quarta-feira, janeiro 13, 2021

Pandemia (3)

No dia em que, em Portugal, morre uma pessoa a cada 10 minutos, vou deixar algumas frases que ouvi no último mês:

- “Mas que importância pode ter mais uma ou duas pessoas à mesa?”.

- “Então eu ia lá ter uma ceia de Natal sem os meus netos!

- “São nossos amigos, caramba! Gente que sabemos que se protege! Claro que podemos ir ao restaurante os quatro”.

- “Há limites para tudo! Alguns riscos temos de correr, senão damos em doidos!”.

- “É pá! Desculpa lá, mas é um exagero estarmos aqui na sala com máscara!

- “Não queres ir no carro connosco? Nem com máscara? Estás paranóico!

Pandemia (2)

É muito curioso que se diga que o governo errou ao tornar mais flexível o regime de deslocações e reuniões no período de Natal e, ao mesmo tempo, as autoridades sejam acusadas de não permitirem comportamentos com implicações positivas no funcionamento da economia. Em que ficamos? Confia-se ou não na auto-regulação?

Pandemia

Sente-se alguma desorientação oficial na questão da pandemia, aliás um pouco como acontece por todo o mundo. Para o comum dos cidadãos, resulta uma imagem de hesitação, que não favorece a aceitação das medidas. E o governo é "preso por ter cão, preso por não ter".

Militares americanos


Ver os comandos militares americanos a afirmarem o que afirmam neste comunicado é uma óbvia garantia para a democracia americana.

Porém, o facto de assumirem uma posição coletiva precisamente neste momento, quando a posse já não parecia oferecer quaisquer dúvidas, dada a consonância de todas as instituições, pode parecer desajustado a um corpo que está sujeito à tutela civil - e não o contrário.

O debate que faltou


Não foi uma surpresa constatar que a política externa está quase ausente do debate eleitoral. E não se diga que o papel do Presidente da República, no modelo constitucional semi-presidencialista que temos, não comporta uma dimensão externa importante, quer na área dos Negócios Estrangeiros, quer como comandante supremo das Forças Armadas.

Penso que é interessante poder garantir um largo consenso em torno das questões que se prendem com a dimensão internacional do país, retirando-as do terreno da polémica fácil. Nelas incluo a temática europeia, mas, igualmente, o papel das Forças Armadas e a nossa política de alianças.

Devo, contudo, dizer que acho bastante empobrecedor para o nosso debate político que as grandes questões que envolvem o lugar de Portugal no mundo, e as políticas públicas que lhe servem de suporte, escapem, por sistema, a uma análise substantiva de fundo. Porque isso só facilita que, por falta de uma consciencialização amadurecida sobre essas opções, esses temas sejam regularmente capturados por discursos marcados por uma ligeireza demagógica.

Os consensos, por muito desejáveis que sejam, não devem ser formados em torno de silêncios, mas devem surgir como a decantação de um debate plural, sobre se se deve seguir um caminho e não outro.

Nestas eleições presidenciais há um recandidato com larga experiência das questões externas, que maneja com grande facilidade. Há uma diplomata com uma vasta prática profissional e política. Estão igualmente presentes dois candidatos com assento no Parlamento Europeu.

Teria assim sido muito interessante ouvi-los discutir, desde logo, sobre se o modo como tem vindo a ser exercido, pelos sucessivos chefes do Estado, a competência de que dispõem na ordem externa é o correto ou se, afinal, essa intervenção deveria assumir outro formato.

Teríamos ganhado bastante se tivéssemos ouvido os candidatos falar do modo como Portugal deve atuar na Europa, do modelo institucional desta, da forma como olham a compatibilidade das soberanias nacionais com o projeto europeu, ligando isto às questões da livre circulação, à atitude perante os refugiados e os migrantes económicos.

E, como já se percebeu, não é indiferente quem esteja em Belém quando se trata de pensar nas nossas alianças preferenciais, num tempo de Brexit, nas prioridades a dar ao laço transatlântico, no maior ou menor empenhamento no espaço lusófono, mas também nesse eterno tema polémico que é o modo de enquadrar institucionalmente a vontade política da nossa diáspora.

terça-feira, janeiro 12, 2021

O Porto, claro!


