É nestes dias de grandes jogos de futebol que me vem à memória a histórica frase de comentário televisivo de Alves dos Santos: “Lá vai o jovem Simões, inteligência nos pés e futebol na cabeça”.
sexta-feira, abril 30, 2021
Palermice
Já estava a estranhar que uma coisa tão óbvia como o Censo, feito a cada dez anos, para se perceber o país em que vivemos, não viesse a ser contestado por acusações palermas de "orwellianismo". A demagogia tomou conta da praça pública, com a redes sociais a ajudar.
quinta-feira, abril 29, 2021
“O Mundo não tem de ser assim”
Ela aí está, com o belo título de “O Mundo não tem de ser assim”, uma biografia muito completa de António Guterres.
Um dia, já há uns bons anos, um dos autores, Filipe Domingues, disse-me ter tido a ideia, com um amigo, de fazerem uma obra sobre a vida do secretário-geral da ONU e antigo primeiro-ministro. Na altura, lembro-me de lhe ter comentado que o único trabalho sobre Guterres que existia, além de datado, ficava muito aquém do que era devido ao cidadão português que mais longe fora no mundo internacional, pelo que uma boa biografia de Guterres claramente que se impunha. E que, antes que alguém, lá por fora, avançasse com isso, era muito bom que se colocassem em movimento.
Para tal, disse-lhes, era vital que eles conhecessem o embaixador João Lima Pimentel, um grande amigo de juventude e que também havia sido colaborador próximo de António Guterres, o qual tinha uma imensidão de histórias sobre o amigo e que, além disso, poderia ser a chave para muitas portas se abrirem, a principal das quais era o próprio potencial biografado, o qual, à época, estaria ainda longe do projeto.
Com os autores, o João Lima Pimentel e eu tivemos uma longa conversa, durante um simpático jantar onde eu conheci aquele que seria o outro autor, Pedro Latoeiro, e em que ambos conheceram João Lima Pimentel. Esse foi, ao que recordo, o meu único contacto com os autores da obra, durante toda a sua feitura. Às vezes, ao longo dos anos que se passaram entretanto, perguntava ao Filipe Domingues como iam as coisas, que sempre teriam de demorar o tempo que este tipo de obras sempre leva.
Fico muito satisfeito por ver agora surgir o fruto daquele que deve ter sido um intensíssimo trabalho. Porque a vida não dá para tudo quando queremos, ainda só tive tempo de passar os olhos por alguns capítulos daquelas quase 700 páginas, densas de um tempo de Guterres que acompanhei, grande parte dele à distância mas, desde cedo, com atenção. Numa outra parte, relativamente curta, com alguma proximidade. Agora, mesmo sem ter lido o livro todo, não quero deixar de saudar um empreendimento que sei ter sido feito com grande rigor e entusiasmo. Como António Guterres merecia, aliás.
quarta-feira, abril 28, 2021
“A Arte da Guerra”
Da importância a nível nacional espanhol das eleições regionais em Madrid à crise política e às dependências externas da Geórgia, passando por uma reflexão sobre a primeira cimeira da NATO com Biden.
Veja aqui
Se Conceição
A Se Conceição era mãe da Arménia. Ditas as coisas assim desta forma, as coisas ficam pouco compreensíveis. “Se” Conceição era o nome que eu e os meus primos dávamos a uma empregada da minha avó paterna, na nossa infância, lá por Viana do Castelo: abreviatura de Senhora Conceição.
Tinha uma filha com um estranho nome, que me começou a “causar espécie”, como se dizia nesse tempo, quando aprendi alguma geografia: Arménia. Voltei a encontrar a Arménia, lá por Viana, nas ocasiões onde é costume cruzar pessoas conhecidas, de quando em vez: em alguns funerais. Nunca me lembro de ter falado com ela (era pouco mais velha do que eu, recordo-me) sobre o seu nome com topónimo de uma república do Cáucaso, que às vezes surge nas notícias e quase sempre não pelas melhores razões.
