segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Notas soltas


1. A cada dia que passa, gosto mais da nova ministra da Saúde. Tem pensamento político para o setor, sabe o que quer, di-lo com frontalidade (no entanto, às vezes, com palavras menos cuidadas). Ah! E um ministro tem todo o direito de só adotar o que entender de um estudo que foi encomendado a outrém.

2. Os partidos políticos não sentem um pingo de vergonha ao ouvirem deputados seus em comentários televisivos sectários sobre futebol? Não percebem que os seus potenciais votantes olham para essa gente como alguém que, já que é capaz de estar a mentir sobre um penalti, pode estar a mentir sobre tudo?

3. O DN anuncia que podemos comprar um facsimile da primeira página que publicou no dia em que nascemos. Ainda pensei comprar, mas, depois, refleti: a mim, o que me interessa é a do dia seguinte, porque é a que, na capa, traz essa importante notícia...

4. Face à especulação política - e nisso incluo certa “imprensa” - já criada em torno do acidente do INEM, quase fica a ideia de que foi esta a primeira vez que, no mundo, caiu um helicóptero de socorro. Uma coisa é investigar com serenidade, outra coisa é ser abutre da tragédia.

5. Há dias em que percebemos que a idade passa rápido: dei-me conta de que ainda sou do tempo em que Daniel Ortega lutava pela liberdade na Nicarágua. Agora, a Nicarágua luta para se libertar dele.

6. Convém ter alguma compreensão pela nervoseira (e, vá lá!, por alguma raiva) que atravessa certa rapaziada. O Marcelo saiu-lhe o que saiu, o Rio é o que é: acham que eles têm alguma razão para andar satisfeitos? E alguns ainda se arriscam a que, daqui a dias, lhes saia a fava no bolo-rei...

7. Gosto da sabedoria da fórmula de Martin Wolf, no FT, sobre as opções do Brexit: "None of these options looks better than highly improbable. As Sherlock Holmes said, once you eliminate the impossible, whatever remains, no matter how improbable, must be the truth".

8. Hoje colocou-se-me um magno problema semântico: não será de aplicar as regras da igualdade de género à velha fórmula “exploração do homem pelo homem”? Não estaremos, uma vez mais, num caso evidente de machismo-leninismo?

9. E, a propósito, teve graça ouvir o ministro do Interior francês dizer, em conferência de imprensa, de forma politicamente correta, “les manifestantes et les manifestants”. Mas, estranhamente, não cuidou em falar em “les agitatrices et les agitateurs”. É que ou há moralidade...

10. Há coisas que não rimam com minha aberta simpatia por este governo: acho francamente legítimo que a utilização excessiva do sistema das cativações seja lida como uma óbvia falta respeito pela vontade parlamentar que aprova, por lei, os OGE. Os meus amigos do PS vão ficar furiosos com isto? Paciência!

11. Há dias que me reconciliam com a grande imprensa. É reconfortante olhar um jornal e ler um título bem construido: “Assassino da banheira separou-se da amante”. Assim, simples, preciso.

12. Rui Rio foi honesto e frontal nas declarações qyue fez sobre o corporativismo existente na Justiça. Que nunca as mãos lhe doam! E honra lhe seja! Mas, a falar assim, talvez não chegue nunca ao poder. O PS tremeu logo e mostrou que receia abrir mais uma frente se apoiar o líder do PSD. Talvez ache que assim será mais fácil manter-se no poder.

13. A mais lamentável revelação de arrogância de um político é a afirmação de que aquilo que falhou foi a “comunicação”, isto é, que as políticas estavam certas e que o problema esteve no modo de as transmitir. Ou seja, não é preciso mudar as políticas, só explicá-las melhor. Estou farto de gente que pensa (pensa mesmo?) assim.

14. Eu não sou de intrigas, mas esta do “crowdfunding” para a greve dos enfermeiros cheira-me muito, mas mesmo muito, a esturro. Em teoria, está descoberta uma maneira de fazer financiamento político-sindical sem controlo, à luz de um conceito modernaço. Não há ninguém na PGR que pense nisto ou estão a pensar arranjar mecenato para a anunciada greve do Ministério Público?

15. Na minha rua, quase à porta de casa, houve, há dias, um acidente com um elétrico. Até o presidente da República tive aqui pela porta, de visita ao desastre. Felizmente, as consequências não foram tão graves como, à primeira vista, se supôs. Estranhei muito não ver ninguém lembrar que os elétricos de Lisboa são um meio de transporte bastante seguro, com uma taxa de acidentes muito baixa.