Por razões lúdicas e profissionais, sou, de há muito, um utente da hospedagem portuense.

Às vezes, já tenho perguntado a mim mesmo onde é que, por lá (por aqui, porque estou hoje no Porto), já dormi. Hoje, decidi responder.

É claro que, noutros tempos, havia a casa do tio Óscar e da tia Maria, na Ramada Alta, quando vínhamos “aos especialistas” ao Porto.

Noutras vezes, houve a moradia do Eduardo Sá Carneiro, na Antunes Guimarães, com coleções do Tintin pelas estantes, que me faziam adormecer ao acordar do dia.

E também a casa do sogro dele, o professor Pedro Carvalho, e a dona Guiomar, em Oliveira Monteiro, com pequenos almoços cerimoniosos.

Desconto, naturalmente, o meu lar universitário por um ano na rua da Torrinha, umas noites avulsas, e convulsas, no lar Gomes Teixeira, na rua do Rosário, ou o ano passado na “casa da velha”, na Miguel Bombarda, no quarto alugado a meias com o Albano Tamegão.

E já nem conto, claro, a casa da Mariita e do Manel, na Senhora da Hora, de que cheguei a ter chave!

Ou a do meu primo Rui, na Foz, quando nos apetece, porque a família é “estar em casa”.

Apenas aqui quero falar das casas “tarifadas”, com contas redondas ao fim-da-manhã, sem afetividades nem confianças. Coisas de papel passado, com NIF e tudo!

A primeira casa desse género, de que me lembro, terá sido, porventura o “Solar da Conga”, no Bonjardim, uma sugestão (sinistra, diga-se) do Eurico Gama.

Tenho também uma leve memória de uma pensão nos Aliados, à direita de quem sobe, mas pode ter sido apenas um pesadelo.

Houve também, ao que vagamente recordo, uma albergaria (lembram-se do tempo das “albergarias”?), numa rua aos Poveiros, perto daquele estacionamento feiíssimo que por ali há.

Passados muitos anos, nos idos de 80, regressado de Angola, lembro-me de me ter alojado no “Méridien” (em que os portuenses teimam em acentuar a segunda sílaba), agora crismado de “”Crown Plaza”. Foi, ao que julgo, o primeiro sítio “sério” onde me alojei, pagando, no Porto.

Depois, a partir daí, foi uma imensidão!

Estive algumas vezes no “Hotel da Boavista”, tendo alternado entre uma ala antiga (“délabrée”) e uma ala nova (sem a menor graça).

A sorte levou-me depois, em diversas ocasiões, ao “Sheraton”, quer na sua encarnação na avenida da Boavista (hoje “Porto Palácio”), quer à sua (excelente) forma atual, ali ao pé, com o envidraçado algo erótico das casas de banho sobre o quarto.

Ainda na zona da Boavista, descontando o simpático mas incaraterístico “Bessa Hotel” e um (então abaixo do razoável, só com a vantagem de ter uma loja de chocolates Arcádia no rés-do-chão) “Portus Cale Boavista”, preferi várias vezes o quase vizinho “Hotel da Música”, integrado no mercado do Bom Sucesso, francamente bem melhor do que o “Hotel Tuela”, um clássico (muito triste, convenhamos) espaço ali “à beira”.

Não muito longe, no Campo Alegre, fiz os dois Ipanemas: o “Park”, uma das minhas hospedarias costumeiras (ainda na passada semana lá dormi), e o Ipanema Campo Alegre, simpático “ma non troppo”, apenas com a vantagem de ter o “Capa Negra” à mão de semear.

Mais junto ao Douro, o “Pestana”, frente ao cubo, já foi, durante anos, o “meu” hotel na cidade, não obstante o estacionamento quase impossível. Até lá tive um quarto preferido! Depois, o hotel “endoidou” nos preços e eu disse-lhe adeus.

