segunda-feira, setembro 28, 2020

Prós & Contras


O “Prós e Contras”, um dos mais conhecidos programas da RTP 1, vai acabar, tendo hoje a sua derradeira emissão. A Fátima Campos Ferreira, que o dirigiu desde o início, terão sido destinadas novas tarefas jornalísticas dentro da empresa, as quais desejo que, para ela, possam ser profissionalmente tão estimulantes como foi o “P&C”.

Consta que Salazar, nos anos finais do seu longo reinado, quando lhe falaram de alguém que só conhecia de nome, com potencial para um cargo ministerial, mas a quem ele não queria “dar a confiança” de um encontro prévio de avaliação, terá dito: “Passem-mo na televisão”.

Quantas caras, que viriam mais tarde a surgir em cargos governamentais, em democracia, não terão sido descobertas para a política porque Fátima Campos Ferreira as “passou” no seu programa? É que devem rondar as muitas centenas os seus convidados de painel, ao longo destas mais de duas décadas de programas, sem contar com os participantes na plateia.

Tive o gosto de ir, creio que por duas vezes, a edições do “P&C”. Recordo-me de ter sido obrigado a recusar, por qualquer impedimento ou inconveniência, outros tantos convites.

Porém, uma outra minha mais não participação num “P&C” tem uma história curiosa.

Uma noite, creio que há mais de 15 anos, numa ligação aérea entre o Porto e Lisboa, fiquei sentado, por mero acaso, ao lado de Fátima Campos Ferreira (que, simpaticamente, com o seu marido, me daria depois boleia do aeroporto para o hotel onde eu estava hospedado). Na conversa, perguntou-me por que razão eu não aceitara, tempos antes, um convite que me tinha formulado para ir a uma determinada edição do P&C. 

Ora eu não me recordava minimamente de ter recusado tal convite! Mas ela lembrava-se bem: fora a minha mulher quem referira, no contacto telefónico que fora feito para minha casa, que eu não estaria disponível para ir a esse programa. Quando, dias mais tarde, falei à minha mulher do assunto, ela, com o ar mais normal do mundo, comentou apenas: “Disse que não, em teu nome, porque me pareceu que não devias ir a esse debate”. É assim a vida, veem?

domingo, setembro 27, 2020

Eu e o infinito


Eu não teria mais de quatro anos. Na saleta da “casa das tias”, irmãs da minha avó que viviam nas Pedras Salgadas, alguém analisava, em pormenor, fotografias antigas, com a ajuda de uma lupa.

O meu tio Fernando tinha-me mostrado, minutos antes, no terraço, como era possível incendiar um jornal com a lupa, posta ao sol. Eu estava fascinado com o instrumento, mas ninguém me deixava usá-lo, com medo de que eu o partisse.

“Posso ir com a lupa à cozinha? É só para ver uma coisa”, pedi eu, imagino que sem grande esperança. E tinha razão: ninguém permitia que eu tocasse na lupa.

A minha mãe, que sempre recordava esta história, dizia que me viram então desaparecer lá para dentro e, instantes depois, surgir com uma lata de fermento Royal na mão. “Quero ver esta lata com a lupa, para saber quantas latas lá estão”.

Passado um instante de perplexidade coletiva, todos compreenderam. O que eu pretendia era descobrir o mistério do rótulo, onde surge representada uma outra lata que, por sua vez, traz a imagem de outra, e por aí adiante.

“Ah! Queres descobrir o infinito?”, disse o meu pai. “Aqui na lata ele acaba cedo, mas se se colocar um espelho em frente ao outro, pode-se ir muito mais longe”.

O que ele foi dizer! Nunca tinha ouvido falar do infinito, mas logo esqueci a lupa, não descansando enquanto não se montou ali uma operação com dois espelhos paralelos. Para eu ver o infinito. E vi, claro.

Do que nos lembramos quando, num restaurante, como hoje me aconteceu, a conta chega numa lata de fermento Royal!

sábado, setembro 26, 2020

“Bullying” diplomático

O embaixador americano em Portugal, numa pouco profissional entrevista ao “Expresso”, enunciou algumas nada subtis ameaças ao Estado português, no caso do nosso país não alinhar na “guerra santa” contra a China, obrigando a escolher o lado dessa nova “cortina de ferro” que Washington pretende decretar pelo mundo.

