segunda-feira, 1 de abril de 2013

Saa



Nesse dia, na embaixada de Portugal em Brasília, surgiu uma chamada telefónica feita, de Lisboa, pelo jornalista Jorge Rodrigues, que dirigia e estava em direto no programa cultural "Ritornello", da Antena 2 e, simultaneamente, na Rádio Cultura brasileira, uma iniciativa com a amável colaboração em Brasíla do então secretário de Estado da Cultura, Pedro Bório.

A questão que me era colocada, enquanto embaixador, tinha alguma delicadeza. Segundo Jorge Rodrigues me informava, a editora francesa Gallimard havia decidido publicar, na sua prestigiada coleção "La Pléiade", as obras completas de Augusto Maria de Saa. Muito diretamente, eu era inquirido sobre se havia algum conflito entre Portugal e o Brasil que pudesse justificar que, até à data, o importante espólio de Saa não tivesse merecido, em qualquer dos dois países, um tratamento editorial à altura da magnitude da sua contribuição para a cultura luso-brasileira.

A minha resposta foi perentória: não havia, que eu soubesse, o menor conflito mas também desconhecia a razão pela qual uma recolha exaustiva das obras de Saa não havia sido feita num dos dois países de língua portuguesa a que ele estava fortemente ligado. 

Como era sabido, Saa nascera em Portugal em 1854. Anos mais tarde, partira para o Brasil em busca de melhor vida e viria a morrer tragicamente, em Lisboa, em 1908, no quadro de uma visita fortuita ao seu país natal. Porém, toda a sua obra fora escrita em terras brasileiras e era aí, com naturalidade, que o essencial dos estudos saaianos se desenvolviam. A razão pela qual a "Aguilar", no Brasil, não tinha editado Saa em papel bíblia era uma questão para mim nebulosa. Do mesmo modo, era incapaz de perceber o motivo que levara a nossa "Lello" a nunca empreender em Portugal tarefa semelhante, a exemplo do que fizera para Eça ou Pessoa, entre outros.

Agora, em edição francesa, a obra de Saa passaria a estar disponível. Lembrámos, na conversa, os "Prolegómenos à teoria dinâmica do conflito", obra de ciências políticas e antropológicas, publicado por Saa ao tempo em que dirigia a Gazeta Democrática de Paranoá. Igualmente, seria acessível ao grande público francófono o "Olhai a Europa!", opúsculo-manifesto onde, pela primeira vez, se refere uma possível "carta constitucional" europeia. Também passava a ser consultável o texto "As volteaduras da musicalidade recorrente", texto de teoria musical, tema central de um recente seminário interdiscipinar realizado pelo professor holandês Schopp Innkop, em Hobbart, na Tasmânia, organizado pelos "Círculos Musicais Heineken", com apoio da prestigiada "Fundação Foster". Finalmente, "O equilíbrio da ruptura no voltâmetro de potência suspeitada", obra no domínio da física que tinha uma edição em servo-croata, infelizmente esgotada, passava a ser de fácil acesso. Tudo apenas em francês, infelizmente.

Nessa conversa com Jorge Rodrigues falou-se também dos trabalhos sobre a vida e obra de Saa, em curso no Departamento de Linguística do polo experimental de Taguatinga, dependente da Universidade Católica de Abadiânia Leste (UCAL). Além disso, foi referida a conhecida dedicação do Professor Romário Ibirapuera, da Universidade Espírita de Rondónia, figura incontornável da investigação saaiana, em especial depois da iniciativa da reedição desse marco linguístico, há muito esgotado e objecto de especulação nos alfarrabistas, que era a "Recolha crítica de interjeições tupis", que Saa publicou, em edição do autor, em 1887.

O programa contou com outros intervenientes, durante mais de uma hora de recolha de depoimentos. Um professor universitário brasileiro leu dois inspirados poemas do tempo tropical de Augusto Maria de Saa, familiares do autor perdidos na Rondónia deram conta de como a sua memória continua a ser acarinhada na família índia que criou na Amazónia. Também revelações sobre correspondência entre Saa e Eça de Queiroz existente nos arquivos de São Petersburgo foram feitas por um especialista em temas russos. Figuras conhecidas do meio académico brasileiro sublinharam a explosão crescente de estudos saaianos que então atravessava o Brasil, quiçá (melhor diria, "quissá"...) premonitória da abertura próxima de um cátedra.