A esse nível de dispêndio, passou a valer a pena o clássico “Infante de Sagres”, a que não voltei desde que foi remodelado, com medo de que mantenham o bar tão mal-tratado como da última vez em que por lá dormi: um susto!

Se quiserem uma experiência diferente (e mais não digo!), ali pela Restauração, quem desce do Hospital de Santo António para o Rio, experimentem a diversidade do “Torel”! Um chá na sala envidraçada, ao fim da tarde, pode ser um belo momento.

Outras experiências? O “Dom Henrique”, junto ao Silo Auto, sem o menor interesse, para além da vista magnífica do bar.

Cómodo, mas sem qualquer graça, é o “Vila Galé” da Fernão de Magalhães. Várias vezes lá fiquei, numa delas no andar de topo, com uma vista soberba sobre a cidade. Mas foi tudo o que dali me ficou.

Numa das ocasiões em que dormi no “Intercontinental”, no passeio das Cardosas, no fundo da Praça Dom Pedro IV, no fundo dos Aliados, recordo que me saiu em rifa um quarto de esquina (sobre a estação de São Bento, a 31 de janeiro/Santo António e a praça), com uma vista deslumbrante. Mas aqueles corredores sem gente lembravam-me, sinistramente, o “Shinning”!

E mais? Dormi também num “Porto Trindade”, bem simples, numa noite em que cheguei inopinadamente de Paris.

Também pernoitei num “Vila Galé Ribeira”, de que me não queixo, entre a Alfândega e Massarelos.

E de duas noites no Eurostars Centro, junto à Brasileira (avisaram, mas eu não acreditei, que, a partir das oito horas, a classe operária entrava em ação numa obra vizinha!).

Mais recentemente, tive uma experiência, bastante agradável, no renovado Grande Hotel do Porto, em Santa Catarina.

Mas é isso “apenas” que conheces do Porto, estarão a perguntar-se os meus amigos, alguns “da onça”? 

Mas há coisas que ainda não conheço, desculpem lá! Confesso que ainda não dormi no luxuosíssimo Monumental dos Aliados, no Pestana da Brasileira, no Porto Bay das Flores (nem no Porto Bay Teatro, não obstante o clamor do meu amigo e proprietário Bernardo Trindade), nem no Vila Foz, na Foz, de que muito me falam agora.

Imperdoável, já sei!, é não ter nunca ficado do Yeatman, em Gaia, onde já refeiçoei algumas vezes, mas que acho muito caro.

Mas, já que falamos em “arredores”, anoto que pernoitei várias vezes no “Palácio do Freixo”, no dito Freixo, e, para nunca mais, no “Sea Porto”, em Matosinhos, um falso “quatro estrelas”.

Mas o que é que estás a fazer agora no Porto?, perguntava-me um amigo curioso, há pouco. Onde estás a dormir?

Muito simplesmente, no “Eurostars Heroísmo”, na rua com o mesmo nome, naquele que é o meu pouso preferido no Porto, sem arrebiques nem pretensões, um quatro estrelas que, de há muito, considero a melhor relação qualidade-preço da cidade e arredores. E não me fazem o menor desconto por estar aqui a fazer publicidade deles! A sério!

O “Eurostars Heroísmo” (na imagem) tem uma garagem soberba, fica bem perto da da estação ferroviária de Campanhã e a dez metros (juro!) de um dos melhores lugares para se comer no Porto - a “Cozinha do Manel”, do meu amigo José António. O hotel fica também a cinco minutos de carro do meu local de trabalho no Porto.

E, se quiserem, há outras opções restaurativas por ali, como a “Casa Nanda”, na rua da Alegria. E ainda sobram saudades da “Casa Aleixo”, no fundo da rua.

Se acaso ainda não estiverem satisfeitos, peçam-me mais: poderei dar ainda alguma dicas mais sobre onde dormir bem no Porto! Conheço “mal” esta bela cidade, como repararam, mas farei um esforço!

segunda-feira, janeiro 11, 2021

François Mitterrand


François Mitterrand morreu há 25 anos, depois de 14 anos consecutivos como presidente da França. Homem da IV República, onde teve cargos de governo, foi um dos mais ferozes opositores de De Gaulle, a quem forçou a uma segunda volta numas eleições presidenciais.

