terça-feira, dezembro 29, 2020
A RTP e as eleições presidenciais
A RTP acaba de anunciar que vai dar a Vitorino Silva, conhecido como Tino de Rans, toda a cobertura jornalística a que este candidato presidencial tem direito. O serviço público de televisão e radiodifusão não tem “filhos” e “enteados”: além de naturalmente cumprir a lei durante a campanha, deve, nesta fase, garantir uma igualdade de oportunidades, em termos de divulgação jornalística da mensagem de quem reuniu todos os requisitos legais para concorrer ao sufrágio. As outras estações podem atuar como bem entenderem. A RTP não poderia proceder de outra forma. Ponto.
Viva o “Diário de Notícias”!
Hoje, o “Diário de Notícias” regressa “às bancas” como jornal diário em papel. Alguns acharão isto uma reação etária, mas quero dizer que fico muito satisfeito por ver este grande jornal português, uma referência única na nossa imprensa, de novo no prelo. Só posso desejar que a iniciativa tenha sucesso. Felicito Rosália Amorim, a diretora, por ser a cara deste dia. E deixo aqui esta imagem clássica de 1930, de Stuart Carvalhais. Já agora, lembro também que, tal como eu, ele nasceu em Vila Real.
segunda-feira, dezembro 28, 2020
28 de dezembro de 1973
Nem sempre, naquele local da Praça de Londres, existiu um banco. Em 28 de dezembro de 1973, era um “snack-bar”, primeiro chamado “Café Londres”, depois “Café de Paris”. A meio da manhã, dispensado da minha tropa, ali cheguei, sorridente, dizem. Ia de gravata preta. Com um casal amigo, descemos a praça e calcorreámos a avenida Guerra Junqueiro até um cartório que por lá existia. Aí foi celebrado o ato. Aí terminou um namoro de quase uma década. A gravata preta era o luto por deixar de ser solteiro. Os dois amigos passaram a cunhados. Ninguém mais testemunhou. E fomos almoçar a Sesimbra. O cartório já não existe, mas o casamento sim, 47 anos depois. Fica a nota.
domingo, dezembro 27, 2020
A vacina
O nome não interessa. Era um homem simpático, uma daquelas figuras que, lá por Vila Real, faziam umas horas de trabalho na Mocidade Portuguesa. Na pior das hipóteses, por subordinação ideológica, na melhor, para acrescentar uns tostões ao seu salário. Alguns, contudo, deviam acumular.
Um dia, para uma das minhas idas à boleia pelo estrangeiro, necessitei de um saco alpino. Alguém me disse que poderia pedir um, de empréstimo, na Mocidade Portuguesa. Fui falar com o tal tipo que, com a maior disponibilidade, se prontificou a emprestar um saco. Combinei um encontro com ele no café Excesior e dali fomos, depois do jantar, a pé, rua Direita adiante, até à Mocidade, onde hoje é o Arquivo Distrital.
Para encher conversa, pelo caminho, disse-lhe que tinha ido, nesse dia, apanhar a vacina contra a cólera, então exigida pela França a quem ia de Portugal. (Dias depois, chegado à fronteira, em Handaye, fui obrigado a engolir dois comprimidos anti-cólera, porque o franceses deviam desconfiar dos nossos boletins de vacinas).
O nosso homem comentou: “Isso da vacina contra a cólera devia ser obrigatório, para toda a gente. É que há cada vez mais malucos!”.
No momento não percebi e perguntei: “Mas o que têm os malucos a ver com a vacina?”.
“Tudo! Ainda há dois dias apanharam um doido em Lordelo, a partir carros, aos berros, cheio de “cólera”. Se a vacina contra a cólera fosse dada a toda a gente, reduzia-se muito a ocupação dos manicómios. Mas deve ser cara!”
O nosso homem estava mesmo convencido de que a cólera tratada pela vacina equivalia à “cólera” que, às vezes, afeta o comportamento de alguns. E que o regime, só por falta de dinheiro é que não reduzia a “cólera” que andava pelo país. Por piedade, e também porque ainda não tinha o saco alpino na mão, guardei um prudente silêncio.
