domingo, 2 de agosto de 2020

Allen


Lembro-me como se fosse hoje, e já lá vão quase duas décadas. O meu pai, com 91 anos, que tinha ido passar uns meses connosco a Nova Iorque, anunciou-me, antes do jantar: “Hoje, com a tua mulher, vimos no Central Park aquele ator cómico de que vocês gostam muito. Como é que ele se chama? Allen, não é?”

Por mais estranho que isso pareça, pensei em Dave Allen, um fantástico intérprete irlandês de “stand-up comedy”, que tinha “sketches” televisivos magníficos e que víramos uma vez num espetáculo em Londres. Se toda a gente ia a Nova Iorque, por que diabo Dave Allen não estaria por lá? E esqueci o assunto, até que, minutos depois, a minha mulher me esmagou de inveja: “Sabes que nos cruzámos esta tarde com o Woody Allen?”

Nos Estados Unidos, por muito tempo, Allen estava longe de ter a popularidade que tinha na Europa. Talvez porque, para muitos americanos, ele fosse demasiado nova-iorquino. Para essas pessoas, Nova Iorque é a cidade mais “estrangeira”, quase europeia, do país. Além disso, aquele autor e ator é conhecido como um “liberal” (palavra que por lá tem o significado contrário ao que por cá tem, isto é, significa progressista e de esquerda), o que está longe de corresponder a um certificado automático de popularidade na América.

Lembro-me de, uma noite, em casa de um médico americano amigo, ter-se falado de Woody Allen. O jantar reunia gente rica (eu era o “pobre” do grupo, tendo apenas o “anel” de embaixador, o que sempre constitui um certificado de acesso conjuntural ao elevador social), na maioria judeus, votantes democratas, que apreciavam Allen. Mas conheciam mal a sua filmografia. Eu atrevi-me a dizer que, muito provavelmente, devia ter visto toda a obra de Woody Allen (o que não é invulgar, para algumas pessoas da minha geração portuguesa). Ficou tudo a olhar para mim, com ar espantado, tomando-me ou por mentiroso ou por um obcecado. Até que um deles “explicou”: “O Francisco é europeu e lá há uma ‘mania’ do Woody Allen.” Era isso mesmo!

Tinha visto Allen ao vivo, pela primeira vez, em 1992, também em Nova Iorque, naquelas que eram, ao tempo, as suas apresentações semanais no Michael’s Pub, tocando clarinete integrado numa orquestra. Sei pouco de música, mas pareceu-me um intérprete banal, o que não impediu, depois de um solo que fez, que a sala tivesse estourado de aplausos. Tenho na memória que, na mesa ao lado da nossa, visivelmente entusiasmado com Allen, estava o intéprete preferido de François Truffaut, Jean-Pierre Léaud. Na noite seguinte, fui encontrar este, de novo, desta vez a jantar no Elaine’s - o que prova que seguia o roteiro de uma Nova Iorque de turismo “intelectual” que estava na moda. Estranhei mesmo, na noite seguinte, não o ver no Blue Note...

Nesses anos mais tarde, em que vivi em Nova Iorque, um amigo português, de visita, quis ir ver Woddy Allen. Os shows semanais já eram então no Hotel Carlyle e lá fomos: para o meu incompetente ouvido de amante de jazz, o clarinetista não evoluíra nada.

Na sua autobiografia, que estou a acabar de ler, Allen reconhece, talvez com esforçada modéstia, que é um músico apenas banal. E conta que um amigo um dia lhe perguntou: “Não tens vergonha?” O amigo referia-se ao facto de, nas “tournées” do conjunto onde Allen se integra, um pouco por todo o mundo, as salas se encherem, não pela qualidade musical do produto oferecido mas, muito simplesmente, pelo desejo das pessoas de irem ver tocar (sofrivelmente) jazz um (genial) autor e intérprete de cinema. Allen não respondeu e, pelos vistos, continua a dar-lhe muito prazer esse vício musical.

Sobre as trapalhadas em que Woody Allen anda agora metido não falo aqui.

6 comentários:

Anónimo disse...

As vezes vale a pena ver estes idolos da tela na vida real para percebermos que nao estamos a lidar com figuras virtuais!

Corsil Mayombe disse...

O Anónimo 02 Agosto 2020 às 19:32,vai a um concerto de jazz, porque..... "vale a pena ver estesestes ídolos da tela na vida real"....

Já o autor deste blogue,entende que é..."o desejo das pessoas irem ver tocar (sofrívelmente)jazz um(genial)autor e intérprete do cinema".

Haja paciência !!!!!

Não sendo o clarinetista de jazz Woody Allen,um virtuoso como o foram Benny Goodman,Artie Shaw,Tony Scott,....É um óptimo clarinetista que interpreta com feeling o que sente improvisando ,inspirado no momento...!
A prestigiada New Orleans Jazz Band, não se faz acompanhar de !músicos sofríveis!

Nota: Woody Allen com a New Orleans Jazz Band,actuaram várias vezes em Portugal.
Felizmente a maioria das pessoas que assistiram aos concertos,estavam lá para ouvir os músicos e não para outro propósito...

Francisco Seixas da Costa disse...

Se tivesse lido a autobiografia de Allen perceberia o que escrevi. É ele próprio quem acha o que referi

Corsil Mayombe disse...

Obviamente a modesta opinião de Woody Allen deve ser respeitada!

"CEM ANOS DE SOLIDÃO",foi considerado pela crítica,como sendo a obra prima de Gabo -Gabriel Garcia Márquez....
Para o autor,essa distinção deveria ser atribuída a "NINGUÉM ESCREVE AO GENERAL".

E ene exemplos poderia referir aqui,até à exaustão...!!!!

Anónimo disse...

É surpreendente perceber que a edição portuguesa (que teve de arcar com os custos de tradução), consegue ser mais barata do que a edição inglesa e pouco mais cara do que a americana. (EUR 22,41 / GPB 23,55 / USD 23,58)

Também surpreende ver que a edição em livro eletrónico é, apenas, dois euros e pouco mais barata do que a edição em papel (EUR 19,99). Depois, venham falar-me do ambiente...

Ainda mais surpreendente é que a edição eletrónica do livro é muitíssimo mais barata do que a portuguesa (USD 13,99 / EUR 19,99).

Parece-me que estas coisas dos preços também envolvem algum sentido de comédia...

Corsil Mayombe disse...

Meu comentário anterior:

ERRATA:
não é "NINGUÉM ESCREVE AO
GENERAL",mas sim "NINGUÉM ESCREVE AO CORONEL".