domingo, 6 de junho de 2021

Dedicatória


Lisboa, 2002

Vi-o ao longe. Estava mais gordo, com uma forte bigodeira. Mas não havia dúvida: era aquele velho conhecido que estivera comigo na tropa, com quem passara longas horas à sueca, na messe da EPAM, nos tempos que antecederam a Revolução de 1974.

Nas três décadas que tinham entretanto decorrido, havia-me cruzado com ele num restaurante e num aeroporto. Momentos breves, em que falávamos de amigos comuns, por onde cada um de nós andava e de uma almoçarada que nunca mais acontecia.

Agora, o momento era outro: eu estava sentado a uma mesa, a assinar um livro que lançava nesse dia. Depois de breves intervenções, havia uma (felizmente) longa fila de gente, para as dedicatórias.

Tal como as centenas de pessoas que tinham tido a simpatia de querer estar comigo na sessão, esse amigo, que devia ter lido num jornal que eu ia publicar um livro, quis ir dar-me um abraço e obter uma palavra escrita minha no seu exemplar, como a nossa velha relação pessoal mais do que justificava.

Só que, de repente, uma imensa angústia me começou a invadir: como é que aquele amigo se chamava? Eu sabia o nome, várias vezes falara dele a outras pessoas, mas, naquele preciso momento, não me "saía". E não tinha a quem perguntar.

À medida que eu ia "aviando" quantos o antecediam, ele já me sorria, de longe, com uma proximidade física vez mais temível, seguro da nossa cumplicidade de outros tempos.

Eu começava já a ter alguma dificuldade em me concentrar nas dedicatórias que fazia às pessoas que estavam à sua frente, temendo mais alguma "branca", que o meu crescente nervosismo pudesse provocar.

É que, francamente, não me estava ver com a "lata" de lhe perguntar: "Ó pá! Desculpa lá! Relembra-me o teu nome". Mas que diabo podia eu fazer?

E o momento fatídico chegou. Aquele meu amigo estava, enfim, no topo da fila, frente à mesa, sobre a qual colocou o exemplar que comprara à entrada. Eu levantei-me para lhe dar o merecido abraço, agradeci-lhe ter vindo e voltei a sentar-me, derreado pela tragédia da impossível dedicatória.

Foi nesse instante que o ouvi dizer, para meu imenso descanso: "Dedica isso ao Luís, o meu filho, que quer entrar para a carreira diplomática e a quem tenho falado imenso de ti".

Claro que dediquei, com todo o gosto, lembrando, no que escrevi, a minha velha e imprescritível amizade com o pai.

Nunca soube se o rapaz chegou a entrar para as Necessidades. Um destes dias, vou dar uma vista de olhos à lista de antiguidades. É que eu nunca mais voltei a esquecer o nome desse meu amigo.

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