O diplomata não se deu sequer ao cuidado de disfarçar o seu desconhecimento das dimensões técnicas das questões que aborda. Já teve, entretanto, a resposta devida do ministro dos Negócios Estrangeiros português.

O mundo ocidental tem poderes diferenciados a representá-lo, mas não tem tutelas a orientá-lo. A Aliança Atlântica é uma coligação de países livres cuja leitura dos respetivos interesses estratégicos tem de ser levada em conta para a definição da posição comum, que não cabe a um único país definir e, muito menos, impor. Além disso, em prioridade, Portugal coordena com os seus parceiros da União Europeia a sua relação geopolítica com países terceiros, sejam eles aliados militares de alguns, como é o caso dos Estados Unidos, sejam as relações económicas e políticas de todos, como é o caso da China. Mas, em derradeira instância, a definição da posição portuguesa é feita em Lisboa.

Ficamos a aguardar agora a reação de quantos, deste lado do Atlântico, desde há muitas décadas têm “a voz da América” como um oráculo acima de qualquer crítica. Não nos obriguem a recordar o “catering” na cimeira das Lajes.

O “Expresso” e Balsemão


Ser leitor do “Expresso” desde o primeiro destes seus 2500 números, tendo a absoluta certeza de nunca ter falhado a leitura (muitas vezes “à vol d’oiseau”, confesso) de nenhum desses números, não me confere nenhum direito. Nem mesmo me dá a menor autoridade para emitir uma opinião autorizada sobre o papel desempenhado por esse semanário na história da imprensa em Portugal. Mas também não me impede de a ter.

O “Expresso” cavalgou uma réstia de abertura ainda vislumbrada no extertor do “marcelismo”. Se o “Expresso” tivesse aparecido em 1968/69, colado à “ala liberal” com que Marcelo Caetano procurou dar um sinal de potencial democratização, a sua história poderia ter sido outra e, quem sabe, o jornal poderia ter contribuído bastante mais para a História do país. Da forma e no tempo em que emergiu, pouco mais de um ano antes do 25 de abril, o “Expresso” acabou por ser mais um reflexo do mal-estar que então atravessava o país e, muito menos, um verdadeiro ator na mudança que se processou nessa noite de 1974.

Marcelo Rebelo de Sousa, que teve um papel importante no “Expresso”, antes e depois do 25 de abril, não parece ter razão quando, há uma semana, atribuiu ao jornal um papel relevante no desencadear da Revolução. O principal, e verdadeiramente determinante, papel do “Expresso” acabou por ser durante o processo revolucionário e, muito em particular, durante o período democrático subsequente. O “Expresso” foi um ator de grande relevo ao longo destas mais de quatro décadas - qualquer que possa ser a opinião que tivermos sobre aquilo que protagonizou.

Neste momento em que se assinalam os 2500 números do “Expresso”, um jornal que, sobranceiramente, muitos dos seus antigos leitores fazem gala de dizer que deixaram de ler, quero deixar uma mensagem de forte respeito democrático pela figura de Francisco Pinto Balsemão. 

Na história do nosso jornalismo, e na nossa história política, Balsemão tem hoje um lugar cativo, por muito que isso desagrade a muitos dos que se politicamente se lhe opõem. Portugal seria um país democraticamente bem mais rico se dispusesse de muitas mais figuras com a estatura cívica de Francisco Pinto Balsemão. É o que penso, muito sinceramente.

quinta-feira, setembro 24, 2020

Gréco


Estava de passagem por Paris, no dia de 2018 em que morreu Charles Aznavour. Recordo-me bem de estar sentado numa esplanada, ao lado de uma senhora e de uma adolescente francesas, com esta última a perguntar “esse Aznavour era quem?”. Se a miúda não conhecia Charles Aznavour, que atuou até muito tarde, com muito maior probabilidade deveria desconhecer Juliette Gréco, que já saíra dos palcos bem antes. Ou, quem sabe, talvez o modo negro de vestir de Juliette Gréco, afinal muito “à la page” com certos padrões contemporâneos, pudesse ter algum dia chamado a sua atenção e assim se tivesse preservado na sua memória. 

