segunda-feira, 11 de junho de 2018

Retrato de grupo com alguém sentado




A fotografia de Trump, sentado, tendo à volta os restantes líderes do G7, é magnífica, porque revela muito daquilo que foi o ambiente naquela reunião. 

Num registo diferente, lembrou-me uma cena passada na madrugada final da longa negociação do Tratado de Nice, em dezembro de 2000. 

Tinhamos passado dezenas de horas a debater os votos e os deputados europeus atribuídos a cada país. Uma discussão dura e complicada, em que António Guterres lutou até obter tudo, repito, tudo quanto considerou indispensável para a defesa dos interesses portugueses. Nem todos saíram daquela negociação tão satisfeitos como nós.

De súbito, lá para as cinco da manhã, quando tudo parecia apontar para um acordo “a quinze”, o primeiro-ministro belga, Guy Verhofstadt, pediu a palavra, para grande desespero de Jacques Chirac, que presidia à sessão, ladeado por um impassível Lionel Jospin e pelo MNE francês, Hubert Védrine, quase vencido pelo sono. O chefe do governo belga propunha que os conselhos europeus passassem a ter lugar, mais regularmente, em Bruxelas. E sugeria uma reabertura de alguns pontos, para além do ali acordado, aquilo que um ano depois viria ser a “declaração de Læken”. Chirac resistiu mas o líder belga, visivelmente pressionado pelo seu ministro dos Negócios Estrangeiros, Louis Michel, pediu uma suspensão da sessão. E foi para um “confessionário” (como no “argot” multilateral se designam os encontros restritos) com Chirac, com este acompanhado pelo indispensável secretário-geral adjunto do Conselho da UE, Pierre de Boissieu, o seu braço direito nesses dias negociais.

Minutos depois, vimos Chirac, fumegando de visível raiva, atravessar a sala, seguido de Verhofstadt. Com a sessão interrompida, os primeiros-ministros e os ministros tinham-se juntado em grupos. Um desses grupos formou-se à volta da delegação belga, discutindo os termos da proposta que obrigara àquela pausa. Eu estava por ali, discreto, para tentar perceber melhor o que os belgas realmente queriam. No centro desse grupo, sentado de costas para a mesa, estava o MNE Louis Michel. 

Chirac aproximou-se então e, confesso, quando vi a sua mão agitada no ar, pensei que ia bater em Michel, o único que estava sentado. (Daí a similitude com a fotografia do G7). “C’est vous! Vous êtes le coupable!”, gritou Chirac para Michel. Este tentou levantar-se, retorquindo qualquer coisa, mas o gigante Chirac, que parecia ainda maior perante a figura espalmada na cadeira à sua frente, não lhe dava espaço para recuperar a posição vertical. E a mão do presidente francês, com um dedo acusatório espetado, vogava já a centímetros da barba de um acossado Louis Michel. Chirac, na conversa com Verhofstadt, deve ter sabido que a exigência belga de última hora, que ameaçava a preciosa unanimidade que ele laboriosamente conseguira, era culpa do ministro dos Negócios Estrangeiros. 

Já não sei como as coisas acabaram, mas Chirac lá retomou a presidência da reunião, Michel não foi esbofeteado e nós pudémos, finalmente, fechar aquela interminável negociação.

Na foto, Trump não está a ser ameaçado de levar um par de estalos. Mas, estou certo, no grupo da foto haveria quem muito gostaria de lhos dar. Um grupo em que a única pessoa comum com a reunião de Nice é o presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker.

5 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

"O círculo silencioso de consentimento. O chefe no completo controle. Os juramentos de lealdade. Os Estados Unidos contra o resto do mundo. Mentir sobre tudo, coisas grandes e pequenas, a serviço de um código de lealdade que coloca a organização acima da moralidade e da verdade”.Como na Máfia.

Comey escreveu no seu livro, que Trump vive “ num casulo de realidade alternativa”, para o qual tenta atrair outras pessoas.

Quando recentemente, num "Tweet" , diz ter o direito, como presidente, de se conceder a "Graça Presidencial" para os crimes que lhe pendem no nariz, demonstra que não tem ética e está desconectado da verdade e dos valores institucionais.

E na foto, este indivíduo, que representa a democracia americana, deixou os representantes das outras seis democracias aliadas com um documento que assinou, e que renegou no espaço de duas horas… a partir do avião, no qual vai encontrar um ditador.

Mais que nunca, a palavra dos EUA não tem fiabilidade onde quer que seja.

Não teve com Gorbatchev, quando Reagan prometeu que a NATO não avançaria dum metro, após o desmantelamento do Pacto de Varsóvia.

Não teve com a assinatura do Acordo de Paris, sobre o clima.

Não teve com o Acordo Nuclear com o Irão.

Tenho a certeza que a Coreia do Norte não dará o mínimo valor a um acordo eventual com Trump, e conservará as suas bombas nucleares.

Também porque Trump conservará as suas na Coreia do Sul e no Japão…mesmo se promete o contrário.

Porque não quer uma Península Coreana reunificada, de qualquer maneira, como a China…aliás!

De qualquer maneira, Trump não tem nenhum plano… a longo prazo. Joga um golpe após golpe, como no poker, e agirá segundo o resultado.

Anónimo disse...

O Juncker prefere os copos!

Luís Lavoura disse...

A fotografia de Trump, sentado, tendo à volta os restantes líderes do G7, é magnífica, porque revela muito daquilo que foi o ambiente naquela reunião.

Uma fotografia não revela absolutamente nada. Capta um momento, não um processo. E a partir de uma determinada perspetiva.

Veja o Francisco a fascinante história da célebre fotografia "Americana em Itália, Florença 1951" e de todas as especulações falsas que à volta dela foram tecidas.

Anónimo disse...

A esquerdalha põe estraves e defeitos em tudo o que os outros fazem, enquanto o Trump resolve.
É como o museu do "colonialismo da tortura português", como se o resto do mundo tivesse feito melhor ou sequer igual!

Anónimo disse...



Sei que não aprecia links mas não tenho outro remédio:


https://twitchy.com/samj-3930/2018/06/11/well-whaddya-know-take-a-look-at-the-g-7-trumpmerkel-pic-the-media-doesnt-want-you-to-see/