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terça-feira, agosto 25, 2020

Barto


Por esta altura do ano, nas Escadinhas da Fonte da Pipa, em Sintra, reunia-se uma seita distinta, que invadia o terraço da casa do Bartolomeu Cid dos Santos. 

Íamos comemorar o aniversário dessa grande figura da arte portuguesa, professor da Slade School e ímpar amigo e companheiro de muitas festas. O Bartolomeu teria feito ontem 89 anos.

Foi em Londres que conheci o Bartolomeu - Barto, para os amigos britânicos -, nos idos de 70, através da Fernanda, sua esplêndida companheira. Quando para lá fui viver, nos anos 90, juntávamo-nos com frequência, em longas e bem regadas conversas e comezainas. O Bartolomeu cozinhava uma “shepherd’s pie” como ninguém, mas também tinha a mania da cozinha grega, arrastando-nos, com frequência, para um restaurante da dita, perto de Tottenham Court Road.

O Bartolomeu tinha a curiosidade de uma criança, a vivacidade de um adolescente, a sabedoria da gente com a idade de que ele se aproximava. 

Foi pela mão do Bartolomeu que passei a integrar, em 1991, a Crabtree Foundation, uma prestigiosa associação britânica (de que ele e eu acabámos um dia presidentes) que, vai para sete décadas, comemora - com afinco, pertinácia e, vá lá, com o rigor possível - a figura de Joseph Crabtree (1754-1854), uma personalidade que nem pelo facto de nunca ter dado o menor sinal de vida deixa de ser um expoente em muitas e desvairadas artes, ofícios e saberes. A “oration” do Bartolomeu sobre a suposta passagem de Crabtree por Portugal continua a ser um marco!

As festas de aniversário do Bartolomeu, lá por Sintra, só se equiparavam às noites de passagem de ano no mesmo local, que começavam num jantar e acabavam dentro da madrugada, depois de sessões de revelação de documentação, que o Bartolomeu cuidava em colecionar, coisas magníficas, como cartas escritas de Cabul para ele, por José Cutileiro, na juventude de ambos. Uma das suas preciosidades era uma “cunha” de alguém para tentar proteger o jovem estudante António Sebastião Ribeiro de Spínola. 

O Bartolomeu, homem que nunca renegara o seu amor ao “partido”, guardava, além disso, uma “memorabilia” de imensas coisas com a foice & martelo, uma “cunhalogia” do melhor que vi até hoje. Não sei se, para aquela coleta, tinha tido a ajuda do Ruben de Carvalho, figura que muito animava essas nossas ocasiões.

Nós éramos felizes participantes desses extraordinários “gatherings”. Para além do Rúben e de José Cutileiro, lembro ver por lá o Antonio Tabuchi, o Zé Cardoso Pires, os “londrinos” Luís Sousa Rebelo e Helder Macedo, o Gérard Castello Lopes, o Júlio Moreira e a Ana Viegas, o Alberto Seixas Santos, o Luís Santos Ferro e tantos e tantos outros.

O Bartolomeu, até à morte, nunca largou Londres, mas voltava sempre a Portugal, a Sintra e a Tavira. Algumas vezes, como quando fez a arte magnífica que está nas paredes do Metro de Entrecampos, trouxe consigo, da “pérfida Albion”, umas excelentes “trupettes”, estudantes da Slade, que muito animaram as marmoreiras de Pero Pinheiro. Tenho dele uma gravura dedicada, com a sombra de uma dessas beldades.

O dia de aniversário já terminou. Se fosse vivo, o Bartolomeu iniciaria agora o caminho para os 90. Assim, tem de se contentar com a eternidade.

Um beijo para ti, Fernanda.

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