Posso estar errado, mas fico com a sensação de que há um maior apagamento do passado recente na memória das atuais gerações. Se isso significa que olham com mais atenção para o seu presente, invadidos que são por uma imensidade quase infinita de mensagens de informação, assim ficando melhor preparados para as coisas do futuro, então isso é, com certeza, uma coisa boa. 

quarta-feira, setembro 23, 2020

“A Imagem de Portugal”


Animada pelo Professor Luís Valente de Oliveira, existe, desde há vários anos, a Tertúlia dos Carrancas.

O nome fica a dever-se ao facto das reuniões da tertúlia terem lugar no Palácio dos Carrancas, onde está instalado o Museu Soares dos Reis, no Porto. Uma das “almas” da organização é precisamente o presidente do grupo de amigos do museu, Álvaro Sequeira Pinto.

A Tertúlia dos Carrancas não tem uma composição fixa. Dependendo das temáticas, organiza-se em grupos diferentes de pessoas, que refletem e debatem um determinado assunto. O Professor Valente de Oliveira dirige o debate e é o relator dos trabalhos, que são depois passados a livro, editados e vendidos com o jornal “Público”.

Há já alguns anos, tive o gosto de participar no primeiro daqueles exercícios, intitulado “Os Interesses permanentes dos Portugueses”, um trabalho que deu origem a um livro que, creio, está há muito esgotado. Mais recentemente, fiz parte da “formação” da tertúlia que provocou o novo volume que vai sair, “A Imagem de Portugal”.

Quem estiver interessado no livro pode adquiri-lo com o jornal “Público”, no dia 30 de setembro.

A voz da América


As arengas dos líderes nacionais, nas assembleias-gerais anuais das Nações Unidas, raramente despertam interesse. Salvo se oriundas de um "trouble-maker", costumam ser catálogos de platitudes. 

Um país "normal" diz ali o que tem de ser dito, porque se algumas coisas não forem ditas ou reafirmadas isso nota-se. Sei do que falo, porque ajudei a escrever algumas dessas intervenções.

Não é isso, contudo, que se passa com os discursos dos presidentes americanos. O que um líder dos EUA escolhe para dizer acaba por ter uma forte relevância.

A América é o grande poder "condicionador". Outros terão força regional ou setorial, mas os EUA detêm um poder único, à escala global. E isto não é uma opinião, é um facto.

Os discursos americanos começam por ter importância para a própria ONU. Engendrada pelos Estados Unidos, a organização depende da boa vontade americana para funcionar com eficácia, o mesmo é dizer que funciona mal ou paralisa quando os EUA dela se desligam ou a obstaculizam. As mensagens a este respeito são assim interessantes de seguir, embora Washington, não raramente, se sinta pouco presa à sua própria palavra, o que é típico de quem tem a força do seu lado.

Ao serem alinhadas as prioridades externas da América, o "resto do mundo" fica também a saber com o que pode contar. Amigos e adversários de Washington leem com atenção esse elenco geopolítico, sopesando as palavras e as regiões escolhidas. E notam o que não é dito, nem sequer mencionado ao de leve - como, no discurso de ontem, as palavras Europa ou Rússia. Ou África.

Num ano eleitoral como este, atente-se nas mensagens para consumo interno. Com naturalidade, no dia em que passa de 200 mil o número de americanos mortos pela pandemia, o seu presidente sublinha o "êxito" da estratégia nacional seguida.

Em contraponto, surgem notas positivas sobre o comportamento da economia. E também foi relevada a importância, inigualável, do poderio militar americano, numa espécie de nota pouco subliminar de que "não nos desafiem".

É que o desafio - da China, claro - perpassa todo o discurso, desde o "vírus chinês" às ameaças comerciais. Esse perigo esteve por toda a parte no discurso de Trump, porque este sabe que o eleitorado americano, republicano ou democrata, está adquirido para aceitar ser esse o novo desafio nacional.

