... é como quem não vê, sempre ouvi dizer. Ontem, no Museu da Cidade, tive oportunidade de recordar a grande verdade por detrás desta expressão.
Há muitos anos, na casa de um tio para a qual fui viver quando vim estudar para Lisboa, havia um album fotográfico sobre Lisboa. Estava sobre a mesa de uma sala e recordo-me bem de, ao folheá-lo, ter uma sensação estranha. As fotografias eram sobre pessoas de Lisboa, tiradas em diferentes cenários, especialmente em bairros populares. Eram caras e casas que, contudo, estavam retratadas de um modo que então me não era “confortável”. Nalgumas imagens havia um excesso de exposição, noutras desfocagens e enquadramentos que me pareciam descuidados, também duplas imagens e coisas assim - isto é, precisamente o contrário daquelas fotos “certinhas”, muito SNI, das varinas a fadistas, de degraus de escadas a janelas a emoldurar caras com que a Lisboa a-preto-e-branco nos era regularmente apresentada.
Na altura, confesso, o álbum não me impressionou. Ou melhor, deixou-me uma impressão estranha. Porque o não percebi, porque a minha cultura estética não estava preparada para o entender.
Alguns anos mais tarde, o livro veio parar-me de novo às mãos e, confesso, foi um deslumbre. O caráter quase “subversivo” das imagens, precisamente porque desviantes face à “caricatura” oficiosa da capital, davam-lhes uma luz nova, uma perspetiva muito mais rica. Foi só então que também li o livro, porque nele não há só imagens, há também magníficos textos de autores consagrados da literatura - alguns dos quais escritos propositadamente para aquela edição. De 1959!
Agora, o Museu da Cidade, reapresenta o livro, “Lisboa, Cidade Triste e Alegre”, da autoria dos arquitetos Victor Palla e Costa Martins, através de uma exposição que realça algumas das suas imagens mais marcantes e nos ajuda a melhor contextualizar a sua conceção. Ontem, ganhei o dia!