“Observare”
Os efeitos da pandemia na ordem internacional estiveram em natural destaque no balanço de 2020 feito no último “Observare”, na TVI 24. Também ali falo da surpresa positiva que é Ursula Van der Leyen, dos inescapáveis efeitos nefastos do Brexit para a União Europeia, da revelação que foi a primeira-ministra neo-zelandeza, da tragédia da gestão de Bolsonaro e das hipóteses do Irão poder regressar a um diálogo político construtivo, entre outros assuntos destacados pelos meus colegas de painel.
Pode ver o programa aqui.
sábado, dezembro 26, 2020
Foi-se o Zé Aguilar
O Zé era um pouco mais velho do que eu. Começou por morar, lá em Vila Real, na Miguel Bombarda, ao tempo em que eu vivia na Alexandre Herculano, no mesmo grande quarteirão. Com a Teresa e o Jorge (Jói), o Zé era filho do homónimo Dr. José Aguilar, advogado e escritor das horas vagas, fotógrafo de mérito, figura muito marcante da cidade, de quem o Zé terá herdado um pouco o tom de voz - e a profissão, claro. A mim e ao Zé juntaram-nos as iniciativas lúdicas do João Ladislau, que, na nossa juventude, inventava coisas levadas da breca. Organizámos uma volta ao circuito, em bicicleta, com várias metas: à medida que os atletas completavam os percursos, as metas eram desmontadas e iam para outro local, com os ciclistas a aguardar para partir de novo, de Sumol em punho. Com o Zé e o João fiz, de vela na mão, de gatas, o aventuroso percurso das canalizações, então ainda não inauguradas, claro, do novo saneamento da Marginal, insultando os passantes de dentro das gateiras. A família do Zé mudou depois de casa, para o Diogo Cão e viamo-nos menos. Mas ainda nos cruzámos bastante em noites do Club de Vila Real, onde o Zé era o terror do senhor Fernando, como autor de “partidas” memoráveis. Foi depois para a universidade, de onde um dia veio “doutor”, para a cidade, de início para secretário do Governo Civil. Em 1969, comigo do lado da oposição e ele do regime, já marcelista, tivemos ferozes debates à mesa da Gomes, com o João Bé do meu lado, na provocação às autoridades então dominantes. O Zé dizia que eu não conseguia discutir sem ter uma caneta na mão, que fazia rodar no vidro das antigas mesas da Gomes (digo antigas, porque me chegou que as atuais são de mármore). Daí em diante, para o resto da vida, não terá havido uma única vez em que o Zé me encontrasse sem que ele próprio não sacasse, de imediato, de uma caneta, rindo-se, preparando o prolongamento de uma suposta discussão. A verdade é que, depois desse tempo, nunca discutimos muito, embora continuássemos em polos oposto das ideias da política. Mas rimos sempre imenso. Reencontrámo-nos, um dia, aos abraços, na tropa, em Lisboa, onde ambos fomos garbosos oficiais de Ação Psicológica. O Zé regressou, entretanto e em definitivo, a Vila Real. Eu mantive-me, para sempre, a viver fora. Viamo-nos nas férias, trocávamos histórias, graçolas, ressublinhávamos, quase sempre por provocação dele, as nossas continuadas diferenças. Um dia, “contratei-o” como advogado, para um diferendo qualquer, para resolver uma vizinhança incomodativa para a casa do meu pai: ganhámos. A última vez em que falámos, mais longamente, foi à mesa da Pompeia, num final de tarde, numa bela iniciativa do Elísio Neves. Soube então dos seus regulares encontros, pelo mundo, com o José Luis Carneiro, nosso colega de infância, em viagens e aventuras magníficas, que nos contou. A pandemia, disseram-me há pouco, levou-nos agora o Zé, cuja luta contra o vírus eu ia acompanhando, nos últimos dias. Tenho qualquer coisa de fatídico, nos períodos de Natal, lá por Vila Real, no tocante à perda de amigos pessoais: foi nesse tempo que levámos a enterrar o Sérgio Moutinho, o José Araújo, o Manuel Fernandes, o Eduardo Lopes de Silva. Agora, estando fora da cidade, não vou poder acompanhar o Zé até à sua última morada, como os jornalistas sem imaginação costumam descrever os funerais. Deixo ao Jói e a toda a restante família do meu velho amigo Zé Aguilar um abraço, raivoso de impotência e de imenso pesar.
sexta-feira, dezembro 25, 2020
Que galo!
