quinta-feira, janeiro 20, 2011

Linguagem diplomática

Uma amiga francesa, professora universitária de medicina, teve um encontro no "Quai d'Orsay" - como, simplificadamente, aqui se identifica o ministério "dos Estrangeiros" da França. Tratava-se de constituir uma delegação a uma certa reunião internacional. A certo passo, ficou chocada quando verificou que a delegação iria ter duas componentes: a diplomática e a técnica, tendo sido incluída nesta ultima. Para ela, era quase ofensivo ver-se qualificada como "técnica". "De início, pensei que o conceito se aplicava às secretárias, aos motoristas ou, no máximo aos especialistas de informática", disse-me.

Perguntou-me se, em Portugal, procedíamos da mesma forma. Confirmei-lhe que sim e, devo confessar, inicialmente eu próprio fiquei surpreendido com a questão que me colocava, com a surpresa dela. Depois, pensando um pouco melhor, refleti que esta dualidade, tida entre nós como natural, pode por alguns ser lida numa perspetiva descriminatória.

A propósito, lembrei-me de que, um dia, disse a alguém que, no MNE, aguardávamos uma resposta dos "ministérios sectoriais" a uma determinada questão. "Dos ministérios quê?" - retorquiu o meu interlocutor. "Sectoriais", sublinhei eu, com toda a naturalidade. "Essa agora! Então e o MNE não é sectorial? O que é? É global?". De facto... 

Há vícios corporativos que é difícil de perder. "Liturgias da casa", como dizia um velho embaixador.

6 comentários:

  1. Anónimo07:48

    "Há vícios corporativos"
    "Liturgias da casa",in FSC (2011)

    Que convenhamos geram suscetibilidades em pessoas suscetiveis a preciosismos de linguagem...

    A Boa noticia é a perspicácia de quem as deteta, já a dimensão agradável reveladora...É o sorriso complacente que suscita...
    Hum! Que bom
    Isabel Seixas

    Lisboa não perde a beleza Em janeiro, Está Linda... De viver Claro.

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  2. Anónimo14:06

    Falta um toque de modernidade para o lado das Necessidades (até rima!), que só aumenta a burocracia.

    Isabel BP

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  3. Cara Isabel BP: uma coisa não implica necessariamente a outra. Com o tempo, fui-me dando conta que certo tipo de formalismo, aparentemente deslocado no tempo, acaba por ser o subliminar cimento de certas instituições e, se bem gerido, não afeta necessariamente a funcionalidade das mesmas.

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  4. "...Com o tempo, fui-me dando conta que certo tipo de formalismo, aparentemente deslocado no tempo, acaba por ser o subliminar cimento de certas instituições e, se bem gerido, não afeta necessariamente a funcionalidade das mesmas".
    Estou tão de acordo consigo, que até acho que a filosofia também se aplica à instituição do casamento!
    Um pouco de "cerimónia" nunca fez mal a ninguém. Pelo contrário, evita a intimidade excessiva que desgasta e acentua um certo mistério, que alimenta as relações!

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  5. Anónimo01:28

    "Certo tipo de formalismo"
    In FSC(2011)

    Prescrição diplomática...

    "Evita a intimidade excessiva"
    HSC(2011)

    Faz sentido...
    Doutos.

    Isabel Seixas

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  6. Anónimo13:21

    Estimado Senhor Embaixador,

    Referia-me mais à parte funcional (nomeadamente a descentralização) porque também concordo que o formalismo é essencial para a vitalidade das insitituições.

    Isabel BP

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