Desprezava a V República, mas esta assentou como uma luva ao seu estilo “royaliste”. Manipulador, sedutor, excelente escritor, cínico, culto, inteligente e matreiro, entre tantas outras muitas qualidades e grandes defeitos, veria o termo do seu tempo político marcado por acusações de ligação premiada ao colaboracionismo, ele que, paradoxalmente, também tinha “medalhas” de resistente, bem como pela revelação da existência de uma filha tardia, fora do casamento, o que acabou por humanizá-lo.

Há dias, pela Amazon, encomendei um livro sobre Mitterrand, editado em 1988, que ainda não conhecia. Não me canso de ler sobre ele e sobre o tempo que protagonizou. Visitei a terra onde foi eterno presidente da Câmara e estive no seu túmulo, mas, estranhamente, estou muito longe de ser um admirador fascinado dessa que foi uma das figuras mais complexas da vida política francesa.

Um dia, na única viagem que fiz com o casal Mário Soares, durante cerca de uma semana, em finais de 1995, com Mitterrand fora do Eliseu e já muito doente, o seu nome veio à conversa. Mário Soares, que o tinha como amigo, disse dele coisas muito simpáticas, contando algumas histórias, que infelizmente esqueci. Notei então a cara fechada de Maria Barroso. Claramente, não comungava a leitura que o marido fazia da personalidade de Mitterrand.

Passaram uns anos, oito ou nove. Uma noite, em Viena, tive Maria Barroso a jantar, em minha casa. Entre vários assuntos, falou-se de Mitterrand. Constatei, de novo, que a sua atitude não era muito positiva sobre a personagem. No final da refeição, puxou-me à parte e, com a firmeza de quem tinha ideias muito próprias e não gostava de deixar dúvidas sobre elas, disse-me o que pensava sobre François Mitterrand. Só posso dizer que não coincidia com a perspetiva do seu marido. E explicou-me porquê. Mas isso não vem aqui para o caso.

A terminar, deixo uma frase de Mitterrand, uma curiosa leitura do “mosaico” francês, num improviso de 1987, onde “nós” também estamos: “Nous sommes français, nos ancêtres les gaulois, un peu romains, un peu germains, un peu juifs, un peu italiens, un petit peu espagnols, de plus en plus portugais, peut-être, qui sait, polonais, et je me demande si déjà nous ne sommes pas un peu arabes."

domingo, janeiro 10, 2021

Bom senso?

Parece que faz parte do discurso político afirmar que se “confia” no bom-senso dos portugueses, para gerirem, com a necessária prudência, o seu comportamento social neste tempo de pandemia.

É uma perfeita hipocrisia estar a dizer isto! Todos sabemos que isto é falso!

No que me toca, e pelo que tenho visto por aí, não tenho a mais pequena confiança no bom-senso ou na prudência dos portugueses. Mais: os números mostram-me que tenho todas as razões para não confiar. E quem me está a ler sabe que isso é assim.

Mas todos já percebemos que não há coragem, por parte do poder político - do presidente ao governo e aos partidos - para dizer, alto e bom som, esta simples verdade: há imensos cidadãos portugueses que são uns completos irresponsáveis, que, por egoísmo ou inconsciência, adotam comportamentos que põem em risco a sua saúde e a dos outros, assim contribuindo para a crescente pressão sobre os serviços públicos de saúde, atrasando a recuperação da normalidadade da vida social e económica do país.

“Observare”


Quem se interessar pode ver aqui a edição desta semana do programa de relações internacionais “Observare”.

Em menos de 40 minutos, analisamos a situação nos Estados Unidos e o acordo entre a União Europeia e a China. Em termos mais breves, falamos de outros seis temas de relevância internacional e até deixamos uma sugestão de um filme.