Não sendo religioso, tenho uma imensa dificuldade em entender o que poderá esta senhora esperar da sua ida à Missa do Galo. Com que espírito participará na celebração? Como é que a igreja católica acolhe, no seu seio, pessoas com este tipo de atitude? Como é que os meus amigos católicos (a maioria dos meus amigos são católicos, creio) olham para este gesto, à entrada na igreja, por parte de uma sua co-crente? Não estou a ironizar minimamente, podem crer. Estou a transmitir a simples perplexidade de um ateu, que gostava de poder perceber.
Brexit
As questões relativas às pescas foram dos capítulos mais difícil de fechar no processo negocial entre a União Europeia e o Reino Unido. A gravata de Boris Johnson na conferência de imprensa final dá bem conta disso.
quinta-feira, dezembro 24, 2020
O príncipe desencantado
José Cutileiro integrou uma geração dourada a quem a fortuna, num tempo em que isso era privilégio de poucos, proporcionou uma educação no exterior. Essa sorte a pouco o levaria, além do diletante bocejo estrangeirado, não fora o caso de Cutileiro concentrar um conjunto incomum de qualidades intelectuais e de trabalho. O olhar sobre o país onde nasceu, e o modo como melhor ficariam protegidos os seus interesses permanentes, começou bastante moldado pela sua experiência britânica. Essa leitura acabaria, depois, tributária da convicção de que o atlantismo era um determinismo geopolítico, e não apenas uma entre outras vertentes na equação da nossa ação externa. Porque colava bem ao conservadorismo estratégico das Necessidades, isso facilitou a sua imersão no mundo diplomático democrático. De um europeísmo cauteloso, atento às alianças que pudessem compensar as nossas fragilidades, Cutileiro caldeou, nas suas reflexões sobre o mundo global, uma postura realista, mas que, a meu ver, ficou sempre aquém do cinismo. Leiam-se os seus escritos sobre as temáticas internacionais, para se perceber os valores essenciais que eram o referente do seu pensamento. Em Cutileiro, temos sempre de resistir à tentação fácil de confundir o ator político-diplomático com a diversão caricatural das personagens dos Bilhetes de Colares, um mundo onde ele dá corpo, num português de lei, com disfarçada ternura patriótica, à exasperação de quem vê o país ficar na soleira daquilo que ele gostaria que ele fosse.
(A “Visão” convidou-me a escrever, para a sua edição desta semana, um perfil do embaixador José Cutileiro, uma das 14 personalidades destacadas pela revista, dentre as figuras desaparecidas em 2020.)
Quantos somos?
Dia após dia, como numa guerra, esperamos pelos mortos. O número chega-nos, sem falha, pela hora de almoço. E comentamo-lo, numa escala comparativa, com os mortos de ontem, com os de outros países, numa espécie de campeonato em que já estivemos melhor classificados. Às vezes, distraído entretanto por afazeres, dou comigo, só ao final do dia, a perguntar: e hoje, quantos mortos houve?
Para que queremos nós esses mortos, os infetados, os recuperados, os que estão nos cuidados intensivos? Para opinar sobre esta vaga, sobre cujo pico lançamos apostas, idênticas às que fazemos sobre o calendário de eficácia da vacina? Não confessamos que, afinal, não sabemos nada, que muito poucos sabem alguma coisa, que todos navegamos bastante à vista, mas que, nem por isso, nos coibimos de ter sempre uma opinião - à luz do que veio no jornal, da notícia, verdadeira ou falsa, partilhada pela rede social, do que foi dito pelo enésimo especialista que vimos na televisão.
