segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Estátuas, descobertas e quejandos

Num ato de insuportável arrogância histórica, a atual geração acha-se no direito de ser a julgadora do que de bem ou de mal as anteriores gerações pensaram ou fizeram, contestando-lhes as ideias e destruindo-lhes os símbolos.

18 comentários:

João Cabral disse...

Infelizmente, não é só a actual geração. São também gerações anteriores. É um estado mental. Uns porque desprezam tudo o que está para trás (a tal teoria do homem novo), outros porque têm traumas pós-qualquer coisa. Outros ainda, são movidos por um insólito e oco pós-modernismo. Em qualquer dos casos, tratem-se.

Carlos Diniz disse...

A sua geração fez exactamente o mesmo ao decapitar a estátua de Salazar, mudar o nome da ponte, etc....

Jaime Santos disse...

Parece-me, Sr. Embaixador, que isso também pode ser dito de todas as gerações precedentes e dos símbolos que decidiram erguer.

Como dizia alguém, a História não está tanto no que decidimos preservar, mas sobretudo no que decidimos esquecer... Parece, no entanto, que o que ficou esquecido está de regresso, 'with a vengeance'...

Joaquim de Freitas disse...

Isabel e Fernando receberam do papa Alexandre VI o título de Los Reyes Católicos em 1494.
Os soberanos espanhóis eram, de facto, profundamente religiosos. Os dois demonstravam ao mundo que viviam uma piedade pessoal admirável. O historiador Will Durant conta que em 1492, Isabel escolheu o cardeal Ximenes como confessor pessoal. Devido a proximidade que Ximenes dizia ter com Deus e com a rainha, ele tornou-se tão importante e poderoso quanto o próprio rei. O cardeal pertencia a uma das mais severas ordens monásticas espanholas – os Franciscanos Observantes. Ascético, dormia no chão ou em tábua dura, jejuava frequentemente, flagelava-se e vestia uma bata de pelo de crina sobre a pele. Nenhuma dessas observâncias religiosas ajudou Ximenes a tornar-se um homem compassivo.

No reinado de Fernando e Isabel a Inquisição ganhou espaço. Na intolerância espanhola, milhões sofreram. Judeus, mouros, hereges – ou qualquer pessoa mal querida – podiam ser indiciados nos autos inquisitórios. Na Inquisição, não havia defesa. Uma vez indiciado, a pessoa já estava condenada. Ou morriam no torniquete, na fogueira ou abandonados nas masmorras imundas.

Os dois monarcas patrocinaram os Conquistadores que, sob o pretexto de levarem salvação saquearam a América. Quando os Conquistadores chegaram às nações do que se conhece hoje como América Latina, prometiam libertação. Fé no Deus verdadeiro abria o caminho para a salvação. Sob o pretexto de evangelizar, queriam ouro. E nessa voracidade, trucidaram e espoliaram. Dizimaram culturas milenares. Rapinaram uma prata limpa e deixaram o legado de uma cruz suja. Depois de séculos, quando se reviu a história, Isabel, a católica, foi responsável por mais horrores em nome da fé, do que Nero em nome dos vícios. Não sobrou nenhum bem espiritual da Inquisição, apenas vergonha. As incursões espanholas na América desdobram-se em miséria mesmo depois de tantos anos. Como podiam as geraçoes actuais celebrar e respeitar estes artesaos da Historia, sem sentir vergonha e repulsa por tudo o que eles fizeram à Humanidade,

Anónimo disse...

Muito bem observado
João Vieira

Anónimo disse...

não tem jeito nenhum, não!
o passado pertence às pessoas que já morreram, que lutaram pela sua época,
e souberam/conseguiram construir o futuro deles, que é o nosso presente,
uma dádiva inestimável, de valor incalculável, que nos mantém no nosso mundo

as gerações atuais já têm muito que fazer com o presente e se possível com o futuro!
então se fizerem coisas positivas que tragam felicidade à sociedade onde vivem
já não será muito mau
haja humildade!!!

josé ricardo disse...

A questão das estátuas não é bem essa, ou melhor, não é só essa. Não podemos reduzir as estátuas ao "espírito do tempo" e à obra de arte. Uma estátua é mais do que isso. Representa um tributo que a "cidade" presta a alguém, pelos feitos valorosos conquistados na sua vida. Ora, sendo um tributo, a questão ultrapassa esse espírito do tempo, pois eu não quero que o meu país tenha estátuas de alguém que, nos valores veiculados na nossa hodiernidade, sejam muito questionáveis. Ou seja: não me importa que as estátuas existam, mas nunca sob a forma de tributo. As que têm valor artístico devem estar num museu. Por exemplo, não me importava e até achava pedagógica e artisticamente útil ver uma estátua de Salazar num museu, mas já me incomodava vê-la, impante, numa rotunda. E quem diz de Salazar, diz de um negreiro, de um racista, de um pedófilo...

Anónimo disse...