Trump terminou com um "God bless the United Nations". De facto, se a sua reeleição se confirmar, o mundo multilateral ficará, definitivamente, nas eventuais mãos divinas. Só um milagre o salvará.

terça-feira, setembro 22, 2020

É verdade?

 


Então é mesmo verdade que vem por aí o outono?

O teste

Por uma rotina ligada a um exame médico, fiz o teste do Covid. Sem nenhum sintoma evidente, fui bastante confiante e desprendido, muito na lógica de um ateu que pensa para si mesmo: seja o que deus quiser!

Voltei para casa, tendo deixado o meu email, para ser informado do resultado. Dizia para dentro: não há-de ser nada! Nessa noite, dormi bem, mas acordei, confesso, a pensar no assunto. Assobiei para o ar, li jornais, vi um filme, falei com pessoas. Ao final do dia, lá surgiu o email do hospital na caixa de entradas. Não o abri, por um minuto.

O que faço se tiver sindo infetado? Tenho que me isolar, montar uma vida de auto-reclusão, recomendar o teste a quem andou à minha volta, colocar já a senha na app “Stayaway Covid”, como ato mínimo de respeito cívico. Mas a quem mais conto o que me aconteceu? E que faço? Telefono à Saúde 24 ou ao meu generalista? Com a idade que tenho, a possibilidade das coisas correrem mal é bastante elevada.

Para travar a angústia de hipocondríaco militante, passado que foi o minuto a olhar o email, sem tocar o anexo, decidi abri-lo. O teste era negativo. Não foi desta. Bebi o malte em balão, sem gelo.

segunda-feira, setembro 21, 2020

Michael Lonsdale


Era um excelente ator, embora muitas vezes se deixasse utilizar demasiado como “character”. Mas não terá sido só isso que pensaram realizadores como Buñuel, Truffaut, Resnais e até Oliveira. O facto de ser bilingue, em francês e inglês, deu-lhe imensas oportunidades. Aproveitou bem algumas, fez pela vida em outras, às vezes em papeis menos gloriosos. Para mim, contudo, será sempre o dono da sapataria casado com a lindíssima Seyrig, a quem Antoine Doinel faz a folha, ou vice-versa, no “Baisers volés”. Michael Lonsdale morreu hoje.

As Necessidades do Caetano

O meu amigo Caetano da Cunha Reis, homem de barba patriarcal e de humor fino, perdoar-me-á, com certeza, que eu transcreva hoje aqui, a propósito de nada, um post que, há mais de 15 anos, surgiu num blogue que o tempo há muito levou, subscrito por um pseudónimo coletivo que era então usado por alguns. O texto foi-me ontem lembrado e fui às catacumbas de uma “pendrive” para o desencantar.

Viviam-se os primeiros dias (e as primeiras noites, no Procópio) do primeiro governo Sócrates, em 2005. Freitas do Amaral tinha entrado para ministro dos Negócios Estrangeiros e, nessa noite, soube-se na Mesa Dois o Caetano iria assessorá-lo. O Caetano era “one of us” e, por isso, a sua nomeação não passou despercebida. Não assisti à cena que o tal blogue relatou, por viver, à época, no Brasil, pelo que não posso jurar sobre a sua verosimilhança.

