terça-feira, março 08, 2022

8 de Março

Este é o Dia Internacional da Mulher. E é um bom momento para recordsr que é no Estado que as mulheres ganham exatamente o mesmo que os homens.

Lembrei-me também agora de que, quando estive no governo, houve um período em que, no meu gabinete, entre chefe de gabinete, assessores, adjuntos e pessoal administrativo, todas as pessoas eram mulheres. Apenas os motoristas eram homens. E não foi deliberado.

Pedido

O PCP pede o fim da guerra. Excelente ideia! Como, aparentemente, é a entidade portuguesa que surge mais próxima das posições da Rússia, talvez não fosse má ideia deixarem “cair uma palavra” por ali. Se tivessem sucesso, poderiam repetir o slogan: “Assim se vê a força do PC”.

O mercado da Bessarábia



A Bessarábia é a designação histórica de uma região que hoje faz parte do sudeste da Ucrânia e que abrange também o território da Moldova.

Em Kiev, desde há mais de 100 anos, existe um curioso mercado coberto, o Besarabka, mercado da Bessarábia. Pode presumir-se que, na origem do nome, estivessem os produtos dessa região que ali eram comerciados.

O Besarabka ficava perto do hotel onde, por mais de uma vez, me instalei em Kiev, junto à grande avenida, a Khreshchatyk, que leva à Maiden, a um local tornado famoso pelos acontecimentos de 2014. 

(E, já agora, não digam “Praça Maidan”, porque “maidan”, em ucraniano, significa … praça!)

Naquele mercado havia um pouco de tudo, desde caviar aos produtos agrícolas mais variados. Em certas áreas, tinha uma irresistível mistura de cheiros que fazia lembrar o bazar da especiarias, de Istambul.

Espero que o Besarabka seja poupado à guerra.

segunda-feira, março 07, 2022

A tia Helena e a RTP


A RTP faz parte da vida de muitos portugueses. Da minha, por exemplo. Quando nasceu, há 65 anos, na Feira Popular, então situada no que é hoje o topo norte do jardim da Gulbenkian, em frente ao antigo Quartel-General de Lisboa, fez dali uma emissão, com um alcance mínimo e imagina-se quase que sem auditório à distância. A locutora de serviço era uma loiraça de belo porte, chamada Maria Armanda Falcão. O país conheceu-a como Vera Lagoa.

Lá por Vila Real, soubemos (o plural é majestático, porque eu andava na “primária”) pelos jornais. Até conseguir passar o Marão, a Radiotelevisão Portuguesa (hoje chama-se Rádio e Televisão de Portugal) deve ter esperado uns bons anos. Anos que as famílias aproveitavam para conversar, ouvir rádio e dar voltas, depois do jantar, na Avenida Carvalho Araújo ou no Jardim da Carreira, com “som ambiente”.

Os aparelhos de receção da televisão eram caros. As casas que os vendiam (na cidade, só o Dionísio e o Patinhas) colocavam um recetor na montra, desde a abertura da emissão, creio que pelas sete, até ao encerramento, que não excedia as 11 da noite. Muitos “populares” (nome com que a comunicação social quase sempre designa “ajuntamentos” de gente em localidades fora de Lisboa, para este último caso último utilizando-se o termo “pessoas”) plantavam-se, por horas, em frente àqueles écrans mudos. A imagem era péssima, vinha do “emissor da Lousã”, granulada, a preto-e-branco (para os mais distraídos, relembro que a cor demoraria 23 anos a chegar cá). Alguns adquiriam um plástico que colocavam em frente ao écran e que, pelos vistos, “dava cor”. A ansiada “antena do Marão” fez-se esperar. Quando chegou, foi um deslumbre! Vila Real era um mar de antenas, que era preciso “orientar”. Depois vieram os “estabilizadores de corrente” e os “potenciadores”, lembram- se?

A aquisição de “televisores” fez-se, com naturalidade, pela ordem social e de posses do burgo. Na sala de festas Clube de Vila Real e em alguns cafés havia um aparelho, neste último caso colocado num ponto alto, o mais das vezes sobre as portas de entrada, com o pessoal (só homens, claro) de pescoço esgalgado, usufruindo do serviço, pelo preço do café e do copo de água.

Depois, foi o que todos sabemos: o futebol, o festival da canção, e a Eurovisão, e um clássico na segunda metade de dezembro, que era o “Natal dos hospitais”, onde o nacional-cançonetismo desfilava para os doentes, sob o paternal apoio da “folha da Moagem”, o “Diário de Notícias”. Havia então, na RTP, muita música, muito fado, bastante teatro (é verdade!), declamação de poemas e programas de humor inocente. E, claro, era-nos mostrado o mundo a que tínhamos direito, do Portugal d’aquém e d’além-mar, feito em notícias secas da ANI, alambicadas em telejornais lidos com pompa e voz teatral por caras vindas da rádio, que logo passaram a ser vedetas nacionais, e cuja vida familiar, risonha e sem escândalos, a “Plateia” nos ia revelando. 

