terça-feira, abril 09, 2013

Gulbenkian

Por curiosa coincidência, o avião da TAP em que, há minutos, cheguei de Paris chamava-se "Calouste Gulbenkian". E foi a Fundação Calouste Gulbenkian a razão pela qual dei "uma saltada" de 24 horas à capital francesa, para participar na primeira reunião do Conselho Consultivo, agora criado, que tem como função orientar o trabalho da Delegação da Fundação em Paris, composto por seis personalidades portuguesas e francesas e que é presidido pelo professor André Gonçalves Pereira.

A representação da Gulbenkian em Paris, que funcionou até 2011 na antiga casa de Calouste Gulbenkian e que agora está instalada no boulevard La Tour Maubourg, desenvolve, há quase cinco décadas, uma interessantíssima obra cultural, que muito tem prestigiado o nosso país e que, simultaneamente, tem contribuído para honrar a memória de alguém a quem Portugal muito deve. Os tempos mudaram, a presença portuguesa tem hoje uma dinâmica nova na sociedade francesa, as representações em França das culturas que se expressam em português têm de encontrar formas de potenciar a língua comum e, por essa razão, à representação da Gulbenkian apresentam-se hoje novos desafios. 

Dispus-me assim, e com gosto, a colaborar, a partir de agora, na reflexão sobre o futuro da Delegação da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris. E, podendo ser coincidência, gostei que esta primeira reunião do Conselho Consultivo tivesse tido lugar no dia 9 de abril, data da batalha de La Lys, em que, em 1918, os portugueses ajudaram à defesa da França e da liberdade na Europa.

segunda-feira, abril 08, 2013

Margaret Thatcher (1925-2013)

Chegado há pouco a Paris, capital de um país sobre o qual Margareth Thatcher tinha sentimentos muito pouco simpáticos, acabo de saber da morte daquela que, por quase 12 anos, chefiou o governo britânico. Eu vivia em Londres ao tempo do seu afastamento do poder. Por uma quase coincidência, tive o privilégio de assistir, na Câmara dos Comuns, ao seu último e histórico discurso parlamentar, como já contei aqui.

Goste-se ou não das ideias de Thatcher, ninguém pode deixar de reconhecer que ela foi uma estadista que, como poucos, marcou o seu país e o tempo internacional: na sua visão e influência sobre a relação transatlântica, no modo como formatou a singular posição britânica face à Europa, no seu sentido premonitório do papel de Mikail Gorbachev no futuro da URSS, na sua teimosia patriótica face às Falkland/Malvinas e em tantos e tantos outros dossiês. E, naturalmente, com tudo o que isso ainda significa para o mundo de hoje, com a sua promoção de uma agenda liberal radical.

Uma das expressões que ficaram ligadas à imagem de Thatcher é a palavra "tina" - "there is no alternative" -, lema que, pelos vistos, continua a ter ardentes seguidores noutras paragens. 

Milhão

Não sei se estas coisas se comemoram. Devo dizer, contudo, que não posso deixar de sentir um certo orgulho pelo facto do número de visitas deste blogue ter, há algumas horas, ultrapassado o milhão. Um milhão?! Caramba!

Em tempo: para comemorar, e também para descansar de todos os "sermões" de domingo, hoje não escreverei mais nada. Amanhã, espero que o meu "spread" psicológico face a todos eles não seja muito grande.

domingo, abril 07, 2013

A realidade

No último número da revista "Sábado", no âmbito de uma entrevista*, surjo a dizer o seguinte: "O governo segue uma receita e a falta de resultados ainda não o levou a mudá-la. Não sei por quanto tempo vai ser possível manter esta aproximação à realidade sem que a realidade lhe caia em cima".

Hoje, apetece-me repetir aqui o que disse.

* Uma versão mais completa da entrevista foi publicada aqui.

O futuro da democracia

Em democracia, há sempre soluções. Esta é uma frase-chavão que todos teimamos em utilizar, à saciedade, porque nos sossega e deixa alguma margem de esperança. É claro que é bom que as pessoas pensem assim, porque essa é a garantia de que, enquanto acreditarem nisso, continuarão a privilegiar a via democrática para a resolução dos problemas do país.

Há dias, ao ouvir um daqueles programas em que os espetadores telefonam a dar a sua opinião sobre tudo e alguma coisa, dei comigo a refletir na incoerência e na irracionalidade de alguns desses comentários, construídos em torno de preconceitos, de uma crescente acidez com o mundo e de um muito alargado desprezo pela classe política. Embora só concordando marginalmente com alguma coisa que ouvia, fui levado a concluir que essas pessoas, na simplicidade dessas opiniões, apenas refletem, com uma inegável legitimidade, o desespero e a falta de esperança que os atravessa - cumulados de impostos, de familiares sem emprego, de projetos de vida arruinados. E vi-me obrigado a ter de aceitar a legitimidade dessa expressão irada do seu imenso desconforto.

