sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

O ano que passámos


Os “balanços” passaram de moda. Olha-se agora menos para o passado e mais para o que aí vem. Arriscarei sintetizar o modo como, nos últimos 12 meses, se comportaram aqueles que mais influenciam os equilíbrios globais.

A maior potência mundial, os Estados Unidos, dirigida por um líder atípico (e isto é um “understatment”), confirmou, em 2018, que o seu tropismo nacionalista, protecionista e subversor do ordenamento global, de que havia sido o principal mentor, está para durar. Trump agravou distâncias com os europeus com pretextos económicos, desligou-se do acordo com eles estabelecido para o controlo nuclear do Irão, introduzindo, na passada, novos fatores de tensão no Médio Oriente. Manteve o desprezo pelo sistema multilateral, nomeadamente na vital questão climática. Apanhou o mundo de surpresa, ao encontrar-se com o ditador norte-coreano, conseguindo aí uma singular trégua, na espiral de perigosas provocações que dele emergiam. Menos claras continuam a ser as suas relações com a Rússia: tanto mostrou uma quase subserviência face a Putin como, mais tarde, o vimos reforçar as sanções a Moscovo, no caso do antigo espião russo envenenado no Reino Unido. E, num jogo de sombras que só o futuro permitirá entender, EUA e Rússia parecem discretamente confortáveis em manter Assad no poder. 

A China surge ainda num segundo lugar na lista das prioridades globais. Entre picos de tensão e tréguas comerciais, está claro que ela é o adversário em cujo crescimento e projeção os EUA vão atentar. A Rússia pode constituir um problema para América, pelo potencial desestabilizador no seu “near abroad”, mas o qualificativo de “poder regional”, que Obama lhe deu, tem hoje todo o sentido. Assim, a atenção americana centra-se, na ordem externa, na ameaça chinesa, da economia à segurança. Mas é evidente que muito está para vir: é que, para concretizar as suas ambições globais, Beijing terá de voltar a dar um “grande salto em frente” de influência político-diplomática que, com certeza, não será recebido de braços abertos pelos restantes “major players”.

Em 2018, a União Europeia mostrou avanços e recuos na afirmação da sua vontade política coletiva. O espetro do Brexit foi, claramente, o pano de fundo e de teste da capacidade de agregação dos “vinte e sete”. A unidade conseguida face a Londres foi uma boa surpresa. A negociação com os britânicos está a correr tão bem como qualquer divórcio contencioso pode correr. Mas, se o Brexit se concluir sem acordo, os impactos devem ser muito consideráveis. Menos conseguidos são os passos para a consensualização de medidas para o reforço da governabilidade do euro: sérias diferenças permanecem, numa divisão entre Estados que parecem dificilmente ultrapassável. A Europa, para além de tudo isso, dá mostras de alguma tibieza ética, ao não ter coragem para se opor às derivas anti-democráticas e xenófobas de alguns dos seus Estados. A sua autoridade moral à escala global sairá forçosamente ferida desta ominosa omissão.

O mundo que entra em 2019 acarreta também consigo esse fantástico universo de oportunidades e riscos que é a globalização tecnológica, com impactos na circulação da informação e na qualidade da democracia que só agora começam a ser avaliados. O mundo está perigoso? Sejamos realistas: quase sempre esteve.

7 comentários:

Anónimo disse...

Pois quase sempre esteve, mas quem tem mais de 40 anos conheceu o breve período em que, globalmente, não foi perigosa
Fernando Neves

Anónimo disse...

Pois quase sempre esteve, mas quem tem mais de 40 anos conheceu o breve período em que, globalmente, não foi perigosa
Fernando Neves

Joaquim de Freitas disse...

Permita, Senhor Embaixador, que comece o meu comentário ao seu excelente texto, pelo fim onde escreve : « “riscos que é a globalização tecnológica, com impactos na circulação da informação e na qualidade da democracia que só agora começam a ser avaliados. O mundo está perigoso? Sejamos realistas: quase sempre esteve. »

Acabava de ver na televisão a « finta » dos Gilets Jaunes » à policia de Macron, hoje, em Paris, que os esperava no Château de Vesailles, mas que, graças ao Facebok clandestino, apareceram em Monmartre, porque com a escadaria os blindados não podem passar e os CRS têm mais dificuldades a mover-se.

Em Versalhes, fechado aos turistas, não haviam GJ e turistas também não! E tudo isso graças a essa tal globalização tecnológica do seu texto acima.

Finalmente, foi uma vez mais nos Campos Elísios que os mesmos se ultrapassaram na violência.

Uma nota quase cómica, quando os GJ desceram de Montmartre ao passar Boulevard Haussmann, em frente dos Grandes Armazéns, onde um grupo de turistas japoneses baixaram o polegar e gritaram em coro com os GJ “Macron démission” … Tive vontade de gritar “ Carlos Goshn “libertação..” Mas talvez não tivessem compreendido o que diziam!

Gostei quando escreve: “Os “balanços” passaram de moda. Olha-se agora menos para o passado e mais para o que aí vem.” Os “balanços” passaram de moda. Olha-se agora menos para o passado e mais para o que aí vem. “

E tem razão! E o que ai vem, entre a demissão de Teresa May e a demissão de Trump dentro de algumas semanas ( sim sim ) 2019 vai começar “fortíssimo”…

Macron partirá mais tarde…quando tiver completamente baixado o pantalon”..

Neste ano de 2018, confirmei as minhas convicções ao ver o espectáculo que o mundo nos ofereceu.

