domingo, 16 de dezembro de 2018

Os “gilets jaunes”


Acho estranha a condescendência que se instalou face ao movimento dos “gilet jaunes”, não o responsabilizando pela violência e pelos danos que, sob a sua cobertura, são regularmente praticados. 

Quem se manifesta - e está no seu pleníssimo direito de o fazer, porque faz emergir o mal-estar existente, o que é um sintoma democraticamente relevante - deve cuidar em que esse ato se processe nos termos ordeiros que são próprios de uma qualquer sociedade democrática. 

Se os “gilets jaunes” representam uma causa com um fundamento sério, e parece que assim é, deveriam ter estado sempre, e desde a primeira hora, na linha da frente de isolamento dos “casseurs” que, no seu seio e a seu coberto, acabaram por pilhar lojas, incendiaram viaturas e provocaram incomensuráveis destruições, muitas das quais irão ser pagas pelos contribuintes. 

É que, desta forma, fica instalada a ideia de que os “gilet jaunes” apenas se distanciam desses vândalos por habilidade tática mas, lá no fundo, não deixam de ser aproveitadores oportunistas da pressão que o receio crescente desses desacatos acaba por ter sobre a sociedade em geral e as autoridades em particular. 

Contrariamente aos que alguns inconscientes pensam, em política não vale tudo. Se quisermos viver em democracia, claro.

10 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

O Senhor Embaixador exprimiu uma opinião, respeitável, mas infelizmente injusta e que não corresponde à verdade.
Dei uma vista de olhos rápida em Paris a uma das manifestações e assisti a duas aqui em Grenoble.
Escrever que os “Gilets Jaunes” (GJ) são culpados dos actos de vandalismo dos “casseurs” da cintura parisiense, que aparecem em todas as manifestações, quaisquer que elas sejam, sobretudo aquando dos desafios de futebol, é duma injustiça, flagrante.
Talvez o Senhor não soubesse que na noite da festa dos campeões do mundo de futebol, em Paris, houve mais veículos destruídos que em qualquer outra manifestação. Os autores são sempre os mesmos e são conhecidos da polícia.
Mesmo aquando dos desfiles sindicais, da “Bastile à la Nation” , eles aparecem sempre. A grande diferença é que os sindicatos têm o seu serviço de ordem; eficaz, que trabalha com a policia para evitar estragos de maior. Mas os sindicatos têm a experiência de muitos anos de sindicalismo. Os GJ foi a primeira vez.

Como pode culpar os GJ “pela violência e pelos danos que, sob a sua cobertura, são regularmente praticados.” Como escreve?

Qual cobertura? Houve GJ’s que ajudaram por vezes policias e gendarmes a sair de situações delicadas quando foram submersos pela multidão, no meio da qual haviam “casseurs”. O facto de estarem vestidos de coletes amarelos não significava que eram GJ.
Muitos extremistas de direita do GUD e de OCIDENTE e de extrema-esquerda infiltraram o movimento com o objectivo de destruir.

Acaso os actos de violência nos estádios e à saída dos estádios, tendo alguns provocado dezenas de mortos no passado, alguma vez foi a culpa das equipas de futebol?

Foi o governo que falhou completamente na organização do serviço de ordem, que é da sua responsabilidade, pela inexperiência do ministro do interior, nomeado há um mês, que não avaliou. o “contingente” de extremistas susceptível de poluir o movimento dos GJ.

Enfim, o Senhor Embaixador não analisou a idade da maioria dos manifestantes GJ , por vezes acompanhados da família.
E pode crer que em França, a imensa maioria dos franceses, que apoiaram até 84% a acção dos GJ, são muito poucos aqueles que pensam, como o Senhor escreve, que “que os “gilet jaunes” apenas se distanciam desses vândalos por habilidade tática mas, lá no fundo, não deixam de ser aproveitadores oportunistas da pressão que o receio crescente desses desacatos acaba por ter sobre a sociedade em geral e as autoridades em particular.

Hoje, eles são ainda sete franceses sobre dez a justificar os GJ. As autoridades, Senhor Embaixador, isto é Emmanuel Macron tem hoje 23% de cidadãos que o apoiam. Mais ou menos os que o elegeram na primeira volta das eleições presidenciais e é o politico mais odiado de França.

E o que é grave, é que a sua politica desde há dezoito meses, consolidou Marine Le Pen com o mesmo score de 24% para as eleições europeias.

Joaquim de Freitas disse...

SUITE) E o que é grave, é que a sua politica desde há dezoito meses, pôs Marine Le Pen com o mesmo score de 24% para as eleições europeias.

Quando escreve: “Contrariamente aos que alguns inconscientes pensam, em política não vale tudo. Se quisermos viver em democracia, claro », estou de acordo. .

Mas foi a falta de democracia de Macron, que desprezou as forças vivas da Nação, durante 18 meses: partidos políticos, maires, sindicatos, associações, que chamou ao socorro agora, em pânico, levaram à situação social actual

E o seu recuo, que podia ter evitado a crise no início, é agora insuficiente. Viveu fora da vida real do povo francês e este chamou-o à ordem. O seu mandato vai dever recomeçar mas não o mesmo.

