sexta-feira, 28 de agosto de 2020

Manel!

 

Numa carreira diplomática onde, historicamente, algum snobismo teima em marcar as formas de tratamento, o Manuel Lopes da Costa foi alguém que cuidou sempre em reduzir a distância face aos colegas mais novos. Senti isso desde o primeiro momento, em que me “ordenou” que o tratasse por Manel, e sempre “por tu”, como todo o ministério se habituou a testemunhar. 

Há dias, neste tempo de pandemia, comentei com alguém da Casa: “Quem deve sofrer imenso com isto é o Manel!”. Porque o Manel era um “físico”, gostava de tocar nas pessoas, agarrava-nos o braço, as mãos. Era a sua forma de demonstrar afetividade, amizade, simpatia. O Manel era a antítese perfeita do conceito de “distanciação”.

Manuel Lopes da Costa afirmava também uma caraterística incomum na Carreira: tinha por “vício” não dizer mal de ninguém. Para minha grande surpresa, uma noite, num bar de um hotel, em Roma, abriu uma exceção e qualificou alguém com um adjetivo duro. Mas tinha imensa razão em assim proceder! Eu teria dito bem pior dessa figura.

Longe de Lisboa, não tenho comigo o Anuário do MNE (uma utilíssima publicação que, por um qualquer mistério, deixou de se publicar neste século), o que me impede de confirmar a perceção de que o Manel, que leio que hoje morreu, aos 87 anos, praticamente nunca teve chefes no estrangeiro: foi “encarregado de negócios” em vários postos, acabando por chefiar embaixadas em Maputo e Dublin, locais onde fui encontrá-lo, sempre à vontade, com ótimo espirito e boa disposição, muito ativo, atento leitor da realidade local.

Percorri alguma África com o Manel - do Congo à Tanzânia, do Zaire ao Quénia, da Zâmbia às Maurícias. Ajudei a libertá-lo, entre gargalhadas coletivas, de uma sarilhada no aeroporto de Addis-Abeba, onde decidiu comprar um facalhão que, com toda a ingénua naturalidade, quis levar para um avião. Com ele e outros compinchas, atravessei o deserto que bordejava o Kelimanjaro, numa carrinha que ele nos convenceu a alugar em Arusha e que, de quando em vez, nos obrigava a parar, para se limpar, por sopro, o carburador (seria isso? não percebo nada de motores), no meio da estrada de terra batida para Nairobi, sob o olhar indiferente das tribos de Masai com que nos cruzávamos (o João Salgueiro não esqueceu isto).

Tenho montes de histórias divertidas com o Manel, uma, incontável, em Londres (o João da Rocha Páris lembra-se), outra, difícil de descrever, em Frankfurt (o António Monteiro recorda-se), sem falar das da caça, arte em que ele era reconhecido como um praticante de elevada craveira. 

Um dia, em Washington, no State Department, o Manel deparou-se com uma sala de reuniões onde, por todo o lado, se viam letreiros de “No Smoking”. Na mesa, de madeira impecável, nem vestígio de cinzeiros. Eram os anos 80, início do fundamentalismo anti-tabaco. 

A “chaminé” que era o Manuel Lopes de Costa começou a agitar-se na cadeira. Alguns membros da delegação portuguesa notavam a sua nervoseira. Ia passada uma dezena de minutos da reunião quando se viu o braço do Manel adiantar-se na mesa e agarrar uma meia dúzia de folhas brancas de A4. “Vai tomar apontamentos”, pensou-se, embora o Manel tivesse à sua frente um caderno de argolas onde escrevinhara já algumas notas.

Foi então que, expectantes, olhos de ambas as delegações viram o Manel dobrar, cuidadosamente, umas faixas laterais do molho de folhas e, com um saber seguramente de experiência feito, criar uma espécie de caixa, com quatro pés assentes sobre a mesa, em frente ao seu lugar. 

De repente, o Manel inclinou-se para a pasta preta, com asas, que sempre trazia consigo e que tinha pousado no chão, ao seu lado. Segundos depois, desse mesmo sítio, no ar daquela sala da sede da diplomacia americana, alçou-se um pequeno fumo, provocatória e libertariamente. Impávido, com o esgar sorridente que era o seu, com a sua barbicha branca, de cabeça sempre levantada, o Manel surgiu com um cigarro incandescente, para cuja cinza - estava desfeito o mistério! - ele havia construído o engenhoso cinzeiro de papel. Alguns americanos, graves, olhavam a delegação portuguesa, com certeza interrogando-se sobre a “lata” de alguém que, com um cigarro, havia raptado a conversa, onde a guerra civil em Angola era o tema. O nosso lado estava divertido. Era o Manel no seu estilo incontrolável!

Tenho muita pena de ver desaparecer o meu querido amigo Manuel Lopes da Costa. Se a diplomacia tem um lado humano insubstituível, esse lado estava bem representado na sua figura, na sua excecional capacidade de relacionamento, de que fui feliz beneficiário. Tenho a certeza de que ele ficaria satisfeito ao saber que o recordei com uma sua história divertida, tão alegre como as muitas horas bem dispostas que passámos juntos. “So long”, Manel!

Um beijo à Maria Cecília e o meu pesar à família.

3 comentários:

Luís Lavoura disse...

o fundamentalismo anti-tabaco

Neste caso não há fundamentalismo nenhum. Numa sala fechada frequentada por outras pessoas não se fuma, porque se está a incomodar essas outras pessoas. É simples. A nossa liberdade acaba onde colide com a dos outros.

Fundamentalismo é exigir que não se fume ao ar livre, ou que não se fume cigarros eletrónicos. Exigir que não se fume numa sala fechada, isso não é fundamentalismo.

Corsil Mayombe disse...

Luís Lavoura:

Ó homem,vire eremita,e temos o problema resolvido!

Anónimo disse...

Ó Corsil, o seu argumento vale para todos os que não pensam como vexa.
Vou aplicá-lo: Ó Corsil vire eremita e temos o problema resolvido!...