quarta-feira, 19 de agosto de 2020

Os restos de Yalta


No plano geopolítico, a Bielorrússia, de que se fala por estes dias, configura um caso particular. Se bem se notar, o ocidente reclama, muito justamente, pelo comportamento autocrático do presidente Lukashenko, pelo ambiente fraudulento que envolveu a recente disputa eleitoral, pela violência oficial contra a expressão democrática dos seus cidadãos. Mas, ao contrário do que se verificou nos casos da Geórgia ou da Ucrânia, nenhuma voz sensata veio apelar à ideia de que uma Bielorrússia “livre” venha a integrar a NATO ou a União Europeia. Por que será?

Há resquícios dos velhos acordos de Yalta que ainda subsistem na memória do realismo internacional. E embora, no plano dos princípios, ninguém subscreva a legitimidade da tese das “esferas de influência”, é por demais evidente que prevalece, na racionalidade geopolítica do mundo, a ideia de que um país como a Bielorrússia faz parte de um terreno de tutela russa. 

Se Putin decidisse fazer avançar carros de combate pelas ruas de Minsk, caía “o Carmo e a Trindade”, mas não deixa de haver um entendimento implícito no tocante à aceitação de que Moscovo pode ter uma palavra a dizer quanto ao futuro do país. Se a “soberania limitada” faz ainda sentido para alguns cultores da “realpolitik”, é no caso bielorrusso que isso se aplica de forma bem clara.

Os cidadãos que vieram para as ruas, como alguns bem assinalaram, não parece terem pedido para que o país ingresse na Aliança Atlântica ou faça parte das instituições europeias, da mesma forma que, ao contrário de muitos georgianos e ucranianos, não pareceu emergir nesses movimentos uma atitude hostil para com a Rússia. Provavelmente, isso terá ocorrido assim por mero realismo, pela consciência de que o seu futuro, se fará, quase inevitavelmente, num qualquer modelo de relação íntima com Moscovo.

A alguns chocará a frieza desta análise, que parece conceder bondade àquilo que espelha uma mera relação de forças. Porém, estou apenas a refletir sobre como as coisas são, não como deviam ser. É que não é por acaso que os poderes que contam, na ordem internacional, sempre separam as águas, quando abordam os casos nacionais na periferia russa.

A avaliar pelas reações, Putin não sabe muito bem o que há-de fazer com o seu incómodo vizinho. Já terá percebido que Lukashenko é, cada vez mais, um fardo. Não está disposto a deixar que o ocidente intervenha, mas, muito claramente, também ainda não decidiu como utilizará o seu poder de vizinhança. No meio, impotentes, estão os bielorrussos.

7 comentários:

Luís Lavoura disse...

É curioso, porém, que o "Ocidente" trate diferentemente a Bielorrússia da Ucrânia. A maior parte da Ucrânia sempre esteve sob a tutela de Moscovo, tal e qual como a maior parte da Bielorrússia. (Com exceção do período entre as duas Grandes Guerras, em que a Bielorrússia pertenceu à Polónia, mas isso foi por via de nos tratados de Brest-Litovsk Lenine ter tido que abrir mão de boa parte do Império Russo.) A diferença, creio eu, está em que a Ucrânia ocidental foi, no passado, com o nome de "Galícia", parte do Império Habsburgo, e por isso o "Ocidente" ainda a continua a considerar como não devendo estar submetida à tutela moscovita.

Luís Lavoura disse...

Há outras três razões, para além daquela que o Francisco aqui nos expôs, para o "Ocidente" atuar na Bielorrússia de forma mais deferente para com Moscovo.

A primeira, é que o "Ocidente" já interferiu na Ucrânia, e já viu que os resultados obtidos não foram nada bons. O "Ocidente" promoveu uma revolução na Ucrânia e só ficou com um fardo às costas, que lhe custa dinheiro e não lhe traz proveito. O "Ocidente" sabe que, se tentar repetir na Bielorrússia aquilo que já fez na Ucrânia, só obterá, com toda a probabilidade, um mau resultado.

A segunda, é que a Rússia é hoje bem mais poderosa e assertiva do que foi no passado recente.

A terceira, é que os EUA são hoje liderados por um presidente não intervencionista, ao contrário daquilo que aconteceu no passado. Enquanto que Clinton, os Bush e Obama eram amigos de andar pelo mundo a semear o caos, o atual presidente dos EUA é contra isso.