Tiraram-nos tudo, não nos tirem o Natal, ouve-se agora. Com razão. São as crianças a quem se quer evitar o trauma de ter como presente uma reunião de família embrulhada em frieza, são os mais velhos, que os últimos tempos revelaram bem frágeis, a quem se não quer privar de um mínimo de festa, que sabe-se lá por quanto tempo poderão ter. Perdemos um ano, outros perderam a vida, outros os parentes e amigos, muitos perderam o emprego, o negócio, a poupança, alguns mesmo já esperança. À mesa da Consoada, afinal, quantos somos?
(Publicado no “Jornal Económico”)
quarta-feira, dezembro 23, 2020
A responsabilização política
Uma entrevista do presidente da República, embora na pele de candidato à reeleição, deitou mais uma acha na fogueira posta a arder sob o ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita. Há já quem faça contas ao tempo que António Costa o manterá no Governo.
Há muito que se notou que Cabrita é um mal-amado da comunicação social, que nunca pareceu simpatizar com o estilo do ministro, que admito possa ser lido como algo pomposo, quiçá arrogante. Cabrita não promove a captura charmosa dos média, mostrando-se sempre muito afirmativo e distante, projetando a ideia de que tem poucas dúvidas nos caminhos que segue. Acresce que as ironias políticas, que às vezes ensaia publicamente, não parece fazerem parte sua especialidade, embora se diga que, em privado, é um homem com sentido de humor.
Porque governa em minoria, mas também por estilo próprio, António Costa rodeia-se de pessoas sobre as quais possa exercer forte autoridade política e, em muitos casos, em quem tem grande confiança pessoal. É sabido que Cabrita faz parte, há muito, do círculo próximo do primeiro-ministro. No plano operativo, é o que os anglo-saxónicos chamam um "trouble shooter", em português corrente, um "carregador de pianos", disponível para tarefas difíceis. Quem o conhece sabe que é um político com elevado sentido de serviço público, de uma integridade à prova de bala.
O ministro deve sair agora do Governo? É vulgar dar-se como exemplo de uma atitude correta, em matéria de responsabilização política, o caso de Jorge Coelho, que se demitiu de ministro das Obras Públicas depois da queda da ponte de Entre-os-Rios. Devo dizer que, tendo achado de grande dignidade esse gesto, sempre o vi como excessivo.
Um ministro não é responsável pelo facto de um seu serviço sob a sua tutela ter falhado, a menos que se prove que já tinha sido alertado para a possível ocorrência desse tipo de falhas e, por incúria, não tivesse atuado. Ou que não tivesse logo tomado as atitudes apropriadas, na decorrência dos factos. Salvo no tocante ao prolongamento excessivo no cargo da diretora do SEF, o que pode ser levado à conta de ter optado por não querer desestabilizar o serviço, no complexo tempo da pandemia que então se vivia, não me parece, como simples cidadão, que Eduardo Cabrita tenha cometido qualquer erro grave, por ação ou omissão. Sei que vou contra o ar do tempo, mas afastá-lo do Governo, podendo apaziguar algumas consciências e confortar demagogicamente a "vox populi", não ajuda a resolver rigorosamente nada.
terça-feira, dezembro 22, 2020
Notas de um intruso
O dia ia já longo. Eu madrugara, ainda em Corfu, onde estava, há uma semana, como convidado de Georgios Papandreou, à época ministro dos Negócios Estrangeiros grego, num seminário de reflexão sobre temas internacionais.
Nessa manhã, Georgios tinha-me dado “boleia”, num jato oficial grego, que nos levou daquela ilha até Mostar, na Bósnia-Herzegovina. Relembro, durante a viagem, a paisagem lindíssima, límpida, sobre a costa grega e albanesa, que dificultava a concentração na conversa. De Mostar, onde eu teimei em regressar anos depois, num helicóptero militar alemão, fomos conduzidos a Serajevo, onde ia ter lugar a sessão de lançamento do Pacto de Estabilidade para o Sudeste Europeu. Pousámos no que me pareceu ser um estádio de futebol, ao lado do que ia servir para centro de conferências. Era o dia 30 de julho de 1999.
Essa sessão reunia “o poder do mundo”, para utilizar uma expressão que, na minha infância, ouvia, usada como significado coletivo de quem realmente conta nas decisões. A capital da Bósnia-Herzegovina, cenário de uma imensa tragédia armada no passado, era talvez, nesse dia, a cidade mais bem guardada do globo.
