quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

O descrédito da Europa


Há dias, o sorriso impotente de Mário Centeno, no fim da reunião do Eurogrupo, era, em si mesmo, o retrato dos dias desta Europa. Não há consenso para a fixação de modelos comuns para a governação do euro, o mesmo é dizer que, perante a eventual emergência de uma crise económico-financeira, a Europa irá, uma vez mais, correr atrás dos acontecimentos. Nessa altura, como há dez anos, será um “salve-se quem puder”, com a assimetria de efeitos a fazer com que alguns não possam, de novo, escapar a situações dramáticas. Depois, com a solidariedade pelas ruas da amargura, a vontade de ajudar os outros irá variar na razão direta das vantagens que cada país disso retire, seja nos juros dos empréstimos, seja no isolamento do caráter tóxico dos problemas dos vizinhos.

Como chegámos aqui? Pela democracia. Pela democracia? Claro. A Europa é constituída por Estados cujos governos, até ver sem qualquer exceção, dependem da vontade popular e, cada vez mais, os cidadãos de cada país olham para o seu interesse nacional direto. E imediato. Os políticos são escolhidos por terem apresentado respostas, tidas por plausíveis, para as preocupações dos seus concidadãos. Mas não foi sempre assim? Foi. Só que, no passado europeu recente, a generalidade dos governos comungava de um discurso que, com maior ou menor eficácia, convencia os seus cidadãos de que, para além das suas fronteiras constitucionais, existia uma realidade institucional cuja eficácia funcional teria sempre efeitos positivos sobre a vida do conjunto dos países que haviam aderido a esse projeto integrador. 

Havia, claro, quem duvidasse dessa narrativa: eram os eurocéticos, uma espécie estranha, por muito tempo minoritária, vista como retrógrada, alheia ao “patriotismo europeu” que era o politicamente correto vigente - assente na demonstração de que a Europa consolidara a paz (importante para gerações sob o trauma das guerras) e trouxera desenvolvimento (olhem-se fotografias do continente, nos anos 50).

A Europa trouxe, de facto, a paz e o desenvolvimento - desigual mas real. Mas o continente, ao auto-contentar-se com o seu bem-estar, não se deu conta de que perdeu as armas competitivas para sustentá-lo no futuro. E o futuro não é dos que tiveram a memória da guerra real ou da Guerra Fria, é dos que, no dia de hoje, pretendem viver bem e dão as vantagens do passado como adquiridas. Esta Europa, pelo que veem no rosto de Centeno, não lhes traz as soluções. (Mas não se fala por aqui do Brexit, de Macron? Foi mesmo disso que falei).

4 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

A União Europeia dá a sensação de um navio à deriva, enquanto os agora 27 países-membros não se entendem acerca dos grandes problemas que os afligem: imigração e economia.

Admirei-me que estivessem todos de acordo para as condições impostas aos britânicos para o Brexit ..

Mas os governantes europeus não têm pontos em comum que lhes permitirá relançar a UE depois do Brexit.

Mas nada parece mais corrosivo para a coesão do bloco do que a formação de uma espécie de facção por quatro países do Leste Europeu: Polónia, Hungria, República Checa e Eslováquia.

Este grupo tinha divulgado um comunicado vinculando o problema da imigração ao da segurança: Os recentes ataques terroristas na Europa ( e ontem ainda em Estrasburgo) , são prova de que há um novo desafio com o qual a UE precisa lidar , o crescente terrorismo e o crime transfronteiriço.

Para enfrentar todos esses desafios, a Europa precisaria contar com o tipo de liderança que Merkel tem exercido. O principal motivo das derrotas eleitorais de Merkel é o mesmo das pressões exercidas no interior da UE: a avalanche de refugiados.

E creio que Macron caiu na rasteira dos “GiletsJaunes”, que o impedirão de substituir Merckel . Perdeu a sua imagem na repressão da sua polícia nas cidades e vilas de França.

Somadas às incertezas económicas da própria Europa, são variáveis demais para deixar qualquer um tranquilo.

Quanto à democracia, Senhor Embaixador, recordo as suas palavras num texto interessante de 2011, sobre este tema “A democracia e a Europa” no qual escrevia:” Ontem, um velho e avisado amigo francês comentava comigo o facto de apenas cinco dos 17 membros da zona euro terem, até ao momento, ratificado o programa de ajuda à Grécia aprovado no dia 21 de Julho - faz hoje precisamente dois meses! A maioria desses Estados argumenta com a lentidão dos processos decisórios internos, isto é, com a necessidade de serem respeitados os procedimentos democráticos de cada país.

Com um ar irónico, atrás do qual se escondia uma premonição lúgubre, esse meu amigo concluía: "Quem havia de dizer que haveria de ser a democracia a acabar com a Europa". Sem, por ora, partilhar necessariamente a funesta previsão subjacente ao raciocínio, não me contive e acrescentei: "Tendo a democracia nascido na Grécia..."

Para mim, estas palavras continuam de actualidade.

aamgvieira disse...

Na sequência seu texto, outor qu complementa o seu:In "Blafémias blog", CristinaMiranda.

Os partidos e líderes novos entenderem a mensagem da maioria silenciosa que desesperadamente procurava identificar-se com um projecto político que os resgatasse destas políticas socialistas/marxistas/globalistas. Responderam prometendo colocar os interesses dos cidadãos e do país acima de tudo, devolvendo segurança, melhorando economia, baixando impostos, acabando com as ideologias desconstrutivas da sociedade, protegendo a cultura e valores ocidentais. E a reviravolta não se fez esperar.

Anda tudo farto e sem paciência para políticos “choninhas”, completamente submissos aos Soros, aos Bildebergs e Rockefellers, às imposições duvidosas de pactos migratórios da ONU que defendem perda de soberania dos países da UE em prol dos direitos (pouco) humanos, para preparar um futuro governo mundial global. Tudo decidido nas costas dos cidadãos sem serem consultados sobre as questões que lhes alteram profundamente a qualidade de vida. Fartos! Fartos! Fartos!

Nenhum político globalista saiu da sua zona de conforto onde vivem protegidos por muros e segurança privada, para ver no terreno as “maravilhas apoteóticas” da aplicação prática das suas políticas progressistas. Nenhum se dignou em percorrer os países que já experimentam na pele essa “fantástica” integração cultural. Nenhum político passou sequer uma noite nos guetos ou tomou lá café com sua esposa e filhos. Nenhum se passeou pelos mercados de Natal agora designados por mercados de Outubro com árvores de betão a servir de barreiras – não vá um camião maluco lembrar-se de acelerar sozinho contra a multidão – ou pelas escolas que já não festejam a época natalícia com actividades ou símbolos de Natal. Nenhum foi falar com mulheres vítimas de estupro colectivo ou crianças vítimas de bullying na escola por serem loiras de olhos azuis.

Anónimo disse...

Um eleitorado que dá acriticamente maiorias a um discurso oportunisticamente muito politicamente correcto, perante a crua realidade dos factos tarde ou cedo até poderá dar por isso, que tal discurso é só a música que queriam ouvir ....

Luís Lavoura disse...

Como chegámos aqui? Pela democracia.

O Francisco mostra aqui, de forma mais explícita do que anteriormente, que no fundo não é um democrata.

Quer dizer, o Francisco é como aqueles neoliberais que são a favor de uma democracia representativa meramente formal, na qual os governantes são eleitos mas levam a cabo políticas que nada têm a ver com a vontade do povo, o qual não é tido nem achado nessas políticas. As políticas são sempre as mesmas, quem as executa é que pode ser escolhido pelo povo.