Nunca esquecerei as palavras dum poeta: “""Neste mundo, eu sou e estarei sempre do lado dos pobres. Eu estarei sempre do lado daqueles que não têm nada e a quem nós recusamos até a tranquilidade deste nada. "
Federico Garcia Lorca

Porque se a violência parece coisa grosseira do lado dos trabalhadores, o empregador não precisa de exercer uma acção violenta de gestos desordenados. Na intimidade de um Conselho de administração a violência também se decide. Quando a guilhotina dos despedimentos e das deslocalizações cai sobre a vida de centenas de milhares de humanos.
Os Japoneses nunca perdoaram os 120 OOO despedimentos na Nissan, operados pelo génio” do “cost-killer” Carlos Goshn. Que agora dorme no “tatami” de Tóquio.

Ah, Senhor Embaixador se tivesse visto, como eu, várias vezes, aquela magnifica fábrica de Murayama “example of Japan's auto-making prowess.” Como eles diziam, com justa razão… Agora um cadáver…industrial. Mas a rentabilidade do Grupo melhorou. Os dividendos rea o objectivo.

A queda e morte do Imperador da Industria Automóvel Mundial, Carlos Goshn foi um dos acontecimentos do ano 2018.

Joaquim de Freitas disse...

SUITE:
A Síria em 2018. Os americanos fogem da Síria, deixando os franceses sem protecção aérea em caso de problema… E os americanos abandonam os Curdos a Erdogan .Veremos dramas humanitàrios terriveis em 2019, para este povo, sacrificado desde sempre.

Muito bem feito para Macron, que enviou três fragatas Mistral (promoção de produtos novos do catálogo), disparar alguns mísseis (que, quais petardos molhados, nem explodiram,) sobre um barracão vazio, com a autorização de Putine, para fazer impressão a Trump, que enviou 76, que explodiram, parece, não importa onde, enquanto saboreava o seu pastel de chocolate… Quem diria há um ano que finalmente Bachar Assad não é assim tão mau como diziam…os Ocidentais!

Deixo o melhor para o fim.

Como o nosso fim de ano redesenhado em amarelo apareceu bonito para todos aqueles que desesperam desde há muito do avanço inexorável do cilindro compressor da economia neoliberal e a sua produção de desigualdades incessantemente mais flagrantes!

Por quase quatro décadas, ao capricho das alternâncias factícias, assistimos impotentes à deterioração da qualidade dos serviços públicos e da sua distribuição territorial, ao recuo do interesse geral em favor de "maiores" interesses categoriais superiores, à promoção da riqueza obtida pela exploração do capital à custa de recursos derivados da exploração da força de trabalho, à venda de empresas públicas, o bem comum da Nação, a "actores económicos privados", ao enfraquecimento da protecção social solidária e o reforço concomitante do seguro privado desigual, à contenção enganosa do desemprego pela rápida progressão do emprego precário, a impotência organizada das autoridades públicas face aos perigos da crise ecológica, a recusa sistemática de lutar eficazmente contra a crescente evasão fiscal, etc.

A lista é longa dos avatares deste modo particular do governo da sociedade que cada vez mais enriquece uma minoria de ricos, empobrece a classe média, deixa uma parcela crescente da população na parte inferior da escada social.

Repentinamente, os "coletes amarelos" entraram em cena. Todo o mundo na política e nos média ficou surpreendido e não devia se um mínimo de vigilância tivesse sido posta na vida real. Porque se trata duma insurreição, e não apenas dum movimento social.

Uma insurreição alimentada por três fontes: injustiça fiscal, injustiça territorial, desrespeito das "elites" para "aqueles que não são nada". Aqueles de 800 euros por mês, às vezes menos, reformados e activos.

Ver neste vasto movimento apenas o mau humor de alguns automobilistas é de má fé.

O que é levantado pelo movimento dos "Coletes Amarelos" é que a democracia com a qual nós nos gargarejamos só aproveita a alguns e não a todos.

Cristina Matos disse...


Sempre oportuno, Joaquim Freitas !

Boas Festas.

João Pedro

Luís Lavoura disse...

EUA e Rússia parecem discretamente confortáveis em manter Assad no poder

O ponto é que não compete nem aos EUA nem à Rússia nem a qualquer outro país (exceto à própria Síria) manter Assad no poder ou derrubá-lo.

Isso somente compete ao povo sírio.

EUA e Rússia têm apenas que respeitar o poder que há na Síria. Não têm nem que mantê-lo nem que alterá-lo.

Joaquim de Freitas disse...

O ponto é que os EUA , um intruso, nunca convidado mas que se impuseram, aceitam finalmente que Assad fique no poder, porque não podem impedi-lo. Mas não é por que lhe agrade! Porque na realidade fizeram tudo o que puderam para o fazer cair ou partir.

A França, o outro intruso que também não tem nada a fazer na Síria, excepto de sonhar das doces recordações do tempo do protectorado, já recebeu o aviso de Erdogan, que deve preparar as malas e partir. Porque Erdogan não suporta o YPK, curdo, aliado dos EUA e da França, como também não suporta o PKK, curdo, que lhe faz cócegas na Turquia.

Imaginemos que um soldado francês seja ferido, os americanos não estarão lá para o recolher e evacuar com os seus helicópteros… A França só tem canhões…O melhor é de regressar a casa!

E no fim de todo este cenário trágico, que já custou o posto ao Secretàrio da Defesa dos Estados Unidos, o general Mattis, o “Cão Raivoso”, como lhe chamam nos States, em perfeito desacordo com Trump, por ter decidido partir da Síria sem avisar os amigos e aliados, como se este outro Cão Raivoso, tivesse respeito por alguém neste mundo…

A principal vítima de tudo isto será o pobre Povo Curdo, que vai ter de afrontar Erdogan, sozinho! Um genocídio , mais outro, prepara-se no Médio Oriente.

Putine, ele, bebe neste momento aquilo que chamamos em França, “du petit lait” …(Não conheço o nome em Português).