Cumprindo o que disse na noite eleitoral, Pedro Nuno Santos saiu hoje da liderança do Partido Socialista. O PS vai ter de refazer o seu futuro imediato sem ele. O nome de José Luís Carneiro, que tinha ficado em segundo lugar na anterior escolha interna, para a substituição de António Costa, surge como a hipótese mais provável para titular o novo ciclo. Sem oposição? Ainda não se sabe, mas se ela vier a surgir o processo correrá com normalidade. Esta é a lógica serena de um grande partido democrático em democracia.
Estes momentos de mudança, propulsionados pelo voto popular, forçam a uma reflexão. Mais do que qualquer outra formação política, o PS tem de fazê-la. Os factos obrigam o partido a preparar-se para o novo tempo, com as "lessons learned" do passado. Aliás, o tema dessa reflexão é a resposta a uma questão imperativa: que aconteceu a um partido que, em menos de dois anos, passou de uma sólida maioria absoluta para um terceiro lugar no parlamento?
Toda a gente tem explicações, mais ou menos adjetivadas, mais ou menos fulanizadas nas responsabilidades, para esta pergunta. Certas ou erradas, eu tenho as minhas. E faço já uma declaração de interesses: fui um dos derrotados no dia 18 de maio e tudo farei, naquilo em que puder ajudar, para criar condições para o reforço do Partido Socialista no futuro.
Pedro Nuno Santos substituiu António Costa com toda a naturalidade. Contrariamente à diabolização que a direita dele fez - e essa era uma excelente medalha que ele trazia ao peito - ele tinha sido, embora com alguns erros cometidos, um bom ministro. Tinha trabalhado dentro do partido para suceder a António Costa e o PS confiou maioritariamente nele. Pedro Nuno Santos é, contudo, o produto político de uma ilusão.
Em 2015, o Partido Socialista tinha chegado ao poder, de uma forma pouco comum na prática portuguesa, não sendo o partido mais votado. Mas António Costa, com toda a legitimidade, depois de Passos Coelho não ter conseguido convencer a Assembleia da República, formou um governo com apoio parlamentar de dois partidos à sua esquerda. Fê-lo com vista a uma governação destinada a repor, com sabedoria e sem extremismos, a normalidade em muitas políticas, que a "troika" tinha mudado de forma violenta. A Geringonça foi uma fórmula política pontual, que provou ter eficácia, razoabilidade e apoio popular. Pedro Nuno Santos, na pasta dos Assuntos Parlamentares, foi a cara dessa solução.
A Geringonça faliu ao fim da primeira legislatura. Os comunistas e o Bloco perceberam que António Costa tinha capitalizado em favor do PS a simpatia que a Geringonça tinha suscitado. E esgotada que tinha sido a agenda de 2015, e não estando António Costa disponível para ir além da reversão do essencial da agenda da "troika", os dois partidos à esquerda do PS não apenas mostraram indisponibilidade para renovar, num registo de mínimos, uma aliança que os estava a "grelhar", como caíram na patetice de não aprovar o orçamento que o novo governo minoritário do PS tinha apresentado.
As novas eleições que se seguiram deram razão a António Costa e deram uma maioria absoluta ao PS. Pelo meio tinha havido uma pandemia que mostrara ao país o perfil de estadista de António Costa. Pedro Nuno Santos é um "general" dessas tropas. Mas não era só isso: era um "viúvo" da Geringonça. E essa é a tal grande ilusão.
O país pode ter gostado da Geringonça no período em que ela foi criada, tendo ela sido a cara de uma política que desfizera, com responsabilidade, o que a "troika" tinha imposto. Mas alguma água tinha entretanto corrido sob as pontes: a fórmula cheirava a passado.
O Bloco mostrou evoluir para uma matriz ideológica algo agressiva, frequentemente paternalista (ou maternalista...), investindo numa agenda de políticas de nicho e de exploração de temáticas identitárias que, sendo porventura respeitáveis, não eram necessariamente populares. A sua mudança de liderança também não ajudou a tornar a proposta mais apelativa, "to say the least".
O PCP afundou-se na simpatia popular com o seu seguidismo face a Moscovo na questão ucraniana, num tempo em que o país tinha optado sentimentalmente por Zelensky. O seu novo líder tem um estilo simpático de homem comum mas, como pretendem os nostálgicos que alinham naquela "igreja", foi escolhido precisamente para não trazer nada de novo.
Pedro Nuno Santos tentou retomar a ideia da Geringonça, com estas suas novas derivas? Claro que não, mas, no imaginário de muita gente, ele continuou a ser "o socialista da Geringonça" e, com ele na liderança, o PS passou a ser, para alguns, o partido que só não reeditou a Geringonça porque não teve condições para tal. E a Geringonça já tinha, há muito, deixado de ser popular.
Além disso, o estilo público de Pedro Nuno Santos, que inteligentemente ele procurou suavizar, ainda surgiu marcado por um tom algo agreste, de uma espécie de "jota" escassamente amadurecido. E não teve tempo para reverter essa imagem, que a mim sempre me pareceu ter algo de bastante injusto. Repito o que disse atrás: Pedro Nuno Santos foi um governante de qualidade, a que é justo creditar um bom trabalho na área das Infraestruturas, não obstante algumas trapalhadas que não o ajudaram a acelerar a construção de uma imagem de Estado.
O apreciável resultado que tinha tido nas eleições de 2024 podem ter contribuído para Pedro Nuno Santos entender que estavam ultrapassados, no eleitorado, esses preconceitos a seu respeito. Não estavam. E num ambiente de crispada bipolaração, essa perceção negativa em seu desfavor acentuou-se.
O país só foi entretanto a votos porque Pedro Nuno Santos assim o quis. E essa, no domínio das culpas daquilo que aconteceu, é uma culpa apenas sua. O PS não devia ter caído na esparrela armada pelo primeiro-ministro, ao apresentar uma moção oportunista de confiança. E devia ter desmontado o "bluff" de Luís Montenegro, dizendo: "O primeiro-ministro quer um pretexto para ter eleições e quer embrulhar as trapalhadas éticas em que está envolvido numa moção de confiança. O PS não lhe dá essa oportunidade: por isso, não cai nessa esparrela, abstem-se na sua votação na Assembleia da República e avança para uma comissão parlamentar de inquérito onde tudo será devidamente esclarecido".
O que teria acontecido, se Pedro Nuno Santos tivesse procedido dessa forma? Montenegro estaria agora fragilizado, entre a espada e a comissão de inquérito, o PS mantinha um número de deputados igual ao PSD e a extrema-direita mantinha o peso que tinha.
Depois, na inevitabilidade de eleições, o PS que Pedro Nuno Santos liderou não soube ler o país que ia votar em 18 de maio. Não apresentou políticas minimamente motivantes para setores de um eleitorado que, entretanto, se tinha deslocado para um terreno tomado por uma agenda de preocupações e de desencanto muito diversa das de um passado recente. A proposta socialista foi um pouco mais do mesmo, a que foram acrescentados uns pozinhos de novidade escassamente mobilizadora. E foi o que se viu.
Pedro Nuno Santos fez, entretanto, uma campanha eleitoral quase monotemática, não entendendo que o país vivia já num ambiente de amoralidade política que não iria punir excessivamente Montenegro.
Com esses seus erros, e por essas razões, as coisas são hoje o que são. Essa é a sua culpa e, por isso, fez bem em sair. E esta é a minha opinião.
(Em tempo: para que se não diga que fiz "prognósticos depois do jogo", deixo aqui isto, escrito em 8 de março passado.)

