Isto já não é o que era! Ontem, em Vila Real, chegado ao restaurante, ouvi:
"Vão umas tripinhas aos molhos?" e "o rancho está
magnífico". Em alternativa: "Está a sair um entrecosto de truz".
Sexta-feira santa, quem a viu e quem a vê!
No Portugal de outros tempos, muitas lojas fechavam na tarde de
quinta-feira, para só abrirem depois do domingo de Páscoa. A rádio oficial
deixava de emitir por essa altura, para só reaparecer na alvorada do sábado de
Aleluia, com os sinos em uníssono a repicar nas capelas da cidade. Recordo-me de ouvir
dizer que, nesse período, não se estendia roupa para secar. Era feio, perante a vizinhança.
Tenho ideia do dia em que acordei para a "abertura dos costumes". Foi em S.
Bento da Porta Aberta, ali ao pé do Gerês, no anos 80. Era sexta-feira santa e,
entre dois casais, em frente ao santuário,
discutia-se que tipo de bacalhau iríamos comer, ou se se optaria pelo polvo, na
antecipada certeza de que, naquele dia, não haveria quaisquer carnes no horizonte culinário do piedoso
local.
Subimos ao primeiro andar da estalagem do outro lado do santuário e entrámos na sala de refeições. Ele estava sentado sozinho à mesa, na mão direita empunhava
um facalhão de serra, com o qual operava uma imensa e espessa bifalhada, regada
a tinto servido de um jarro anexo. Da travessa, porque não cabiam no prato, rescendiam à distância, como diria o Eça, batatas assadas, com magnífico aspeto. Ele estava tão concentrado
nas vitualhas que nem notou a curiosidade risonha com que o observávamos.
Porque assim o exigia o esforço, que se notava no rosto rosado, tinha
desapertado o cabeção. Seguramente beneficiando de uma qualquer bula
libertadora, o senhor padre, qual Bob Dylan, provava que “ the times they are
a-changin' ”.
Nem olhei a lista. Pedi o mesmo.
Nem olhei a lista. Pedi o mesmo.
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