O programa e algumas das revelações nele feitas não deixaram de ter consequências. Um conhecido especialista de Eça de Queiroz telefonou de Marrocos a Jorge Rodrigues, alertado para a nova contribuição que seria necessário acolher em futuras recolhas epistolares. Um outro autor, com obra sobre o Regicídio de 1908, em cujo cenário de tragédia a morte de Saa tem lugar, inquiriu de imediato sobre o tema, consciente da lacuna que, com os factos relatados no programa, se abria na temática. Eu próprio fui contactado, pouco tempo depois, por uma muito conhecida jornalista e apresentadora televisiva portuguesa, que pretendia fazer um trabalho sobre essa figura luso-brasileira que, lamentavelmente, "conhecia muito pouco". Meses mais tarde, ao recordar Augusto Maria de Saa, à mesa da embaixada em Brasília, num jantar oferecido a um intelectual português de visita, recordo bem uma convidada dizer "já li coisas dele, mas é uma tristeza a sua obra ser tão pouco divulgada". E claro que tinha toda a razão! O nosso atual embaixador na Etiópia foi, aliás, testemunha presencial deste episódio, prova flagrante de como temos de ir muito mais longe neste esforço de divulgação dessa grande figura que é Augusto Maria Saa, talvez começando por fazer uma edição bilingue etíope-português do conhecido estudo de Saa sobre "As origens alentejanas do Preste João". A diplomacia não é só economia!

Foi assim esse programa, que deu mesmo origem a um blogue, no 1º de abril de 2005. Passaram oito anos. Parece mentira... 

22 comentários:

Isabel Seixas disse...

A mentira tal como a mulher de César não poderá só Perecer, terá também de Ser...

Anónimo disse...

Será que podemos apelidar de "mentira" uma narrativa (desculpe, embaixador, sei que detesta o termo) verdadeira?! E eu sou apenas uma das testemunhas vivas de que o é.
JR

Anónimo disse...

Hoje é o 1° de Abril, dia dos meus anos. Li o texto, mas não tenho tempo de situar parte dos nomes nem no espaço nem no tempo. Por isso não comento.
José Barros

patricio branco disse...

e o pobre augusto maria de saa continua sem entrar nas grandes bibliotecas a que tem direito por mérito próprio e alheio, a gallimard recuou esperando melhores tempos e tradutores à altura, a aguilar (nova) parou por falta momentanea de papel biblia, já virá e do reciclado, a lello com os seus bonitos lema e logo estava ocupada com saramago, mas saa é maior que este e que vários outros.
consta que na comissão em bruxelas leem avidamente e com lista de espera o olhai a europa, obra na qual se fala até de chipre propondo já nessa altura uma divisão em 2 metades se não fosse possivel a união mas com a linha da fronteira no sentido n-s.
a edição etiope começou, li noticias sobre isso, mas quem sabe essa lingua fora do velho país? sim, as origens alentejanas, de alentejano todos temos pelo menos um pouco...
pois a gallimard em vez de se meter nessa tão ambiciosa do saa bem podia ter editado entretanto outras coisas mais simples, eça, uma antologia da poesia portuguesa, sei lá...
agrada-me passar pela pracinha augusto maria de saa em lisboa, ver o seu busto num pedestal no centro da praça, sentar-me num dos bancos debaixo das tilias e ali ficar um pouco, com a vantagem de por ali não circularem carros e ser tudo sossegado...
voltaremos a ouvir falar de a m d saa e mais cedo do que julgamos...

Anónimo disse...

A partir do momento em que se fala de Saa, a sua existência não pode ser posta em causa. Saa pensava (como testemunham os títulos das suas obras), logo existia. Saa era racional, logo era real. Saa não se limitou a querer interpretar o mundo, já que com a sua participação no regicídio de 1908 (que o Vinhais me perdoe) procurou transformá-lo. Logo, Saa é hoje um dos principais precursores filosóficos da pós-pós-modernidade. Pois, pois!

a) Louis Souffleweyersheim, Université de Strasbourg

Anónimo disse...

