quinta-feira, junho 11, 2026

Jean Ziegler


Como tantas vezes sucede, só nos apercebemos de que alguém ainda estava vivo no momento em que morre. 

Quase sempre trata-se de figuras de um outro tempo — isto é, do nosso próprio tempo. E se eu disser a alguém, pelo menos uma década mais novo do que eu, que morreu Jean Ziegler, é muito provável que a resposta seja um “quem era?”. E, depois de eu explicar, talvez essa pessoa se interrogue intimamente sobre a utilidade de saber tal coisa. Tenho de entender que não lhe interessem pessoas que deixaram de caber na moldura mental do presente.

Foi em 1976 que acordei para Ziegler, quando publicou um livro que caiu como uma pequena bomba moral no coração da sua própria pátria: "Une Suisse au-dessus de tout soupçon". Nessa obra, ela desmontava com rigor quase clínico a imagem assética da Suíça, revelando-a como um centro nevrálgico de interesses globais onde a discrição frequentemente valia mais do que a ética — e onde os lucros se sobrepunham, sem grande disfarce, aos princípios.

Sociólogo de formação, politicamente comprometido à esquerda e com uma longa ligação às Nações Unidas, Ziegler construiu um percurso singular, marcado por uma heterodoxia persistente. Nunca foi um académico confortável nem um funcionário internacional previsível. Preferiu sempre a denúncia ao consenso, a inquietação à respeitabilidade tranquila. Isso valeu-lhe notoriedade, mas também uma certa marginalização — o preço clássico pago por quem recusa alinhar com os códigos dominantes.

Tenho uma vaguíssima ideia de o ter cruzado numa conferência qualquer, algures na Europa – seguramente antes de 2009, porque, se acaso fosse depois, estou certo de que não deixaria de registar isso neste blogue. Figura polémica, Ziegler surgia no espaço público sempre em registos críticos, muitas vezes incómodos. Nos últimos anos, tinha desaparecido. Eu quase o tinha esquecido.

Jean Ziegler morreu a 10 de junho, aos 92 anos. Levou consigo uma energia combativa que parecia fora de moda — ou talvez apenas fora deste tempo. Era um homem de convicções obstinadas, ancoradas num mundo em que ainda se acreditava que a denúncia podia fazer diferença. Um mundo de que, confesso, sinto alguma falta.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Jogar à defesa

Dizer que o ataque a um país situado a mais de dez mil quilómetros tem uma natureza "defensiva" só não roça o ridículo porque, da ...