16. Cada vez mais adoro a expressão “cultura de balneário” aplicada à “filosofia” coletiva de um grupo de matulões, em trajes menores, que se exprime, muitas vezes, tendo como único léxico apresentável os textos dos jornais desportivos que os "aculturam".

17. O “fact-checking” surgiu na imprensa para tentar separar o trigo do jóio, a mentira da verdade. Mas isso pressupõe que quem escrutina o faça de forma isenta. Acabo de ler, num jornal informático que anda para aí a observar, um “fact-checking’ fortemente enviesado, bem ideológico. É o que se pode chamar um “fake-checking”.

18. A grande virtualidade de uma lista de pontos com esta dimensão é que só por milagre é que alguém concordará com todos os eles, o que torna um “like” geral bastante difícil. E alguns desses “likes” só surgirão mesmo por simpatia (que desde já agradeço), talvez porque muita gente não vai ler o post até ao fim. (E deixei esta provocação cá bem no fundo da lista apenas para os testar).

19. Tenham uma boa semana. O Natal está aí à bica, até porque já não é quando um homem quiser. A igualdade de género não admite isso...

12 comentários:

Luís Lavoura disse...

Os partidos políticos não sentem um pingo de vergonha ao ouvirem deputados seus em comentários televisivos sectários sobre futebol? Não percebem que os seus potenciais votantes olham para essa gente como alguém que, já que é capaz de estar a mentir sobre um penalti, pode estar a mentir sobre tudo?

Tem bastante razão. Agora, eu só conheço um exemplo daquilo que diz: Telmo Correia, deputado do CDS, a defender o Benfica no programa "Grandes Adeptos" da Antena 1. Que mais exemplos tem o Franscisco da mesma prática?

Luís Lavoura disse...

Assassino da banheira separou-se da amante

Um homem assassinou uma banheira?!

Luís Lavoura disse...

a utilização excessiva do sistema das cativações

Há utilização excessiva? Como sabe? Porque é que é excessiva?

Essa utilização excessiva é original neste governo? Ou já havia em governos anteriores?

Anónimo disse...

As semanas não se têm, passam-se.

Passe V.Exa uma boa semana, portanto.

Anónimo disse...

Lido.

Despacho:

Informação densa de mais.
Quando se passa de um ponto para o outro não se tem tempo de digerir o conteudo do outro.

Sem deferimento.

[ Isto anda tudo tão mal que já não se sabe, no pensamento de quem escreve, o que é o necessário e o fútil.]

Anónimo disse...

Eu li até ao fim e desejo-lhe um óptimo Natal, caro Francisco.

Com um abraço do

JPGarcia

Fernando Correia de Oliveira disse...

O DN fazia isso na Expo 98. Mas o interessante é ter o jornal do dia seguinte ao do nascimento, não apenas porque poderá incluir essa importante notícia, como também porque será a única maneira de ter ideia do que foi importante no dia em que nascemos - nessa época, para muitos, só no dia seguinte se sabia o que se tinha passado na véspera.

Anónimo disse...

Anónimo e 17 de dezembro às 10.55,

Espero, que, já lhe tenham passado muitos anos.

Anónimo disse...

No ponto 6, a propósito de Marcelo. Já se "rosna" à Direita, que a ex-pGR, J.Marques Vidal, poderá vir a ser a candidata dessa mesma Direita (PSD/CDS). Será' Enfim, futurismo, se calhar. Estaremos atentos. Seria uma espécie de "remake" de tempos idos, quando a Direita (e o PS) apoiaram Ramalho Eanes à 1ª volta e na segunda a Direita foi buscar o General Soares Carneiro, ultra-conservador, mas Eanes ganhou a mesm

Anónimo disse...

"17 de dezembro de 2018 às 15:47", de facto PASSARAM muitos anos desde que nasci. Daí eu TER muitos anos.

Percebe?!

Francisco de Sousa Rodrigues disse...

Subscrevo tudo! Porei gosto no Facebook com toda a convicção.
E gosto deste estilo notas soltas em boa quantidade.
Boas Festas!

Anónimo disse...

Os valores do crowdfunding da greve dos enfermeiros deviam ser investigados. Embora o financiamento privado de greves não seja novo, o meio utilizado presta-se a muita opacidade. Sendo muito dinheiro, é pouco para certas corporações, organizações políticas ou religiosas, e até para certas empresas e mesmo indivíduos. Recordo os tempos da Dama de Ferro e a greve dos mineiros, e os concertos e eventos solidários, e donativos bastante claros de gente bastante pública. Tudo muito às claras.