quinta-feira, julho 02, 2020

Amália


Sempre achei perfeitamente ridícula a questão da relação entre Amália e a política. A arte de Amália torna-se melhor ou pior, dependendo da sua “lateralização” ideológica? Que palermice!

Durante anos, para alguns, Amália era “fascista”, bandeira do Estado Novo, misturada romanticamente com a plutocracia, com fábulas noturnas no chafariz do Rossio. 

Depois, foi a sua recuperação pelo lado intelectual, dos poetas “bons” que cantou à parceria com Alain Oulman, um esquerdista que a Pide prendeu. As noites “chez Amália”, com nomes sonantes por lá, consagraram um cenáculo prestigiante.

Agora, parece que se descobriu que Amália apoiou gente perseguida pela ditadura. 

Pelos vistos, a julgar pela incessante coscuvilhice à sua volta, o passado de Amália está ainda cheio de futuro.

E se, muito simplesmente, ouvíssemos a fantástica voz de Amália e deixássemos em paz a sua vida?

A esperança verde

Ser sportinguista é sempre ter esperança. Mas ter a menor esperança de colmatar a distância pontual existente face ao Benfica, para poder chegar ao segundo lugar, é, não um sinal de esperança, mas de um insensato irrealismo.

quarta-feira, julho 01, 2020

O futuro do Turismo



Na minha vida como diplomata, a divulgação das virtualidades do turismo em Portugal fez parte, com a promoção do comércio e a captação do investimento estrangeiro, do "triângulo" permanente da nossa ação económica externa. Em quase quatro décadas de profissão, com ciclos políticos muito diferenciados, esse módulo de interesses permaneceu constante, com maior ou menor alocação de meios para o impulsionar.

Devo confessar, contudo, que a explosão turística da última década constituiu, para mim, uma imensa surpresa. Se bem que, teoricamente, pudéssemos conceber que Portugal estava a reunir um conjunto invejável de atrativos para captar turistas estrangeiros - da segurança pública à qualidade da rede hoteleira, da afabilidade à gastronomia e vinhos, do sol & praia à rara especificidade dos novos destinos (Douro, Açores, turismo verde) - havia sempre a ideia, felizmente errada, de que outros conseguiriam suplantar-nos nesse campeonato.

Ainda há menos de uma década, como embaixador em Paris, tutelei várias campanhas para conseguir motivar os franceses a visitarem o nosso país. Os números de crescimento eram prometedores, mas nada que indiciasse o "surto" que veio a verificar-se.

Desde o início do desconfinamento, tenho visitado algum Portugal turístico. Já estive instalado em hotéis, fiz algumas refeições em restaurantes. Mas, como produto de essa experiência, quero dizer que estou cada vez mais apreensivo com os efeitos da pandemia na nossa indústria turística.

Olho, com profunda admiração, a reconversão estoica das unidades hoteleiras, que ousam abrir portas num mercado rarefeito, quase sem estrangeiros. Tenho apreciado o esforço fantástico de muitos restaurantes, não obstante os custos de adaptação ao rigor das exigências sanitárias. E posso imaginar o efeito que a atual situação acarreta para setores como os transportes, as indústrias de lazer e um conjunto de muitas outras atividades colaterais.

A prolongar-se o presente estado de coisas por muito tempo, é quase certo que vamos ter um recuo muito forte num domínio que representava já uma fatia muito importante da nossa riqueza nacional. E da nossa identidade.

Sei que alguns apoucam e desprezam o setor turístico português, que o olham com sobranceria, que acham agora graça às ruas desertas de estrangeiros. Talvez esses "génios" pudessem informar-nos onde Portugal pode ir buscar um produto substituto para captar recursos para o país.

