domingo, 3 de junho de 2018

Heysel


Há pouco, ao ver o pacífico Bélgica-Portugal no estádio Rei Balduíno, em Bruxelas, tive um pressentimento e fui ao Google. O meu pressentimento estava certo: de facto aquele era o estádio Heysel, onde, em maio de 1985, tinham morrido esmagadas quatro dezenas de pessoas e muitas centenas haviam ficado feridas, entre os adeptos da Juventus e do Liverpool, no final de uma taça europeia.

Eu vivia então em Luanda. No 14° ou 15° andar do “prédio do livro”, em casa da Élia Rodrigues, adida comercial da embaixada, tinhamo-nos juntado, numa jantarada de amigos, para ver o jogo, num aparelho pequeno, a preto e branco. O elevador estava avariado e nós, com calma (e com outra idade) lá tinhamos subido a pé todos aqueles andares. Nada de raro, numa Luanda onde o arranjo dos elevadores estava bem no fundo das prioridades locais. Já com os bofes de fora, desaguámos na casa da Élia, onde umas cervejolas acabaram por atenuar o esforço. 

Diga-se que cerveja e whisky, e muitas vezes gin, eram o nosso “alimento” líquido nesses encontros, entre muita conversa solta e saudável amizade. Assim nos compensávamos, por umas horas, de um quotidiano tenso, numa cidade sitiada, com recolher obrigatório, quase sem comércio ou restaurantes, um zero na oferta cultural. Valia-nos assim o frequente convívio, onde partilhávamos o que, com dificuldade, conseguíamos arranjar para o nosso sustento diário. Paradoxalmente, visto de agora, foi um belo tempo.

Recordo-me que, nessa noite, não tivemos a dimensão da tragédia que tinha ocorrido em Heysel. As pobres imagens televisivas reproduzidas pela TPA, sem jornalismo adequado, não deram conta clara do que se passava. Só a audição da ”onda curta” da BBC World Service e, dias depois, a chegada pela “mala diplomática” dos jornais internacionais, deu para nos apercebemos melhor do acontecido.

Uns anos mais tarde, em Bruxelas, passei junto ao estádio. Estava fechado (esteve-o, creio, muitos anos), parecia ter-se convertido um memorial àquilo que acontecera no seu seio. Depois, terá sido recuperado. 

Ontem, Portugal empatou por lá com a equipa da casa. Ao ver os apoiantes das seleções, com muitas crianças à mistura, num ambiente sereno, tive pena das bancadas dos nossos estádios, ajavardadas pelas claques, sempre numa vertigem sectária de violência. As lições de Heysel e de outras tragédias ainda não foram aprendidas por aqui.

6 comentários:

A Nossa Travessa disse...

Meu caro Franciscamigo

A Raquel e eu vimos o jogo no Hotel Romania em Bucareste quando eu fui já a convite da Roménia (que se estendeu à minha mulher - num aparte está internada no Hospital de Santa Maria pois na segunda-feira teve um AVC felizmente só... com perda do equilíbrio - onde vimos via BBC a catástrofe do estádio de Bruxelas. Ficámos atónicos, claro. Curiosamente em seguida passou a... Escrava Isaura dobrada em... polaco.

Não vi o jogo de ontem pois estava no hospital mas disseram-me depois os meus filhos que foi uma pepineira. Portugal continua a ser Dez + CR7...

Um abração deste teu amigo e admirador
Henrique, o Leãozão

PS - (Aqui é Post Scriptum) O gajo só vai com um tiro nos cornos! Porra já me saltou a tampa!!!!!!!

Anónimo disse...

Estive ontem no Heysel. As rigorosíssimas medidas de segurança pareceram desnecessárias perante o civismo das claques antes, durante e após o jogo. Portugal jogou muito bem e só foi pena que o golo não tivesse aparecido.

JPGarcia

Anónimo disse...

Não confunda coisas! O ambiente das seleções é muito diferente do ambiente dos clubes. Os países não têm claques organizadas/profissionais.

Anónimo disse...

...pelo que conta do "prédio do livro" já não deve ter apanhado com a caixa do elevador a servir de caixote de lixo assim como os degraus das escadas.

Mas nessa altura na "loja do diplomata" os "uísques" eram ao preço da chuva e isso era o suficiente para criar, sonhar, e acabar prazeres… e embebedá-los até á exaustão no lixo ou fora dele.

Anónimo disse...

Mas...
A Bélgica não é Portugal, o qual ainda está a viver e a adptar-se a uma revolução marxista-leninista abortada, mas ainda não indesejada por muitos. Por isso esta insegurança patológica que se vive em Portugal.

Anónimo disse...

No Euro 2004, sentei-me entre franceses e ingleses para ver o Inglaterra x França.
O que se via era os ingleses a gozarem (à calada) com uns franceses com perucas tricolores. Tirando isso, tudo pacífico. São seleções. É diferente.