Concordo plenamente.
Algumas pessoas da nova geração estão claramente imbuídas de zelo missionário e penitencial afirmando que o nosso passado tem mácula. Querem reescrever a história, escondendo factos objectivos para criarem algo de profundamente subjectivo que vá de acordo com as suas ideias.
O importante é que Portugal e o ocidente são culpados de tudo. Até eles próprios os zelotas são culpados e têm de se penitenciar destruindo a nossa história e cultura.
Não creio que esses novos ayatollahs consigam o que pretendem.

Anónimo disse...

Fica muito mal andar a copiar textos dos outros sem referir o autor, ó Freitas.

https://www.ricardogondim.com.br/estudos/teologia-na-extrema-direita/


Assim, é fácil parecer "culto"... o copy+paste faz maravilhas

Luís Lavoura disse...

Mas as anteriores gerações fizeram exatamente o mesmo! Todas as gerações fazem isso.
Quando as anteriores gerações erigiram algo em símbolo, estavam a fazer isso mesmo: a julgar as gerações antes delas, a fazer algo que elas não tinham feito.
Temos tanto direito de destruir símbolos do passado, como o passado teve o direito de erigir esses símbolos.

Anónimo disse...

É verdade e é assustador senhor embaixador. Tal como referem comentários anteriores, no passado também ocorreram situações idênticas, mas eu pergunto e não será tempo de pôr termo a esse ciclo?, onde está afinal a evolução civizacional? Não aceito, nem posso aceitar a violência e a arrogância da nova geração, a mesma que fala de tolerância, respeito pela diferença, etc...afinal não passa de retórica! Todos temos, certamente, culpa...

Anónimo disse...

Penso que podemos julgar os atos passados e considerá-los bom ou maus. É natural, é a análise da história. Imagine que agora tinhamos que manter homenagens àquela besta do rei Leopoldo da Bélgica e achar que o que ele fez foi aceitável aos olhos da época!!!!!!!
Devemos olhar para o passado, lê-lo, julgá-lo e aprender com os erros ou com os bons exemplos.
Ter espírito crítico e pensar pela própria cabeça, sempre! Ainda mais agora que vivemos tempos em que os Media moldam completamente a opinião pública a seu bel prazer e criam rebanhos.....

Maria Cristina

Reaça disse...

Ó Freitas, o Fernando e a Isabel nunca viajaram para a américa, foi sim a Espanha inteira.

Ora, risque-se a Espanha do mapa, e toda a sua geração, ou seja,apague-se a história do Fernando para cá e da Isabel para cá.

Anónimo disse...

Apenas consequência do breviário marxista a ser aplicado. Não só em Portugal.
Criam-se tribos etárias. Retiram-se, voluntaria ou involuntariamente, as crianças, os infantes e os jóvens do contacto formativo em família, substituindo-o por um líder, ele mesmo já de uma geração imersa em marxismo.
Retira-se o ensino da história, a nacionalidade, o País, do ensino. O passado desapareceu.
Em substituição um mítico passado cheio de lutas sociais!. Um presente ... de lutas sociais. Tudo como via para um mítico futuro radioso, fraterno, como se a natureza humana fosse alguma vez transmotável por essa via....
Longe vai o lema Deus, Pátria, Família.
Agora reina Marx, Globalismo, Partido. Será esta receita duradoira ou auto-destruidora a curto prazo?.

Anónimo disse...

Ui, isto é muito abrangente. Também se aplica à geração dos que fizeram o 25 de Abril? Ou a arrogância histórica é de geometria variável?

Anónimo disse...

que isso não se transforme em fundamentalismo!
será para esconder as crueldades que se passam no tempo presente?
ou teremos de esperar 200 anos para que os acontecimentos de hoje sejam passado, e sejam
decretados como situações "non gratas"?

Anónimo disse...

"18 de agosto de 2020 às 16:02" - foi apenas um pretexto para referir a "América" :)

Retornado disse...

Não havia o direito de se ter colonizado aquela África como foi feito.

Desde a escravatura que embora fosse coisa trivial em África, mas nunca levar os escravos para as américas e europa, sem direito a regresso.

Nunca obrigar tantos africanos a abandonar os seus rituais religiosos, e obrigar alguns mesmo a chegar a serem bispos e cardeais e pastores com culpas directas para missionários como foi o Padre Antonio Vieira.

Como é possível convencer tantos milhões de jovens africanos a dedicarem-se aquela cultura estranha aos seus antepassados, o futebol?

Sem falar naqueles africanos futebolistas que são obrigados a entoar alto e bom som o hino nacional dos seus ferozes colonizadores.

Tanta violência colonizadora tem que ser irradicada da memória dos povos do mundo.

E Estes europeus modernos a tentar impôr em África, hoje, como norma a aceitação da parte dos chefes africanos, o contracenso do homosexualismo, incrível, tanta violência moral sobre os africanos.

E no caso de Portugal, quererem estas modernices impedir a prática da excisão feminina em território português, esse hábito tão genuino guineense e não só?

Todos, mas todos os simbolos da colonização de África, inclusive aquelas linhas que marcam as fronteiras fictícias de tantos países africanos devem ser apagados e voltar à estaca zero.

Tanto mal se fez em África, que a Europa nunca saberá como remediar e repôr África no seu lugar natural.