Estava a Mesa Dois posta em sossego, de seus copos colhendo doce "fruito", quando a notícia explodiu, como uma bombarda das que o Carlos Antunes costumava pôr nos Unimogs destinados a combater os "turras", perdão, os Palop: o Caetano da Cunha Reis, o nosso Caetano das entradas tardias no Procópio, esse Afonso Henriques (o fundador...) da Juventude Centrista (onde ela vai, não é, ó Caetano ?), havia entrado para o aparelho do governo socialista. A dúvida instalou-se, célere como uma epidemia: "vai para o Ambiente ?" aventou o Luís Coimbra, coroado de inveja; "deve ir para o Desporto", rematou o João Paulo Bessa, ainda não refeito do trauma do Laurentino; "às tantas, dão-lhe alguma coisa na Comunicação Social", editou o João Paulo Guerra, já a ver-se exilado na liberal "Folha de Alvaiázere"; a Graça Vasconcelos ficou numa apoplexia, quase  a entrar de baixa autoridade; "qual quê, ele vai é para a Ciência !", lavrou a Sara, sob o sorriso esfíngico e ferroviário do António, figurando já o Caetano num cenário com o Gago, plantado entre nabos transgénicos. Quebrando este ambiente de angustiante dúvida, o Vilhena resmungou um comentário impublicável e fez mais uma das suas tradicionais retiradas diuréticas. O Zé Vera murmurou uma coisa cifrada a uma juíza de oportunidade, que trazia à ilharga desde a 13ª vara. O Nuno impavidou-se, num eloquente silêncio, por todos lido como assaz significativo. De pé, o Chico não confirmou, com o habitual acenar da poupa que lhe ficou como herança do IPE, se Belém teve alguma coisa a ver com a nomeação. Agitado, o Jójó saltou para telefonar ao Balsemão, o Solnado achou que era piada e, sem surpresas, o Zé Medeiros abençoou com um "não me parece mal, sendo amigo do Cruz..." Afastada por todos a ida para a "Qualidade de Vida", pasta que assentava que nem uma luva ao nosso Caetano (mas que o facto de ter sido assumida em acumulação pelo PM cessante deixava fora do âmbito das hipóteses), a verdade acabou por emergir como o azeite, dita pela sabedoria da Alice, que sempre bebe do fino (ou da imperial, tanto faz) : "O Diogo chamou o Caetano para as Necessidades" !!! A mesa estarreceu ! A Teresa só pôde balbuciar "Ó Luís, traga-me qualquer coisa, seja lá o que for!...", o Durão arfou um inconveniente "Porra ! Por esta é que eu não esperava !", o Zé Augusto deu-lhe uma urgência estefânica, e arrancou com a São e saiu à procura da confirmação da amiga Edite. O Luís, já batido por muitas noites da política da Dois, acantonou-se na "bilheteira" e começou a tirar as contas, porque a debandada crítica estava aí à bica. Aqueles a que alguns, pouco imaginativos e algo sardónicos, chamaram de "diplocópios" (ou pior, os diplomatas do Procópio), cujos nomes não pretendo revelar por razões que a razão óbvia das coisas torna dispensável, reagiram com assinalável garbo e proverbial prudência: "O Caetano no 3º andar ? Ora bem, vamos lá a ver, podia ser pior ...", insinuando logo alternativos tsunamis políticos que poderiam ter ocorrido e agregando de imediato a nova função, com estudada familiaridade, à geografia arquitectónica do poder na "casa". Mas deixemo-nos de histórias: para a História, Caetano da Cunha Reis está, de pedra e cal, no Ministério dos Estrangeiros, assessorando (em quê, Caetano, diz-nos já!) "o Diogo". Quando a classe “Navigator" lhe der folga, o nosso Caetano rumará uma noite da sala VIP da Portela para o Procópio (sempre tarde, que é como se entra...), requisitará um banquinho junto à Dois, dará um gole no JB* da praxe (“em balão, ó Luís!”) e amesquinhará os tais Diplocópios com um "estão vocês bem enganados, quem vai para Pyongiang afinal já não é o Meireles !". Ganda Caetano, agora passaste a "boy" ! Acautela-te nas bordas do Caldas, que os do taxi podem dar-te uma arrochada pela Madalena abaixo, qu'inda vais parar à Mouraria ! Mas olha, filho, ouve o que eu te digo: inda vais ser chorado... Um dia perceberás onde e porquê. Agora é cedo, melhor, já é tarde...

Este é o texto. Algumas referências podem ser crípticas para alguns, mas seria ocioso fazer aqui pés-de-página para explicar muitas das coisas e das pessoas que ali figuram. Fica assim, tal como saiu, esperando que o autor se dê ao trabalho de o reler. 