Quem quiser contactar-nos, com críticas, ideias ou até elogios, esteja à vontade para o fazer para observare@tvi.pt

O avental do “Petróleo”


Não recordo onde é que o José Guilherme Stichini Vilela, “ministro-conselheiro” na embaixada em Luanda, terá desencantado a figura do “Petróleo”. A verdade é que foi ele o cozinheiro que passou a trabalhar no apartamento que, a partir de 1982, o Zé Guilherme ocupou na avenida 4 de fevereiro, em frente à baía de Luanda. O Zé Guilherme, um querido amigo, já se foi há alguns anos.

O “Petróleo”, nome cuja origem também desconheço, era um homem sempre sorridente, o que não era de estranhar: o Zé Guilherme pagava-lhe muito bem, acima da “tabela”, oferecia-lhe imensas coisas e, por isso, ele andava imensamente contente. Falava muito mal português. Como alguns dos nossos jogadores de futebol, identificava-se na terceira pessoa: “O ‘Petróleo’ foi ontem ao mercado...” Ensinado pelo Zé Guilherme, o “Petróleo” fez-se, com o tempo, um excelente cozinheiro.

Uma noite, o Zé Guilherme organizou, na sua sala com varanda sobre a avenida, um largo jantar para alguns dos muitos amigos que tinha em Luanda. Para além dos “habitués” da embaixada, com o embaixador Pinto da França à cabeça, dessa vez era gente um pouco mais velha do que o habitual, com alguma cerimónia, casais da antiga sociedade portuguesa que permanecia nessa Luanda recém-independente - Pedro da Cunha, Chico Neto, etc. E, claro, o Fernando Valpaços, a Lacas, a Ana Poppe, com certeza também o Vasco Correia Mendes.

O “Petróleo” servia pela sala, envergando nessa noite um belo avental, com o clássico moto “Kiss the cook” (beije o cozinheiro), então muito em voga nos países anglo-saxónicos, uma oferta que o Zé Guilherme tinha recebido conjuntamente com uma assinatura anual da “Time”.

Não sei em que ponto do jantar é que começaram os sorrisos. À passagem do “Petróleo” entre as mesas e os sofás, notaram-se, a certa altura, alguns sussurros. De início era murmúrios, com risadas, ao ouvido dos vizinhos. Partiu de uma das mesas, depois a onda sorridente espalhou-se pela sala, acelerando a cada passagem do empregado. Algumas das senhoras presentes, da Lilita à Sofia ou à Maria do Céu, notavam os rumores, mas, aparentemente, não entendiam o que se passava. Outros, os alertados, optavam por nada lhes dizer. A certa altura, avisado por alguém, o Zé Guilherme zarpou para a cozinha, na peugada do “Petróleo”. E lá resolveu o “assunto”!

Mas, afinal, o que é que se tinha passado? Nada de mais, na minha opinião! Um dos convidados, de que a História não acolheu o nome, numa sortida à cozinha, terá convencido o bom do “Petróleo” a deixar fazer, no seu avental, uma pequena e rápida operação, com um daqueles sprays brancos para tirar nódoas, promovendo uma ligeiríssima alteração na segunda letra “o” da palavra “cook”, transformando-a num “c”. Apenas isso!

Não me consta que, nessa noite, se tenha descoberto quem foi o autor da marosca. A mim, o “Petróleo” tinha-me prometido não revelar o nome do “artista”...

sábado, janeiro 09, 2021

Graça


Há dias em que podemos achar alguma graça aos “fachos”.

Saudades de Trump


Vou ter saudades do Trump: teve o considerável mérito de me pôr de acordo, nos últimos quatro anos, com gente de quem discordo em praticamente tudo o resto.

“Observare”


Com o confinamento, não há desculpas para não verem, na TVI 24, deste sábado para domingo, como habitualmente depois do noticiário da meia-noite, a edição desta semana do “Observare”, programa de análise das questões internacionais. Lá estarei, com Carlos Gaspar e Luis Tomé, sob a moderação de Filipe Caetano.