PS - Deixo aqui uma palavra de saudade pelo fim da "Casa Aleixo", um marco histórico na restauração do Porto.

terça-feira, junho 30, 2020

Requiem para o Aleixo


Há dias, de passagem pelo Porto, recebi a notícia: o Aleixo fechou. O Aleixo, ou melhor, a Casa Aleixo, para quem ande menos atento a estas coisas da restauração, era o nome de um restaurante muito antigo do Porto. 
Começo por transcrever parte de um texto que, faz agora precisamente quatro anos, escrevi na revista “Evasões”, onde, até me cansar da tarefa, mantive, por algum tempo, uma crónica gastronómica. O artigo sobre o Aleixo tinha o título provocador de “O polvo é quem mais ordena”.
No Porto há vários restaurantes clássicos, mas eu arriscaria dizer que, nos dias de hoje, nenhum tem os pergaminhos históricos do Aleixo.
O Aleixo fica em Campanhã, a dezenas de metros da mais movimentada estação ferroviária da cidade. Contudo, nem por isso sofre da banalização que, muitas vezes, afeta os lugares de restauração próximos dos centros de transportes coletivos. Ao longo de toda a sua existência, com altos e baixos, somados a crises e dissídios, a casa tem conseguido sustentar uma qualidade muito apreciável, sendo procurado por uma clientela fiel local e, em especial nos últimos anos, também pelos turistas que enxameiam o Porto. E, claro, por forasteiros como eu, que mapeiam o país das boas vitualhas.
O espaço do Aleixo é típico de um restaurante sem grandes sofisticações, mas com um ambiente acolhedor, quase caseiro. Não fora a pressão de clientes em dias de maior procura e seria tentado a dizer que recorda as saudosas pensões de província, nos tempos imemoriais do “bom e barato”. Estamos um pouco longe disso, isto é, continua bom mas, como não podia deixar de ser, porque a qualidade dos produtos tem de ser paga, já não é um restaurante qualificável como barato – muito embora, a meu ver, tenha uma relação qualidade/preço muito boa.
Sou cliente antigo do Aleixo. Nem me recordo de quando por lá parei pela primeira vez, seguramente saído de um comboio ou a fazer horas para ele. Creio que sou ainda do tempo em que nem café era por ali servido, como também lembro o período, menos agradável, em que, para o tomar (mas de saco), éramos obrigar a deslocar-nos para uma sala feita bar, em bancos incómodos, onde se acertavam as contas finais. Hoje, esse espaço passou a ter mesas e foi aí que, há dias, almocei.(...)”
O Aleixo foi propriedade do senhor Ramiro e da dona Inês. Conheci-os a ambos, em especial a senhora, que sobreviveu ao marido. Tinham um casal de filhos, mas não foram muito imaginativos nos nomes que lhes deram: Ramiro e Inês. O Ramiro, um dia, decidiu separar-se e criou o restaurante “Pai Ramiro” (que nunca visitei). A iniciativa fracassou e o Ramiro regressou. Depois, foi a vez da Inês, que criou a Casa Inês (visitei e não fiquei cliente). Fracassou e disseram-me que ainda regressou à casa mãe. Agora, fechou, de vez, a Casa Aleixo. 

Depois de ter escrito aquele texto, ainda voltei algumas vezes ao Aleixo. Não obstante o brio do meu amigo Ramiro, senti algum declínio na constância da qualidade da casa. Talvez por isso, a frequência das minhas visitas diminuiu. A grande escola do Aleixo, um restaurante criado por um galego e que, dentro de nove anos, passaria a centenário, desaparece. 

Para trás, fica a memória das placas nas paredes que indicavam a “Sala de Operações”, onde se comia, o “Laboratório”, isto é, a cozinha, a “Farmácia”, onde se guardavam os álcoóis, e a “Sala de torturas”, onde antes se faziam as contas. Sem o Aleixo, é um certo Porto que desaparece. Nada de nostalgias! Olhemos em frente, com otimismo, porque por aquela cidade continua a comer-se muito bem.

domingo, junho 28, 2020

Corrida

Conversa social, há dias. O outro, ribatejano: “Você gosta de touros?” Eu, transmontano: “Gosto”. Um sorriso despontou. Até que eu disse: “Por gostar deles é que detesto que lhes façam mal”. O sorriso fechou-se e mudámos de conversa.