*Um dia, há muitos anos, perguntei ao Caetano se tinha achado graça ao texto: “Imensa! Tem, porém, um erro imperdoável: eu só bebo Bushmills, com duas pedras, nunca em balão”. Passei o recado ao escriba desatento. Nunca me respondeu.

domingo, setembro 20, 2020

Apoiar os restaurantes portugueses


Nestes tempos de pandemia, os restaurantes portugueses têm feito um esforço extraordinário para sobreviver, adotando regras de segurança sanitária, procurando manter a qualidade da oferta e do seu serviço, assim assegurando postos de trabalho, importantes para o sustento de muitas famílias. Apoiar a restauração portuguesa, que, nos últimos anos, tinha crescido em prestígio e afirmação, é algo que entendo deve continuar ser feito, promovendo quem honra o setor.

No meu blogue “Ponto Come” tenho divulgado alguns restaurantes a que vou regressando, neste período pós-confinamento. Trata-se de casas muito variadas, em várias zonas do país. Passe também por lá.

sábado, setembro 19, 2020

MRPP


Há 50 anos, em 18 de setembro de 1970, nascia o MRPP. 

Com exceção do MRPP, toda - repito, toda - a restante constelação de grupos marxistas-leninistas que viria a surgir em Portugal “descendeu”, por via direta ou enviezada, de um primeiro núcleo de dissidência “de esquerda” do PCP que foi o CMLP - Comité Marxista-Leninista Português. 

Um dos companheiros de Álvaro Cunhal na fuga de Peniche, Francisco Martins Rodrigues, protagonizou essa histórica dissidência que, em Portugal, tal como aconteceu em outros países, refletiu a conflitualidade sino-soviética, que se estabeleceu após o XX Congresso do PCUS, que consagrou a desestalinização.

O organograma dos MLs, como então chamávamos a um conjunto infinito de organizações que por aí andava, era de uma imensa complexidade. Se isso já confundia, e muito, os cudadãos portugueses no pós-25 de abril, a quem era muito difícil perceber a diferença entre o PCP-ML “fação Mendes” e o PCP-ML “fação Vilar”, bem mais confusos estavam, nos tempos da Revolução de 1974, os estrangeiros que nos procuravam, fosse por mero “turismo” político, fosse para reportar profissionalmente a “Revolução dos Cravos”. 

O José Rebelo, à época correspondente do “Le Monde”, em Portugal, recordar-se-á de uma longa e “pedagógica” conversa a que me chamou, num quarto do Hotel Mundial, com esse “monstro” do jornalismo político francês que era Marcel Niedergang, a quem eu procurei detalhar as diferenças e importância real de todas aquelas siglas. À época, eu era um “expert” autodidata nessa área. 

E recordo-me bem da surpresa do celebrado autor dos “Les Vingt Amériques Latines” quando lhe expliquei que o grupo ML mais “na moda”, que era o MRPP, que enchia as paredes de Lisboa com vistosos murais, pouco ou nada tinha a ver com a origem dos restantes grupos, em especial que não recebia qualquer apoio chinês (nem da Albânia), nem político nem em espécie.

O MRPP (Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado) surgira por uma via diferente. Lembro-me bem de ter detetado, no auge das polémicas emergentes nas reuniões oposicionistas no Palácio Fronteira, no caminho para as “eleições” do “marcelismo” que tiveram lugar em outubro de 1969, uma linha política “de novo tipo” (para usar um termo leninista), cujo discurso já então me soava a diferente do dos MLs tradicionais. 

Daí viria a surgir, como mais tarde se apurou, muito assente na Faculdade de Direito de Lisboa, aquilo que seria designada por EDE (Esquerda Democrática Estudantil), uma organizaçao que, durante muitos anos, o MRPP considerava insultuoso que pudesse ser identificado como sendo a sua origem. Mas foi. 

Era gente que já tinha andado pelo PCP, com atividade nas lutas universitárias e anti-coloniais, na esmagadora maioria dos casos estudantes e alguns escassos operários, numa época em que ter estes últimos nas hostes de qualquer grupo dava imenso “cachet” revolucionário. O MR, como simplificadamente nos referíamos então ao grupo, lá acabaria por ter os seus operários, e até alguma residual presença sindical.