Aquilo que eu me pergunto é se as lideranças políticas que temos têm a verdadeira consciência de que, ao conduzirem essas pessoas para evidentes limiares de desespero ou, do outro lado do espetro, ao não lhes fornecerem soluções credíveis de esperança, não estarão elas próprias a ajudar à progressiva deslocação de muita dessa gente para áreas que, de um dia para o outro, podem vir a situar-se fora do contexto democrático. Como entendo que não é plausível que isso possa acontecer no contexto de uma reorganização partidária, temo sinceramente que a próxima eleição presidencial possa vir a ser o terreno ideal onde sejam adubados alguns projetos populistas. E a História alheia já nos mostrou que não é evidente que todos quantos são eleitos por via democrática sejam, necessariamente, os melhores defensores futuros do sistema que os escolheu.  

sábado, abril 06, 2013

Os telefones e a crise

Um dia, no decurso de um Conselho de ministros em que se discutia um assunto sensível, um membro do governo saiu da sala e fez um telefonema através de um telefone fixo. De seguida, desconfiada, uma outra pessoa decidiu usar o mesmo telefone e, primindo a tecla de repetição, encontrou no outro lado da linha uma figura que dirigia um jornal. Jornal onde, no dia seguinte, o debate tido no Conselho de ministros apareceu descrito em pormenor.

Há minutos, dois jornalistas televisivos, sem qualquer pejo, estranhavam não estarem a receber SMS's que indiciassem o modo como as coisas estavam a correr no seio do Conselho de ministros, potencialmente decisivo para a crise política em curso. A certo passo, um deles disse que acabava de ser informado, seguramente "de dentro", de que "as coisas correram bem".

O tempo passa, mas os vícios são os mesmos. Ou, como dizem os ingleses, "old habits die hard".

Notícias da Noruega

Há já algumas décadas, vivi alguns anos na Noruega. E por lá aprendi algumas coisas. 

Nos termos da constituição do país, o parlamento da Noruega não pode ser dissolvido. Em nenhuma circunstância, por maiores que sejam as crises (aprovação de um voto de censura ao governo, rejeição de um voto de confiança, "implosão" do governo, etc). Se uma crise se verificar, compete curiosamente ao chefe do executivo cessante, segundo a prática local, sugerir o nome de um seu possível sucessor, oriundo de outro partido, que possa encarregar-se de formar nova equipa governativa. Isto passa-se sempre assim, qualquer que seja o equilíbrio político resultante das eleições legislativas, e nunca a Noruega ficou sem governo. Assim, por lá, as eleiçöes têm invariavelmente têm lugar de quatro em quatro anos, realizadas até ao final do mês de setembro, sempre numa segunda-feira. Os partidos políticos noruegueses são forçados a um exercício de responsabilidade e, por isso, são sempre obrigados a encontrar soluções de governabilidade para o país. Se tal não acontecesse, a opinião pública - isto é, os seus eleitores futuros - puniria seguramente os partidos que inviabilizassem a formação de compromissos. Várias vezes, ao longo de mais de século, a ideia da introdução da figura da dissolução do parlamento foi discutida, mas as propostas (que necessitariam de uma maioria dois terços para serem aprovadas) foram sempre afastadas, porque os noruegueses consideraram que isso reduziria o ambiente para a cooperação entre os partidos, para soluções de interesse nacional.

Inspirados em "A Ceia dos Cardeais", agora que Júlio Dantas surge como clássico de cultura geral no concurso de acesso à carreira diplomática, bem poderíamos dizer: como é diferente a política em Portugal!

Futuros diplomatas à prova

À polémica em torno do modelo da prova de cultura geral a que foram sujeitos os candidatos ao acesso à carreira diplomática, assunto de que já aqui se falou, acaba de ser somado um novo capítulo: o exame foi anulado, aparentemente não por um qualquer juízo de inadequação sobre a prova, mas por irregularidades detetadas na respetiva execução. Na blogosfera fala-se também de outros episódios, como o recurso ao Google por parte de alguns concorrentes, o que, a ser verdade, revelaria outras deficiências na fiscalização. 

Não gosto de ver o "meu" Ministério envolvido em processos polémicos e só posso lamentar que um ato tão importante como a escolha de novos diplomatas possa ficar inquinado por um episódio desta natureza. Episódio que - convenhamos - com algum cuidado poderia ter sido evitado. 