A mãe da Arménia, a Se Conceição, era uma mulher serena, que recordo silenciosa, de sorriso um pouco triste, com o cabelo apanhado em carrapito, de cujos dotes culinários não tenho a menor memória. Apenas me lembro do cheiro do café que ela fazia e que eu apanhava no ar quando ela o trazia pelo longo corredor que ia da cozinha à sala de jantar.
Nesse tempo, os pacotes de café (ou seria de cevada?) traziam dentro brindes, em forma de pequenas colheres, feitas num alumínio manhoso, que eu achava o máximo ajudar a descobrir quando se abria cada novo pacote. (A lógica era a mesma que está subjacente à graça que se ouvia, quando os conflitos de trânsito se passavam de forma educada: “Saiu-te a carta na Farinha Amparo!”)
Porque é que me lembrei hoje da Se Conceição? Sei lá! Talvez pelo azul do céu desta fotografia da bela estação da cidade.
Na morte de Mara Abrantes
Por muitos anos, no mundo das artes performativas, não havia muitos brasileiros que vivessem em Portugal e que fossem bastante conhecidos. Ou melhor, havia dois: Mara Abrantes, uma cantora mulata (não sei se isto hoje ainda se pode dizer assim, mas eu digo), e Badaró, um cómico que por cá ficou, depois de um tempo em que algumas “revistas” brasileiras andaram, com um sucesso proporcional à poupança de tecido nos trajes das respetivas artistas, por palcos divertidos de Lisboa e Porto.
Badaró já tinha partido há muito. Hoje foi Mara Abrantes. É um certo Brasil dos palcos portugueses, bem de outros tempos, que assim acaba.
Nos dias de hoje, há muitos outros brasis que vivem entre nós. E ainda bem! Gosto de ser cidadão de um país onde convive - já sei, também com problemas, claro - muita gente nascida em outros lugares onde também se fala português, tributária das suas diferentes culturas. Muitos teimam em não entender a riqueza, que não se mede só em cifrões, que isto traz a Portugal.
Biden
Estou muito longe de ser um incondicional da orientação da política externa de Joe Biden - e isto é um “understatement”. Biden foi a resultante hábil de uma tática construção democrática para afastar Trump. Em condições normais, como ainda há dias li algures, nunca teria chegado à Casa Branca. Contudo, se tivermos em conta a globalidade da ação que até aqui desenvolveu como presidente, pode dizer-se, sem favor, que se está a sair bastante “melhor do que a encomenda”.
Decidam-se!
A boa notícia é que estão aí a ser publicados muitos novos livros. A má notícia é que não há tempo (nem dinheiro) para conseguir ler muitos deles. Esta malta encontra sempre razões para andar insatisfeita, direi eu, depois de dizer o que disse! Decidam-se, por uma vez!
Linguareiros
O presidente da República chama os partidos e troca ideias, com cada um em particular. Alguns partidos saem da reunião, a qual, não terá sido por acaso, teve lugar à porta fechada, e logo contam aos jornalistas o que o presidente lhes disse. É assim a nossa democracia. É à moda da casa.
Conversa de sala de espera
O facto do nome da vacina que cada um de nós toma ter tomado conta das conversas é a prova do estado muito básico da cultura de convivência que assentou por aqui
terça-feira, abril 27, 2021
Calamidade!
Há coisas em que a língua portuguesa nos traz grandes surpresas. O presidente da República decretou o fim do Estado de emergência. Ufh! Que alívio! Sabem o que aí vem (formalmente, pelos vistos, mais suave e descansativo)?: o “Estado de calamidade”! É nele que vamos entrar...
José Fernandes Fafe
“Famalicão e Cacém seguem amanhã”. Era o texto de um curto telex, do meu colega Tavares de Carvalho, que estava na nossa embaixada em S. Tomé, enviado para mim, colocado na de Luanda, algures em 1985.
A nossa mensagem cifrada era em “ostensivo”, como se dizia nas Necessidades, para gozar com a “secreta” angolana, porque havia a suspeita de que ela lia a nossa “telegrafia”.
