sexta-feira, 8 de junho de 2018

Carlucci


Há dias, uma televisão convidou-me a dar um testemunho, por ocasião da morte de Frank Carlucci, o embaixador que os americanos enviaram para Portugal, alguns meses depois do 25 de abril. Agradeci, mas não aceitei. 

Faço parte de uma geração que, por algum tempo, viveu com a imagem regular de Carlucci na nossa (à época única) televisão. Aquela figura de rictus estranho, com umas patilhas de forcado, foi então uma espécie de vedeta nacional. Eu já era diplomata e tenho bem presente a sua importância na sociedade política portuguesa. 

Segundo alguns historiadores, Carlucci terá convencido o chefe da diplomacia do presidente Nixon, Henry Kissinger, de que a deriva revolucionária portuguesa, subsequente ao 25 de abril, não condenava necessariamente o país a converter-se numa república socialista radical, que este via como uma espécie inevitável de “vacina” para a Europa ocidental. Para o embaixador, havia a opção de apoiar os líderes dos partidos moderados, tentando, com a ajuda de regimes pluralistas europeus, promover a instauração da democracia no país. O facto de isso ter assim sucedido é tido por muitos a crédito de Carlucci.

Por este facto, Carlucci transformou-se, aos olhos de alguns, num “herói” da democracia portuguesa, uma espécie de “santo padroeiro” do 25 de novembro. E os descendentes políticos dessa gratidão apresentaram, na Assembleia da República, votos (diferenciados) de pesar pelo passamento do político americano. Esse voto tem de ser respeitado. Quero, porém, deixar aqui claro que, se acaso fosse deputado, não me teria associado a ele, abstendo-me ou saindo da sala. Porquê? Porque não aplaudo cínicos.

Frank Carlucci apoiou os democratas portugueses, não pelo sentido humanista decorrente de uma opção a favor da vida política em liberdade no nosso país, mas exclusivamente porque esse era o interesse geo-estratégico americano de ocasião. Mas não será isto um preconceito? Não creio. Em outras ocasiões, a História prova que o mesmo Frank Carlucci deu apoio, claro e deliberado, a golpes políticos conducentes à instauração de ditaduras e regimes opressivos noutras partes do mundo. Com orgulho declarado e sem o menor remorso.

Aliás, não é necessário ir muito longe para constatar essa duplicidade: a mesma administração americana que enviou Carlucci, para substituir um diplomata que não tinha “visto chegar” a Revolução cujas consequências pretendia combater, era precisamente a que até então se mostrara plenamente confortável com o regime ditatorial de Marcelo Caetano.

Desejo assim que Carlucci descanse em paz. Nada mais.

9 comentários:

Anónimo disse...

Pois...
Temos de nos lembrar que os EUA são nossos vizinhos para além do oceano.
Parece que se andarmos a direito no oceano vamos esbarrar com NY de caras.
Também temos de nos lembrar que se, enquanto a Europa não nos tivesse dado a mão, ninguém, mesmo ninguém, pensava que fosse posivel sobrevivermos sem as economias feitas no tempo da outra senhora que nos aguentou face ás nacionalizações, ocupações e outras que tais, as quais nem é bom de lembrar. É documentação classificada.
Ninguém nos dava crédito nem nos vendiam produtos de qualidade por receio de não lhes pagarmos. Ficámos assim um país como os de África mas sem diamantes, metais raros e petróleo.
Agora que o Carlucci deve ter culpas no cartório por ter feito abortar a revolução, ninguém lhas tira.
Para o bem e para o mal.
E por isso há os que o louvam e há os que o odeiam de morte.
E logo se percebe de que lado ainda estão.

Anónimo disse...

continuando o meu posto anterior:
Sou anónimo militante se eles os houver.

carlos cardoso disse...

Começo por dizer que o facto de esse senhor ter dado "apoio, claro e deliberado, a golpes políticos conducentes à instauração de ditaduras e regimes opressivos noutras partes do mundo" é mais que suficiente para eu partilhar a antipatia que o Embaixador mostra por ele.

No entanto parece-me normal e não forçosamente cínico que um diplomata ponha "o interesse geo-estratégico" do país que representa à frente das suas opções pessoais.

Finalmente, parece-me que quase todas as administrações se mostraram mais ou menos confortáveis com quase todas as ditaduras do passado, até num passado bem mais recente que o de Marcelo Caetano.

Anónimo disse...

guiné equatorial? angola? como olharão de lá para cá?

Anónimo disse...

E se fosse um voto de pesar pelo Cunhal o senhor também teria saído da sala?

Anónimo disse...

simples

os eua não teem amigos,
teem interesses
embora por vezes tenham interesse em ter amigos

Joaquim de Freitas disse...

Vai encontrar no outro mundo, alguém que ele conheceu bem no Congo em 1961, e que por acaso foi assassinado enquanto Carlucci se encontrava no país: Patrice Lumumba…que teve o desplante de levar o Congo à independência… Isso não se perdoa! Como não se perdoou a Fidel Castro pelas mesmas razoes. Mas este, apesar das dezenas de tentativas, tinha a sorte de viver numa ilha… Era mais difícil de atingir!

Anónimo disse...

Um excelente comentário. O igualmente excelente Blogue "Entre as Brumas da Memória" cita-o e transcreve este seu excelente Post. Subscrevo inteiramente a sua opinião. Assim como a posição de, caso fosse deputado, sair da sala , ou abster-se/me.
Boa noite!

Anónimo disse...


É uma opinião muito extraordinária num diplomata porque, cito o precedente Carlos Cardoso:

parece "normal e não forçosamente cínico que um diplomata ponha "o interesse geo-estratégico" do país que representa à frente das suas opções pessoais."

João Vieira