O acesso à função pública, em particular num momento tão complexo como aquele em que vivemos, tem de ser um processo cristalino e "irreprochable". Há que esperar que a repetição da prova anule agora todas as dúvidas e consagre um processo incontroverso, apurando os mais competentes e, já agora, pessoas com um nível cultural à altura do privilégio e da honra que significa representar Portugal no mundo.   

sexta-feira, abril 05, 2013

Constituição

Este é o dia para olhar com atenção para a Constituição

"Free shop"

Foi no aeroporto de Orly, no final dos anos 80. Aquela delegação portuguesa, chefiada por um secretário de Estado, chegara a Paris vinda de Tunis, após uma visita de trabalho de três dias. Estava em trânsito no "salão 500", a sala VIP daquele aeroporto parisiense. Faltava ainda bastante tempo para o voo de ligação a Lisboa, pelo que dois dos diplomatas que acompanhavam o político decidiram dar um salto à zona do "free shop".

Um deles entrou numa livraria e comprou dois ou três livros. O outro, numa loja ao lado, estava concentrado nos filmes à venda. O primeiro dos diplomatas, já com o saco do livros que comprara na mão, chamou então a atenção do segundo para as "promoções" que embarateciam fortemente, naquela loja, algumas "cassettes" de filmes. E indo ao encontro de uma conhecida propensão do colega, tido nos corredores das Necessidades por um dos mais persistentes "engatatões" da casa (o que, aliás, faz com que toda a "carreira" ainda hoje o trate por um nome muito "específico"), alertou-o, num conselho cordial:

- Não sei se já deste conta que estão aí à venda alguns dos grandes "clássicos" do cinema erótico, a preços fantásticos. Tens a oportunidade, por tuta e meia, de comprar obras hoje quase "históricas".

Com uma visível e detalhada erudição na matéria, foi-lhe dando referências, assinalando autores e vedetas consagradas, nos variados níveis de "exigência" em que o género se organiza e qualifica. O colega mostrava-se crescentemente tentado, mas hesitou por alguns instantes, talvez receoso em chegar a casa, em Lisboa, carregado com toda aquela "produção". A curiosidade e os preços tiveram o condão de convencê-lo. E lá acabou por comprar três ou quatro dessas tão apelativas"cassettes".

Regressaram ambos à sala VIP. O secretário de Estado mantinha-se à conversa com a restante delegação. Ao vê-los entrar, inquiriu:

- Então, fizeram muitas compras?

O diplomata "livresco" abriu de imediato o seu saco e mostrou os volumes que adquirira. Os olhos da sala voltaram-se então para o outro colega, que, com estranho afã, tentava, num canto da sala, meter numa saca de couro o produto das suas aquisições.

- Ó homem! Mostre lá o que comprou!, disse o secretário de Estado.

Já corado, com um sorriso amarelo, o diplomata resistia, sob pressão da curiosidade coletiva, cada vez mais atiçada pela sua visível atrapalhação. Diga-se que a delegação era constituída só por homens, a que se somava o embaixador em Paris. O governante era dos mais insistentes, desconfiado que havia ali algo escondido. Ao fim de alguns minutos, algo "encavacado", o diplomata lá se dispôs, com alguma relutância, a exibir as "peças" adquiridas. Talvez a ideia de que isso acabaria por lhe ilustrar o seu conhecido e nunca negado "curriculum" tivesse atenuado a sua retração. 

É claro que a saída dos filmes da saca provocou, como seria de esperar, uma galhofa geral, com ele a cuidar explicar, metendo os pés pelas mãos, que, na verdade, fora o outro colega quem o induzira à aquisição. Este último sorria, deliciado com o espetáculo e com um gozo agora legitimado pela fraqueza psicológica do outro.

Ontem, ao final da tarde, num aeroporto francês, numa escala entre dois voos, precisamente entre Tunis e Lisboa, lembrei-me do episódio. Não consigo é recordar o nome dos seus protagonistas. 

quinta-feira, abril 04, 2013

Abade de Priscos

O pudim que surge na imagem chama-se "Abade de Priscos". Mas sabe o leitor a origem e a razão da designação? Esta e centenas de outras interessantíssimas curiosidades, sobre coisas e nomes que um pouco por todo o mundo surgem à nossa mesa, são reveladas num livro que tive grande gosto em prefaciar e que vou apresentar no dia 11 de abril, na FNAC do Chiado, em Lisboa.

