sábado, 8 de agosto de 2020

E se Trump perder?

Não se sabe se Donald Trump vai ou não conseguir manter-se no poder, depois das eleições de novembro. Mas todos sabemos que, no caso de ele vir a abandonar a Casa Branca, isso se terá ficado a dever à gestão caótica que fez da pandemia, que é, visivelmente, a principal causa da forte erosão registada na sua popularidade. A não ter ocorrido esta crise, a probabilidade de Trump ser reeleito era muito elevada - hipótese que, aliás, não pode ainda ser descartada.

Todos também já perceberam, a começar pelos americanos, que, se Joe Biden vier a suceder-lhe, sê-lo-á menos por um entusiasmo popular ao seu projeto alternativo e, muito mais, pelos erros cometidos por alguém que, já é quase uma certeza, a História virá a consagrar como o pior presidente que a América alguma vez teve.

As hipóteses de sucesso de Biden, um político decente sem um brilho particular, assentam na continuidade do processo de desgaste político do seu adversário e na esperança de que, nos próximos meses, a imagem do candidato democrático não vir a degradar-se. Isso passa também por uma boa seleção da sua parceira (será uma mulher) no “ticket” presidencial, a qual também estará, até ao último momento, sob um forte escrutínio.

O lugar de presidente do EUA, como os anos de Trump mostraram à saciedade, é uma fonte extraordinária de poder. Pode dizer-se que, em regimes democráticos, em termos de personalização, o caso americano é quase único. A legitimidade oriunda das urnas (e é uma mera “technicality”, que não olha à singularidade do sistema federal, a questão de um presidente poder ser eleito sem ter sido o candidato mais votado) concede ao chefe do Estado americano uma discricionaridade dificilmente admissível noutros regimes. O modo como Trump tem vindo a exercer essa liberalidade dá ainda mais evidência ao facto. No passado, com presidentes “normais”, com os mecanismos equilibradores do Estado a funcionarem, podiam notar-se alguns exageros. Mas Trump levou tudo isso ao absurdo.

Um presidente americano, contudo, não é apenas presidente do seu país. A expressão global dos EUA converte qualquer gesto do líder americano, com implicações externas, num vetor de influência sobre toda a sociedade internacional. E se, em condições regulares, o mundo sabe que tem de contar com a atitude americana como um fator condicionante, e muitas vezes constrangente, Trump representa uma realidade verdadeiramente nova. Ao colocar em causa a ordem internacional que estava pactuada, Trump provocou uma subversão traumática nos instrumentos de regulação global, abalando equilíbrios que os próprios EUA tinham ajudado a dar por adquiridos.

O caráter “revisionista” (como a teoria política gosta de designar) de algumas das suas posturas abriu sérias feridas e trouxe ao mundo, pela primeira vez em mais de sete décadas, uma América imprevisível, egoísta, abertamente não solidária, que colocou em causa a sua autoridade moral, como maior potência ocidental. Ao rejeitar abertamente o diálogo e o compromisso, como fórmulas reguladoras da estabilidade do mundo internacional, substituindo esse entendimento por uma lógica de pura afirmação do seu poder nacional, esta nova América transmitiu um sinal negativo a outros Estados cujos regimes ansiavam há muito por uma libertação do espartilho multilateral. Nenhuma ordem internacional pode sobreviver se os seus principais atores se considerarem isentos dos mecanismos que a regulam. Esse terá sido um dos aspetos mais nefastos do período Trump.

E se Biden ganhar? Há uma perigosa ilusão de que, se Trump vier a ser derrotado, haverá como que um “reset”, uma espécie de idílico regresso à ordem do tempo de Obama.

Ora política não funciona assim. É claro que é expectável, nesse cenário, uma retoma da atenção face à Europa, uma atitude mais simpática face ao mundo multilateral. Mas não se espere um regresso à “square one”, no jogo internacional. Muitos dos interesses americanos, protegidos por Trump, procurarão acolhimento numa eventual administração Biden. E tê-lo-ão.

7 comentários:

Anónimo disse...

"(...) trouxe ao mundo, pela primeira vez em mais de sete décadas, uma América imprevisível, egoísta, abertamente não solidária (...)"

Fixemos estas palavras, de verdadeiro elogio ao papel dos EUA no mundo.
Pudéssemos dizer o mesmo do contraponto "oriental" e certamente teríamos um mundo muito melhor .

dor em baixa disse...

Trump virou as costas ao diálogo? Então e as conversações com o líder norte-coreano? Ninguém conseguiu tal. Quanto a resultados, bem quanto a resultados, zero.

Anónimo disse...

Há eleitores norte-americanos que não goste mesmo nada da Administração Trump. Há quem goste.
Curiosamente uma maioria silenciosa (75% dos eleitores republicanos) declara que não manisfesta publicamente a sua opinião porque têm medo das represálias do pessoal "woke".
Guardam, em segredo, mais uma vez, o em quem irão votar.

Anónimo disse...

Que o homem é uma besta, há poucas dúvidas. Que é um manipulador e uma criatura ridícula, idem. Agora...

- Parece que a economia estava bem antes da pandemia...

- Trump enfrentou a China, fazendo os EUA pagar as despesas de uma guerra que é de todos nós. Vemos os europeus falarem agora de diminuir a dependência da China mas quem está a fazer algo por isso são os EUA!