Anos depois, veio a guerra, os votos televisivos de “Natal cheio de prosperidades” de quem, de arma na mão e roído de saudades, era obrigado a tentar atrasar o fim do império, abençoado pelas prendas da “Cilinha” Supico Pinto e restantes damas do Movimento Nacional Feminino. Tudo aquilo, ano após ano, quase sempre muito igual ao que tinha sido ontem, porque os portugueses, como dizia o homem de Santa Comba, gostavam de “viver habitualmente”. Só o Zip-Zip, já bem mais tarde, arejou um pouco aquele écran.

Para passarem temporadas a casa dos meus avós, vinham das Pedras Salgadas, por esses anos 60, umas tias-avós, uma viúva e outras solteiras. Dentre elas, empoada e sempre risonha, a tia Helena tinha pela televisão, que por algum tempo não tinha em sua casa, um fascínio particular. À hora que pressentia que a emissão ia iniciar-se, agitava-se a pedir que se ligasse o aparelho. E, o jantar passado, por ali ficava, especada, até ao fim, fosse a programação o que quer que fosse. O meu pai crismou uma frase que ficou na família: “A tia Helena aguenta desde o hino à Meditacão”. O hino da RTP, emitido na abertura da emissão, era então quase tão conhecido como “A Portuguesa”, embora não tivesse letra, como acontece com o hino nacional espanhol. E lembram-se o que era a Meditação? Eram umas frases de filosofia de trazer pelas casas que uma voz cava lia antes do encerramento noturno das emissão, para ajudar os portugueses a dormirem. Lá por casa, alguém dizia: “há ali mão de padre”. 

E os portugueses assim foram dormir, por muitos anos, até um dia, no final de abril de 1974. E eu tive a imensa sorte de por lá poder andar, por essa altura, pela RTP, vestido de verde, a ver a liberdade a passar por ali. E posso imaginar as olheiras da tia Helena, nesses dias prolongados pela noite, a ver as intermináveis emissões desses “homens sem sono”, com a “Mensagem” da época a ter como objetivo despertar as pessoas, em lugar de as ajudar a continuar a dormir. 

Não, meu caro Manuel Duran Clemente, nunca perguntei à minha tia Helena como é que ela se terá sentido quando, lá para o fim do ano seguinte, viu sair do écran a tua cabeluda imagem para passarem, “a partir dos estúdios do Porto”, o Danny Kaye que se seguiu. E agora, já é tarde. A única coisa que sei, porque ela me disse e não mentia, é que nunca votou em partidos que “tivessem ferramenta na bandeira”. Eu, por acaso, salvo um derriço pela obra autárquica do Severiano Falcão, também não.

Lembrar

Sei que incomoda ouvir isto, mas é uma lição dura perceber que o grau de generosidade no acolhimento dos refugiados de guerras depende, pelos vistos, de onde eles sejam originários. Angela Merkel merece, nesta matéria, uma palavra de grande respeito.

Direito à opinião

Devemos homenagear a coragem de quantos, pelas cidades da Rússia, enfrentam a repressão por terem uma opinião contrária à do seu governo, no tocante à guerra na Ucrânia. É que eu não esqueço a forma como a ditadura portuguesa reprimia as manifestações contra a guerra colonial.

Homofonias embaraçantes

Curiosa e pudica é a ausência de comentários sobre a razão por que, em francês, o nome do presidente russo tem um “e” no fim.

Militares

É legítimo contestar a opinião dos militares que se têm pronunciado sobre a guerra na Ucrânia, mas isso deve ser feito, não por uma espécie de mccarthysmo saloio, mas pelo saudável surgimento a público de quem não pensa como eles, nomeadamente no âmbito das Forças Armadas.

Negociar


Os ministros dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia e da Rússia vão-se encontrar na Turquia. Ao fazê-lo, vão testar, pela negativa, uma regra básica da negociação diplomática: não devem ser mantidas, em simultâneo, várias frentes negociais. A ver vamos no que isto dá.

Media

Compreende-se as condições difíceis em que opera a comunicação social em tempos de guerra, mas a ânsia em divulgar notícias testa a credibilidade de quem o faz, às vezes dando como verdade o que acaba por ser desmentido, por falta de “fact-checking” e distanciação por precaução.

Parem para pensar!

Respeita-se a indignação e a revolta impotente das pessoas face às graves consequências humanas que a guerra na Ucrânia está a ter. Mas apela-se a um mínimo de racionalidade: se acaso a NATO tivesse a tentação (e conseguisse gerar no seu seio o que se sabe hoje ser um impossível consenso) de intervir diretamente no conflito, combatendo ao lado da Ucrânia contra a Rússia, dar-lhe-ia uma escala europeia e até global, pelo que a dimensão da tragédia atual seria multiplicada por números inimagináveis.

Não nos prendam a língua, por favor!