Wednesday, November 15, 2006
Augusto Maria de Saa em Lisboa

Domingo, Abril 03, 2005

AUGUSTO MARIA DE SAA E O 1º DE ABRIL
02-04-2005 12:39:00. Fonte LUSA. Notícia SIR-6880852
Temas: Brasil
"Ritornello" e embaixada de Portugal no Brasil promovem mentira do 1º de Abril
Brasília, 02 Abril (Lusa) - A Embaixada de Portugal no Brasil e o programa "Ritornello", da RDP 2, apresentado por Jorge Rodrigues, promoveram sexta-feira a maior mentira do 1º de Abril dos últimos tempos.O programa cultural "Ritornello" de 01 de Abril foi dedicado a um personagem fictício, o português Augusto Maria de Saa, que teria vivido no Brasil na segunda metade do século XIX.De acordo com o programa, o "personagem ímpar da cidadania e da cultura" teria ganho destaque nos campos da literatura, música, artes, antropologia, física, matemática, entre outros.No entanto, segundo o mesmo programa, teria sido esquecido pelos portugueses.A história de Augusto Maria de Saa, contada também num blog da Internet
- www.memoria-de-saa.blogspot.com -
diz que o ilustre lisboeta morreu aos 54 anos, no dia 01 de Fevereiro de 1908, vítima de uma bala perdida da arma que teria matado também o rei D. Carlos e o príncipe D. Luiz Filipe.O programa contou com a participação do novo embaixador de Portugal no Brasil, Francisco Seixas da Costa, do conselheiro cultural da embaixada de Portugal no Brasil, do director do Instituto Camões no Brasil, Adriano Jordão, e do conselheiro de imprensa Carlos Fino.Também participaram do "Ritornello" do 1º de Abril a escritora portuguesa Luísa Coelho, professora de Literatura da Universidade de Brasília (UNB) desde 2002, e o professor Carlos Alberto Xavier, assessor do ministro da Educação do Brasil, Tarso Genro.As entrevistas foram transmitidas em directo para Portugal.O programa, uma "conspiração cultural" entre a embaixada portuguesa no Brasil e o programa "Ritornello", recebeu vários telefonemas de ouvintes indignados por não conhecerem Augusto Maria de Saa, reclamando que Portugal não está atento aos seus valores.CMC.Lusa/fim

Anónimo disse...

va la!, não o mataram a um de abril!

... nem ao rei!

o que até dava uma boa piada!...

Defreitas disse...

Hoje, um jornalista da Reuters, teria escrito : " Um escritor ,com futuro assegurado, foi vitima colateral do fim duma monarquia!
Tudo lhe interessava:
literatura , pintura, filologia , música, medicina, antropologia , ciência náutica, agricultura científica, enologia, astrologia, ciências ocultas, física, matemática, em todas essas áreas deixou a marca da sua inteligência e perspicácia.

Quando o descobri, pensei em Michel Ange. Mas não era o mesmo gabarito, mesmo se extraordinário. E tudo isto, para vir a morrer, de forma inglória, sobre a pedra fria da rua do Arsenal, na tarde fatídica de 1 de Fevereiro de 1908.
E tudo isso, porque Suas Magestades estavam a chegar de barca ao Terreiro do Paço, regressadas de Vila Viçosa !
O tiro errado do Buiça, ou do Costa, destinado à rainha D. Amélia, foi o tiro certeiro que atravessou a nuca de Augusto Maria de Saa.

Como escrevia o Sr. Embaixador, num "post" precedente, " what if", as reais majestades tivessem sofrido uma tempestade na travessia do Tejo?

Um Rei , um Príncipe Herdeiro e uma figura impar, caem ao mesmo tempo no Terreiro do Paço. Parece que alguém da familia conserva religiosamente a bala que o matou .

Impressionou-me o destino e sobretudo o inicio na vida deste homem de qualidade. A historia dos Pais, a miséria física e moral que Saa jamais esqueceu. O Pai que, alcóolico, tanto fez sofrer a família. Ele que dizia :" : "Homem que é homem, dá coça diária na mulher". A Mãe, Maria das Neves, teve a triste sina de ser o resultado de um pecaminoso encontro entre um padre miguelista, refugiado numa quinta da Malveira, e uma antiga aia, recém-regressada do Brasil, de D. Carlota Joaquina. A monarquia, já no trajeto do destino de Augusto Maria de Saa.

Como é possível que um ser superior tivesse podido nascer e evoluir num ambiente tão miserável?

J. de Freitas

Anónimo disse...

De todas as obras que li de Saa a que mais gostei foi, sem dúvida, "a vida e obra de Münchhausen".


Carlos Fonseca disse...

Desde que, ainda menino e moço de calções, descobri as obras de Augusto de Saa na Biblioteca do Liceu, fiquei um admirador e um leitor atento daquele profícuo autor.

Eleva-se já a 348 - entre ficção, poesia, ensaio, etc. -, o número de livros de sua autoria que li, e espero viver o suficiente para concluir a leitura das 647 obras que aguardam nas estantes cá de casa.

Assim os deuses me ajudem!

Bem haja sr. embaixador por ter trazido ao conhecimento dos leitores deste blogue tão excelsa quão esquecida figura das Letras Luso-Brasileiras.

JRodrigues disse...

Senhor Embaixador,
este seu texto fez-me voar até à Brasília de 2005 com imensa saudade! Nunca me hei-de esquecer do ataque de riso que me deu, no estúdio, quando ouvi a "alegada" neta de Saa recordar o "vôvô", do qual apenas subsistia uma velha fotografia de cor sépia.
Muito obrigado! Foi dos programas que mais gostei de fazer em toda a minha actividade radiofónica.
Jorge Rodrigues

patricio branco disse...

parecido com o sean penn este sr saa, reparem...

