domingo, 9 de dezembro de 2018

Heseltine


Quando cheguei a Londres, em julho de 1990, para servir na nossa embaixada, Margareth Thatcher atravessava já um tempo bastante complexo da sua governação. Os resultados económicos que tinham feito a sua glória revelavam-se menos sustentáveis, os trabalhistas recuperavam cada vez mais posições nas sondagens e, dentro do partido conservador, havia crescentes vozes que clamavam por uma mudança de liderança. 

Mas não era fácil alguém opor-se abertamente a uma personalidade com o carisma (e a história recente) de Thatcher. Na verdade, ninguém, dentre os “tories”, o fazia abertamente, surgindo essas reticências sob a forma de rejeição a algumas das suas escolhas para cargos de governo, tidas como demasiado concentradas num núcleo fechado de fiéis, ou a certas opções políticas mais discutíveis e cada vez mais discutidas.

Na sombra dos “tories”, mas já sem a menor influência, o antigo primeiro ministro Edward Heath dizia “cobras e lagartos” de Thatcher, proclamando uma fé europeia que, no governo, ia tendo apenas alguns moderados ecos em figuras como Kenneth Clark, Chris Patten, Garel-Jones e poucos mais. A Europa, porém, era um “diabo’ que, dentro do executivo, muitos outros continuavam a alimentar, com maioritário sucesso.

Uma prestigiada figura tinha vindo a criar, entretanto, pelo seu verbo e com um certo “panache”, a aura de poder vir a suceder à “dama de ferro” : Michael Heseltine. A sua ambição era visível, a sua qualidade política indiscutível, muitos meios empresariais sentiam-se por ele seduzidos. Porém, havia a difusa sensação de que, no grupo parlamentar conservador que Thatcher desenhara, as ambições de Heseltine nunca iriam conseguir encontrar apoios suficientes (a escolha dos líderes fazia-se exclusivamente aí), e que o seu proclamado europeísmo, claramente afastado do “mainstream” conservador, iria ser um inultrapassável óbice. Isso veio, de facto, a confirmar-se. Quando, um dia, os astros de conjugaram para pôr Thatcher “com dono”, o equilíbrio interno do partido acabou por inclinar-se para uma figura mais “cinzenta”, John Major, bem menos suscetível de ser visto como um “amigo” de Bruxelas.

Heseltine, feito entretanto Lorde, a prateleira dourada dos “has been”, saiu então de cena, sempre com os seus vistosos cabelos compridos ao vento. Por décadas, perdi-o de vista. Ontem, aos 85 anos, vi-o ressurgir das catacumbas políticas para lançar um vigoroso movimento público para um segundo referendo, afirmando, alto e bom som, que a juventude britânica nunca perdoará a esta geração política se, por estes tempos confusos, lhe tiver feito perder, pelo absurdo do Brexit, a ligação histórica ao projeto de progresso comum europeu.

Se Michael Heseltine pudesse vir a ganhar esta batalha, ela seria a sua grande e bela vitória póstuma, e bem merecida, sobre Margareth Thatcher.

1 comentário:

José Correia disse...

Francisco: já que não existem aqui comentários, aqui fica o meu....!
Fico a🗻aguardar convite, para almoçar e um esclarecimento sobre o 25 Abril 74?..!!dos algo pá !!!!
Deixa;