Anónimo disse...

E em Lisboa, já se prepararam para iluminar o Terreiro do Paço
com as cores da França?!
eh eh eh

Joaquim de Freitas disse...

Qual é a diferença entre um ditador, « “o mais antigo da Europa” dizem alguns », e um “democrata” que faz tudo para conservar o poleiro?

O primeiro, escreve-se sem aspas. O segundo merece-as…

Gérard Araud, antigo embaixador francês nos Estados Unidos: "A menos que haja um maremoto Trump não aceitará uma derrota"
Ele vai agarrar-se à sua cadeira e podemos esperar a tensão máxima.

Aceitará uma derrota?

Não, a não ser que o voto esteja no nível do maremoto. Senão, vai agarrar-se à sua “secretária” (mesa de trabalho!) e podemos esperar a máxima tensão ou mesmo a agitação num país onde as milícias de extrema-direita são abundantes e as pessoas estão sobre-armadas.

Trump: "Se os democratas ganharem, será pior do que a Venezuela"

Os democratas transmitem uma "ideologia semelhante" à da Venezuela.
"Será uma Venezuela, em grande escala se ganharem."
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ENTRETANTO, a milhares de km de là:

Lukashenko diz aos manifestantes: "Não me vão pôr de joelhos"

Líder da oposição bielorrussa Tikhanovskaya apela às forças policiais para pôr-se "do lado do povo"

Num vídeo publicado no YouTube a 17 de Agosto, a principal adversária de Lukashenko convida as forças de segurança a juntarem-se ao povo que as acolherão "se as suas intenções forem boas e o seu arrependimento for sincero".

Dito isto, o Senhor Embaixador tem razão: Os bielorrussos perderiam muito se passassem ao Ocidente. E eles sabem-no. Mesmo sem Yalta.

A maioria do povo bielorrusso já está farto de Lukashenko, os seus 26 anos no poder, nepotismo e corrupção, apesar de ter sido muito popular no seu país. Os bielorrussos agradeceram-lhe por ter mantido os benefícios sociais ao estilo soviético (saúde, escola, trabalho para todos, serviços públicos em geral), enquanto o vizinho russo vivia o inferno das reformas neoliberais da década de 1990. Mesmo se agora também padecem dos estragos colaterais do Codiv 19 na economia. Mas quem não sofre hoje desse maldito?

Vladimir Putin está farto de Alexander Lukashenko e da sua arrogância.

Há muito que existe um projeto de uma federação russo-bielorrussa-bielorrussa; mas está num impasse pela vontade de... Lukashenko, quando parecia inevitável. Além disso, houve - antes das eleições presidenciais - manifestações na Bielorrússia contra Lukashenko e a sua recusa de uma federação russo-bielorrussa (muito pouco retransmitida, e por uma boa razão, no Ocidente).

E portanto, a Rússia tem procurado uma aproximação entre os dois países: simplificações administrativas, liberdade de circulação de pessoas e bens, benefícios económicos, preços favoráveis hidrocarbonetos, modernização do equipamento militar e manutenção quase gratuita, etc. Sem esquecer que tudo o que a Bielorrússia produz é exportado para a Rússia.

No entanto, a Rússia está a encará-lo no sentido de uma aproximação entre os dois países: simplificações administrativas, liberdade de circulação de pessoas e bens, benefícios económicos, preços muito baixos de hidrocarbonetos, modernização do equipamento militar e manutenção quase gratuita, etc.

Lukashenko, por seu lado, considerou inteligente aumentar as apostas falando de aproximação com a UE e de integração na NATO. O que ninguém nao pediu, mesmo na oposição bielorrussa, onde a inclinação russa é bastante amplamente partilhada.

A Rússia simplesmente não tem interesse nenhum em intervir.

Bom, Lukashenko, irá para férias prolongadas com o seu amigo ucraniano, vitima do Golpe da Praça Maidan.

Anónimo disse...

Pouca gente sabe que este acordo tem este nome por ter sido assinado em Viseu, na Beira Ialta
Fernando Neves

Zé Estaline disse...

Pipocas salgadas...

Anónimo disse...

Adorava que eles instaurassem um regime democrático liberal para desespero do Putin e do PCP...