No caso, era irrelevante, mas a mensagem significava que o embaixador itinerante para as questões culturais, José Fernandes Fafe (daí o “Famalicão”) e o professor Lindley Cintra (daí o “Cacém”), viriam no bissemanal voo da TAAG, de S. Tomé para Luanda, que chegaria no dia seguinte. Foi nesse dia que os conheci a ambos, pela primeira vez.
No passado dia 25 de Abril, o presidente do município de Cascais, Carlos Carreiras, nas palavras que proferiu, aquando do encerramento do marco que atribui a José Fernandes Fafe o nome de uma rotunda na vila, evocou, imagino que perante o desconhecimento de muitos que por ali estavam, a associação do homenageado à “Esquerda Liberal”.
“Chapeau!”, pensei para comigo! Como é que alguém se lembrou disso, que está nos arcanos da memória político-cultural portuguesa?! Pressenti uma leve reação de surpresa e (só imaginei, por causa da máscara) um sorriso na cara do meu amigo Eduardo Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, ali presente como amigo de Fernandes Fafe.
Achei graça porque, numa das belas noites de conversa que tivemos com Fafe e Cintra em Luanda, nesse ano de 1985, recordo-me de lhe ter manifestado a minha estranheza pelo facto de o ter visto surgir ligado a um grupo de antigos militantes da extrema-esquerda que, com um clube com esse nome, prosseguido depois com a revista “Risco” (onde o leque ideológico se alargou muito), iniciavam então o seu “luto” da aventura que os tinha levado pelas catacumbas dos diversos estalinismos.
Fernandes Fafe, que eu sabia ligado a outra bem diferente tradição política, dera a sua prestigiada “bênção” a esse grupo (Pacheco Pereira, João Carlos Espada, Villaverde Cabral) e, julgando conhecer as suas ideias, isso surpreendera-me. E disse-lho.
Nessa noite, Fernandes Fafe explicou-me, com um detalhe teórico que eu, posso imaginar hoje, só por educação terei fingido acompanhar, por que me não revia minimamente nas ideias da tal Esquerda Liberal, o mérito dessa iniciativa. Recordo bem ele ter feito um enfático elogio à qualidade intelectual dessas figuras, no que concordei, em absoluto. Mas só nisso!
Verdade seja que essa Esquerda Liberal viria a cair, então, inteiramente nos braços do “soarismo” que haveria de chegar a Belém, para depois alguns se afastarem até chegarem ao “cavaquismo”. Não foi esse, claro!, o percurso de Fernande Fafe.
Para uma pessoa para quem, desde há muito, a palavra “liberal” só soa bem quando é dita por um americano e com o sentido que por lá tem (na tropa, eu “insultava” o meu amigo e posterior colega embaixador António Franco, chamando-lhe “liberalóide”), tendo lido muito do que Fernandes Fafe publicou, até ao final da sua vida, permito-me crer que, nos dias de hoje, ele se sentisse menos confortável com uma proximidade à ideia “liberal”. Mas isto sou só eu a especular!
E como já não tenho já comigo, para tirar teimas, o meu amigo António Silva, uma das pessoas que venerava Fernandes Fafe, e que, há anos, editou uma muito interessante conversa com ele, só me posso ficar por estas conjeturas, hoje suscitadas por aquele episódio, que durou escassos segundos, na mais do que merecida homenagem a esse grande embaixador da Cultura que o Palácio das Necessidades teve.
Parabéns, José Paulo Fernandes Fafe, por esta justíssima homenagem ao seu pai. E agradeço-lhe muito o ter sido convidado a nela participar.
segunda-feira, abril 26, 2021
Lola
Lola é o nome que foi dado, sabe-se lá por quem, a uma tempestade que, por estas horas, está a cair, a rodos, sobre Lisboa.
As gerações atuais talvez o desconheçam, mas houve longas décadas em que as noites, em alguns lugares da cidade, eram animadas por umas jovens espanholas que, para finalidades tarifadas, “por supuesto”, tinham atravessado a fronteira e acabavam o seu dia a chamar “cariño” a uns cavalheiros abonados, cansados do serralho familiar. Havia então o mito estatístico, quiçá exagerado, de que uma em cada três dessas senhoras dava sempre pelo nome de Lola.