A obra chama-se "Os mistérios do Abade de Priscos" e é seu autor Fortunato da Câmara, reconhecido crítico gastronómico. As histórias da culinária à volta da História e o excelente enquadramento de uma imensidão de referências culturais criaram um texto muito saboroso, de fácil digestão e grande proveito. Sem a menor hesitação, um livro a consumir.

quarta-feira, abril 03, 2013

O arbóreo

Cruzei-me com ele há dias, numa rua de Vila Real. Já o não via há bastante tempo. Tive logo uma reação de imediata precaução. É que estava perante um conhecido praticante da chamada conversa "arbórea".

Tenho este assunto, de há muito, bem estudado. A conversa "arbórea" é um estilo de expressão oral que se carateriza por uma deriva temática obsessiva, tendo como pretexto o emergir de uma qualquer referência significativa. A conversa do "arbóreo" segue como os ramos de uma árvore, de onde surgem novas ramificações, as quais, por sua vez, se subdividem.

Diga-se, com franqueza, que nenhum de nós está imune a esta prática. Num diálogo solto e informal, todos caímos, frequentemente, neste vício. Eu faço-o, com regularidade e de modo consciente. Só que há quem o exercite por regra e seja completamente incapaz de o evitar. É o caso do pessoal que é tipicamente "arbóreo".

Uma vez mais, o meu interlocutor não desiludiu as expetativas - e só transcrevo aqui o que me disse pela certeza segura de que ele não utiliza computadores:

- Então já saiu de Paris? Deixou-se de embaixadas, não é? Era tempo! Bela cidade, Paris! Sabe que tenho lá uma irmã, que trabalha na banca? Nunca a encontrou? Está casada com o Meireles, você é capaz de conhecer, está muito ligado ao Florindo, aquele advogado que esteve nos governos do Soares. Você é amigo do Soares, não é? Sabe se está melhor? Deve estar. Li num jornal que ele já fez um elogio à entrevista do Sócrates. E a si, o que lhe pareceu a "aparição" do homem? O que é que ele pretende? Belém ou só atazanar o Seguro? Acha que ele vai voltar? Não gosto dele, mas pareceu-me em boa forma. O tipo tem cá uma raça! Ele ainda anda por Paris, não é? Você via-o muito por lá? Ao tempo que eu não vou a Paris! Sabe que cheguei a pensar fazer-lhe uma vista lá na embaixada? Mas, com a crise, não deu...

Nem sempre um "arbóreo" fecha o discurso, como este meu conhecido fez, regressando com a conversa "a Paris". As mais das vezes, prossegue na sua imparável viagem pelas palavras, sem limites nem contenção. Só raros "arbóreos", no delírio quase intravável do seu curso verbal, chegam à frase consciente:

- Já me perdi. De que é que estávamos a falar?

Neste passo da conversa, tida na esquina entre o ourives o o Zézé (só um vilarealense sabe o que é isto), em frente ao Santoalha e ao antigo Rafael (já houve por ali um sinaleiro!), apenas o surgimento oportuno de outro conhecido me salvou. E o "arbóreo" lá desandou, em direção ao que, noutros tempos, foram o Zeca Martins e o Teixeira Pelado...

terça-feira, abril 02, 2013

Notícias de Belém

Já era tempo de chegarem notícias frescas, tão frescas como os pastéis, vindas dos lados de Belém. Mas chegaram: o Belenenses regressou à divisão principal do nosso futebol. Devo dizer que isto me agrada.

Para mim, o Belenenses foi sempre um clube muito simpático. Sem peneiras mas com estilo. O meu saudoso amigo Raul Solnado era-lhe fiel, o meu presente amigo Nuno Brederode Santos reverencia-o, discreto e sempre sem alardes. O que é que tem o Belenenses de particular, para além de uma bancada com uma bela vista para o Mar da Palha, depois de ter deixado as Salésias (há meses, descobri onde ficava exatamente esse estádio)? Tudo! Ser do Belenenses é como jogar bilhar às três tabelas: é uma "especialidade", não é preciso ser-se muito bom mas é diferente, sai-se da dicotomia da "segunda circular" e, caramba!, entra-se no Restelo. É "fino" ser-se do Belenenses. 

Durante muitos anos, o Belenenses foi o quarto "grande" na nossa bola, depois do Sporting, do Benfica e do Porto (a ordem, infelizmente, já não é a mesma). Por lá andaram, em tempos de farta glória, o Matateu, o mano Vicente e o José Pereira. Do Pepe, do Augusto Silva, do Capela e do Feliciano, já só ouvi falar. Mas tenho presente o Meirim, que já poucos recordam mas que era, em jeito de treinador, uma espécie de astrólogo da bola.  E Acácio Rosa, um dirigente cuja dedicação comovia. O Américo Tomaz (o presidente, claro) era do Belenenses, talvez por estar ali à mão. Mas a rapaziada da "cruz de Cristo" gosta de lembrar que Teixeira Gomes também era adepto.