Como é evidente, começaremos pela situação americana, mas daremos igualmente destaque ao acordo económico entre a União Europeia e a China. Pela minha parte, falarei da crescente repressão às liberdades em Hong Kong e da distensão em torno do Qatar, depois de três anos de bloqueio por parte do seus vizinhos, liderados pela Arábia Saudita.

A partir de agora, o programa passa a ter uma “caixa” para comentários, sugestões e críticas. Quem nos quiser contactar pode fazê-lo através do endereço de email observare@tvi.pt .

Samuel Pisar


Há dias em que, por precipitação, falamos demais. Em 2012, num jantar em Paris (alguns comentadores acham que a vida dos diplomatas é feita de jantares: é verdade, os diplomatas têm o hábito, quiçá excessivo, de jantar uma vez por dia), fiquei sentado próximo de um cavalheiro, já de certa idade, que, em determinado momento, e tendo sabido que eu era português, se referiu a uma homenagem que iria ser prestada, na UNESCO, a Aristides de Sousa Mendes.

Revelou-me estar envolvido na organização e eu congratulei-me com isso, tanto mais que, como o informei, tinha acabado de acumular o lugar de embaixador português em França com o de representante junto da UNESCO e, naturalmente, também ia colaborar no evento. Porque, à mesa, havia uma senhora de permeio e porque ele falava em voz bastante baixa, não tinha ouvido bem o seu nome.

A certo passo da conversa, ainda sob o tema Portugal, passando a voz à frente dessa senhora, perguntou-me por Mário Soares e pela sua "simpática esposa", que ele conhecia bem. Disse-lhe as últimas notícias que sabia de ambos (eram vivos, à época), tendo ele acrescentado: "Um livro meu tem um prefácio de Mário Soares".

Com um orgulho algo adolescente (cada vez mais me convenço que "adolescemos" com a idade), saiu-me de imediato: "Tem graça! Eu também tenho um livro prefaciado por Mário Soares". Sorrimos e o jantar lá prosseguiu.

Minutos depois, perguntei discretamente à senhora que se interpunha entre mim e o tal cavalheiro, já octogenário: "Tem ideia de como se chama o seu vizinho do lado? Não consegui ouvir o nome dele...". A senhora, creio que olhando para o pequeno papel que, na mesa, identificava o conviva, disse, baixo: "Samuel Pisar".

Tive um baque! Samuel Pisar? "O" Samuel Pisar, nascido na Polónia, que estivera detido em Auschwitz e em vários outros campos de concentração, que escapou miraculosamente das garras de Mengele e de outros cenários de horror, cujo pai fora morto pela Gestapo?

"O" Samuel Pisar que, no fim da guerra, se formara em Oxford e na Sorbonne, e que, naturalizado americano, dera aulas em Harvard e fora assessor económico de John Kennedy?

Olhei de viés e, com uma curiosidade acrescida, procurei estar atento a algo que ele dizia para o outro lado da mesa. Nada de decisivo: apenas elogiava a textura dos espargos que estavam a ser servidos, porque então era a época deles.

A casa era magnífica, de um galerista, cujo nome perdi, um conhecimento que herdara do meu antecessor, António Monteiro. Era um andar perto no Quai d’Orsay, curiosamente com um grande quadro de Paula Rego, uma pintora que Paris teima em desconhecer. No final do jantar, num canto da sala de estar, aproximei-me de Pisar. Falámos, recordo, da Europa e do lugar de Portugal nela. Nada de que tenha guardado a menor nota.

Samuel Pisar era, à época, um senador de uma vida que, como poucos, soube recriar a partir da barbárie e que um dia, escreveu: "Hoje, sobrevivente dos sobreviventes, sinto uma obrigação de transmitir algumas verdades que aprendi na minha passagem pelo mais baixo da condição humana e, depois, por alguns dos seus momentos altos". Li isto num livro dele, que comprei, dias depois.

Nunca me perdoarei do facto de, inadvertidamente, ter "rivalizado" com Samuel Pisar, ao reivindicar ter, como ele, um prefácio de Mário Soares. Ou melhor, e pensando bem, talvez tenha a obrigação de ficar contente por poder ter, com ele, esse honroso ponto em comum.

