Uma amiga francesa, professora universitária de medicina, teve um encontro no "Quai d'Orsay" - como, simplificadamente, aqui se identifica o ministério "dos Estrangeiros" da França. Tratava-se de constituir uma delegação a uma certa reunião internacional. A certo passo, ficou chocada quando verificou que a delegação iria ter duas componentes: a diplomática e a técnica, tendo sido incluída nesta ultima. Para ela, era quase ofensivo ver-se qualificada como "técnica". "De início, pensei que o conceito se aplicava às secretárias, aos motoristas ou, no máximo aos especialistas de informática", disse-me.
Perguntou-me se, em Portugal, procedíamos da mesma forma. Confirmei-lhe que sim e, devo confessar, inicialmente eu próprio fiquei surpreendido com a questão que me colocava, com a surpresa dela. Depois, pensando um pouco melhor, refleti que esta dualidade, tida entre nós como natural, pode por alguns ser lida numa perspetiva descriminatória.
A propósito, lembrei-me de que, um dia, disse a alguém que, no MNE, aguardávamos uma resposta dos "ministérios sectoriais" a uma determinada questão. "Dos ministérios quê?" - retorquiu o meu interlocutor. "Sectoriais", sublinhei eu, com toda a naturalidade. "Essa agora! Então e o MNE não é sectorial? O que é? É global?". De facto...
Há vícios corporativos que é difícil de perder. "Liturgias da casa", como dizia um velho embaixador.
Há vícios corporativos que é difícil de perder. "Liturgias da casa", como dizia um velho embaixador.