sexta-feira, 1 de junho de 2018

A Europa de Bruxelas


Há a Europa e há a Europa de Bruxelas. Esta última é um corpo mais ou menos organizado que tem como cultura comum uma certa ideia evolutiva do projeto europeu. Essa cultura, decantada ao longo décadas, atravessa grande parte do funcionalismo da máquina europeia, a qual, sem o dizer, se considera ungida da missão de levar à prática uma espécie de desígnio “do bem”, cuja finalidade não é explicitada e que só é debatida na metodologia. Aliás, as mais das vezes, o objetivo final não é sequer referido, para evitar espantar a caça. De certo modo, esse projeto europeu funciona na lógica do socialismo reformista de Bernstein: “o movimento é tudo, o fim é nada”. Em português simplório é o “vamos andando e depois logo se vê”.

Há duas palavras-chave no glossário dessa ideologia. E há uma não-palavra que raramente é pronunciada. 

A primeira palavra é “ambição”. Na novilíngua da Rue de la Loi (rua de Bruxelas onde estão muitas das instituições), uma proposta tem mais ou menos “ambição” na razão direta da transferência de poderes que, através da sua eventual aprovação, se processa da esfera nacional para a máquina bruxelense. Dependendo do “l’air du temps”, os ventos estão mais ou menos favoráveis a esse desígnio centralista. Às vezes, o facto da opinião pública em alguns países estar “recuada” impede que a “ambição” possa colher apoio suficiente para conduzir as decisões a bom porto. Aumentar o número de decisões por maioria qualificada, evitando o irritante empecilho da unanimidade, é o caminho para que a “ambição” se concretize com mais facilidade.

Ligada à “ambição” surge a palavra “eficácia”, que designa o grau de operatividade que uma medida pode trazer à “ambição”. A eficácia é o conceito motor por detrás da propositura de muita da legislação ou regulamentação europeia. É “eficaz” aquilo que contorna os mecanismos que atrasam a implementação das medidas. Os parlamentos nacionais são vistos por essa cultura europeia como obstáculos irritantes à eficácia das medidas. E até o Parlamento Europeu, que no passado era um inóquo “compagnon de route” dos promotores da “ambição”, passou frequentemente a ser “parte do problema”, quando obteve mais poderes e responsabilidades.

O drama europeu é que os promotores das medidas com “eficácia”, que têm como finalidade dar corpo à “ambição’, fogem como o diabo da cruz da tal não-palavra incómoda, raramente pronunciada nesses meios, que é a “legitimidade”. Também por isso é que o Brexit aconteceu, que a recusa da “ambição” é cada vez maior, que a Itália reage como reage.

Por graça, há alguns anos, dizia-se que se a União Europeia pedisse adesão ... à União Europeia, receberia um rotundo não, porque o seu grau de democraticidade era insuficiente para ser aceite. Será verdade? 

3 comentários:

Anónimo disse...

Mas agora que o socialismo está implantado e bem, no Sul da Europa, vamos ver que o mundo será muito melhor porque, enfim, a Europa também será acompanhada por outras "geringonças" em todos os países.
Agora é que vamos ver como vai ser-se republicano e socialista dos quatro costados.
É o regime do futuro, onde cantarão as manhãs de glória até ao anoitecer.
Estamos no bom caminho para.....

Luís Lavoura disse...

Também por isso é que o Brexit aconteceu

Tem a certeza?

A mim parece-me que, se os britânicos votaram a favor do Brexit, isso não se deveu em grande parte à falta de legitimidade das instituições europeias. Os britânicos não votaram dessa forma devido à falta de democraticidade das instituições bruxelenses mas sim devido ao facto de não gostarem de ser governados por elas - sejam elas democráticas ou não sejam. E votaram porque não gostam do resultado dessa governação, em particular a abundante migração para o Reino Unido - mais uma vez, um resultado que nada tem a ver com a "eficácia" nem com a "ambição" das instituições europeias.

Os britânicos votaram pelo Brexit pela simples e fundamental razão de que nunca estiveram muito a favor da União Europeia - independentemente das suas ambição e eficácia. Eles consideram-se diferentes e independentes da Europa e portanto querem manter-se à parte dela.

Joaquim de Freitas disse...

Pois é, isto é o fim do mundo…prometido por Trump quando foi eleito. Destruir o projecto europeu, esta EU que segundo Trump é o veículo da potência alemã. Na verdade ele suporta mal que os alemães exportem 20 000 milhões de euros de automóveis para os EUA…entre outros…

Trump é um populista de grande gabarito… e é bem capaz de pôr em prática o seu programa …populista!
Considerou o RU muito inteligente, de ter ousado o “Brexit” e espera bem que outros países europeus a imitarão…Acabou-se a ordem liberal internacional, da qual foram os fundadores. E fora com TTIP ..

Mas não nos podemos admirar : os EUA sempre agiram assim, brutalmente, para salvaguardar os seus interesses.
Quem não se recorda que em 15 de Setembro de 1970, onze dias após a eleição de Salvador Allende, o presidente Richard Nixon, em 15 minutos numa reunião com Henry Kissinger, ordenou que a CIA fizesse “gemer”" a economia chilena. Em 11 de Setembro de 1973, Allende foi derrubado...

Em 1985, Ronald Reagan afirma que a Nicarágua Sandinista "é uma ameaça para os Estados Unidos" e, em 1 de Maio, anuncia um embargo total, semelhante ao imposto sobre Cuba. A partir do Honduras e da Costa Rica, o "contra", organizado e financiado pela CIA, semeia a morte na Nicarágua.

Após o golpe de estado fracassado de 2002, a desestabilização económica e a tentativa de derrubar o Presidente Nicola Maduro é conduzida desde Fevereiro de 2014...
... Em 9 de Março de 2015, Barack Obama declarou "o estado de emergência nacional" em face da "ameaça incomum e extraordinária" que representa...a Venezuela "para a segurança nacional e política externa dos Estados Unidos".

A Europa é um naco um pouco maior que os países latino americanos, mas a dependência é a mesma.

De facto, ao anular o acordo nuclear iraniano Trump tinha o objectivo de travar e humilhar o desafio europeu da dominação dos EUA, que começou a exprimir-se cada vez mais abertamente, desde que ele chegou à Casa Branca;

A Europa não está pronta nem disposta a emancipar-se da tutela americana. Isso, Trump rapidamente o detectou e empurrou os seus peões para a meter na ordem da Pax Americana.

E a Alemanha, porque é a mais vulnerável na eventual guerra comercial, vai tentar negociar. E “tant pis” para a Europa.