A reunião era organizada e dirigida pelo chefe de Estado finlandês Martti Ahtisaari, que tinha a presidência da União Europeia, e o trauma da situação balcânica tivera o condão de para ela convocar as grandes vedetas da política mundial. 40 países estavam ali presentes, ao mais alto nível.
Juntei-me a António Guterres, que viajara de Lisboa acompanhado pelo secretário de Estado da Defesa, José Penedos. O nosso encarregado de negócios em Serajevo, Luís Barreira de Sousa, por artes que nunca entendi bem, com o argumento de que tínhamos a presidência europeia seguinte, havia conseguido colocar Guterres na mesa principal, junto de Ahtisaari. Com o assento destinado a Portugal dessa forma vazio, cabia-me ocupá-lo, dada a preeminência hierárquica que o secretário de Estado dos Assuntos Europeus tinha sobre o da Defesa.
Sentei-me na mesa, com Jacques Chirac, figura imensa, à minha esquerda, e José Maria Aznar, de fato claro, à minha direita.
Cumprimentei ambos. Tinha falado muitas vezes com Aznar, que me conhecia bem. Embora tivesse estado já em diversas ocasiões e reuniões com Chirac, ele não fazia a mais vaga ideia de quem eu era.
Ainda a sessão se não iniciara e já o meu colega espanhol, Ramón de Miguel, surgira, de trás, a perguntar-me, ao ouvido, a razão pela qual Guterres obtivera o lugar de destaque de que usufruia no topo da mesa. Porque a solidez das razões desse “upgrading” protocolar, que lhe adiantei, não emergiam como muito convincentes, vi Aznar, logo informado, ficar um pouco mais crispado do que de costume, perdendo aquele esgar, que nele faz o lugar de sorriso, no perfil de “señorito” que os espanhóis patentearam para sempre no mundo.
Por uma qualquer razão não evidente, a sessão teimava em não começar. Notei que Chirac ficava cada vez mais nervoso. Olhava para a presidência e fazia uns ruídos de óbvio desagrado. Não dava a confiança de me perguntar nada, mas olhava, de quando em vez, de viés, para mim. “Quem será este tipo?”, devia pensar. A certo passo, sempre visivelmente irritado, talvez não tendo nada melhor para fazer, perguntou-me: “Vous êtes qui?” Declinei a minha função e a ele, sem a menor reação facial, saiu-lhe um: “Ah! Oui! Je vois!”. E continuou agitado, mexendo-se na cadeira. A certo ponto, exasperado, exclamou, num comentário geral, já um pouco alto: “Qu’est ce qu’on attend pour commencer?” E fazia gestos para o distante Ahtisaari.
Olhando com mais atenção à volta da mesa, eu tinha reparado que a delegação americana era das poucas que se mantinha de pé. O lugar dos EUA não estava preenchido. Clinton não aparecia.
Chirac não dera conta desse pormenor. Apenas achava estranho que a reunião não arrancasse. Com aqueles gestos largos que eram os seus, o homem da Corrèze, continuava, com umas onimatopeias à mistura, a “berrar baixinho”, para que se desse início à sessão. E repetia: “Mais qu’est ce qui se passe?”.
Divertido, por antecipação, com a reação que sabia que ia provocar nele, lancei, com um sorriso irónico: “Apparamment, on attend le président des États-Unis”.
O que eu fui dizer! (Eu sabia!). Chirac olhou para mim, furibundo, como se fosse eu o culpado, e exclamou: “Qui?! Ah! Non! Mais c’est pas possible!” E levantou os braços para Ahtisaari, esse mesmo já desesperado com o atraso do amigo americano.
Chirac só sossegou quando Ahtisaari se decidiu, finalmente, arrancar com a sessão. Disse umas primeiras palavras, mas logo suspendeu o discurso, olhando ao longe na sala. Fez-se um silêncio. Todos os rostos convergiram para o lugar onde ele se concentrara. Aliás, não era preciso: os flashes dos fotógrafos faziam uma bateria de luzes no meio das quais, com um sorriso beatífico, surgiu, num andar lento e bamboleante, que fazia lembrar o de Richard Gere, a figura de Bill Clinton.