Anónimo disse...

O Senhor Embaixador, eu tenho comigo obras inéditas de Augusto Saa, que ele deixou a uma mulata do Rio que veio para Angola estudar as raízes do samba no semba. Vendo-as por preço de amigo, andam já coleccionadores americanos e qataris atras de mim... Aceito ofertas.

a) Feliciano da Mata, antiquario

Defreitas disse...

Pensei em Leonardo de Vinci e escrevi Michel Ange ! Mil desculpas.

Isabel Seixas disse...

Há uma certa conspiração de silêncio
Face à legitima viuvez da pseudoesposa, após a morte de Saa, nada que causasse espanto, emergiram duas carpideiras mor no velório com dificuldades em comprovar legalmente o estado civil de viúva após desaparecimento oportuno dos documentos de registo de matrimónio...

Aliás dito por algumas eventuais alcoviteiras que conheciam a filiação do famoso e desconhecido escritor o cavalheiro era pelos preceitos sociais de cidadania da época um homem de moral e porte duvidoso veja-se com que escritores levianos era comparado, há até quem comentasse entre dentes que a bala trihomicida era no destino a SAA oriunda de uma raiva passional incontida e incontrolável...

Enfim, sinceramente ó que chegamos, felizmente desapareceu sem deixar descendência senão ainda se corria o risco de ingressarem no governo, quanto aos livros sem qualidade desde logo até pelo seu amorfismo sexual implicito em inocuidades de si obtusas, oh valem o que valem pff...

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Jorge Rodrigues: de Tunis, onde vim à procura do Bei (conhece, com certeza, o texto de Saa "O Bei de Tunis na tradição oral do litoral de Sergipe"), aqui lhe deixo um forte e sempre grato abraço, por aquele belo momento de ficção radiofónica. Tal como as coisas andam, vale mais acreditar na "mentira" do Saa do que na realidade que nos cerca.

gherkin disse...


Mais outra "pérola" informative e o contínuo lamento das injustiças da nossa Cultura, tão conhecida, difundidada e apreciada pelos ...estrangeiros! Obrigado, meu caro, mais uma vez, por tão precioso depoimento.
Gilberto

EGR disse...

Senhor Embaixador: mas que post! como me diverti com a sua leitura.
Mas, parece-me justo referir que muitos dos comentários estiveram a altura.



Anónimo disse...

Senhor Embaixador. Vossa Excelência, na apologia que faz de Saa, deixa no olvido o sinistro conluio do brasileiro com o acto de lesa-Pátria em que o regicídio de má memória de transformou. Vossa Excelência não pode passar em claro dois factos cuja conjugação ajudam a explicar muita coisa. Reporto-me à mais do que suspeita presença do retornado na fatídica esquina do Arsenal e pouco mais de dois anos decorridos a visita a Lisboa do Presidente brasileiro, na data funesta de Outubro de 1910, em que a canalha urbana encheu a Rotunda para pôr um ponto final na secular gesta portuguesa. Talvez não seja coincidência que Vossa Excelência fosse depois enviado pelos verde-rubros para o Brasil. Perdoe-me o desabafo mas um poeta que Vossa Excelência não conheceu escreveu um dia uma verdade que hoje se lhe aplica: isto anda tudo ligado. Tenho dito.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Ouvi dizer que O Saa antes de perecer vitima da tal bala perdida...pernoitou em Sintra na "Lawrence" tendo andado a pesquizar indicios de J.W.C. por Monserrate. Sera boato ou confirma?

Hoje em dia ouvimos tanta atoarda, sei la?! Estou confusa.

Saudades de Londres.

F. Crabtree

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro ou cara F. Crabtree: a sua questão abre um espaço de investigação prometedor. Curiosamente, como não lhe terá escapado, Saa nasceu no ano em que JWC nasceu. E Sintra era-lhe um destino familiar. Voltarei ao assunto.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Ai minha pobre cabeca que doi, que me doi. Cada vez mais confusa... Eu sempre acreditei que JW Crabtree tinha nascido em 1754 e morrido em 1854. Nascido e falecido a 14 de Fevereiro, dia dos namorados. Assim sendo Saa nasceu no ano da morte de Crabtree (ou sera de Ricardo Reis?) partilhando assim o ano de 1854 mas nao o dia, ja que Saa, ao que consta nasceu no dia das mentiras. Porem os anos ja me pensam como VExa bem sabe....

Pode voltar ao assuntgo e esclarecer?

Saudades de Londres

F. Crabtree