Não votei por ele. Votei branco. Mas demonstrou bem aquilo que pensava:

O poder em França, foi confiscado desde há muito tempo por um pequeno grupo de altos funcionários, saídos das grandes escolas, que passeiam entre os gabinetes, os ministérios e as grandes empresas privadas . E que são ao serviço de certos interesses privados e não da colectividade.

Macron é um deles e é mesmo emblemático desta elite, ao ponto que projecta criar uma lei na qual o tempo passado nas empresas privadas, no seu caso a banca, seria contado no tempo total ao serviço do Estado. Esta porosidade entre o privado e o Estado dá o resultado que conhecemos, em que os antigos ministros são os pdg’s das grandes empresas e vice versa, com o risco de ver os interesses destas empresas passar por cima dos interesses do povo.

Anónimo disse...

Democracia? Mas alguém acredita que temos todos igual liberdade de expressão, somos iguais perante a lei e igual participação no exercício do poder. Onde?

Anónimo disse...


Estou de acordo consigo, Joaquim Freitas. Habituei-me ao seu olhar atento que vem sempre repor as coisas no seu sítio.

Bem haja !

João Pedro

Luís Lavoura disse...

Não são somente aproveitadores oportunistas, são de facto instigadores.
Porque quando se convoca sucessivas manifestações, sabendo a que é que as manifestações anteriores deram azo, está-se de facto (em termos operacionais) a colaborar com, e a incentivar o vandalismo.

Anónimo disse...

O problema europeu não são os giletes jaunes!

Os cidadãos europeus ainda não acordaram para a realidade do Acordo de Marraquexe.

Anestesiados pelos discursos globalistas e multiculturalistas dos governantes e líderes da UE, acreditam que é evolução social quando se defende nações sem fronteiras por onde passam livremente grandes massas de indivíduos, em idade jovem, sem documentos e sob o falso estatuto de refugiados na maioria do caso odiando o cristianismo ?

Acreditam porque a lavagem cerebral dos médias é tão agressiva que deixam de pensar por eles próprios.

Anónimo disse...

Mas GANHARAM!

Joaquim de Freitas disse...

« Luís Lavoura disse...
Não são somente aproveitadores oportunistas, são de facto instigadores.
Porque quando se convoca sucessivas manifestações, sabendo a que é que as manifestações anteriores deram azo, está-se de facto (em termos operacionais) a colaborar com, e a incentivar o vandalismo.”


Sentado confortavelmente em frente da televisão, num país rico, como Portugal, no qual milhares de chefes de família devem contentar-se de 635 euros por mês, para fazer viver a família, alguns consideram normal, uma nova classe condicionada a uma normalidade que não é normal, porque são tão bem adaptados ao seu modo de existência, porque a sua voz humana foi reduzida ao silêncio desde a mais tenra infância, que não lutam mais, não sofrem mais e não desenvolvem mesmo sintomas como o faria um nevrótico.

A restrição das liberdades, é normal. A dissidência pública é doravante controlada pela polícia, cujos actos de intimidação são normais.

O desprezo de palavras nobres como "democracia", "reforma", "protecção social" e "serviço público" é normal.

A destruição deliberada de instituições eficazes e populares, como os correios é normal. Um carteiro não é mais um carteiro, que faz um trabalho respeitável;
Estamos "perfeitamente adaptados" a isso? Não, ainda não. Há pessoas que se opõem ao encerramento dos hospitais, maternidades e creches. Ao encerramento de linhas ferroviárias que so servem os trabalhadores.

No Festival de Manchester este ano, a obra histórica de Percy Bysshe Shelley, todos os seus 91 versos foram escritos sob a influência da raiva em face do massacre de cidadãos de Lancashire que manifestavam contra a pobreza em 1819.

Em Janeiro passado, a Comissão da pobreza da comunidade urbana de Manchester revelou que 600.000 habitantes da cidade viviam na pobreza extrema e que 1,6 milhões, ou quase a metade da população, estavam a cair inexoravelmente numa maior pobreza.
Isto é a Europa .

A pobreza aburguesou-se. Levallois,-Perret, onde fui , há muitos anos,visitar o meu cliente Citroen, e Velosolex, era uma carcaça social -pouco apreciada pela falta da manutenção e dos serviços. Era um fief comunista. A classe trabalhadora era a maioria. Hoje desapareceu ou quase. E os que ficaram sofrem.

Após o novo plano urbano, foi renovado e privatizado. Dois terços dos apartamentos antigos foram renovados em modernos apartamentos vendidos a "profissionais", incluindo decoradores, arquitectos etc., e, sobretudo, as grandes firmas nacionais e multinacionais. A lista de espera para apartamentos sociais é de 60.000 pessoas.

Levallois é um símbolo da sociedade de dois terços na qual a França se tornou. E há outros, muitos, assim. O terço burguês vai-se safando bem, alguns muito bem. Outro terço luta para se safar, endividando-se. O resto afunda-se na miséria. E é a este terço que Macron quer vender os automóveis a motor eléctrico, porque os diesel poluem…

Joaquim de Freitas disse...

