segunda-feira, 4 de junho de 2018

Quem não sabe...


... é como quem não vê, sempre ouvi dizer. Ontem, no Museu da Cidade, tive oportunidade de recordar a grande verdade por detrás desta expressão.

Há muitos anos, na casa de um tio para a qual fui viver quando vim estudar para Lisboa, havia um album fotográfico sobre Lisboa. Estava sobre a mesa de uma sala e recordo-me bem de, ao folheá-lo, ter uma sensação estranha. As fotografias eram sobre pessoas de Lisboa, tiradas em diferentes cenários, especialmente em bairros populares. Eram caras e casas que, contudo, estavam retratadas de um modo que então me não era “confortável”. Nalgumas imagens havia um excesso de exposição, noutras desfocagens e enquadramentos que me pareciam descuidados, também duplas imagens e coisas assim - isto é, precisamente o contrário daquelas fotos “certinhas”, muito SNI, das varinas a fadistas, de degraus de escadas a janelas a emoldurar caras com que a Lisboa a-preto-e-branco nos era regularmente apresentada.

Na altura, confesso, o álbum não me impressionou. Ou melhor, deixou-me uma impressão estranha. Porque o não percebi, porque a minha cultura estética não estava preparada para o entender. 

Alguns anos mais tarde, o livro veio parar-me de novo às mãos e, confesso, foi um deslumbre. O caráter quase “subversivo” das imagens, precisamente porque desviantes face à “caricatura” oficiosa da capital, davam-lhes uma luz nova, uma perspetiva muito mais rica. Foi só então que também li o livro, porque nele não há só imagens, há também magníficos textos de autores consagrados da literatura - alguns dos quais escritos propositadamente para aquela edição. De 1959!

Agora, o Museu da Cidade, reapresenta o livro, “Lisboa, Cidade Triste e Alegre”, da autoria dos arquitetos Victor Palla e Costa Martins, através de uma exposição que realça algumas das suas imagens mais marcantes e nos ajuda a melhor contextualizar a sua conceção. Ontem, ganhei o dia!

2 comentários:

Anónimo disse...

Já vi como não podia deixar de ser.Notável. Como foi possível, naqueles anos de chumbo editar um tal documento sobre a verdade da nossa cidade?

Anónimo disse...

Mas...
Quantos anos passaram. Meio século...
Nunca viram fotografias de Bruxelas, Londres, Paris, ou Madrid ou a tão falada Roma desta altura? já nem pergunto se conheceram estas cidades ao vivo e a cores.
Seriam anos de chumbo para toda a gente? ou seria um mundo antigo apenas.
Os autores eram do reviralho e por isso até fizeram photo-shop para demonstrarem a miséria mais profunda.
Este post parece propaganda dos tempos actuais mas....