sexta-feira, junho 12, 2026

"Visiteurs du soir"


A expressão “visiteurs du soir” entrou no léxico da vida pública francesa no tempo de François Mitterrand. O antigo presidente tinha o hábito de receber, ao fim do dia, no Eliseu — em formatos que se imaginam variados — personalidades com quem podia testar ideias com inteira liberdade. A designação terá origem no filme homónimo de Marcel Carné, que nunca vi.

Em outros países e contextos, estou certo que presidentes e primeiros-ministros recorrem igualmente, fora dos circuitos institucionais, a opiniões e leituras de pessoas diversas, oriundas de áreas distintas — prática de elementar sensatez e de abertura à sociedade.

Há mais de uma década, ocorreu em Portugal uma experiência de natureza semelhante, da qual fui “spectateur-engagé”, para usar a expressão de Raymond Aron. Uma figura política então recentemente chegada ao poder promovia jantares regulares, reunindo cinco personalidades com percursos profissionais e políticos distintos, por vezes contrastantes, convidadas a pronunciar-se com inteira liberdade sobre temas previamente lançados.

Os encontros revelavam-se interessantes, dentro do quadro de informação disponível a cada participante, permitindo cruzar experiências e gerar, não raro, diálogos criativos. A figura política escutava, comentava e acrescentava elementos resultantes do conhecimento privilegiado que a função lhe proporcionava.

Com o tempo, porém, o modelo foi-se desgastando. A utilidade das opiniões recolhidas terá diminuído aos olhos de quem as solicitava e, gradualmente, os encontros tornaram-se mais raros, até cessarem. Para quem neles participou — alguns conheceram-se apenas nesse contexto — ficou o interesse da experiência e a sensação de ter contribuído, à sua medida, para auxiliar quem exercia responsabilidades públicas.

Anos mais tarde, um colaborador próximo dessa figura política confidenciou-me que, no círculo dos seus conselheiros formais, a descoberta da existência desse grupo paralelo de “visiteurs du soir” gerara algum mal-estar. Tive um discreto prazer em saber isso.

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