SUITE Os outros, aqueles que foram obrigados a ir viver para a periferia, devem conduzir duas ou três horas por dia, para vir trabalhar na zona. E ao preço do carburante, custa caro vir trabalhar.!

E como resolver o problema do automóvel, se o diesel for proibido de passar em Paris? E quando penso que foi um grande chefe de industria, presidente de Peugeot, Mr.Calvet que tinha assegurado que o diesel era o mais ecológico e económico dos carburantes, e tanto assim que Peugeot e Renault tornaram-se em campeões dos motores diesel. Mesmo Volvo os compra para os seus carros… E agora é preciso mudar?

Mas mesmo com incitações da ordem de 3 ou 4000 euros, ainda é preciso mais do dobro para mudar de carro! E se os dois conjugues têm cada um o seu? E que os bancos não emprestam, como fazer? Os plutocratas de Bercy e do Palais do Eliseu nem pensaram nisso. Nem pensaram no problema das estações de carga das baterias e das centrais nucleares que vão fechar, because transição ecológica, e que não se sabe se haverá energia que chegue…

Entretanto, ao chegar a casa, o correio traz más noticias: a taxa de habitação subiu, porque Macron ficou com ela e Monsieur le Maire, tem obrigações: reparar as estradas, a escola, a creche, subsidiar a cantina, as associações de ajuda às pessoas idosas etc, etc.

Olha a água também subiu! A electricidade e o gás também! E a CSG – (Contribuição Social Generalizada, uma invenção de Roccard, desviada para o orçamento do Estado, em vez de ir para os necessitados) 1,7% ,caiu-lhes em cima como uma saraivada em pleno Verão! Um presente de Macron…

Com os salários bloqueados desde há anos, uma perda de poder de compra evidente, um presidente arrogante às ordens do MEDEF, o sindicato dos patrões, que lhe deu um plano de ataque das conquistas sociais adquiridas de alta luta, sindicatos reduzidos ao silêncio assim como os partidos, os "maires" e as associaçoes,os franceses disseram BASTA. Só eles é que podem mudar as coisas. Na rua, porque a Assembleia Nacional perdeu a voz.
E Macron, oferece 100 euros para resolver o problema. E que começou hoje mesmo a reduzir, “détricoter” ( desfazer o tricot), Mas não tocou no ISF (Imposto sobre a Fortuna) , 4 mil milhões, que ofereceu aos ricos no inicio do mandato/ Era urgente !!! Nem nos 40 mil milhões oferecidos às empresas, para investir e criar empregos;;; Não criaram nenhum! O dinheiro voou para os Paraísos Fiscais !!!

E porque não uma nova forma de democracia, na qual o povo dá a sua opinião, no meio do mandato, em vez de esperar 5 anos para o cinema habitual?

A mudança decisiva quase sempre começa com a coragem das pessoas que decidem recuperar o controle de seus destinos, apesar das adversidades. Não há outra saída. Acção directa. Desobediência civil. É infalível. E não são os vândalos habituais dos desafios do PSG que vão impedir os Gilets Jaunes com cabelos brancos de pôr o problema na mesa.

Gostava de saber se o Senhor Luís Lavoura considerou, que os gaulistas que desceram os Champs Elysées – 1 milhão – em 1968, foram os instigadores da partida do General de Gaulle do poder, porque alguns “casseurs” aproveitaram a oportunidade na época para vandalizar.

O Senhor Luís Lavoura , que viveu nos EUA algum tempo, poderia dizer se a Marcha sobre Washington, de Martin Luther King, perfeito acto de desobediência civil ,foi a obra de “instigadores" que lutavam pelos seus direitos cívicos e assassinaram Kennedy.
“I Have a Dream”…

Joaquim de Freitas disse...

Juste un complément publié aujourd'hui, MAS QUE SE SABIA ...

« IL Y A LA VOLONTÉ QUE LES COLLÈGUES SE LÂCHENT »
Vendredi,Décembre,2018

Le mouvement des gilets jaunes ébranle les forces de police. Certains fonctionnaires, comme Martin, CRS, ont décidé de se mettre en arrêt maladie pour ne plus se sentir du mauvais côté de la barricade.

Et ce n’est pas la prime promise par Emmanuel Macron qui suffira à apaiser les tensions. « Tous les collègues auxquels j’en ai parlé se sont sentis insultés. On l’a ressenti comme si c’était un susucre qu’on nous donnait pour qu’on ferme notre gueule et qu’on aille faire le sale boulot », lâche-t-il. D’après lui, le mouvement des gilets jaunes a fait naître des débats inédits dans sa compagnie.

Concernant le revirement annoncé dans la stratégie de maintien de l’ordre mise en place par la préfecture de police de Paris – d’un dispositif plus statique samedi dernier à celui prévu comme plus mobile et offensif pour ce samedi –, Martin estime qu’il s’agit là d’une « décision politique habituelle ». « C’est ce qui a été fait lors des dernières manifestations contre la loi travail ou le 1er Mai : on nous donne l’ordre de laisser casser pour que le mouvement devienne impopulaire, et la fois d’après on y va fort parce que l’opinion publique attend une réaction de répression policière. »