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quarta-feira, agosto 26, 2020

Reaccionário (com “c”)


A distanciação, em tempos de pandemia, colocou-me atrás dele, a uma boa distância. Foi ontem de manhã, na fila para os jornais, na Atenas, na praça central de Caminha. 

Era um homem pequeno, idoso, de cabelos muito brancos. Vestia um casaco (seria fato?) escuro. Verdadeiramente, a minha atenção à figura começou quando o ouvi pedir a conservadoríssima “Valeurs Actuelles”. Logo eu, que vinha pelo “Nouvel Obs” da semana passada, que já não conseguira apanhar no Porto. 

Espera aí! Um cavalheiro daquela idade, a pedir aquela revista, por aquela zona, seria ele? Ele quem? Se o leitor lê o “Correio da Manhã”, pecado comum a muitos portugueses, ter-se-á encontrado já com as crónicas do Dr. António Sousa Homem, autor de quatro livros de compilação de textos, todos com o subtítulo de ”Crónicas de um reaccionário minhoto”. Quando ele se voltou, para me dar lugar junto ao balcão, esperei para ver se o farfalhudo bigode branco se mostrava, mas a máscara não deixou.

Não resisti, para não ter o destino infeliz de dois escribas lisboetas. que falharam o encontro com o homem. Pousei no balcão a revista que levava na mão e fui atrás do cavalheiro. Chegado ao largo, interpelei-o: “Dr. Sousa Homem?” O senhor parou, tirou a máscara, mostrou uma cara levemente sorridente, com o bigode que lhe vemos nas badanas dos livros, e respondeu: “Presume bem!”. Dei por adquirido que fazia uma citação ínvia do encontro de Livingstone e Stanley, e também sorri. 

Tinha pouco a dizer ao Dr. António Sousa Homem, além do que, de facto, lhe disse: que tinha lido todos os seus livros, que apreciava a sua escrita, que estava longe de lhe dar os 99 anos que lhe sabia de vida. Disse-lhe também quem eu era, o que fazia, mas isso em nada o pareceu interessar. Perguntei-lhe se continuava a ir almoçar ao Ancoradouro, embora sabendo que isso lhe era de regra. 

O Dr. Sousa Homem, manifestamente, não estava com jeitos de me dar muito troco. Sim, ia dali a pouco ao Ancoradouro. Como pretexto para arrumar uma conversa que não andava para a frente, pedi-lhe que desse um abraço por mim ao Alfredo, que tutela aquelas mesas de toalhas aos quadrados. “Com certeza que sim”, adiantou, talvez para se ver livre de mim, cujo nome duvido que sequer tivesse fixado. 

Foi então que, de uma mesa na esplanada da Riviera, se ouviu uma voz feminina: “Tio! Estamos aqui!”. Ele olhou, despediu-se de mim com um inclinar de cabeça e foi ter com a senhora ali sentada. Era, pela certa, a sobrinha, a Maria Luísa, a decoradora de interiores em Braga, de que Sousa Homem nos fala nas crónicas, que vem vê-lo com frequência ao Moledo, onde ele vive.

Ao lado da suposta Maria Luísa, refastelado, estava um cavalheiro. Tenho uma memória de elefante. Era a cara chapada de um tipo que eu tinha cruzado, há cerca de três anos, quando o Nova Sintra ainda estava aberto em frente ao meu hotel, na rua do Heroísmo. Eu tinha falhado a hora do pequeno-almoço do hotel, como cada vez mais me acontece, e tinha atravessado a rua para uma bica e um sumo de laranja, a um preço decente. Ouvi então o empregado do café perguntar, para aquele que era, por uma pinta, o acompanhante de Maria Luísa: “O costume, senhor inspetor?”

Agora, eu estava com alguma pressa. Ainda ia almoçar a La Guardia (A Guarda, para os galegos), onde já levavam uma hora de avanço, para experimentar as delícias da Casa Olga (amanhã conto). 

Quando arranquei, cruzei-me com um carro onde, ia jurar!, ia o Francisco José Viegas. Mas foi impressão minha, pela certa. O Francisco anda por Soltróia. Mas lá que parecia ser ele, isso parecia!

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