O PCP viria a ser o principal ódio de estimação do MRPP. Nisso não se diferenciava muito dos restantes ML, que igualmente contestavam que o partido de Cunhal pudesse reivindicar o estatuto de ser o “partido comunista”. Mas enquanto alguns MLs já se consideravam a si próprios essa mesma “vanguarda da classe operária”, o MRPP afirmava que ainda não estavam criadas as condições, “objetivas e subjetivas”, para dar o passo para a criação do “verdadeiro partido da classe operária”.

Após ter sido criado em 1970, o MRPP foi progressivamente ganhando força junto de jovens setores intelectuais, bem como de uma juventude universitária, e mesmo liceal, que, “à esquerda” do PCP, se opunha à guerra colonial. O movimento não apenas se tornou na “bête noire” dos comunistas de Álvaro Cunhal como entraria em rápido confronto com os restantes ML, um conflito que chegou a assumir aspetos fisicamente violentos, anos mais tarde. Tinha então o seu famoso jornal “Luta Popular” e, como órgão teórico, o “Bandeira Vermelha” (sou proprietário de um exemplar do seu nº 1). Além disso, as suas múltiplas declinações sectoriais mantinham outros órgãos clandestinos de propaganda.

Por alturas do 25 de abril, o MRPP estava no auge das suas ações de rua. Manteve-se na clandestinidade, como algumas outras organizações congéneres, e confontrou-se com a ala do MFA que mais próximo estava do PCP. Fez então uma aliança tática com setores menos radicais das Forças Armadas e, sempre na sua lógica anti-PCP, assumiu uma prática política que o levou a muito polémicas ligações com setores conservadores (aliás, nada que o PCP-ML “fação Vilar” não tivesse também praticado). No período mais tenso do PREC de 1975, o MRPP esteve do lado do PS e do então PPD, “to say the least”.

Depois, ao ter sido impedido, por decisão política, de concorrer à Assembleia Constituinte, o MRPP iniciou o que viria a ser um percurso de crescente declínio. Daria ainda, no entanto, o passo político de se transformar formalmente em partido - o chamado PCTP-MRPP. 

Desde 1970, o líder incontestado do MRPP, e do partido em que este se transformaria, havia sido sempre Arnaldo Matos, um madeirense, licenciado em Direito, que advogou em Lisboa. Chegou a estar afastado alguns anos do partido, mas acabaria por regressar à respetiva liderança. Até à sua recente morte, manteve um registo de expressão discursiva que se colou à caricatura que a história política portuguesa dele guarda.

Os antigos militantes do MRPP tiveram destinos muito diversos. Como regra que pode ter a suas exceções, mas que a meu ver resiste bem ao teste, pode dizer-se que quem entrou para o MRPP antes do 25 de abril, quando a prioridade da sua luta era a ditadura e a recusa da guerra colonial, está hoje politicamente à esquerda, como é, por exemplo, o caso de Fernando Rosas. Quem se ligou ao movimento após o 25 de abril, e nele foi aculturado na luta contra o PCP, acabou, em geral, à direita. O exemplo mais flagrante deste último grupo de pessoas será Durão Barroso.

Uma coisa é certa: dos partidos que por aí andam, ainda que alguns num registo quase apenas formal, só emergindo nos períodos eleitorais, aparentemente para poderem manter a subvenção financeira estatal anual, o PCTP-MRPP é hoje o segundo mais antigo, depois do PCP. O PS só viria a surgir em 1973.

sexta-feira, setembro 18, 2020

Nos 81 anos de um grande Senhor

 


Conselho sobre a pandemia

Creio nunca por aqui ter dado o menor bitaite sobre o modo de encarar a pandemia. 

Hoje decidi romper com essa atitude e oferecer, finalmente, um conselho técnico: cuidem-se!

Doutrina dividida


De há muito que, cá por casa, a doutrina se divide. Eu gosto de ver folhas secas caídas sobre a relva, ao mesmo tempo que há quem deteste esse cenário de clima declinante, que parece que “polui” o verde. Eu entendo que a chegada do outono e da chuva me dá um alibi mais para gozar o conforto caseiro, essa perspetiva contrapõe-se à de quem gosta do sol e dos dias cálidos, para sair por aí. Às vezes concedo, só que logo se abre um novo “chantier” de debate: há quem prefira andar a pé, eu inclino-me para “andar” bem sentado no carro. É um debate antigo, com décadas. Porém, enquanto as divergências forem só estas...