O presidente americano não dava mostras de estar apressado, embora estivesse farto de saber que estava atrasado. Deu-se mesmo ao luxo, antes de se sentar, de ir cumprimentar duas ou três delegações. Ahtisaari, rotundo e nórdico, sem a menor expressão, esperava, atento e venerador, com o seu discurso suspenso (voltaria atrás).
Figurante apanhado no meio de um palco de ocasião, eu divertia-me imenso em ser testemunha privilegiada da cena. Em especial, mirava o meu vizinho da esquerda, que agora bufava, com nervosismo, um imenso mal-estar, por todo aquele rapto de protagonismo que Clinton conseguira fazer à cena. E ouvia-o rosnar, a “sotto voce”: “Alors! Ça commence ou pas?”.
Finalmente, tudo começou. Os intermináveis discursos.
Ao final do dia, regressámos a Lisboa, num C130 da nossa Força Aérea, numa viagem incómoda, com direito a uma sanduíche. Era tudo muito diferente do salmão com caviar que, nessa manhã, o hiper-inflacionado orçamento militar grego nos tinha proporcionado, a bordo do cómodo Gulfstream.
Passaram mais de duas décadas. Para a História, vale a pena dizê-lo, o Pacto de Estabilidade para o Sudeste Europeu não deixou uma marca por aí além. Tenho alguma pena. Porquê? Ora essa! Porque um mero acaso fez com que eu tivesse estado, como singular intruso, na primeira linha do seu lançamento.
segunda-feira, dezembro 21, 2020
O homem a quem roubaram a biblioteca
Não recordo o seu nome e, mesmo se dele me lembrasse, não o diria aqui. Era um homem muito simples, na casa dos 50 anos, que me contava belas histórias da sua infância em João Pessoa, na Paraíba, terra de que sentia saudades que a melhor vida que tinha em São Paulo não conseguia atenuar.
Era o meu motorista habitual quando tinha de me deslocar a São Paulo, ido de Brasília, o que ocorria com alguma frequência, nesses quatro anos em que vivi no Brasil. Era contratado através do Consulado-Geral e eu insistia que fosse sempre o mesmo.
Entre o aeroporto e os compromissos, ou nos intervalos entre eles, eu tinha por invariável hábito passar pela fabulosa Livraria Cultura, na avenida Paulista, de longe o mais completo e bem arrumado lugar de venda de livros em língua portuguesa, em todo o mundo. Por necessidade, por tentação ou por simples vício, nunca de lá saía sem um saco, mais ou menos recheado, de edições brasileiras.
Numa das muitas vezes em que eu acomodava no carro as novas aquisições, esse meu motorista inquiriu:
- O senhor consegue ler todos esses livros que compra?
Expliquei-lhe que não, longe disso!, mas que eu fazia parte de um grupo de pessoas, bastante vulgar, que compra sempre muitos mais livros do que aqueles que alguma vez conseguirá ler, mas que, nem pelo facto de disso ter plena consciência, era capaz de deixar de o fazer. Era uma espécie de "doença", algo dispendiosa mas incurável. Sem surpresa, fiquei com a impressão de não foi sensível a esta minha irónica explicação.
Segundos volvidos, disse-me:
- Eu também já li um livro.
Aceitei com discreta delicadeza a sua singular revelação e inquiri que livro era.
- Era um livro sobre religião, escrito por um americano, um livro muito bom. Gostava de lê-lo outra vez. Mas emprestei-o a um conhecido que foi para João Pessoa e nunca mais consegui voltar a lê-lo. Já falei com gente de lá, para lho pedirem, mas não mo devolve. Para o ano, quando fôr à Paraíba, vou ter com ele e vai ter de mo devolver. A bem ou a mal.
- Mas há tantos livros! Porque é que não lê outro livro? Por exemplo, a pessoa que escreveu o livro que leu até pode ter escrito outros, tão bons ou melhores do que esse. Sabe o nome da pessoa que escreveu o livro?
- Não sei, não me lembro, mas também não me interessa. Eu só quero voltar a ler esse livro. Não quero ler outros livros.