A água estará boa?


sexta-feira, junho 26, 2020

Gerações


Há pouco, ao selecionar pastilhas da minha rotina medicinal diária, lembrei-me de como as gerações são diferentes, no tocante aos “hábitos” medicamentosos.

O meu pai morreu com 97 anos. Seis anos antes, foi passar comigo umas semanas a Nova Iorque. Perguntei-lhe se levava alguns medicamentos: sim, duas pastilhas de “Melhoral” e duas de “Rennie”, para “qualquer emergência”...

Fronteiras

Em questões de segurança há dois conceitos que nem sempre coincidem: a insegurança e a perceção de insegurança. A segunda pode ser injusta, à luz da estatística, mas tem de ser respeitada. Estou a falar, claro, dos países reticentes à entrada de portugueses, por virtude do vírus.

Pin Pan Pum

O PAN parece estar a implodir. Ainda não é desta que Portugal consegue ter um partido ambientalista a sério.

Posso estar errado...

As pessoas não falam muito disso, mas certas medidas de recuo no desconfinamento só parecem legais desde que cobertas por uma nova declaração do estado de emergência. Por mim, não vejo nenhum inconveniente nisso.

Haveis...

Quando vejo gente (com um ar nojento) de máscara no queixo ou como cachecol a falar para outros a palmos de distância, não consigo deixar de pensar na expressão cruel que, na minha terra, se dizia para os inconscientes que, por qualquer motivo, arriscavam a vida: “haveis de ter um lindo enterro!”

quinta-feira, junho 25, 2020

Dilema


E, agora, o que é que faço? Continuo a ler o livro de John Bolton sobre as suas andanças na Casa Branca como “National Security Advisor” ou passo para a edição de junho da “Piauí”, a fantástica revista brasileira, acabadinha de chegar, com um imenso artigo sobre a efémera aventura de Regina Duarte no país de Bolsonaro?

Banco de Portugal

Prometeram arranjar-me uma lista de nomes de pessoas mais competentes do que Mário Centeno para o cargo de governador do Banco de Portugal. Mas, por qualquer razão, a lista teima em não chegar. Alguém a tem?

Um adeus especial


Há semanas, tomei a decisão de entregar ao espólio bibliográfico que, com o meu nome, existe, desde há uns anos, na Biblioteca Municipal de Vila Real, um conjunto de livros que, há mais de meio século, tinha começado a organizar. 

Já estavam, pela Biblioteca, muitos e muitos livros, que lhes fui, aperiodicamente, encaminhando, desde que regressei definitivamente a Portugal. 

Mas esta era uma coleção muito especial. Comecei-a quando tinha menos de 20 anos. Trata-se de obras políticas sobre a I República e, em especial, sobre o Estado Novo (tenho orgulho de dizer que está lá quase tudo o que foi publicado, em livro, sobre a luta da Oposição contra a ditadura), complementadas por bastante daquilo que saiu do prelo sobre o 25 de abril e a sua sequência imediata. A luta anti-colonial tem também ali farta representação. Particularmente curiosos são livros publicados no estrangeiro sobre Portugal, quer por adeptos de Salazar, quer pelos seus exilados opositores ou por críticos estrangeiros da ditadura colonialista. Em muitos países descobri coisas interessantes sobre esse tempo de Portugal. Com franqueza, creio que nenhum daqueles livros é particularmente valioso, mas alguns são hoje muito raros, difíceis de encontrar no mercado.

Neste lento processo de “desligamento” voluntário de parte da minha biblioteca (ainda fico com uns milhares de volumes para me entreter, para além do que vou comprando), devo confessar, aqui entre nós, que este foi o único momento verdadeiramente traumático. Quantos anos andei eu, pelos alfarrabistas, a tentar encontrar alguns daqueles livros! Quanto prazer tive em ler aqueles textos bem datados, desde memórias ingénuas a coisas mais elaboradas, alguns com mensagens cheias de esperança, outros cheios de prosápia politiqueira. Mas está ali a História contemporânea de um país que é o nosso.