Um forte abraço para ti, António Sequeira Nunes, meu amigo e antigo presidente do Belenenses. E, chegado a Lisboa, terei, logo na 6ª feira, um jantar com um outro "doente" do clube da "cruz de Cristo". O Belenenses é um mundo muito maior do que se imagina! E, também por isso, é muito bem vindo à "primeira divisão" (ou lá como agora lhe chamam)!  

O Bei de Tunis

O Bei de Tunis era o nome do governador otomano da Tunísia, instituído no século XVI. Eça de Queiroz escolheu-o como figura de referência em algumas das suas crónicas para a "Gazeta de Notícias", do Rio de Janeiro. Quando não tinha assunto ou quando queria apontar alguém como culpado pelas malfeitorias da política caseira, Eça "desancava" o Bei de Tunis, personalidade que, por essa razão, é, ainda hoje, recorrentemente chamada à colação na literatura e na escrita jornalística no Brasil.

Agora que, entre nós, o Bei de Tunis já regressou, cheguei eu a Tunis. Há poucas horas.

segunda-feira, abril 01, 2013

Saa



Nesse dia, na embaixada de Portugal em Brasília, surgiu uma chamada telefónica feita, de Lisboa, pelo jornalista Jorge Rodrigues, que dirigia e estava em direto no programa cultural "Ritornello", da Antena 2 e, simultaneamente, na Rádio Cultura brasileira, uma iniciativa com a amável colaboração em Brasíla do então secretário de Estado da Cultura, Pedro Bório.

A questão que me era colocada, enquanto embaixador, tinha alguma delicadeza. Segundo Jorge Rodrigues me informava, a editora francesa Gallimard havia decidido publicar, na sua prestigiada coleção "La Pléiade", as obras completas de Augusto Maria de Saa. Muito diretamente, eu era inquirido sobre se havia algum conflito entre Portugal e o Brasil que pudesse justificar que, até à data, o importante espólio de Saa não tivesse merecido, em qualquer dos dois países, um tratamento editorial à altura da magnitude da sua contribuição para a cultura luso-brasileira.

A minha resposta foi perentória: não havia, que eu soubesse, o menor conflito mas também desconhecia a razão pela qual uma recolha exaustiva das obras de Saa não havia sido feita num dos dois países de língua portuguesa a que ele estava fortemente ligado. 

Como era sabido, Saa nascera em Portugal em 1854. Anos mais tarde, partira para o Brasil em busca de melhor vida e viria a morrer tragicamente, em Lisboa, em 1908, no quadro de uma visita fortuita ao seu país natal. Porém, toda a sua obra fora escrita em terras brasileiras e era aí, com naturalidade, que o essencial dos estudos saaianos se desenvolviam. A razão pela qual a "Aguilar", no Brasil, não tinha editado Saa em papel bíblia era uma questão para mim nebulosa. Do mesmo modo, era incapaz de perceber o motivo que levara a nossa "Lello" a nunca empreender em Portugal tarefa semelhante, a exemplo do que fizera para Eça ou Pessoa, entre outros.

Agora, em edição francesa, a obra de Saa passaria a estar disponível. Lembrámos, na conversa, os "Prolegómenos à teoria dinâmica do conflito", obra de ciências políticas e antropológicas, publicado por Saa ao tempo em que dirigia a Gazeta Democrática de Paranoá. Igualmente, seria acessível ao grande público francófono o "Olhai a Europa!", opúsculo-manifesto onde, pela primeira vez, se refere uma possível "carta constitucional" europeia. Também passava a ser consultável o texto "As volteaduras da musicalidade recorrente", texto de teoria musical, tema central de um recente seminário interdiscipinar realizado pelo professor holandês Schopp Innkop, em Hobbart, na Tasmânia, organizado pelos "Círculos Musicais Heineken", com apoio da prestigiada "Fundação Foster". Finalmente, "O equilíbrio da ruptura no voltâmetro de potência suspeitada", obra no domínio da física que tinha uma edição em servo-croata, infelizmente esgotada, passava a ser de fácil acesso. Tudo apenas em francês, infelizmente.

Nessa conversa com Jorge Rodrigues falou-se também dos trabalhos sobre a vida e obra de Saa, em curso no Departamento de Linguística do polo experimental de Taguatinga, dependente da Universidade Católica de Abadiânia Leste (UCAL). Além disso, foi referida a conhecida dedicação do Professor Romário Ibirapuera, da Universidade Espírita de Rondónia, figura incontornável da investigação saaiana, em especial depois da iniciativa da reedição desse marco linguístico, há muito esgotado e objecto de especulação nos alfarrabistas, que era a "Recolha crítica de interjeições tupis", que Saa publicou, em edição do autor, em 1887.