E calou-se, numa tristeza evidente.
Nunca cheguei a saber como se chamava o livro que o meu simpático motorista brasileiro tinha lido, nem quem era o americano que o tinha escrito. E para sempre senti imensa pena daquele homem, não pelo facto de não querer ler mais livros, mas porque percebo muito bem a angústia de alguém perder aquela que era toda a sua biblioteca.
domingo, dezembro 20, 2020
“Observare”
Abordámos, neste programa, a instabilidade político-militar no norte de Moçambique e a projeção regional da Turquia, nomeadamente no conflito azeri-arménio. Falei da admissão pelo rei do erro sueco no modelo de gestão da pandemia e do banimento da Rússia das competições desportivas internacionais. Recomendei, a fechar, um livro de Fareed Zakaria.
Pode ver o programa aqui.
Velocidades
Ao ver as sondagens (há-as para todos os gostos e ambições) lembrei-me do conselho de Juan Manuel Fangio, quando perguntado a que velocidade se devia conduzir para ganhar uma corrida: “O mais lentamente possível. Basta chegar antes do segundo...”
António Costa estará a seguir Fangio?
sábado, dezembro 19, 2020
O exagerado
Custou-me a reconhecê-lo, com a máscara, a porta da livraria, hoje de manhã.
Lembro-me dele como um radical. E, sempre, com um verbo exagerado.
Careca, mais gordo, mais velho, reformado há muito, mas sempre com aquele sorriso jovial, o mesmo que tinha quando andávamos envolvidos nas "guerras" políticas radicais dos anos 70.
Falámos do país e dos dramas caseiros. E ele saiu-se com esta:
- Felizmente que pertencemos a uma geração realizada. Lembras-te quando lutávamos por uma sociedade sem classes?
Eu lembrava-me, mas não percebia onde ele queria chegar.
- Pois bem! Conseguimos o que queríamos: temos hoje uma sociedade sem nenhuma classe...
Continua um exagerado.
“Long drink”
No ano de 2004, aquele pobre país da Ásia Central, tal como os outros com o nome a acabar em “ão”, mantinha, no essencial, todos os reflexos típicos da época comunista, tal como eu os recordava dos anos 80.
O único hotel disponível, marcado pelas autoridades, era mais do que espartano, com o elevador avariado e uma desfuncionalidade geral irritante. Só os preços tinham um mínimo de "elevação", provavelmente inflacionados para estrangeiros.
Os quartos estavam decorados de uma forma inenarrável, as casas de banho eram dignas de pensões portuguesas do tempo do Estado Novo, as camas suscitavam insuperáveis dúvidas de limpeza. Como era só por uma noite, não valia a pena fazer de tudo aquilo um drama.
Logo que instalado, desci para o "hall", juntando-me aos quatro colegas que comigo vinham de Viena, cúmplices desse périplo de "fact-finding mission", que nos faria fez atravessar todas as cinco Repúblicas da região. É um mundo estranho, com a Rússia a norte, que vai da Turquia às fronteiras com o Irão, o Afeganistão e a China.
Porque, de outras paragens, já trazíamos algumas experiências divertidas, rimo-nos um pouco da situação, sob o olhar patibular de uma matrona mal encarada que, na receção, era um modelo acabado de inospitalidade.
Perguntámos se podiamos beber qualquer coisa, dado faltar ainda algum tempo para o jantar oficial que nos aguardava. Com um gesto displicente, apontou-nos um bar ao fundo da sala. Encostados a um canto do balcão, estavam dois personagens de blusão de couro, manifestamente ali colocados para observar os nossos movimentos.
Os meus colegas pediram refrigerantes, mas eu tive a ideia de querer um vodka tónico, honrando o álcool preferido daquela parte do mundo. Recordo que sempre bebi, ali na Ásia Central, magníficos vodkas!
O barman, que tinha sido educado na mesma escola de simpatia da rececionista, respondeu-me, em macarrónico inglês, que só serviam "long drinks" depois das sete horas. E eram aí seis e picos.
