domingo, 30 de dezembro de 2018

1968 - o mundo num ano


Publiquei no semanário “Visão” desta semana uma análise prospetiva sobre 2019, sob o título “Já não há anos calmos”, que pode ser lida mais abaixo.

Dei-me entretanto conta de que, há precisamente 50 anos, também em dezembro, mas de 1968, no semanário de Vila Real, “A Voz de Trás-os-Montes”, surgia um longo texto escrito por mim, intitulado “1968 - o Mundo num Ano”. 

Desde os meus 18 anos que aí escrevia textos sobre política internacional, mais tarde também sobre política interna, num permanente jogo de gato-e-rato com a Censura. A partir de 1971, não consegui que mais nenhum texto passasse no crivo do censor da cidade, o capitão Medeiros.

Tinha perdido de vista este meu (visto em perspetiva, bem ambicioso) artigo, que hoje revisitei. E que ano havia sido aquele de 1968! 

Ali estavam a chegada de Richard Nixon à Casa Branca, as mortes de Robert Kennedy e Luther King, o “Black Power” nas Olimpíadas do México (com a anterior repressão da revolta estudantil mexicana, com mais de uma centena de mortos), a colocação dos primeiros astronautas americanos em órbita, o estado dos conflitos no Vietnam e no Biafra, a revolta de maio em França e a saída de Pompidou (o articulista vaticinava “o ex-PM tem sérias hipóteses para a problemática substituição do General, que não deve vir longe” - e o futuro dar-lhe-ia razão), o fim da Primavera de Praga com a invasão soviética (“era o fim do sonho checoslovaco de abandonar o reino dos Brejnevs, Kosygins & afins, que preferiram desta vez mostrar ao mundo a face monolítica da sua “democracia popular”), a continuidade da crise grega depois do “golpe dos coronéis”, os golpes de Estado militares no Panamá, na Serra Leoa, no Iraque, no Perú e no Mali (sobre os quais escrevia, sentencioso, o jovem articulista: “Se os exércitos continuarem na sua senda de executores de golpes de Estado, deixarão de ter por fim garantir a paz externa e serão apenas simples perturbadores da ordem interna”). E também falei da Espanha (de Juan Carlos e das hipóteses de restauração monárquica), bastante sobre o Médio Oriente, da Rodésia sob domínio branco, das crises políticas internas no Reino Unido e em Itália, do “Mercado Comum” europeu, das tensões no Brasil, etc.

Com deliberada distância, como se estivesse a falar de um Estado distante, com as “pinças” necessárias à passagem na censura, o artigo atreve-se a abordar a situação do nosso próprio país: “Em Portugal - e após grave enfermidade do Prof. Salazar que, durante semanas, trouxe o país em intensa expectativa - sobe ao poder o Prof. Marcello Caetano, eminente jurista e antigo ministro, que procede a uma remodelação nos quadros administrativos, alargada à própria União Nacional, frente única de representação política. No entanto, é ponto assente nos objectivos do Governo a defesa intransigente das possessões do Ultramar, assegurando uma política de “continuidade com adaptação” “.

Eu tinha então 20 anos, uma escrita algo gongórica, muito tributária do que lia na imprensa francesa (o mundo anglo-saxónico só me chegaria mais tarde), marcada por alguma falsa ingenuidade, que rapidamente viria a abandonar.

Por muito narcisista que isto possa parecer, devo dizer que achei muita graça ao “ler-me”, meio século depois...

1 comentário:

Anónimo disse...

"No entanto, é ponto assente nos objectivos do Governo a defesa intransigente das possessões do Ultramar, assegurando uma política de “continuidade com adaptação”


Pois, de acordo com a vida em marcha, isto é, na sua marcha definida a custo pelo Marcelo, padrinho do actual, previa-se e fundamentadamente que ia seguir-se "uma política de “continuidade com adaptação”.
Contudo, o que fora posto em marcha muito antes com o Botas acumulara tão grande massa crítica e ganhara tal inércia que qualquer “continuidade com adaptação” já não faria mais parar o que estava em marcha oposta.
Aqui já não havia lugar para uma hipótese heraclitiana acerca da "harmonia dos contrários" e foi a explosão imprevisível, que muda tudo que está em marcha, de repente.
jose neves