segunda-feira, junho 08, 2026

Nervos de protocolo

  

O jantar era de Estado, com todo o cerimonial que daí decorria, segundo o protocolo local. Eu acompanhava o presidente Jorge Sampaio naquela sua visita à Roménia, país que então lutava pela integração na União Europeia.

O banquete processava-se naquela pasmaceira habitual, em que é de regra que metade da conversa se deve fazer com quem estiver à nossa direita e a outra metade com o parceiro da esquerda. Era precisamente à minha esquerda que estava sentada Maria José Ritta, mulher de Jorge Sampaio. Ela falava, neste caso com natural prioridade, com o anfitrião, o presidente romeno, situado do seu outro lado.

A certo passo, Maria José Ritta chamou-me à conversa que estava a ter com o chefe de Estado romeno. Este, simpaticamente, teve a generosidade de repetir algo que tinha acabado de dizer à mulher do nosso presidente: "Estava a referir que sou, por formação, um cientista. E que é como cientista que, logo que abandonar este cargo, vou talvez chocar muitos dos meus concidadãos, deixando por escrito algumas verdades contra o pensamento estabelecido".

Fiquei curioso. Maria José Ritta estava com um sorriso esfíngico, pelo que pressenti que as "verdades" do presidente romeno encerrariam algo de especial. Não perdi pela demora: "Uma das coisas que pretendo revelar é que, contrariamente ao que por aí se diz, o amianto não afeta a saúde. Há um lóbi para a retirada do amianto, por alegados efeitos cancerígenos, que só quer ganhar dinheiro com as obras". Percebi então a razão pela qual a mulher de Jorge Sampaio me introduzira na conversa.

Não sei jogar poker, mas aprendi a ficar impávido perante barbaridades que são ditas, a fim de salvar socialmente uma situação. Não são nervos de aço, são nervos de protocolo... E devo ter dito algo como "How interesting!", para ganhar tempo na conversa.

Mas o presidente não se ficou por ali. "Não sei se o ministro (eu não era ministro, era secretário de Estado, mas era o número dois da delegação portuguesa) é dos que acreditam na fantasiosa teoria do buraco do ozono e do aquecimento global. Posso assegurar-lhe que é tudo uma balela, sem o menor fundamento. Mas estes são apenas dois dos muitos exemplos de coisas que pretendo desmascarar, provavelmente através de um livro, logo que sair de presidente". 

Maria José Ritta estava expectante, com clara curiosidade, quanto à reação que eu teria em face da conversa que, à sua frente, o presidente tinha comigo. Na realidade, não estava a ser bem uma conversa: ele falava e eu só reagia por quase monossílabos. 

E foi então que, imprudentemente, desligados por um instante os meus nervos de protocolo, me saiu: "We can hardly wait!" (Nós mal podemos esperar!). Eu referia-me ao livro; o presidente fez um carão, talvez pensando que eu estava a desejar que ele saísse logo que possível do cargo que ocupava. Apressei-me a esclarecer: "O seu livro vai ser um sucesso!". A cara do meu interlocutor abriu-se. Maria José Ritta estava cada vez mais divertida...

Como, ao final dessa noite, vim a constatar que o chefe de Estado romeno tinha decidido agraciar-me com a elevada condecoração que era a grã-cruz da Ordem da Estrela, posso deduzir que não terá levado a mal a minha imprudente graça. Terá publicado o livro?

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