O programa contou com outros intervenientes, durante mais de uma hora de recolha de depoimentos. Um professor universitário brasileiro leu dois inspirados poemas do tempo tropical de Augusto Maria de Saa, familiares do autor perdidos na Rondónia deram conta de como a sua memória continua a ser acarinhada na família índia que criou na Amazónia. Também revelações sobre correspondência entre Saa e Eça de Queiroz existente nos arquivos de São Petersburgo foram feitas por um especialista em temas russos. Figuras conhecidas do meio académico brasileiro sublinharam a explosão crescente de estudos saaianos que então atravessava o Brasil, quiçá (melhor diria, "quissá"...) premonitória da abertura próxima de um cátedra.

O programa e algumas das revelações nele feitas não deixaram de ter consequências. Um conhecido especialista de Eça de Queiroz telefonou de Marrocos a Jorge Rodrigues, alertado para a nova contribuição que seria necessário acolher em futuras recolhas epistolares. Um outro autor, com obra sobre o Regicídio de 1908, em cujo cenário de tragédia a morte de Saa tem lugar, inquiriu de imediato sobre o tema, consciente da lacuna que, com os factos relatados no programa, se abria na temática. Eu próprio fui contactado, pouco tempo depois, por uma muito conhecida jornalista e apresentadora televisiva portuguesa, que pretendia fazer um trabalho sobre essa figura luso-brasileira que, lamentavelmente, "conhecia muito pouco". Meses mais tarde, ao recordar Augusto Maria de Saa, à mesa da embaixada em Brasília, num jantar oferecido a um intelectual português de visita, recordo bem uma convidada dizer "já li coisas dele, mas é uma tristeza a sua obra ser tão pouco divulgada". E claro que tinha toda a razão! O nosso atual embaixador na Etiópia foi, aliás, testemunha presencial deste episódio, prova flagrante de como temos de ir muito mais longe neste esforço de divulgação dessa grande figura que é Augusto Maria Saa, talvez começando por fazer uma edição bilingue etíope-português do conhecido estudo de Saa sobre "As origens alentejanas do Preste João". A diplomacia não é só economia!

Foi assim esse programa, que deu mesmo origem a um blogue, no 1º de abril de 2005. Passaram oito anos. Parece mentira... 

domingo, março 31, 2013

Águas e espuma

Ontem, ao passar pelas Pedras Salgadas acordei para uma realidade que pode explicar muita coisa: um "quarto" de Água das Pedras já é hoje mais caro do que uma garrafa de cerveja. 

A água pode ter menos espuma, mas, pelos vistos, o seu litro aduba mais os cofres da UNICER do que a Super Bock. O que se passa hoje nas Pedras Salgadas deve ser lido à luz desta realidade. 

sábado, março 30, 2013

O PEC IV e o "governo Fabião"

Há uma conhecida escola especulativa da História que se dedica a elaborar sobre o que poderia ter ocorrido se acaso certos factos não tivessem tido lugar. Tenho alguns livros sobre essas teorias e, devo dizer, algumas delas são fascinantes.

Há dias, ao ouvir José Sócrates falar sobre o que poderia ter acontecido no país se acaso o chamado PEC IV não tivesse sido rejeitado, lembrei-me dessas teorias do "what if?". E ocorreu-me que o mítico PEC IV vai passar a funcionar, na história política portuguesa, como o "governo Fabião".

Estava-se no auge do "Verão quente" de 1975, com o V governo provisório, feito em torno dos "golçalvistas", do PCP e dos seus companheiros de jornada, a aproximar-se do seu estertor. No seio dos subscritores do "documento dos nove", ala moderada do MFA, à época em ascensão política, onde preponderava Melo Antunes, surgiu então a ideia de tentar formar um novo governo que pudesse acomodar Otelo e a ala mais propensa ao culto do "poder popular", que fazia escola no COPCON. O nome de Carlos Fabião, chefe de Estado-maior do Exército, uma figura com um perfil consensual, foi então falado para chefiar esse executivo, que chegou mesmo a ter nomes para as diversas pastas - e ainda ontem conversei com o "ministro dos Negócios estrangeiros" desse putativo governo. Porém, as alas mais radicais do MFA rejeitaram o "governo Fabião" e, dessa forma, acabaram por abrir caminho a um governo mais à direita. Curiosamente, aconteceu o mesmo com o PEC IV.  

Sexta-feira santa?


