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quinta-feira, dezembro 06, 2018

O tempo dos Clinton


Em julho de 1999, teve lugar em Serajevo, na Bósnia-Herzegovina, a reunião de lançamento do Pacto de Estabilidade para o Sudeste Europeu. Com a generalidade das delegações instaladas, o presidente finlandês, Martti Ahtisaari, que dirigia a sessão, iniciou o seu discurso de introdução. Não tinha passado um minuto quando observei que muitas caras desviavam a atenção em Ahtisaari e olhavam para o outro lado da sala. Era Bill Clinton que, sorridente, em passo lento, fazia a sua entrada em cena, aproximando-se do lugar dos EUA, na imensa mesa quadrada. Pelo caminho, foi-se entretendo a parar junto de alguns dentre os 50 presidentes e chefes de governos, saudando-os, deixando a alguns uma breve palavra e, com a acumulação desses gestos, provocou um movimento de imparável agitação, que concentrou as atenções coletivas. A face de Ahtisaari mostrava um compreensível desagrado com a estudada coreografia de Clinton, a ponto de se ver obrigado a suspender o seu discurso, até que o presidente americano finalmente sossegasse na sua cadeira. Por estar bem perto, recordo que o presidente francês, Jacques Chirac, furioso, rumorava onomatopeias de óbvio incómodo pelo comportamento de alguém que, habilmente, roubara a cena aos poderes europeus presentes. 

Passaram entetanto 13 anos. Estava-se também no mês de julho. Em Paris, teve lugar a reunião dos "Amigos do Povo Sírio", num tempo ainda de esperança na travagem da guerra que viria a devastar aquele país. François Hollande, que presidia à reunião, iniciara já o seu discurso, de um podium, perante as delegações de 102 países. De súbito, notei que muito olhares divergiam para a entrada na sala. Uma figura, com estudado atraso e passo lento, aproximava-se do lugar que lhe competia, com um esgar feito sorriso que lhe é muito próprio. Na sala, só Hollande e essa pessoa estavam de pé, o que tornava tudo mais notório. O discurso do presidente francês não foi interrompido, mas a entrada da chefe da diplomacia americana, Hillary Clinton, não passou despercebida a ninguém. Estava marcado o ponto.

No teatro do poder, o tempo conta muito.

Entrevista ao "Público" e à Rádio Renascença

  Ver aqui:  https://vimeo.com/1159303777  ou aqui  https://rr.pt/noticia/amp/hora-da-verdade/2026/01/29/seixas-da-costa-portugal-teve-posic...