Por que razão falo agora de Samuel Pisar, que morreu já em 2015? Porque, há dias, dei-me conta de que era padrasto de Anthony Blinken, que vai ser o futuro Secretário de Estado americano, isto é, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Joe Biden. Até saber isto, perguntava-me por que luas Blinken falava tão bem francês. Agora percebi: a sua mãe, Judith, vivia em Paris e foi a segunda mulher de Pisar. A senhora devia estar do outro lado daquela mesa, nesse jantar. 

sexta-feira, janeiro 08, 2021

America! America!

 


Conversa com António Freitas de Sousa para o “Jornal Económico”. Aqui

Um caracol


“Eu, pelos olhos, topo logo”. Imerso no iPhone, não percebi. “O senhor está cansado, não está?” Olhei, pelo retrovisor dele, o motorista do Uber, no Porto, com curiosidade. O trajeto era pequeno, mas via-se que estava ali um filósofo, daqueles que não se calam.

Há dias em que estou com paciência para conversar com motoristas, em que sou mesmo eu quem puxa a conversa, outros há em que, depois da saudação de entrada, fico na minha concha e cumpro os mínimos na interlocução. No Porto, já aprendi que ganho sempre em falar com eles.

O da manhã de ontem, simpático e tagarela, tinha uma teoria: “As máscaras não deixam ver as caras, as bocas e os lábios. Mas eu ando-me a ‘especializar’ em olhos. Já notei que, quando as pessoas estão chateadas ou preocupadas, os olhos fecham-se mais, não acha?”

Disse-lhe que não tinha nenhuma doutrina sobre isso, mas, à laia de comentário intimista, disse que, a mim, este tempo de máscaras criava-me, cada vez mais, a curiosidade em tentar perceber, pelos olhos, se uma mulher era bonita ou não.

O que eu fui dizer! O motorista filósofo deu um salto de contentamento, lá no banco da frente, ao ter tema comum comigo. E contou-me: “Há dias, apanhei uma senhora no Bolhão para o Palácio. Já nem era nova. Mas que olhos! O senhor nem imagina! Passei a viagem a olhar para ela, pelo espelho. Até fiquei preocupado que ela notasse. Quando a deixei, fiz de propósito e fiquei parado. Vi-a tirar a máscara. Afinal não valia um caracol!”

quinta-feira, janeiro 07, 2021

O frio de Vila Real


Dizem-me que esteve ontem um forte chiasco, em Vila Real. Lembrei-me então desta história.

Um dia de março de 1971, ao passar pela Place da la Nation, em Paris, onde tinha aportado por uns dias, num turismo baratucho que conseguia fazer nesse tempo, dei de caras com um antigo colega de Vila Real, que sabia ter saído “a salto” de Portugal e a quem tinha perdido, por completo, o rasto.

Era um tipo alto, com raízes em Bragança e com quem, curiosamente, me cruzara também em algumas férias em Viana do Castelo. Não éramos íntimos, mas éramos amigos.

Fizemos aquela festa tradicional, típica de dois transmontanos que se prezam. Generoso, convidou-me a ir beber uma cerveja à sua casa, ali perto.

Foi-me contando que tinha um emprego em que lavava janelas a partir das seis da manhã (“não é nada mal pago, sabes?, mas é muito chato ter de sair de casa às quatro!”). Em fins de tarde, aproveitava para assistir a uns cursos livres na Universidade de Vincennes. “A vida há-de mudar!”.

Sem dizer expressamente, deu-me a entender que era militante de um partido político português (na clandestinidade, claro, porque todos o estavam), o que conteve a minha curiosidade inquisitiva sobre mais aspetos da sua vida em Paris. Anos mais tarde, encontrei-o numa bancada de vendas, numa Festa do Avante.

Subimos ao apartamento onde vivia, uma sala e um quarto, num 4.º andar sem elevador, com uma cozinha a meias com um argelino, de onde chegava um cheiro menos convidativo a comida, que se espalhava por toda a parte.