“Long drink”! Achei curioso aquele preciosismo, que ia das “Cuba libre” aos “gin tónico” e a tudo o que diluísse bebidas fortes. Mas o que tem de ser tinha muita força, em especial nesse “Absurdistão” pós-soviético.
Pedi, assim, uma água tónica. Depois, pedi algum gelo. Deixei passar uns minutos. Como eu suspeitara, os dois matulões da segurança bebiam vodka, em pequenos copos. Quando os vi pedir outra dose, disse ao barman que também queria, para mim, uma vodka. Hesitou por um segundo, mas não tinha nenhuma razão para recusar o que acabara de dar aos seguranças. E lá me trouxe um copo com vodka. Dose generosa, para me calar.
Aí, não resisti: com um gesto largo, verti a vodka sobre a água tónica com gelo e exclamei: "Vodka tonic!". Os meus colegas desataram às gargalhadas e tenho a impressão que os seguranças também sorriram. Só temi que o barman tivesse uma Kalashnikov, para poder concretizar o ódio com que me olhava.
sexta-feira, dezembro 18, 2020
O bom estado da União
A pandemia abateu-se sobre a Europa, como se abateu sobre todo o mundo, de uma forma devastadora: com imensas mortes diárias, com uma tensão inédita sobre os serviços de saúde, com uma disrupção das atividades económico-sociais, com impactos nos mercados de trabalho, com falências e suspensão de atividades produtivas, com a indução de um ambiente de pânico, de desânimo e de desesperança.
Acresce que os governos nacionais viriam a revelar uma surpreendente diversidade de reações, algumas delas tributárias de abordagens filosóficas e científicas que, pelo menos durante algum tempo, criaram uma espécie de competição entre modelos. Para muitos cidadãos, entre os quais me incluo, foi estranho ver Estados que se pensava marcados por uma cultura sanitária obedecendo a “protocolos” comuns, quiçá desenhados no quadro multilateral, à luz das melhores práticas de casos passados, enveredarem por caminhos diversos, às vezes contraditórios.
Neste ambiente, que assumiu de início proporções de algum desvario, foi interessante assistir a uma atitude crescentemente afirmativa por parte da Comissão Europeia, que tinha então poucos meses de exercício, no esboçar de respostas à crise. E foi reconfortante perceber que, à fragilidade comum, perante uma ameaça de perfil inédito, sucedia uma abordagem sensata, responsável, construtiva.
A presidência alemã, depois de 1 de julho, revelou uma excelente liderança na coordenação dos Estados membros, funcionando como aliada operativa da Comissão, com o Banco Central Europeu, num novo esforço “whatever it takes”, a mostrar-se como uma base essencial de confiança para os mercados.
O resto, com diálogo e pertinácia, veio de seguida. Foi o estímulo para a produção rápida das vacinas, o trabalho coordenado para as garantir, logo que possível, para todos os cidadãos residentes nos Estados membros. Foi a gestão prudente dos problemas criados à livre circulação de pessoas no espaço europeu. Foi a suspensão da rigidez da condicionalidade macro-económica, com vista a permitir aos diversos governos efetuarem os desembolsos de emergência essenciais para sustentar os impactos nacionais do congelamento das economias, sem com isso serem acusados de estarem a violar as regras europeias. Mas foi muito mais: foi a imediata reflexão, mediada pela Alemanha, sobre a necessidade de ser promovida, a prazo, uma forte injeção de capitais nas economias nacionais, suportados - “hélas”! - por empréstimos europeus, garantidos pelas instituições da União, daí não decorrendo, na parte essencial dessas ajudas, um encargo para as dívidas soberanas.
No meio disto, a Europa teve de enfrentar a hostilidade celerada do outro lado do Atlântico, o vai-e-vem ciclotímico de Londres, o oportunismo meliante de alguns dos seus próprios Estados. E muitos outros dossiês complexos. Não sei, no momento em que escrevo, onde estamos no Brexit. Mas, aparte esta incógnita, a herança que a presidência portuguesa recebe é séria e responsável.
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Hortaliças de Estado
Há poucas semanas, soube da morte de Carlos Westendorp. Foi uma figura relevante da diplomacia espanhola: ministro dos Assuntos Exteriores, ...
