Isto já não é o que era! Ontem, em Vila Real, chegado ao restaurante, ouvi: "Vão umas tripinhas aos molhos?" e "o rancho está magnífico". Em alternativa: "Está a sair um entrecosto de truz". 

Sexta-feira santa, quem a viu e quem a vê!

No Portugal de outros tempos, muitas lojas fechavam na tarde de quinta-feira, para só abrirem depois do domingo de Páscoa. A rádio oficial deixava de emitir por essa altura, para só reaparecer na alvorada do sábado de Aleluia, com os sinos em uníssono a repicar nas capelas da cidade. Recordo-me de ouvir dizer que, nesse período, não se estendia roupa para secar. Era feio, perante a vizinhança.

Tenho ideia do dia em que acordei para a "abertura dos costumes". Foi em S. Bento da Porta Aberta, ali ao pé do Gerês, no anos 80. Era sexta-feira santa e, entre dois casais, em frente ao santuário, discutia-se que tipo de bacalhau iríamos comer, ou se se optaria pelo polvo, na antecipada certeza de que, naquele dia, não haveria quaisquer carnes no horizonte culinário do piedoso local. 

Subimos ao primeiro andar da estalagem do outro lado do santuário e entrámos na sala de refeições. Ele estava sentado sozinho à mesa, na mão direita empunhava um facalhão de serra, com o qual operava uma imensa e espessa bifalhada, regada a tinto servido de um jarro anexo. Da travessa, porque não cabiam no prato, rescendiam à distância, como diria o Eça, batatas assadas, com magnífico aspeto. Ele estava tão concentrado nas vitualhas que nem notou a curiosidade risonha com que o observávamos. Porque assim o exigia o esforço, que se notava no rosto rosado, tinha desapertado o cabeção. Seguramente beneficiando de uma qualquer bula libertadora, o senhor padre, qual Bob Dylan, provava que “ the times they are a-changin' ”. 

Nem olhei a lista. Pedi o mesmo. 

sexta-feira, março 29, 2013

A sé desportiva

Há poucas horas, ao passar pela sé catedral de Vila Real, neste tempo pascal, lembrei-me de uma historieta passada no "Verão quente" de 1975.

Eu tinha vindo por uns dias à cidade, nesse tempo militar em que misturava o meu radicalismo político com as provas do concurso para a diplomacia. Numa reunião de manhã, no regimento de Infantaria 13, tivera uma conversa menos fácil com o tenente-coronel Adão, comandante em exercício, junto de quem tentara garantir proteção militar para as sedes de alguns partidos de esquerda, que a voz corrente dizia que poderiam ser ameaçadas pela manifestação católica (que hoje se sabe muito mobilizada pelo MDLP) que teria lugar no dia seguinte. Usava as credenciais político-militares que advinham da minha pertença ativa ao MFA, mas cedo vi que o ambiente "no 13" estava mais com os manifestantes do que com a nossa ala "progressista". Por essa razão, o simples alferes que eu era pouco podia fazer, não obstante alguma desproporcionada influência de que, tal como outros milicianos, disfrutava então em certos meios militares de Lisboa.

Nessa tarde, na pastelaria Gomes, sentava-me com um amigo que partilhava as mesmas preocupações e cumplicidades, conversando em voz baixa sobre os acontecimentos que aí vinham. Lá fora, vimos aproximar, histriónica, uma das figuras da "reação" local. É preciso conhecer bem a Vila Real da época para se entender o facto de, na cidade, conviverem, sem dificuldade, pessoas com diferentes e até antagónicas ideias. Eu sabia que essa figura, entrada que fosse na Gomes, se sentaria inevitavelmente à nossa mesa, até pela certeza de poder encetar conosco uma estimulante disputa verbal. Por essa razão, num segundo, combinei um estratagema com o amigo que tinha a meu lado.

Como expectável, o recém-chegado juntou-se-nos para um "covilhete" (se o leitor não sabe o que isso é, visite Vila Real) ou uma fatia de bôla de carne. Olhando para a mesa, viu esquiçado numa página branca um desenho do que parecia um edifício, em forma de cruz. 

- O que é que vocês estão a tramar?, perguntou, curioso, ciente de que, com dois "esquerdalhos" como nós, esse desenho tinha, com toda a certeza, um objetivo não inocente.

- Nada que te interesse, disse-lhe eu, num tom que só aumentou a sua curiosidade.

- Uma cruz?! Quase parece a planta da sé...

- Pronto, "tá" bem, é a sé. E depois?

- Mas por que razão vocês estão a desenhar a sé?, alarmou-se.

- Ó homem! Isto é só uma ideia, mas, se prometes segredo, podemos revelar-te que há uma séria hipótese do espaço da sé poder vir a ser transformado numa área desportiva, de apoio aos tempos livres. Isto ainda não se sabe, mas a sé deve passar para a tutela do INATEL.

