terça-feira, 11 de agosto de 2020

O “Cavaleiro Andante”


Há dias, na estante de uma casa onde passo férias, encontrei o livro “Beau Geste”. Não sei se vou ter tempo para o ler, mas recordei épocas em que, em banda desenhada, devorei aquela magnífica história no “Cavaleiro Andante”.

O "Cavaleiro Andante" moldou para sempre o meu imaginário. Algumas memórias fortes que me marcaram a infância e juventude foram fixadas a partir dessa incomparável revista de banda desenhada (na altura, dizia-se "de quadradinhos"), que acolhia preferentemente os autores tributários da "escola belga" de BD, e que abriu caminho aos primeiros desenhos portugueses dessa natureza.

A revista falava-nos de História, de desporto, de literatura, trazia jogos e promovia a interação com os seus jovens leitores. Quando o "Cavaleiro Andante" nasceu eu tinha eu quatro anos. A revista durou dez anos. Observando alguns números mais antigos e o facto de várias histórias neles inseridas permanecerem bem vivas na minha memória, concluo que, muito provavelmente, eu tenha então lido restrospetivamente toda a coleção.

Durante anos, pela casa dos meus pais, havia números dispersos dessa revista semanal que tão importante fora para a minha formação. Fui assim matutando na possibilidade de vir a reconstituir a coleção completa da revista.

Um dia, em 1986, decidi colocar um pequeno anúncio em "A Capital", onde dizia estar interessado em adquirir a coleção completa do "Cavaleiro Andante". Surgiu uma única resposta. Numa noite, fui a uma cave na avenida Dom Carlos, em Lisboa, onde vivia o vendedor.

Era um homem bastante mais velho do que eu. Tinha à venda uma excecional coleção, a que faltavam apenas meia dúzia de números, o que me satisfazia por completo. A conversa nunca a esquecerei. O homem mantinha as revistas embrulhadas em jornais e deixou claro que desfazer-se delas lhe custava bastante. Os olhos brilhavam-lhe enquanto me contava que, ao longo dos anos, tinha conservado cuidadosamente essa publicação que, também para ele, fora da maior importância. A partir de certa altura, a sua ideia fora completar a coleção para a oferecer ao filho. Porém, para sua grande desilusão, o filho, ao chegar o momento em que o pai se aprestava para lha oferecer, não manifestara o menor interesse. Agora, ele próprio tinha escasso espaço para a manter. Por isso, ao ver o meu anúncio, decidira-se a vendê-la. Não tive coragem para regatear o preço que me pedia: 15 contos. Era dinheiro! Mas valeu bem a pena!

É assim que hoje sou um feliz proprietário da coleção completa do "Cavaleiro Andante". Encadernei-a, preservo-a com cuidado e abro-a com alguma frequência, com um prazer que só aqueles que foram leitores fiéis da revista conseguirão perceber.

11 comentários:

Anónimo disse...

Entendo muito bem e partilho essa mesma lembrança, como uma das peças com significado na minha cultura pessoal. Era mais "para os rapazes" ... Eu comecei por devorar os de um primo com mais um ano do que eu e, quando eu tinha já 11-12 anos, passou a comprar-se na nossa casa para o meu irmão, com menos 5 do que eu. E lia um pouco "de soslaio" também porque seria "para os miúdos"... Nada mais falso! Foi por aí que li/vi "O Bobo", "Blake e Mortimer", o Tim Tim, claro, um Western de que não me lembro o nome (alguém me ajuda a lembrar?), e que me fascinou.... MJM

Cícero Catilinária disse...

Também eu, em miúdo, devorei o Cavaleiro Andante, que comecei a ler pelos meus seis anos.
E que pena tenho de, já há muitos anos e nem sei como, ter perdido todos os exemplares que tinha.

Anónimo disse...

Tem a certeza de que nessas revistas não há uma dose cavalar de racismo, xenofobia e machismo?

Manuel Lousada disse...

Excelente revista de quadradinhos. A escola belga foi depois veiculada pelo Tintim português, mais rico que o francês, porquanto reunia numa só revistinha as histórias da Tintim francês e da Spirou!...
Tenho um montão de Tintims até hoje, os parte delas encadernadas em volumes anuais! Um delícia!

Manuel Lousada disse...

Excelente revista de quadradinhos. A escola belga foi depois veiculada pelo Tintim português, mais rico que o francês, porquanto reunia numa só revistinha as histórias da Tintim francês e da Spirou!...
Tenho um montão de Tintims até hoje, os parte delas encadernadas em volumes anuais! Um delícia!

Corsil Mayombe disse...

Fui bafejado pela sorte.
Em 1979 "adquiri" por herança,uma quota parte da biblioteca do padrinho tio-avô,e lá se encontrava a coleção completa do "CAVALEIRO ANDANTE".

Corsil Mayombe disse...

Estranho,era não aparecer um comentário como o do anónimo às 16:01....!

Cícero Catilinária disse...

Ó anónimo das 16:01, o caríssimo vem aqui só para chatear ou sofre mesmo de "uma dose cavalar de racismo, xenofobia, machismo e.... parvoíce"?
Enxergue-se, criatura!

Luis Ferro disse...

Anónimo das 13:31, o Western cujo nome não se recorda não será o protagonizado por Jerry Spring e o seu amigo mexicano Pancho, criado por Jijé?

Anónimo disse...

"...e que abriu caminho aos primeiros desenhos portugueses dessa natureza."

Certamente que também terá aberto caminho aos primeiros desenhos portugueses dessa natureza mas não foi o primeiro que o fez.
Antes do Cavaleiro Andante, que também li frequentemente, no início dos anos'50 já houvera a publicação do "Mosquito" aos quadradinhos. Este sim aos "quadradinhos" porque a publicação era em formato metade de A4 ou coisa parecida e os tais quadradinhos com desenhos eram quadradinhos reais no papel.
O "Cavaleiro Andante era em formato grande tipo A3 e os quadradinhos eram rectângulos bem individualizados e vizíveis.
Um irmão mais velho dez anos tinha a colecção completa do "Mosquito" que eu li e, sobretudo, mais interessadamente a história do Mandrake que serviu para me desenrascar no 1º ano do liceu quando a professora Olinda mandou fazer um texto (redacção) contando uma ida ao cinema e o filme que eu, sendo do campo (montanheiro), nunca tinha ido.
Apanhei sofrível- e os reis das notas foram o Gastão Cruz, o Passos Valente e o Romero Magalhães.
jose neves

jose disse...

Adoro o Cavaleiro Andante que descobri por volta 1960 numa drogaria no Lavradio que vendia sobras da editora por 3 tostões, se bem me lembro.
Ainda não sabia ler mas apreciava o conteúdo diverso, o colorido, o Tin-Tin na Lua, o "Mundo na Palma da Mão" que pedia a familia para me ler.
Poucos anos mais tarde li a edição especial do Natal de 1956, cujas páginas recuperei na net e recomendo vivamente, tem, alem do mais, duas histórias fabulosas O Enigma do Castelo e a Senda dos Pagodes...
Anos mais tarde, na EPI, levantei na biblioteca um magnifico volume encadernado do Cavaleiro Andante e o Capital do Karl Marx. Só consegui ler/perceber o primeiro...

J.Godinho