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quarta-feira, outubro 13, 2021

“Com a Pide não se brinca!”

No tempo do fascismo, dizia-se: “Com a Pide não se brinca!”. A Pide espiava, perseguia, prendia, torturava e matava. Ser “da Pide” - agente ou informador - era sinónimo supremo de indignidade. 

Sempre tive para mim que ser colaborador anónimo da polícia política do fascismo era bastante pior do que ser seu agente. Este último, ao ter essa profissão, assumia, pelo menos, a coragem de ter o seu nome escrito no “Diário do Governo”. Na minha terra, em Vila Real, as três famílias onde havia pessoas que eram agentes da Pide tiveram de viver com essa nódoa social.

Ser “informador” da Pide foi sempre, na minha perspetiva, o grau mais mais baixo da canalhice a que se pode chegar. Ser pago, ou fazê-lo pro bono, por zelo sectário ou por ódio, para informar, sob anonimato, a propósito de um amigo ou um conhecido, dando à Pide dados que permitiam incriminá-lo por atitudes ou atos de combate à ditadura, era o cúmulo da miséria. Ingressar em grupos políticos que combatiam o fascismo para, do seu interior, ajudar a perseguir e a prender quem se opunha a um regime criminoso era o mais baixo a que se podia descer na escala da indignidade cívica.

Nas últimas horas da sua existência, na rua António Maria Cardoso, no dia 25 de abril de 1974, beneficiando de um atraso no seu desmantelamento, que hoje tem nomes responsáveis que a História acolheu mas não puniu, a Pide destruiu arquivos que permitiriam identificar os verdadeiros nomes por detrás dos pseudónimos dessa matilha de informadores. Muitos escaparam impunes. Outros, felizmente, não. O objetivo não era prendê-los, mas apenas deixá-los como exemplos negativos à sociedade cuja libertação tinham procurado evitar.

Este texto surge a propósito de um caso que tem vindo a provocar uma forte polémica, nos últimos dias. António Valdemar, um nome prestigiado da nossa imprensa, denunciou, nas páginas do “Expresso”, que Pedro da Silveira, um conhecido intelectual açoreano, há muito já falecido, havia sido informador da Pide. Dos arquivos da polícia política constam, de facto, relatórios assinados com esse nome. Mas não era vulgar, era mesmo muito raro, alguém assinar esse tipo de denúncias infamantes com o seu verdadeiro nome. Só este facto deveria levar qualquer investigador a ter o maior cuidado. 

Ora sabe-se que os textos que surgem, nos arquivos da Pide, assinados com esse nome são, afinal, da autoria de uma pessoa com outro nome verdadeiro, já há muito identificada. Esse “Pedro da Silveira” seria, assim, apenas um pseudónimo dessa outra figura. O verdadeiro Pedro da Silveira nada teria a ver com o assunto, pelo que acusá-lo de ser informador da Pide configura um ato da maior gravidade, uma imensa infâmia. 

Aguarda-se, assim, uma rápida retratação de António Valdemar e do “Expresso”, para encerrar, com a possível honra para todas as partes, este triste episódio. É que se “com a Pide não se brinca!”, com o bom nome das pessoas perante essa associação de malfeitores também não.

(Em tempo: António Valdemar e o “Expresso” já se retrataram. Ainda bem!)

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