Desde que me conheço, o none da capital da Ucrânia escreve-se, em português, Kiev. E, na nossa língua, a palavra lê-se, naturalmente, acentuando o “e”. Surgiu agora, por aí, a ideia de, por solidariedade, passar a usar a versão ucraniana do nome da capital, Kyiv, passando assim a dizer-se “kiive”, dado que, aparentemente, os russos leem a palavra como nós sempre a lemos. Temo que, nos dias emocionados que correm, quem continuar a ler o nome da cidade à moda portuguesa antiga possa, policiescamente, ser considerado “a soldo de Moscovo”. É isso? Há limites para tudo, meus senhores! (E espero bem que, ao grafar esta interjeição de duas palavras - “meus senhores!” - não esteja a incumprir com as regras do politicamente correto, talvez porque devesse exclamar, como um edil de lugarejo a falar às massas: “Minhas senhoras e meus senhores!”)

Há mais de vinte anos, estava então de passagem pelo governo, fizeram chegar até mim uma “nota verbal” (um dia explicarei o que isso é) da embaixada da Bielorrússia em Londres, cujo titular estava acreditado simultanemente em Portugal, pedindo expressamente que, de futuro, em língua portuguesa, o nome do país fosse designado por "Belarus" e não por "Bielorrússia". A ideia, ao que parece, era distanciar o país da imagem da Rússia, então dirigida por Yeltsin. Imagino que esperassem que “instruíssemos”, em conformidade, a imprensa e os prontuários. Recordo-me de ter tido o cuidado de mandar explicar ao governo de Minsk que, em Portugal, o Estado não se arrogava o direito de controlar os topónimos. E nunca mais ouvi falar do assunto. (Nos dias de hoje, a tal Belarus está, como se tem visto, cada vez mais Bielorrússia e até o “Bielo” da palavra, pelo andar da carruagem, se arrisca a ir por água abaixo…)

Não nos prendam a língua, por favor!

É isto

A frase saiu, muito provavelmente, da pena genial de Ted Sorensen, que foi quem lhe escreveu os seus melhores discursos, mas quem a aceitou, a leu e ficou responsável histórico por ela foi John Kennedy. Eu mantive-a sempre como uma máxima da diplomacia: “Let us not negotiate out of fear but let us not fear to negotiate” (Não negociemos sob pressão do medo, mas não tenhamos medo de negociar).

domingo, março 06, 2022

À coreana

A ser verdade a notícia, hoje divulgada, de que a Rússia pode vir a desligar-se da internet global, o país caminhará para uma forma de autarcia informativa, num modelo de “fechamento” que tem na Coreia do Norte o seu expoente.

Irão

As negociações entre os “5+1” e o Irão, com vista a negociar a retoma do acordo nuclear, suspenso desde o abandono do compromisso por parte dos EUA, ao tempo de Donald Trump, estavam, aparentemente, a correr bem. Aventava-se que Washington poderia querer fazer, muito proximamente, um gesto final para fechar o entendimento. Pois isso! A Rússia, que é parte dos “5+1”, acaba de anunciar que só pode dar luz verde a uma solução dessa natureza desde que os EUA façam uma exceção nas sanções que passou a sofrer, por virtude da questão ucraniana, que salvaguarde o seu relacionamento bilateral com Teerão, nas dimensões económicas mas, igualmente, no âmbito tecno-militar. Surpresa? Nem por isso.

sábado, março 05, 2022

Moscovo

Na ditadura da paróquia, havia um programa da Emissora Nacional que tinha como lema: “A verdade é só uma e Rádio Moscovo não fala verdade”. Como se viu na série televisiva Glória, através da Raret, as emissões radiofónicas da capital do mundo comunista eram perturbadas, para as não ouvirmos. Outros tempos, claro…

A Russia e URSS

A Rússia não é a URSS. Do comunismo, só herdou o autoritarismo e os métodos. Há, porém, quem pareça ainda não ter percebido isso: o PCP (e alguns “compagnons de route”) e os anti-comunistas (que andam à cata do que tudo o que por aí se assemelhe aos “vermelhos” de outrora).

O poder das massas

Se não fosse patético, dava vontade de rir ao observar o esforço dos multimilionários russos - criados na privataria de Yeltsin e adubados por Putin - a tentarem distanciar-se da liderança de Moscovo. Eles que não viram deslizar o regime para a ditadura que ajudaram a consolidar.

Tolerância

Sei que é impopular, nos tempos que correm, estar a afirmar isto, mas quero lembrar que há que preservar a tolerância e deixar exprimir todas as opiniões, mesmo aquelas que indignem e choquem o sentimento maioritário. Chama-se a isto democracia e deu muito trabalho a criá-la.

sexta-feira, março 04, 2022

A verdade

A verdade, como é sabido, costuma ser uma das primeiras “casualties” em qualquer guerra. Por isso, independentemente da simpatia que uma das partes nos possa merecer, o bom senso recomenda que a dúvida quanto à fiabilidade daquilo que ela transmite seja sempre a atitude a tomar.

A dignidade da República

O incidente na sala de um partido na Assembleia da República não é um "fait-divers". Sem a menor ironia, acho aquilo gravíssimo.  ...