Já nos tempos do Eça, como poderão verificar, isso se passava assim e um cronista da vida noturna lisboeta mais contemporânea, o humorista José Vilhena, encheu de Lolas as suas belas historietas - de que, infelizmente, ao contrário do escritor e diplomata, ainda não há uma edição completa em papel bíblia.
Como antigo profissional de relações externas, entendo que nunca foi feita devida justiça ao papel histórico desempenhado por essas Lolas para a promoção do bom relacionamento bilateral ibérico - ou, para utilizar o “politicamente correto” das Necessidades (onde, no meu tempo, se aprendia que a palavra “ibérico” era demasiado hispano-centrada), peninsular.
domingo, abril 25, 2021
Há 20 anos, dia por dia
Eu estava em Nova Iorque há menos de dois meses. Nesse dia, saí de casa, muito cedo, diretamente para a sede da ONU, onde tinha reuniões, umas a seguir às outras.
Com alguma ingenuidade, algo “stakhanovista”, eu tinha decidido encontrar-me pessoalmente com todos os colegas estrangeiros embaixadores na ONU! Todos! Os 189, à época! Toda a gente achou que era uma loucura, mas eu só cheguei a essa conclusão ao final de quase três meses.
Com uma “vingança” pessoal: ganhámos todas as eleições para todos os cargos a que concorremos, algumas ditas impossíveis. É verdade que eu tinha uma equipa “eleitoral” de luxo, herdada do meu colega António Monteiro, mas ter a “lata” de ir ver o embaixador de Vanuatu, seguido do de Saint Kitts and Nevis e o do Burkina Faso e, depois, nos dias seguintes, mais 185, não terá deixado de contar alguma coisa para isso. Foram longas semanas nisto!
Cheguei assim, nesse dia, à nossa Missão, já depois do almoço. Ainda não tinha entrado no gabinete e já as minhas secretárias me avisavam da lista das “chamadas em atraso”. Nas Nações Unidas, está sempre alguma coisa em atraso! E havia ainda a lista dos colaboradores que tinham feito “reserva” para me verem, com “telegramas” para eu dar “luz verde”, antes de seguirem para Lisboa, onde já eram umas horas mais tarde, com informações ali aguardadas, o que aumentava a angústia.
Só quando me sentei na secretária é que dei por ele: um ramo de cravos vermelhos. Era 25 de abril! E eu nem me lembrara da data! Nas embaixadas bilaterais era feriado! Ali, em Nova Iorque, era um dia de trabalho, como os outros!
“Cristina! Quem trouxe estes cravos?”, perguntei, imagino que com o sentimento de ter ganho o meu dia. “Foi a Dra. Clotilde Mesquita!” A Clotilde era uma funcionária da Missão, que eu conhecia já de Lisboa.
Quis a sorte, ou o azar (hoje a minha doutrina interior divide-se sobre o assunto) que só tivesse mais um 25 de Abril em Nova Iorque.
No ano seguinte, em 2002, também no dia 25 de Abril, organizei um jantar em casa em que juntei Xanana Gusmão e Mari Alkatiri, para lhes apresentar aquele que iria ser o sucessor de Sérgio Vieira de Mello em Timor, o indiano Kamalesh Sharma, até ali meu colega como embaixador da Índia junto da ONU.
A minha mulher, que não estava presente no jantar, tinha posto um cravo vermelho em frente de cada convidado. Xanana e Alkatiri sorriram muito. Ao indiano tive de explicar o porquê da flor.
Mas, também nesse dia, já de manhã, a Clotilde me tinha deixado cravos sobre a minha mesa de trabalho na Missão portuguesa. E, depois disso - e já passaram quase duas décadas - esses cravos passaram a virtuais, em Viena, em Brasília, em Paris e, finalmente, aqui em Lisboa. Em todos os 25 de Abril.
Obrigado, querida Clotilde! E viva o 25 de Abril! Sempre!
As quintas da empregada
Renato Janine Ribeiro é um intelectual brasileiro que, há uns anos, ocupou o cargo de ministro da Educação do Brasil. É um figura serena, dialogante, com uma sabedoria amável, a que, seguramente, não será alheia a sua formação em filosofia. Um democrata e um amigo.
