domingo, 9 de janeiro de 2011

Tintin e os polícias

Neste Natal, ao folhear*, numa casa de familiares, a edição portuguesa (pós-25 de abril) do álbum "Tintin na América", recordei o facto de um dia me ter dado conta de que a primeira aparição da história em Portugal havia sido objeto de uma discreta intervenção da censura. Já aqui havia falado do assunto, mas só agora posso documentar esse ridículo ato censório.

Hoje, dei-me ao cuidado de procurar, na coleção completa do "Cavaleiro Andante" (1952-1962), de que sou feliz proprietário, e lá fui encontrar, no nº 210, de Janeiro de 1956, a primeira imagem dessa história**. Olhem para ela:

O Estado Novo, na sua cuidadosa preservação das figuras da autoridade, entendeu não dever permitir que um polícia pudesse ser apresentado a fazer a continência a um gangster.

O "Cavaleiro Andante" optou também por uma tradução livre do texto original francês, que - já agora! - assim reza: "À Chicago, où règnent en maîtres les bandits de toutes espèces, un soir..." Talvez tivesse sido ponderada a necessidade de remeter para um prudente e bem qualificado passado essas mesmas aventuras. Não fosse dar-se o caso de, em 1952, alguém ter a veleidade de pensar que, noutras partes do mundo, pudesse haver "bandits de toutes espèces" a reinarem sob a proteção de polícias...

* Eu havia escrito "desfolhar", o que era um enormíssimo erro. Um leitor atento corrigiu-me, o que agradeço.

**Para os mais curiosos e conhecedores da obra de Hergé, noto que a história  tal como publicada no "Cavaleiro Andante" é claramente baseada na primeira edição do "Tintin en Amérique", que surgiu na revista belga "Le Petit Vingtième", em 1931, o que justifica a total diferença na coloração (a versão original era a preto-e-branco), para além de bizarros pormenores de "publicamente correto" que não vêm para o caso...

11 comentários:

Anónimo disse...

Enfim...
Se os Referidos lessem a psicanálise dos contos de fadas talvez percebessem a importância para os espíritos infantis independentemente da idade cronológica, que é fundamental para manter o entusiasmo pela história contada uma peculiar irreverência. Ah, independentemente da idade mental, do leitor claro!

Aliás isso vê-se, sente-se. ora vejam... Lá se vêem.

Isabel seixas

César Ramos disse...

(...) na verdade, até a B.D. - 9ªArte - sofreu a pressão dos poderes políticos, tal qual agora, de forma recorrente, se volta a falar da hipótese de a Justiça belga proibir(!?) o álbum "Tintin no Congo", sob o argumento de que o livro é racista.

[lá vai o livro subir na cotação do mercado livreiro clandestino]

Hergé era ainda vivo, quando foi entrevistado acerca destes conceitos, tanto sobre o "Tintin no Congo", como s/o alegado "anti-comunismo primário" no "Tintin au Pays des Soviets".

Se a Bélgica pudesse fazer alguma auto-crítica, pensaria que, enquanto colonizadora, desviou muitas riquezas do solo congolês, mas nunca lá pregou um prego!

Agora, Hergé é que tem os defeitos da falta de ética!

Parabéns... pela colecção do "Cavaleiro Andante"; é uma bela raridade!

Peço desculpa pelo tempo perdido e o espaço que lhe tomei.

Cumprimentos,
César Ramos

Alcipe disse...

Eu poderia invejar muitas coisas ao meu amigo Francisco, mas sucede que não sou um invejoso e muito menos dos meus verdadeiros amigos. Agora a colecção do "Cavaleiro Andante" com as primeiras versões em português do Tim Tim (o capitão Rosa; o professor Girassol) essa eu confesso : invejo-a furiosamente!

(Sei que tenho que arranjar um bom álibi se essa colecção algum dia for roubada)

Francisco Seixas da Costa disse...

... e encadernada a preceito, caro Alcipe!

Carlos disse...

Parabéns pela notável observação desse pormenor numa história do nosso saudoso Tintin. Só lhe pedia encarecidamente o favor de não DESFOLHAR essas obras tão preciosas. FOLHEIE-AS com a devida cautela, porque são realmente preciosas.
Com o meu agradecimento pelos belíssimos textos com que me presenteia, desejo-lhe paz e bem para si e para todos os seus.

Santiago Macias disse...

Fantástico!
Não fazia ideia que as "intromissões" chegavam a esse ponto, ao mesmo tempo revelador e caricato. A História tem desses exemplos em abundância, e nem sequer falo das célebres maquilhagens fotográficas do regime soviético.
Uma vez, numa exposição de arqueologia num país da América Latina, mostrei ao embaixador português uma lápide em árabe, onde o nome do emir caído em desgraça tinha sido cuidadosamente rasurado.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Santiago Macias: ou muito me engano ou conheço bem esse embaixador e esse país.

A.Teixeira disse...

Suponho que será pertinente notar que, 16 anos depois, o mesmo Estado Novo permitiu a publicação da imagem original (com o polícia cumprimentando o ladrão) no nº32 do 4º Ano da revista Tintin, qur foi publicada a 1 de Janeiro de 1972.

Terão sido os efeitos da "Primavera Marcelista"?...

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro A. Teixeira: Excelente nota!

Funes, o memorioso disse...

Muito interessante esta nota. Mas importa estar consciente que esta necessidade de ocultar o politicamente incorrecto não foi um exclusivo do Estado Novo. Hoje mesmo, um bando de cretinos está a editar nos EUA o clássico «Huckleberry Finn», de Mark Twain, omitindo na obra a palavra "nigger" que aparece mais de duzentas vezes no original. Ver aqui

Anónimo disse...

Quanto poderá valer a colecção completa da revista "O Papagaio" ainda dentro dos respectivos envelopes/invólucros? Obrigado