“Aos nossos analistas e comentadores internacionais têm escapado completamente os graves conflitos que persistem na fronteira entre a Sildávia e a Bordúria. A paciência de Klow (que sabe que não pode contar com os seus aliados) contrapõe-se a arrogância com que a Bordúria continua a provocar incidentes e a ocupar territórios tradicionalmente sildavos. Francisco Seixas da Costa, de que estás à espera? Até quando esse silêncio cúmplice com o regime dos sucessores de Pleksy-Gladz, que mudaram o Partido Bigodista para Partido Patilhista, sem modificarem os seus métodos autoritários e arbitrários?”
Respondi-lhe, naquela mesma prestigiada rede social:
“É mesmo muito triste! Tenho uma vida de amizade com Luís Filipe Castro Mendes e nunca dele esperei uma coisa destas! Quando julgamos conhecer uma pessoa e críamos poder ter algumas certezas sobre a sua postura relativamente a grandes temáticas internacionais, somos surpreendidos, de chofre, por uma análise num tom e substância que só podemos qualificar por ligeiro, se não mesmo leviano. Luís Filipe Castro Mendes, ao acusar a Bordúria de atos agressivos contra a Sildávia, prestou-se a ser porta-voz de uma insinuação da maior gravidade. A Bordúria, saiba o embaixador Castro Mendes, é, como sempre foi, um Estado de bem, com uma reputação à prova de bala, como o ilustra o seu magnífico quadro de relações bilaterais, com a óbvia exceção da vizinhança pária que uma geografia madrasta lhe deixou como destino. Ou Luís Filipe Castro Mendes acha que uma entidade internacional com o prestígio da Abcásia, que desde sempre teve uma embaixada em Szohôd, brinca com essas coisas? Que outro país teve a coragem de estabelecer um consulado honorário em Stepanakert, cobrindo também a Transnístria? Quando o Bophuthatswana tentou reconhecimento internacional, foi, por acaso, bater às portas de Klow? É o vais! Que chancelaria foi procurada, como qualificado “honest broker”, dotado de uma diplomacia de fino recorte e provas dadas, para mediar o sangrento conflito entre San Théodoros e Nuevo Rico? Luís Castro Mendes, que firmou um nome na nossa diplomacia, a que seria desejável que se mantivesse fiel, devia evitar ser intoxicado pela nefasta propaganda sildava e, pior do que isso, deveria recusar-se a carrear para um espaço com o rigor e a seriedade do Facebook versões inquinadas de factos incontroversos. Ao que chegámos, meus senhores!”
Este texto é ilustrado por uma clássica representação gráfica naïf da cidade de Szohôd, capital da Bordúria.