Tenho o gosto de, com ele, ser membro de uma agremiação “do bem”, o Forum Demos, uma estrutura animada por Álvaro de Vasconcelos, que Portugal se habituou a conhecer como a alma do Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais (IEEI) e que, mais tarde, ajudou as instituições europeias a pensarem-se no mundo.
O Renato enviou-nos hoje, a propósito do 25 de Abril, uma data que os nossos amigos além do Atlântico saúdam connosco a cada ano, este delicioso testemunho que, com sua autorização, me atrevo a partilhar:
ANIVERSARIO DA REVOLUÇÃO DOS CRAVOS
Penso que nunca relatei este episódio de que fui testemunha.
Hoje, aniversário da Revolução dos Cravos, que tornou possível falar em público de liberdade e democracia na língua portuguesa, até então presa de vis tiranos, eu a conto.
Estive em Portugal todo o mês de agosto de 1974, conhecendo o vigor de um povo que se libertara. Voltando a Paris, onde eu era bolsista (não, não fui exilado), recebi um convite de um amigo de meu pai que ia dar uma recepção pequena, em seu apartamento, para o 7 de Setembro. Era o adido cultural em Paris, Clovis Graciano, um dos grandes pintores brasileiros.
De vez em quando, aliás, ele me chamava a almoçar em sua casa, onde ele e a esposa me recebiam. Seu filho Paulo trabalhou com meu pai, ainda jovem, na editora Banas de publicações econômicas. Mais tarde, meu pai assessoraria Paulo, quando este foi presidente do Instituto Brasileiro do Café, o IBC. Havia, então, uma discreta amizade de família.
Paulo Graciano era um pintor vigoroso, que tinha militado à esquerda. Agora, era adido cultural do embaixador Delfim Neto.
Pois a certa altura, numa destas rodas que se formam e dissolvem num coquetel, todos de pé, um jovem filho de dono de jornal importante começou a contar sua viagem a Portugal, dias antes, e o descontentamento que ouvira dos motoristas de taxi. Clovis Graciano então disse o que sua empregada, portuguesa como era muito comum em França naquela época, lhe afirmara:
- Dr Clovis, os comunistas estão a tirar as quintas, as herdades de quem as tem!
Os circunstantes, dois além de mim, ficaram animados, esperando a frase fatal anticomunista que deveria arrematar esse depoimento da senhora portuguesa. Mas Clovis:
- Minha filha, tu tens quintas? Tens herdades? Não? Então tens é que estar com os comunistas!
O silêncio foi sepulcral. Os dois outros circunstantes saíram da roda, ressabiados. Clovis ria. Eu exultava.
O Fado do Chicão
Do cravo negro do Ventura (sponsorizado, podemos imaginar, pela Servilusa) ao cravo branco do Chicão do Caldas, na manhã a-preto-e-branco deste “pas de deux” da direita, qual será a verdadeira distância? O tempo o dirá!
Aqui fica este oportuno poema de Luís Filipe Castro Mendes, revisitando Pedro Homem de Mello e o seu “O Rapaz da Camisola Verde”:
“O Fado do Chicão”
De olhos nas câmaras e de olhar afoito,
jeito de marinheiro ou de soldado,
era um rapaz da direita moderna,
negra madeixa ao vento, cravo branco de lado.
Perguntei-lhe quem era e ele disse
“sou a direita e por mim vai tudo mudado”.
Pobre rapaz da direita moderna,
negra madeixa ao vento, cravo branco de lado.
Porque me assaltam turvos pensamentos?
Que queres tu mudar no nosso fado?
Diz-me rapaz da direita moderna,
negra madeixa ao vento, cravo branco de lado?
Ouvindo-me, quedou-se altivo o moço
e respondeu com o cravo branco empinado
“De vermelho tornei branco este cravo,”
negra madeixa ao vento, olhar arregalado.
Soube depois que tivera tantos votos
quantas ideias tinha apresentado.
Ai do rapaz da direita moderna,
negra madeixa ao vento, cravo branco murchado!
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