domingo, junho 21, 2026

Verdades


De quando em vez, acontece-me ter de apresentar um livro. Na maioria dos casos, trata-se de obras de não-ficção, porque romances ou contos (poesia nem pensar!) são terrenos em que nunca me sinto à vontade. 

Falava disto há dias, num jantar, com Fernando Dacosta, um credenciado jornalista também com obra publicada, na ficção e em outras áreas, com quem comentava a aventura que sempre é escolher palavras para, perante um público heterogéneo e que em geral não conhecemos, falar de algo que para eles é completamente novo.

Fernando Dacosta disse-me então uma coisa que me pôs a pensar: "Não se deve preocupar muito. Ao falar sobre um livro, o apresentador está sempre numa posição relativamente fácil. Analisa algo que já leu, perante um público que acaba de adquirir um livro que ainda não leu. É claro que, mais tarde, quando conhecerem o livro, algumas dessas pessoas podem vir a cruzar a sua leitura com o que ouviram na apresentação, mas isso já não tem grande importância..." 

Trata-se de uma grande verdade a que se deve somar uma pergunta irónica que também ouvi recentemente: das pessoas presentes na sessão de apresentação de um livro e que o adquirem, quantas, na realidade, acabarão por lê-lo?

Um dia, na Luanda dos anos 80, onde as lojas eram escassíssimas e algumas nada tinham para vender, vi uma coisa numa montra que me interessou. Entrei e pedi esse produto. Com um sorriso resignado, o empregado disse-me: "Não vendemos. É só para encher montra, camarada!" Às vezes, os livros também são só para encher estante...

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