“Mesa Marcada”


“Mesa Marcada” é, desde há vários anos, o mais importante site de informação e comentário sobre restaurantes em Portugal. 

Dirigido por Duarte Calvão e Miguel Pires, por ali tem sido acompanhada a fantástica evolução que, nos últimos anos, se processou na oferta restaurativa nacional, com particular destaque para a área da “alta gastronomia”, onde Portugal começou a “dar cartas”.

Neste que está a ser um tempo muito difícil para os restaurantes portugueses, parte dos quais fortemente afetada pelo recuo do mercado turístico, o “Mesa Marcada”, com um belo e novo “endereço”, a que pode chegar clicando aqui, ajuda a manter a atenção sobre este importante setor económico nacional, do qual dependem muitos milhares de empregos e a sobrevivência de imensas famílias.

Os restaurantes portugueses estão a fazer um esforço notável, sem recuo na qualidade e no serviço, e tentando seguir, como regra geral, estritas condições sanitárias, para conseguirem atravessar este tempo de crise. 

Continuar a frequentar os restaurantes é ajudar a manter vivo um setor que faz parte da nossa cultura nacional. É imperativo não deixar que a conjuntura da pandemia destrua o processo de afirmação da identidade da gastronomia que hoje se pratica em Portugal, como internacionalmente é crescentemente reconhecido.

Parabéns ao “Mesa Marcada” por ter tido o sentido de responsabilidade de saber renovar-se, precisamente neste tempo complexo e exigente.

quinta-feira, setembro 17, 2020

IV Conferência de Lisboa

 


Gostam do cartaz da IV Conferência de Lisboa? Porque não se inscrevem e participam? 

Saber ler


Há dias, publiquei por aqui uma frase comentando que a mediocridade temia a competência, referindo-me à jornalista Cândida Pinto.

Por misteriosas razões, os chamados “precários” da RTP, um grupo de profissionais que pretende a integração nos quadros da empresa, entenderam (!!!) que o meu comentário lhes era dirigido. E daí a enveredarem por comentários insultuosos o passo foi pequeno.

Se acaso estivessem um pouco mais atentos à realidade, esses “precários” teriam percebido aquilo que eu quis dizer no meu post nem por sombras lhes respeitava. Saber ler é uma virtude.

Zé de Bragança


Zé de Bragança é o pseudónimo que o advogado José Luis Seixas (não, não é parente!) utiliza, desde há muitos anos, para escrever deliciosas crónicas na imprensa. 

São notas do quotidiano e reflexões sobre a sociedade portuguesa, com muito humor e ironia, servidas por uma excelente escrita - culta, rica, ritmada, apelativa. Corajoso na afirmação das suas ideias, muitas das quais fora do “mainstream” do “politicamente correto”, com caricaturas fortes de algumas figuras e figurões da praça, os textos são um retrato, num tom que nem por ser divertido deixa de ser sério, sobre o Portugal que por aí anda. 

Vivendo em Lisboa, com Bragança no coração, o Zé Luís, aliás, o Zé de Bragança, tem um olhar sempre empenhado, e por isso também sofrido, sobre a sociedade em que vivemos - da política ao futebol, dos costumes às ideias em voga.

Agora, decidiu juntar alguns desses textos num livro editado pela Horizonte, prefaciado por Isabel Stilwell, que ontem foi lançado, embora sob fortes restrições pandémicas, no belo jardim do Palácio Galveias. 

Tive um imenso gosto de intervir, ao lado do professor Ernesto Rodrigues, na apresentação deste livro do meu querido amigo José Luís Seixas.

(Quem tiver interesse em ler o texto da minha apresentação pode fazê-lo aqui.)

Tempus fugit

Com todo o respeito que uma declaração ministerial sempre deve merecer em democracia, por que será que está instalada na opinião pública uma...