- Trump viu a necessidade de fechar fronteiras por causa da COVID antes de todos os outros (e foi bem atacado por isso!).

- Desde que o Trump se encontrou com o ditador louco-comuna da Coreia do Norte, a tensão na área diminuiu drasticamente.

- Trump não começou nenhuma guerra mundial, como andavam para aí a dizer. Muito pelo contrário.

- Trump pretendeu diminuir o intervencionismo militar americano - em irónica sintonia, aliás, com as ideias daqueles que tanto atacam os EUA!

- O famoso muro - começado a ser feito por Bill Clinton e continuado por Obama!!! -, ainda não foi acabado, e não parece que o vá ser.

- Lembrem-se do aviso sobre os números da falsos COVID publicados pela China. Trump tinha razão!

Há muitos outros exemplos de ações da Administração Trump que se enquadram em bons princípios ou são fruto de decisões esclarecidas mas nenhum será reconhecido, pela simples razão de que o circo montado à volta do homem (com a ajuda dele), tudo ofusca.

Eu gostava que muita da gente que ataca certos setores da América conseguisse ter o mínimo de empatia para se colocar no lugar do cidadão médio dos EUA: aquele país não tem direito a pensar em si? Aquele país tem de viver para ser o polícia do mundo? Aquele país tem de fazer de guarda-costas de nações velhas de séculas, ricas e orgulhosas mas que preferem deixar o trabalho sujo para os EUA? Trump falou para estas pessoas.

Porque cargas de água têm de ser os EUA a apagar a defesa da Europa? Que bem que ficam os militares nos desfiles das datas nacionais na Europa. Que sofisticadas que são as forças armadas dos países TOP europeus e, depois... qualquer coisa que aconteça, lá têm de vir os americanos? A Europa tem muito mais população do que a Rússia e imensamente mais riqueza e tem de estar dependente da América?! Porque razão há de o cidadão americano sustentar isto?

Trump foi o pior presidente dos EUA? Bem, pelo menos não começou nenhum Vietname só para subir nas sondagens, nem apoiou o envenenamento da água de uma cidade (Obama - Flint).

Joaquim de Freitas disse...

Anonimo das 08:52: De acordo com o Dr. Trump, o calor vai matar o vírus. Leva entre 60 e 70 graus para "limpar" uma máscara estilo N-95.
O Dr. Trump, um grande fabulador, auto-proclamado génio, negocia com qualquer coisa que possa ser negociada. Enquanto ele ficar com o título de rei do "mundo". Claro que queria negociar com o “comuna” da Coreia do Norte. Para lhe retirar o seu seguro de vida… A Bomba…Que não tinha Saddam, senão as coisas seriam diferentes no Iraque…

Foi preciso uma criatura tão tenaz como um vírus para perceber a fragilidade da sua riqueza composta de dívidas e dívidas para se distanciar ainda mais e tornar os States a ilha de Robinson Crusoé.

Agora há mais dúvidas do que estrelas no céu, como disse o nativo-americano, vendo a chegada de marés de predadores para fundar 13 colónias, que representavam barreiras incompreensíveis para ele. Tudo era enorme. Para que servia de colocar barreiras? E mais uma ao longo do Rio Grande…

Mas espere pela segunda e terceira vaga. A pandemia espanhola de gripe matou de 20 a 50 milhões de pessoas em todo o mundo. Ela demorou. Matou em três ondas antes de desaparecer para sempre, em 1920.

A primeira onda, na primavera de 1918, era relativamente pequena. A segunda, no Outono, foi devastadora. O vírus era mais virulento. Matou velhos, crianças, mas também jovens adultos em 24 horas.

Os números falsos COVID publicados pela China. Trump tinha razão! Resta a provar…Mas as AMD essas eram falsas… Mas eram do Bush..

Que pena os três últimos parágrafos…Policia do mundo? Quem lho pediu? Defesa da Europa? Quem lho pediu? Quem impõe 2% de despesas militares aos membros do Clube privado da NATO? Porque razão há de o cidadão americano sustentar isto? Mas quem vive a crédito do mundo inteiro, incluindo da China?

Conservo uma frase porque é a verdade: Que o homem é uma besta, há poucas dúvidas. Que é um manipulador e uma criatura ridícula, idem. Agora...

Se Trump ainda não “teve” a sua guerra, tipo Vietname, é que o panorama não é o mesmo. Os EUA ganharam a Guerra Fria contra a União Soviética, que, sem economia para a suportar, caiu estrondosamente.

Trump quer a sua Guerra Fria contra a China, mas a China tem a economia e o tesouro de guerra necessário para isso. Trump jà perdeu essa guerra.

Anónimo disse...

Se há coisa que me irrita é ter o Freitas a responder aos meus comentários, irra!
A opinião dele interessa-me tanto como a da múmia do Lenine!

Joaquim de Freitas disse...

Bem jogado pelo anónimo das 18:39…é por isso que os anónimos deviam ser escorraçados daqui ! Não detectei a origem de tanta asneira, indigente, e comentei “delicadamente”. Só havia uma frase inteligente no seu texto: a primeira! … Notei-a! Prestarei mais atenção no futuro aos "fake boys"...