segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Cafés do Porto


Passei há pouco no “Piolho". Fez 110 anos e, salvo a pandemia, está de boa saúde, com gente a animar-lhe a esplanada. 

O "Piolho", ou melhor, o "Café Âncora d'Ouro", é uma bela instituição do Porto, estrategicamente situada junto aos Leões, à beira dos Clérigos, de Carlos Alberto e do início de Cedofeita. É um local de profundas tradições culturais e académicas. 

Na segunda metade dos anos 60 do século passado, em que o frequentei, por ali aportava gente do Teatro Universitário, do Orfeão, do Coral de Letras, da cooperativa livreira Unicepe, os pró-associativos (no Porto, a ditadura não dava direito a associação académica), estudantes das Faculdades de Ciências e de Economia, logo em frente, bem como os de Letras e Medicina, então um pouco abaixo. 

Tudo bebia por ali o seu café de saco. É que o "Piolho", durante muito tempo, não teve "cimbalino", essa portuense expressão para o "expresso", derivada das máquinas italianas "La Cimbali", que, à época, já equipavam a modernidade dos cafés da cidade, a começar pelo "Montarroio" e a acabar na "Brasileira".

Tal como em Lisboa, para muitas gerações desaguadas da província para estudar no Porto, sem muito dinheiro, num tempo de escassez de locais de convívio, os cafés representavam um espaço de acolhimento, socialização e convívio. 

O "Piolho" era um expoente desse universo, que também tinha o "Aviz" (algo intelectual) e o "Ceuta" (em frente ao Rádio Clube Português), como fóruns clássicos de conversa. Mas também o "Progresso", no Moinho de Vento, com “o melhor café de saco do mundo” (dizia-se que punham, dentro da máquina, um rabo de bacalhau salgado), mas com professores a mais pelas mesas, o "Estrela", na rua da Fábrica, com os seus belos bilhares no 1.º andar, e o "Bissau", em Cedofeita, um oásis de serenidade onde se concentrava a gente de Engenharia e dos lares universitários da Torrinha e Rosário, ainda antes da abertura do “Latino”, a que assisti.

Para estudo ou a fazer disso, havia o "Saban", em Sá da Bandeira, ou o "Diu", na Boavista, sempre cheio de "pequenas" de Farmácia. Mais para namoro, havia o "Guarany", nos Aliados, ao fim da tarde, o "Orfeu" na Rotunda, o "Pereira" no Marquês, ou os recatados e distantes "Bela Cruz" do Castelo do Queijo e o "Chalet" do Passeio Alegre. 

Na baixa, onde se parava em outras diferentes ocasiões (por exemplo, ao final da tarde dos domingos, à espera do "Norte Desportivo"), ficavam os institucionais "Rialto", "Embaixador" ou "Imperial", embora com a estudantada menos presente, E também o "Astória", no passeio das Cardosas, que abria às 6 da manhã (para “apoio” à estação de S. Bento), meia hora depois de fechar a "Stadium", no Bonjardim. 

Curiosamente, o "Majestic" não tinha então o "glamour" de hoje e, bem perto, na Batalha, preponderava então o "Chave d'Ouro", onde a gente nova não ia muito. Não longe, ficava o “Sagres“, também um lugar “ível”, isto é, onde se podia ir. Resta notar, na Passos Manuel, nesta memória muito breve de cafés do Porto, o ”Santiago”, onde uma intelectualidade menos ortodoxa adubava os finais de tarde.

Hoje, é difícil que os cafés admitam que alguém se eternize por lá, à conversa, com um café e um copo de água à frente, como era frequente no século passado. 

Quando vivi em Viena, aprendi que, durante a guerra, os cafés da cidade aceitavam que quem não dispunha de aquecimento em casa passasse muitas horas dentro deles. 

Nos tempos de esse outro Portugal, aos poucos que tínhamos o privilégio de frequentar a universidade, os cafés também nos ajudavam a “aquecer” os dias e, em especial, as noites.

9 comentários:

José Figueiredo disse...

Também tive a oportunidade de aproveitar o Piolho, uns anos mais tarde, na primeira metade 70. A pide invadiu o café, creio que em 73, quando havia grande reboliço por causa de uns coros. Vi lá muita gente que se tornou famosa. No inverno devido ao fumo e ao vapor quase não se via a 2 metros. Depois abriram uma salinha ao lado para aumentar a capacidade. Havia malta que só se sentava no novo espaço - marcações.
José Figueiredo

PS: Eu tenho respeito por muitos dos que citou sobre o "BARTO", que eram comunistas como eu fui de crença. Mas não poderiam continuar as suas festarolas se a coisa tem ido para a frente em 75.

Pedro disse...

Uma grande lembrança do que a vida proporciona. Todos ou quase todos estes locais foram momentos marcantes da minha vida. Parabéns da forma como os coloca como num catálogo de visitas impossível.
Aproveito para o felicitar por estas páginas diárias de autênticos romances e histórias onde atravessam, lembranças, reflexões e caminhos para outras vidas e outras viagens dentro de nós ou não.
Cumprimentos
Pedro Soares

Anónimo disse...

Tenho que lhe dar os parabéns.
Para quem, segundo penso, passou dois anos no Porto, a sua lista é a mais exaustiva possível.
Foram bem aproveitados.
Para mim, que nasci na Rua Sá da Bandeira e vivi no Porto trinta anos, há três ou quatro de que nunca tinha ouvido falar.
Pelo que leio com gosto todas as noites, vejo que fomos contemporâneos na FEUP e nessa altura já se destacava a única falha da sua lista. O Velasques.

Anónimo disse...

Outro se destacava na vizinhança do Majestic.
O Palladium,no gaveto Passos Manuel/Santa Catarina,com cafetaria no r/chão,e bilhares nos três pisos superiores, hoje respectivamente Fnac e C&A.

Anónimo disse...

Outro se destacava na vizinhança do Majestic.
O Palladium,no gaveto Passos Manuel/Santa Catarina,com cafetaria no r/chão,e bilhares nos três pisos superiores, hoje respectivamente Fnac e C&A.

Anónimo disse...

Anónimo das 23:46:
Única falha????

Anónimo disse...

Então o Majestic não tinha o "glamour"de hoje????
Puro engano, meu caro.
Hoje, com mais polimento,mais verniz, atendimento dirigido ao status do turismo internacional,com preços inflacionados ao absurdo(café cinco euros), o glamour é um conceito, que só passa na cabecinha pensadora dos gormets de antão....!!!!!!!!!!!!

Anónimo disse...

Então e o Arcadia onde nós,os lisboetas, íamos comprar chocolates,que brilhavam como especialidades exóticas trazidas de um mundo perférico,a perder de vista da sofisticação do Chiado e da Bénard...

António Moreira disse...

Também andei por ai nos anos 60. Militei na pró-associação de Ciências e estive vários anos na direção da Unicepe. Também ia ao Piolho mas frequentava mais o Universidade que ficava ao lado onde também parava muita malta do "reviralho".