O visitante estava boquiaberto. E escandalizado. As suas piores suspeitas sobre as ideias dos "comunas" (para a direita, à época, esse espetro insultuoso era muito alargado) confirmavam-se em pleno. A sé catedral?! A velha igreja de S. Domingos transformada em recinto gimno-desportivo (não me recordo se o conceito já existia, à época).

Generoso, entendi dever ser um pouco mais detalhado:

- Vamos a ver se nos entendemos. Tens que concordar que há, na cidade, um défice evidente em matéria de equipamentos para lazer. A União Artística não chega, a "Católica" não tem espaço e a "Bufa" (nome depreciativo que dávamos à Mocidade Portuguesa) "já era". Ora a sé está desocupada a maior parte do tempo e está num lugar central ideal, bem fresco no Verão. Quem goste de rezar ou de missas tem imensas igrejas. A "capela nova" está aqui a dois passos, tal como a Misericórdia. E S. Pedro é logo ali em cima. A nossa ideia é procurar adaptar a área dos altares laterais da sé para dois bilhares livres e o altar principal para um "snooker". A questão da nave central é mais complicada, porque as seis colunas criam problemas à proposta de aí fazer uma zona para voleibol. Se assim não for, teremos de ir para a alternativa de mesas de ping-pong. Há quem pense num bilhar grande às três tabelas, que nem o Excelsior nem a Pompeia têm, mas resta saber se haverá clientela para isso.

O "reaça" esbugalhava os olhos. "Tomarem" a sé catedral, o centro religioso da cidade?! Sossegámo-lo, com modéstia temporal de intenções:

- Ó pá, isto ainda está apenas em planos. Estamos também a estudar a questão das balizas para futebol para pôr no adro. Por isso, só daqui a uns tempos é que se iniciará o desmantelamento da sé. Mas atenção!: é nossa preocupação preservar bem o recheio. O projeto é mandar muitas coisas para a Senhora de Lurdes.

A menção da capela da Senhora de Lurdes, uma igreja desativada, lá para os lados da estação ferroviária, em acentuado estado de desagração, aumentou a ira do já desestabilizado conservador.

Sempre tive uma excecional capacidade de sustentar estas historietas sem me desconcertar. Mas o meu comparsa estava, pouco a pouco, a deixar-se rir. Por isso, levantou-se e fez menção de sair pelas portas de guarda-vento. Mas, nesse movimento, teve ainda ânimo para estacar junto ao embasbacado reacionário e dizer-lhe, convicto:

- Não eras tu que gostavas de jogar matraquilhos? Pois é nossa intenção encher a sacristia de mesas de "matrecos". E de graça, porque isto agora passa a ser tudo do povo, pá!...

A patranha esclareceu-se nos minutos seguintes. Mas senti que o nosso amigo (porque era nosso amigo) "reaça" não ficou de todo sossegado.

Para a história, registe-se que a manifestação do dia seguinte não provocou violência. O PCP, acantonado na rua da Misericórdia (ironia toponímica...), não precisou de usar as caçadeiras que me disse ter para defesa da sede e o MDP-CDE, sobre a "Mabor", lá se aguentou às provocações lançadas da avenida, comigo encostado ao Tocaio, a ver a onda católica passar. Já o PS nada tinha a temer, porque o padre Sarmento, eixo da máquina clandestina da "Maria da Fonte", tinha-os, e bem justamente, por "compagnons de route" anti-comunista, nesse Verão complicado e muito "quente".

E a Sé, a magnífica igreja de S. Domingos, lá continua intocada, agora com uns belos (mas, para alguns, controversos) vitrais de João Vieira, que vivamente recomendo sejam vistos.

quinta-feira, março 28, 2013

Eurovisão

Eram noites assim. Apressávamos o jantar, sentávamo-nos confortavelmente e preparávamo-nos para o espetáculo televisivo. Olhávamos o cenário e ouviamos com atenção a figura cuja "performance" aguardávamos, com bastante curiosidade sobre como ela iria sair-se da prova. Eram as noites do festival da Eurovisão, no Portugal desse tempo.

Entre essas noites e a de ontem, houve, contudo, uma sensível diferença. À época, logo de seguida, tinha lugar uma contagem de votos. Desta vez, ao que parece, isso ainda vai demorar algum tempo.

Em tempo: detesto a palavra narrativa.

Os da plaquinha na mão

Fica a sensação de que, nos dias de hoje, muitas pessoas já nem olham os espetáculos, parecendo que lhes dá maior prazer fotografá-los ou fi...