O problema é o frio. A casa não tem aquecimento. Temos de pôr aquecedores, mas a eletricidade é cara. Às vezes, vou para a cama mais cedo, só para me aquecer.

E, num tom mais triste, com aquela saudade que a minha presença lhe trazia, acrescentou: “Queres saber uma coisa? Lá em Vila Real, parece que o nosso frio era diferente.

Pois era. O frio da terra portuguesa, para quem sofria a distância e a tragédia da emigração e do exílio, tinha outro calor.

quarta-feira, janeiro 06, 2021

Juan Carlos


Fez ontem 83 anos. A Espanha deve-lhe a inesperada sabedoria com que geriu a transição, que pode ter evitado uma sangrenta tragédia. Alguns dirão: mas o que ele fez, mais tarde, foi de imensa gravidade, maculando essa imagem. É verdade, mas cada tempo é um tempo, uma coisa não apaga a outra. Eu, que não sou espanhol, pelo que me não cabe conferir os saldos dessas contabilidades históricas, quero apenas recordar o grande amigo de Portugal que Juan Carlos sempre foi. E deixo esta imagem, bem elucidativa, que, há dias, passou nas televisões, de um dia em que entregou a Taça do Rei a Futre. No que o rei ali disse, está tudo dito. Que é apenas o que me interessa, a razão por que aqui o trago.

Só falam da América!


Há dias, depois de mais uma edição de um programa de comentário internacional em que regularmente intervenho na TVI 24, um conhecido interpelou-me: “Por que é que vocês só falam da América?”.

Não é só da América que falamos mas, na realidade, o tema está muito presente em todas aquelas nossas conversas.

Trump, Biden, as relações de Washington com a Europa e com a China, o seu papel na NATO, o comportamento face à ONU e ao mundo multilateral em geral, o relacionamento com Moscovo, o posicionamento no xadrez do Médio Oriente - caramba!, de facto, estamos sempre a falar da América!

E, no entanto, tem mesmo de ser assim. Os Estados Unidos da América, para além do folhetim, entre o trágico e o divertido, em que a sua vida política interna recente se converteu, graças a um presidente bizarro, são, de há muito, um poder omnipresente pelo mundo. Às vezes, são um poder constrangente, que força a vontade alheia, outras vezes, a maioria delas, são um poder condicionador, que influencia o modo como os outros gerem a sua própria realidade.

Os EUA tanto são notícia por aquilo em que imiscuem, como o são pelo modo próprio como decidem abandonar esses cenários. Elefante em loja de porcelana, a América, pelo seu poder, não deixa ninguém indiferente. Se bem repararmos, é na reação assumida perante os EUA que o mundo se define, que se fica a saber de que “lado” está cada um.

Sei que esta é uma perspetiva que não agrada a muitos que, por boas ou más razões, são críticos dos Estados Unidos e consideram que não é saudável, para uma ordem internacional que idealmente se quereria mais equilibrada, ter esta dependência, quase obsessiva, do poder americano.

Muitos acham que, podendo ter tido alguma justificação que as coisas assim fossem durante a Guerra Fria, com um poder anti-democrático hostil do outro lado do muro, não subsistem já razões para nos mantermos sob a “paternal”, mas menorizante, tutela americana.

Outros, porém, receosos da força crescente da China, embora menos pela ameaça militar e mais pelo seu peso económico, terão ali encontrado uma justificação para voltar a recriar uma “América & os seus amigos”, para se oporem ao “perigo amarelo”, uma expressão desenterrada dos tempos em que o politicamente correto não limitava a nossa diversidade semântica.

A questão, como sempre, é o poder. Mas é também a vontade, porque metade do poder dos outros advém da maior ou menor facilidade com que deixamos manipular a nossa própria vontade.

Hortaliças de Estado

Há poucas semanas, soube da morte de Carlos Westendorp. Foi uma figura relevante da diplomacia espanhola: ministro dos Assuntos Exteriores, ...