assumiam como portadores íntimos da verdade política redentora.

O colapso da União Soviética, com a derrota ideológica e prática do comunismo, a pujança da economia de mercado e a afirmação desta como a ordem natural das coisas, reforçaram a tal ilusão do “fim da História”, ou, para utilizar o “slang” marxista, o termo das contradições antagónicas que bloqueavam o curso da humanidade.

Tudo parecia assim encaminhar o mundo para uma resultante democrática, com modelos mais ou menos diferenciados, num quadro de economia global que se impunha como óbvia e da qual todos acabariam por sair vencedores, tal o impulso ao crescimento que a nova ordem iria necessariamente gerar.

Para o bem e para o mal, a História tem muito mais imaginação do que os homens e, ao voltar da esquina, trouxe as suas surpresas.

A globalização não correu exatamente como o previsto. Claro que gerou imensas vantagens e crescimento, arrastando novas geografias e setores para a economia global, reduzindo a pobreza e oferecendo oportunidades.

Mas, ao contrário do que muitos supunham, essa expansão do mercado não foi acompanhada, em variadas zonas, por uma evolução benévola para fórmulas democráticas de gestão do poder político.

Pelo contrário: em alguns casos, e a China é talvez o exemplo mais flagrante pelo sucesso e pela sua visível importância no cômputo global, o que se verificou foi um modelo de economia de Estado ter colocado, se assim se pode dizer, o aproveitamento das vantagens do mercado ao serviço do poder desse mesmo Estado e do aparelho que o controlava, mantendo a máquina totalitária mais ou menos incólume e, porventura, ainda mais eficaz.

Com isto quer-se significar algo que parece hoje evidente: a prevalência do mercado está longe de poder garantir, só por si, um acréscimo automático de liberdade ao comum dos cidadãos.

Mas o grande veneno, para esse mesmo mundo do mercado, estava ainda por surgir. O que não estava nas contas do lado “de cá”, isto é, das democracias instaladas, era o facto da globalização económica ir, tão rapidamente, gerar no seu seio os “seus descontentes”, de que Stiglitz já falava há duas décadas.

Uma séria desafetação, com reflexos políticos, envolvendo largos setores, face aos resultados obtidos, acabou por transformar-se no outro lado da mesma moeda que tinha gerado o sucesso. É que de fora dele haviam ficado muitos perdedores do processo, apanhados entre a abertura dos mercados que lhes abafou antigas vantagens comparativas e as falências tecnológicas que vieram arruinar o seu modo tradicional de vida produtiva. A esses não lhes valeu a mezinha liberal de virem a usufruir das vantagens transformadoras da “destruição criativa”, que alguns incensaram.

E como às trocas e às deslocalizações de bens e serviços se somou a aceleração da circulação das pessoas e da força de trabalho, com as tensões também identitárias - culturais, religiosas e étnicas - daí resultantes, num magma ainda por cima sujeito a redes digitais sem controlo de inverdades, com mitos e temores a dominarem o espaço público, o cocktail para crises, com pulsões protecionistas e atitudes nada generosas, como se viu nas migrações e refugiados, estava criado.

O caldo de cultura que redundou no Brexit foi um pouco isso, Trump é a resultante fulanizada da expressão deste desespero, os “gillet jaunes” revelam a revolta perante um mundo em que os “proletários”, antigos motores da História, se afastam do desenho que a literatura esquerdista deles alimentou.

O grande risco que a nova (des)ordem mundial comporta é o facto de, com a ascensão de uma China autoritária, somada à multiplicação de modelos de deriva totalitária, um pouco por todo o mundo, se vá espalhando uma nova matriz de legitimidade política, assente na eficácia económica, na resposta simplista a medos e mitos, que coloque os valores da liberdade num grau de alguma relativização. E o principal problema é que esse modelo, absolvido moralmente pelo sucesso económico ou pela sua aceitação demagógica, possa vir um dia a afirmar-se, aos olhos de muitos povos. como uma alternativa equivalente ao seu homólogo democrático.

(Publicado na revista “Prémio - revista de economia, negócios e política”)

sábado, abril 10, 2021

E mais não digo!

Respeitando embora os direitos de defesa de José Sócrates, o facto de ter ficado comprovado um reiterado, clandestino e irregular esquema de “subsidiação” financeira de um PM por um amigo constitui uma inapagável mancha ética na nossa vida democrática. E mais não digo sobre isto.

Ou não?

Quem, no dia de hoje, critica o estado da justiça portuguesa são exatamente as mesmas pessoas que a estariam a aplaudir se acaso as coisas se tivessem passado de outra forma. Ou não?

Piccadilly


O dia em que, merecidamente, o príncipe Filipe derrotou, por ali, décadas do Bovril.



Comemorações nacionais?

Serei eu quem está enganado ou seria natural que a posse da pessoa encarregada das comemorações nacionais da datas fundacionais do país foss...