“Mas, se teve tanto trabalho a coletar esses livros, a que se sente afetivamente tão ligado, por que os não conserva consigo? Já não tem lugar para eles nas suas estantes?”, perguntarão alguns.

Tenho espaço (embora em dupla fila...), mas acho que dar-lhes um destino institucional acaba por ser a solução mais racional, até para proteger a sua integridade física e a sua integralidade como conjunto. Ao longo destes meses de confinamento, olhando para eles, dei-me conta de que só se tivesse sete vidas, como os gatos, é que conseguiria reler tudo aquilo (e alguns, dei-me conta, não cheguei nunca a ler, admito sem o menor problema).

Não sou, em geral, dado a grandes nostalgias. Mas, ao olhar aquelas centenas de volumes que agoram partem para Vila Real, algo em particular me tocou. Mas, adiante!

quarta-feira, junho 24, 2020

O Brasil em discussão



Durante meia-hora, a partir das 17 horas desta quarta-feira, dia 24 de junho, a jornalista Sandra Weiss e Leonídio Paulo Ferreira, diretor do Diário de Notícias, discutirão as Dinâmicas Políticas no Brasil. O acesso pode ser feito pelo Facebook ou pelo YouTube.

Que se passa no Brasil?


Mergulhados nas especulações sobre a pandemia, que arruina rotinas e abala certezas, os portugueses, quando, pela noite, olham as televisões, ouvem falar do Brasil. E o que é que fixam? A ideia de um país dirigido por um “doido”, com pulsões anti-democráticas, rodeado de figuras “sulfurosas”, amparado pelos militares, que dia a dia dá mostras de não estar à altura das responsabilidades exigíveis a um líder de um grande país, agora sob uma imensa tragédia sanitária. Com mais ou menos nuances, este é o retrato que nos chega do outro lado do Atlântico.


Durante muitos anos, Jair Bolsonaro foi um deputado risível, que obtinha destaque mediático pelos ditirâmbicos elogios que fazia à ditadura militar (1964-1985). Mau orador, “despreparado”, como por lá se diz, sem obra parlamentar, era uma “nonentity” no panorama político local. O sistema brasileiro, por mecanismos de representação uninominal que não cabe aqui descrever, dá aso à eleição de alguns “cromos”. E Bolsonaro era isso mesmo, um cromo. Até um dia.


Foi um conjunto muito excecional de circunstâncias, que teve essencialmente a ver com a rejeição profunda dos tempos do PT, visto como o centro do processo de corrupção política que marcou a gestão do Brasil, que acabou por polarizar o voto naquela figura de discurso primário e populista.


Mas foi também o descrédito da direita democrática tradicional, sem candidatos tidos como capazes de afastarem o “petismo” da área do poder, que levou gente sensata e equilibrada a optar pela escolha de uma figura com o recorte de Bolsonaro. Era a lógica do “depois logo se vê!”


Para muitos, e conheço alguns, foi um assumido ato de desespero, perante o desiderato maior que era afastar o PT e evitar um regresso ao poder de Lula ou um seu títere. Estou em crer, contudo, que a maioria dessas pessoas nunca pensou que Bolsonaro revelasse uma inadequação tão grande para o exercício das funções. Outros acreditavam, talvez, que seria possível rodeá-lo de figuras que permitissem um mandato marcado por alguma razoabilidade. A realidade acabou por superar as piores expetativas.

E agora? Apesar de tudo, há que reconhecê-lo, o Brasil tem revelado manter uma malha institucional com separação de poderes, com um imprensa e uma vida política livres. A questão está em saber: conseguirá a democracia brasileira sobreviver, não necessariamente a Bolsonaro, mas a este tempo trágico, de polarização e forte desgaste social, sem uma liderança prestigiada, em que tem uma figura como Bolsonaro na presidência?

Tempus fugit

Com todo o respeito que uma declaração ministerial sempre deve merecer em democracia, por que será que está instalada na opinião pública uma...